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Alexandro Auler

Fotógrafo

NOME: Alexandro Auler
NATURALIDADE: Alegrete-RS
IDADE: 43 anos
ESTADO CIVIL: solteiro
FILHOS: sem filhos
FORMAÇÃO: Desenho Industrial (Comunicação Visual) – UFSM-2000 (incompleto) / Comunicação Social (jornalismo) -Universidade Estácio de Sá (Incompleto) e Design Gráfico (incompleto). TRAJETÓRIA PROFISSIONAL: repórter fotográfico no jornal do Commercio, de Recife, Portal Terra, Agência Estado, jornal EXTRA, jornal O Dia, freelance para Redux Pictures, agência GettyImages e jornal Estado de São Paulo. Seleção Oficial do prêmio Nuevo Periodismo na categoria fotojornalismo em 2008; Vencedor do Concurso Cultural NationalGeographic Brasil mês de Setembro de 2008; Vencedor do prêmio Sinduscon- Pe na categoria fotojornalismo em 2007; Seleção da exposição “Los Trabajos y Los Dias” em Antioqua na Colombia. 2007-2009; mostra 1 de Maio da Cut no Memorial da America Latina na cidade de São Paulo.

O fotógrafo Alexandro Auler é um desses profissionais que não tem apenas talento, mas também uma boa dose de sorte para estar no local da imagem certa. No jargão jornalístico “estrela”. Ele planejou cobrir um conflito armado e conseguiu com agilidade chegar em uma das cidades onde tudo acontecia. Passou 30 dias, em 2015, em Kobane, onde acompanhou o dia a dia de refugiados. À noite, ouvia os bombardeios e via os tanques pelas ruas. Durante um mês, trabalhou com medo de ser sequestrado pelo estado Islâmico e ficou à mercê do perigo. À jornalista Franciele Marcon, Alexandro contou sobre a ida pra Kobane, a luta dos curdos, a falta de direitos das mulheres e dos interesses comerciais e econômicos que causam as guerras em países onde há abundância de petróleo. A cobertura rendeu fotos publicadas em vários jornais, inclusive internacionais, e também o documentário “Faces de um Conflito,” que recentemente foi exibido em Balneário Camboriú.

DIARINHO –Como surgiu a paixão pelo fotojornalismo?
Alexandro: A fotografia apareceu na minha vida muito cedo. Eu tenho um tio que é jornalista, trabalhou em diversos veículos grandes nos tempos áureos, digamos, do jornalismo. Trabalhou no Jornal do Brasil, na Veja, no Jornal O Dia, do Rio de Janeiro. Meu avô era arquiteto, fotógrafo por hobby. Meu pai também fotografava. Mas, profissionalmente, a fotografia surgiu numas férias, já no primeiro ano da faculdade, meio que por ordem do meu avô, eu teria que conhecer o trabalho de todos os meus tios. E o primeiro trabalho que eu fui conhecer, tinha que conhecer as profissões, foi o jornalismo. Fui visitar a redação do jornal O Dia. Esse meu tio, jornalista Marcelo Auler, era repórter especial, e acabei passando minhas férias lá num estágio informal. E seis meses depois comecei um estágio e já comecei a trabalhar. E foi um dos fatores que fez com que eu não me formasse no curso superior. Acabei entrando pro jornalismo assim.

DIARINHO – Uma estudante de jornalismo perguntou certa vez: por que você escolheu fotografar pessoas em sofrimento ou em tragédias? Já tem resposta para essa pergunta?
Alexandro: A gente ouve muitas perguntas. Mas tem uma coisa que eu tenho falado, que é uma coisa que me marcou recentemente nos meus estudos e nos filmes que vejo. Um fotógrafo norte americano falou porque ele cobria guerras. Ele falou que não gostava de expedições de aventura, não gostava de esportes radicais, não gostava de armas. E ele fotografava porque ele acreditava que dessa maneira, fotografando as guerras, as imagens que ele fazia poderiam modificar a vida das pessoas que sofriam em decorrência desses conflitos. Eu acredito que a foto pode fazer com que quem não está presente naquela região ou não está presenciando aquela situação, possa tomar conhecimento e de alguma forma tentar ajudar ou tentar fazer com que aquela situação seja modificada.

A coisa da mulher soldado curda é uma expressão mais radical da emancipação da mulher. Ela está pegando em arma para lutar pelos seus direitos.”

DIARINHO – Você fotografou tragédias áreas, conflitos na Síria, muita miséria, violência. Qual a foto mais difícil de fazer?
Alexandro: Eu não sei se tem a foto mais difícil. Mas, falando sobre a fotografia, eu acho que existem dois tipos de foto. Uma foto que você faz sem permissão, uma foto roubada, a maioria das vezes feita a distância e com uma teleobjetiva. Eu tenho um trabalho que logo no começo da minha carreira teve um reconhecimento. Foi uma série de fotos que eu fiz de uma rebelião num presídio em Recife. Foi selecionado para o prêmio Gabriel Garcia Marques, em 2008. São fotos muito fortes. Nós subíamos numa casa da comunidade, de cima, na laje, e com uma teleobjetiva 400mm a gente conseguiu ver lá dentro o que acontecia no pátio do presídio. A gente não estava sendo visto. Existe outro tipo de fotografia que você tem que ser aceito pela pessoa, por aquele grupo de pessoas, que você está próximo. E eu acho que essa é mais difícil.

DIARINHO – Você foi um dos primeiros fotógrafos a descobrir que o terrorismo tinha sido vencido em Kobane por um exército voluntário de mulheres e homens, com um pequeno poderio bélico. Como foi a chegada na cidade e as dificuldades para fotografar?
Alexandro: Essa foi a principal cobertura que eu fiz, já como freelance, num tempo que eu produzia muito, em 2015. Eu pesquisava muitas pautas e também tinha pedido de fotografias de agências que trabalhava como parceiro. A gente nunca fala que isso é uma aventura, mas, no caso, isso foi uma grande aventura. E tive muita sorte. Porque depois de uma temporada tentando viver fora do país, na Itália, eu acabei decidindo ter que voltar ao Brasil e decidi que faria uma viagem pra fazer uma cobertura de um conflito armado. E, apesar de ter feito isso de forma independente, com poucos recursos, eu fiz uma pesquisa. Eu tinha alguns contatos e tive a sorte de algumas pessoas me darem indicações corretas. Porque nessa região, se você erra uma estrada, ou pega um caminho errado, naquela época, principalmente, ainda podia ter consequências bem perigosas, inclusive a morte. Um sequestro pela Estado Islâmico, isso era uma coisa que era muito possível, estava muito próxima. Então é uma linha tênue entre o lugar que você estava seguro e o lugar que não. Fora você ser atingido por um morteiro, pisar numa mina. Eu tive muita sorte de um fotógrafo turco, que era parceiro de uma agência que eu trabalhava na Europa, falar: “você tem que ir pra tal lugar”. Porque nessas regiões de conflito, é uma notícia muito quente, esse tipo de notícia ainda vale dinheiro. Então você vai ter uma série de ofertas, de guias, fixers, que se chamam, pessoas do local que falam a língua, tem motorista, tem equipamentos de segurança. Até hoje a Turquia não tem relações diplomáticas com a Síria, então você como jornalista, como turista, simplesmente não pode atravessar, eles não te permitem. Então se faz alguma tentativa de atravessar legalmente você vai ser preso ou vai ser deportado, o que aconteceu com vários jornalistas de grandes veículos do Brasil depois que eu entrei lá. A Folha de São Paulo tentou entrar e não conseguiu. E outros jornalistas também. Inclusive vi casos de jornalistas que foram presos. E esse fotógrafo turco falou que eu teria que ir nesse centro cultural, que na verdade era faixada de um local no sul da Turquia que coordenava uma série de campos de refugiados e que também dava um suporte pra guerrilha que acontecia do outro lado da fronteira. E nesse local eles faziam uma triagem de ativistas, de estrangeiros que seriam voluntários para a luta armada e também de jornalista que iriam cobrir o conflito do lado curdo. Eu saí de manhã da Itália, num voo para Istambul na Turquia, troquei de avião em Istambul e 10 horas da noite eu consegui. Combinei com uma pessoa, um guia de jornalistas, que se chama fixer local, de me pegar no aeroporto com motorista. Meia noite eu estava nessa cidade da fronteira. Então as coisas aconteceram muito rápido e eu acho que planejei de uma maneira correta isso. E nessa primeira noite, nesse Amara Cultura Center, é um local que a gente fala lá no nosso documentário, fui recebido como primeiro brasileiro que tinha aparecido naquele lugar e me informaram que não tinham vagas nos quartos, para dormir, que eu poderia dormir numa barraca que tinha do lado de fora da casa. As três da manhã fui acordados pelas pregueiras, as orações das mesquitas, uma coisa bem diferente pra mim que não tinha estado ainda num país muçulmano. E nesse primeiro dia um caminhante, um viajante espanhol, uma das primeiras pessoas que tinha acordado, eu acordei cedo, conversamos muito, fomos numa padaria. Nesse primeiro momento ainda tinha muito aquele medo da coisa de ser sequestrado pelo Estado Islâmico, o que realmente acontecia dependendo do local que você estivesse. Então ali, com essa pessoa, tive muita sorte. Acho que sorte faz parte, ajuda. (…) Nesse primeiro dia eu ainda contratei um guia que me levou aos campos de refugiados. Os curdos coordenaram quatro campos de refugiados grandes ali do lado turco da fronteira. No final do dia, quando eu voltei desse giro, eles já estavam chamando as pessoas que iriam fazer a travessia à noite. E eu fui chamado logo de cara. Aconteceu de alguns jornalistas esperarem por 10 dias ali nesse local pra conseguirem atravessar. Pelo fato de ser ilegal, eles precisavam esperar o momento que tivesse um afrouxamento da polícia de fronteira. E acabou que nessa noite eles resolveram fazer a travessia e seis horas da tarde eles nos pegaram lá. Falaram que deixasse qualquer excesso de bagagem. E naquele dia nós atravessamos. Acho que foi uma das coisas mais incríveis que eu fiz na minha vida. Meio que sem querer misturar emoção com a profissão, mas realmente foi. Nós entramos ilegalmente caminhando, à noite, na Síria. Fazendo o que seria o caminho oposto dos refugiados. Eles fogem do conflito e a gente foi ao encontro do conflito. [Quando chegou na cidade, o que mais te impressionou?] Eu até comento que tem um filme “O Livro de Eli” e o Mad Max. Um lugar desértico, destruído por bombardeios. Você vê pessoas andando com carros da guerra do Golfo transformados, jipes americanos e engenhocas, tanques de guerra russos antigos. Naquele momento o combate tinha acabado em Kobane há 30 dias. Quando voltei pro Brasil em 2015 não se falava em Kobane, eu cheguei antes da notícia. Era uma coisa atemporal, um futuro destruído, ao mesmo tempo tinha alguma coisa de celular. O pessoal se comunicava por celulares, mas não tinha luz elétrica, não tinha moeda. Nós chegamos na cidade, à noite, e fomos levados para um local chamado Media Center Kobane, que era um apartamento no meio da destruição, onde ficavam apenas jornalistas. Lá tinham dois sírios curdos, que falavam inglês, e coordenavam nossas ações. Tudo que nós fazíamos. Também estávamos sempre cercados de segurança armados. Tinha outro local pra ativistas e tinha outra casa onde ficavam os soldados estrangeiros. Tinha um jornalista sul-africano que ficou uma noite lá e teve uma crise, um pânico, e não quis ficar. Porque a gente era trancado. Uma sensação muito ruim, você não poder ir e vir, de acordo com a tua vontade. Se você está em um local e não se sente bem, você vai embora. Ali não, você tinha que ficar. As noites, principalmente na primeira semana, eram muito tensas porque como havia combate num perímetro de 30 e 40 Km, você ouvia muito barulho de metralhadora, de explosão, e isso é muito tenso. Até para dormir. A gente tinha um gerador de luz em um período: das seis horas à meia-noite. Depois era tudo escuro. E realmente o perigo era acontecer uma invasão, um ataque ou até um sequestro. As pessoas agem à noite. E como funciona essa coisa de ter um estrangeiro lá? Tem uma coisa política e um pouco de propaganda também. Eles alistavam pessoas de outros países não para ir pra frente de batalha, mas para que esse país voltasse os olhos à causa e para aquela luta. Ter um brasileiro lá, faria com que o governo brasileiro soubesse de Kobane, soubesse que estava lutando contra o Estado Islâmico e de uma forma ou outra isso faria propaganda positiva.

A questão religiosa também mascara o interesse econômico. É uma região que tem petróleo jorrando do chão, tem muita empresa europeia e norte-americana explorando petróleo”


DIARINHO – Você gravou o documentário Faces de um Conflito, resultado de sua estádia em Kobane. Pra quem não teve a oportunidade de assistir, o que retrata o documentário?

Alexandro: Eu trabalhava com o impresso, fotógrafo, e fui muito feliz na cobertura que fiz. Primeiro de ter voltado, ter feito a travessia de volta em segurança, sem nenhum prejuízo físico ou financeiro. Publiquei muito, em diversos veículos europeus, em Paris Match, Focus Alemanha, revista italianas, nos países nórdicos, nos Estados Unidos, no Brasil, Estado de São Paulo, Veja, revistas Trip e Cult, Zero Hora. A notícia é efêmera. Ela passa. De volta ao Brasil, voltei a trabalhar com jornalismo impresso e um primo, que trabalhou muito tempo com produção de tv, me deu essa ideia do documentário. […] O “bom” que não seria a palavra certa pra usar, porque é uma situação trágica, é que essa notícia se repete. Uma semana atrás os conflitos voltaram lá por uma outra razão. Há seis mil anos antes de Cristo, eles já lutavam naquela região, que é a Mesopotâmia. O documentário parte da história de um jornalista independente, que entrou na Síria de mochila, do relacionamento entre os jornalistas de diversas nacionalidades que estavam lá e dos assuntos que esses jornalistas estavam cobrindo. A destruição da cidade, os sepultamentos, vários por dia e que renderam no jargão jornalístico fotografias muito impactantes, fotografias muito publicadas. Publiquei minhas melhores fotografias em Paris Match na Europa e em diversas outras revistas. A linha de batalha, retratos de homens e mulheres, soldados. A volta dos refugiados. Naquele momento eles acreditavam que estavam vencendo e alguns já voltavam para tentar recuperar bens e ver a possibilidade de a família voltar. Era sempre um vai e vem de refugiados. O filme se encerra com a celebração do ano novo curdo, que coincide com a Primavera Árabe e com a chegada da primavera, eles celebram o ano novo. Uma festa muito bonita com danças tradicionais, eles pulam fogueira, eles entoam cânticos curdos tradicionais, colocaram roupas típicas.

DIARINHO – As suas fotos retratam, também, o empoderamento feminino daquelas guerreiras. Há semelhanças com mulheres de outras culturas e até mesmo com as brasileiras? O que precisamos aprender com aquele povo?
Alexandro: A lição que eu tirei, e por ser brasileiro eu consegui uma certa proximidade. Essa coisa do grupo de soldados mulheres. São as YPJ – unidades de proteção feminina de Rojava -, do norte da Síria, curdas. São unidades militares de mulheres que lutam contra o Estado Islâmico. Dentro da cultura do Curdistão, ao se alistar pra luta armada, elas meio que se emancipam e tem uma série de direitos, em decorrência dessa luta. Uma coisa que você arrisca, ou dá a sua vida, porque muitas acabam morrendo, pelo país que não existe. O Curdistão é a maior nação sem pátria. Eles querem formar um corredor entre a Turquia, Síria e Iraque, formar um país, uma comparação vulgar, um novo estado de Israel. Eles estão espalhados por aquela região, se dizem Curdistão, mas não é oficial. Eles não existem. Dentro de uma realidade de um país de maioria mulçumana também, no Iraque, eu estive em uma região de Iraque curdo, onde as mulheres não tem nenhum direito comparado aos homens. Um convívio à parte. A casa tem duas salas, mulheres convivem só entre mulheres. Elas não podem ter nenhum contato com o homem se não estiverem de burca ou de véu. Nas regiões onde os mulçumanos são ortodoxos, conservadores ou no próprio Estado Islâmico, é bárbara a relação homem e mulher. A mulher é uma escrava sexual em todos os sentidos. A mulher soldado curda, dentro desse universo, ela tem muitos direitos, por estar se arriscando, por estar lutando. A gente como sul-americano, tem muitas liberdades. A coisa do lazer, a gente vive muito para o lazer, para ser feliz e para ter prazer. Lá é uma coisa muito diferente. Aqui no Brasil a gente pode quase tudo. Mesmo que não seja permitido por lei, a gente faz da mesma forma. A coisa da mulher soldado curda é uma expressão mais radical, é da emancipação da mulher, ela está pegando em arma para lutar pelos seus direitos. O filme tem uma menina de 18 anos que fala: eu gostaria de aprender a dirigir, gostaria de estar na universidade e isso que quero fazer quando essa guerra acabar. Ela tem sonhos e a maneira de lutar pelos sonhos é partir pra luta armada, ao invés de ficar em casa oprimida e passiva.

Nas regiões onde os mulçumanos são ortodoxos, conservadores ou no próprio Estado Islâmico, é bárbara a relação homem e mulher”.

DIARINHO – Como você vê a recente saída dos americanos da Síria, deixando de apoiar os curdos?
Alexandro: Sempre que falo sobre o filme eu falo: eu sou fotógrafo e eu tive uma experiência in loco. Eu tive uma vivência, eu estive lá. E no Iraque curdo, tinha uma presença americana por lá, por ter uma unidade das Nações Unidas. Em Kobane não tinha. Lá tinha uma unidade médica alemã, como se fosse o Médico Sem Fronteiras, só que da Alemanha. A gente não vê a presença de soldados norte-americanos. Em Erbil, que é a capital do Iraque curdo, que é a segunda maior cidade do Iraque despois de Bagdá, bem próxima da cidade onde o Saddam Hussein nasceu, a última grande cidade dominada pelo Estado Islâmico, lá tinha grande presença americana, se via muito soldados americanos. Tudo isso é política e economia. A questão religiosa é uma briga deles, mas que também mascara o interesse econômico. É uma região que tem petróleo jorrando do chão, tem muita empresa europeia e norte-americana explorando petróleo lá. O interesse deles é esse. Não é salvar vidas. Os americanos saíram por uma questão política. Eles estão de olho no petróleo, ninguém está a fim de defender ninguém, do meu ponto de vista de fotógrafo, claro. eu não sou cientista político.

DIARINHO –Os fotógrafos têm flagrado cenas chocantes da realidade vivida no planeta. Muitas dessas fotografias envolvem crianças. Você que esteve na zona de conflito, esteve na Europa, enxerga que há um aumento no discurso de ódio no planeta?
Alexandro: Eu acho que sim. Essa coisa do poder, mas do que do dinheiro, o poder, faz com que as pessoas tomem atitudes extremas. Se eu tiver que passar por cima de você, eu vou passar, não interessa se é criança…Sobre as imagens de crianças, eu tenho minhas restrições, mas acho que é uma forma de o mundo ver que aquilo está acontecendo. Mas que é um clichê que o capitalista é selvagem é, mas as pessoas fazem isso por poder e dinheiro. Um dos ideais do Curdistão é a questão da igualdade, das plenárias. Eles têm uma coisa interessante, como não são islâmicos, eles não seguem o Alcorão. Porque se você for islâmico e for contra o Alcorão, você é punido. As punições são severas, decapitações, mutilações, castigos… Os curdos de Rojava têm um ideal muito moderno, muito atual, que você vai sofrer as consequências dos seus atos. Se você tiver atitudes boas, não vai ter consequências ruins disso.

DIARINHO – É difícil de entender a cultura de países que vivem em permanente estado de conflito bélico. As guerras se diferem conforme o território. Há algum traço que todas as guerras têm em comum?
Alexandro: Eu estive em duas regiões de conflitos: na Ucrânia, próximo da Crimeia, antiga União Soviética, onde um grupo pró-Rússia tenta anexar ainda um pedaço da Ucrânia de volta, a Crimeia, e ali é política pura. Lá não tem petróleo. Lá é uma questão política. As pessoas matam ou morrem por ideais políticos. [Na Síria dá para dizer que a guerra é religiosa, mas fomentada por interesses econômicos?] Os políticos colocam lenha na fogueira, dão combustível. Entre eles é uma questão religiosa. O cara se explode lá, no Estado Islâmico, o homem bomba, em nome de Alá, de uma cegueira religiosa. Foi muito interessante que quando eu estive no Iraque, fizeram questão de me levar numa mesquita para que eu entendesse que o islamismo e o Isis [Estado Islâmico] são coisas completamente diferentes. O Isis, o estado islâmico, é um grupo armado islâmico, que segue o Alcorão de uma maneira radical e extrema. Mas o islamismo é uma religião, que também tem seus dogmas para os nossos padrões muito conservadores. Homem e mulher não podem conviver, mulher não pode mostrar o rosto, tem que acordar às três da manhã para rezar, não comer tal tipo de comida, não ingerir álcool jamais, mas eles não são terroristas. As guerras são diferentes. As pessoas lutam pelos mais diversos objetivos.

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