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Alexandre de Aguiar Amaral

A gente brinca que quanto mais você clica, quanto mais você posta, mais seus males se multiplicam”
Professor de Ciências da Computação”

NOME: Alexandre de Aguiar Amaral
NATURAL: Ibiporã, Paraná
IDADE: 32 anos
ESTADO CIVIL: casado
FILHOS: esposa está grávida
FORMAÇÃO: bacharel em Ciência da Computação pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) e doutor pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).
TRAJETÓRIA PROFISSIONAL: Funcionário concurso do IFSC Jaraguá do Sul de 2013 a 2015; em 2015 assumiu no IFC Camboriú, onde é professor e atualmente coordenador do curso bacharelado em Sistemas de Informação e do e-TIC (Encontro de Tecnologia da Informação e Comunicação)

 

Os interessados em tecnologia, inovação e empreendedorismo têm um encontro marcado no Instituto Federal Catarinense (IFC). O campus Camboriú sedia a 5ª edição do Hackathon Shift Smart Cities, nos dias sete e oito de maio, com apresentações e discussões sobre o tema “Cidades Inteligentes”, desafios e oportunidades. O DIARINHO antecipa um pouco o tema nesse Entrevistão com o coordenador do curso de Bacharelado em Sistemas de Informação, Alexandre de Aguiar Amaral. À jornalista Franciele Marcon, Alexandre falou sobre o conceito de “smart cities”, mas foi além: pontuou sobre o desafio de implantar soluções inteligentes em cidades com expansão já consolidada, expôs a falta de entrosamento da tecnologia com as administrações públicas e deu exemplos de cidades brasileiras que estão no caminho de se tornarem sustentáveis e inteligentes. Alexandre ainda falou sobre a “era da informação” e os cuidados necessários com as redes sociais. Também lamentou o fato de o celular, muitas vezes, ser utilizado apenas para entretenimento. Professor do terceiro maior instituto do país, Alexandre fala, orgulhoso, das ações para incentivar os alunos a empreender, ter ideias criativas e participar de feiras Brasil afora. As fotos são de Fabrício Pitella.

DIARINHO – O que seria uma “cidade inteligente”?
Alexandre Amaral: Na nossa percepção, cidade inteligente é a cidade onde o foco é o indivíduo, porém a gente também pode utilizar ferramentas como a tecnologia da informação e a comunicação para viabilizar a qualidade de vida desse cidadão e também a do visitante da cidade. Em todas as áreas, seja saúde pública, mobilidade, social, a questão de sustentabilidade energética, a gente pode utilizar da tecnologia da informação e de processos para tornar essa cidade mais inteligente, desde uma casa até um prédio e toda a estrutura da cidade, inclusive do governo, que a gente chama de governo eletrônico. Esse governo digital que facilita, também, através da tecnologia da informação, a comunicação entre o cidadão e o governo.

DIARINHO – Seria possível implantar um modelo de cidade inteligente na região, visto que as cidades se desenvolveram sem planejamento e cresceram assim nas últimas décadas?
Alexandre Amaral: É um desafio! Uma cidade que já tem uma infraestrutura montada, que não foi planejada inicialmente, oferece um desafio muito maior. O que se pode pensar em termos de planejamento, a sua expansão para além de um novo bairro, de uma nova construção, porém os desafios inerentes a uma estrutura pluvial, fluvial, enfim, de captação de água são questões mais complexas. Mas de toda forma, hoje, se consegue com a tecnologia fazer um melhor planejamento, um monitoramento. E baseado nessas informações poder tomar decisões. Mas essa não é uma resposta simples e trivial, até porque possivelmente agora você vai precisar de muito mais recursos. Sempre se diz isso: prevenção é muito mais barato do que remediar. Então pra uma cidade que já tem uma estrutura que não foi inicialmente planejada, para uma expansão, você acaba tendo uma complexidade maior nessa gerência. Há vários exemplos, inclusive na região, de cidades que sofrem com a questão do esgoto, expansão, tratamento da própria água e esgoto, a questão energética com uma estrutura já sucateada. Há muitos desafios e acaba ficando agora muito mais caro.

DIARINHO – Segundo um instituto urbanístico espanhol, 10 dimensões indicam o nível de inteligência de uma cidade: governança, administração pública, planejamento urbano, tecnologia, meio-ambiente, conexões internacionais, coesão social, capital humano e a economia. Considerando esses índices, qual seria a cidade mais perto de se tornar inteligente no Brasil? Há algum exemplo bem sucedido no mundo?
Alexandre Amaral: Talvez no Brasil um exemplo mais próximo seria Curitiba. É uma cidade que tem uma mobilidade muito boa, o índice de desenvolvimento humano municipal é muito bom, tem-se uma preocupação com a questão verde, a questão da sustentabilidade, a mobilidade, é muito fácil de você se locomover. O mais próximo seria Curitiba, talvez um case de sucesso que está caminhando cada vez mais para se tornar uma cidade mais inteligente, inclusive referência pro mundo. Curitiba tem trazido grandes eventos de smart citys porque é uma referência pro mundo. Para além disso, tem vários exemplos na Europa e também na América, como Nova Iorque, depois você tem Copenhague, Amsterdam, são cases de sucesso de cidades inteligentes.

DIARINHO – Um problema crônico da nossa região é a mobilidade urbana. Há métodos inteligentes que possam ajudar a mobilidade das cidades de Itajaí, Balneário Camboriú e Camboriú?
Alexandre Amaral: Na última edição da maratona que a gente fez, um hackaton sobre mobilidade, se estudou um pouco dessa questão da mobilidade e chegou-se a soluções bem interessantes. Propostas de uso e incentivo das bicicletas, uma tentativa de também tirar um pouco o cidadão da questão da rotina do carro, pra reduzir, evidentemente, os veículos no trânsito. A grande questão que se observa na região, que ainda é um desafio, em relação ao serviço público de transporte, ainda é o atraso, linhas que não chegam em todos os lugares. Nesse sentido, precisa de um estudo melhor, de uma preocupação melhor, inclusive das empresas que fornecem esse tipo de serviço, para que a gente possa ter um transporte público, por exemplo, com previsão melhor, localidade melhor, pontualidade, de modo que as pessoas queiram utilizar. Uma das propostas foi explorar a questão dos rios, a questão do mar, já que a rodovia é um pouco mais cara a ampliação. Por que não utilizar uma rota aquática como tem lá no nordeste? Em várias cidades do mundo, tem meios alternativos, e essa foram algumas das ideias que foram discutidas. Mas, para além disso, precisa da integração do setor público, de empresas, então acaba tomando uma dimensão que você precisa de um engajamento de muito mais autores da comunidade.

Toda informação que você fornece pode ser utilizada contra você a qualquer momento”

 

DIARINHO – Como as administrações municipais fazem uso de tecnologia nas cidades da região?
Alexandre Amaral: O que eu percebo, não estou tanto tempo aqui na região, é que ainda existe um gap muito grande entre os problemas e alternativas tecnológicas que se poderia utilizar. Eu vejo que falta muito essa conexão, em vários setores, seja na saúde, educação. Basta você pegar os atendimentos em nossos hospitais públicos, a dificuldade que é pra marcar uma consulta, sendo que hoje com um simples aplicativo, um banco de dados, uma solução não tão complexa assim, se conseguiria resolver muito a questão da espera, dos atrasos… Mas eu percebo que ainda falta essa aproximação, tentar resolver esse problema com as tecnologias que já existentes, inclusive algumas são gratuitas, são softwares livres, por exemplo, que poderiam estar sendo utilizados para ajudar a vida do cidadão e melhorar sua qualidade de vida. [Esse seria o problema: pessoas com pensamentos analógicos utilizando a tecnologia?] Tem esse outro lado, como professor a gente brinca com os alunos. O Brasil teve essa inclusão digital, mas muitos não passaram pela inclusão analógica de estudar, de ter uma qualificação. Muitos têm um celular na mão, mas não utilizam pro fim que poderia ter utilizado, o poder computacional que tem naquela máquina. Poderia fazer muito mais coisas do que o entretenimento e a rede social. Então também tem esse outro lado, tanto do gestor, que evidentemente tem a parte da burocracia no setor público, de licitação e outras situações. Por outro lado, tem o usuário. Talvez se colocasse esse aplicativo, utilizaria? Não sei. Existe também uma preocupação do usuário com a questão de segurança “ah, meus dados vão ser transmitidos pela rede”. Existem dimensões que são um desafio pra nós ainda no Brasil, pra além da questão tecnológica, tem ainda a questão humana, alfabetização, conscientização do uso correto da tecnologia que é um trabalho que a gente precisa fazer nos próximos anos.

DIARINHO – O Instituto Federal Catarinense disponibiliza estudos técnicos que podem ser utilizados pelas administrações públicas?
Alexandre Amaral: Essas feiras científicas, por exemplo, onde há muitos casos, não só no nosso curso de tecnologia, segurança do trabalho, controle ambiental, por exemplo, que estuda a questão da água e de potenciais desastres, coisas do tipo, todos esses resultados, esses artigos, são sim publicados nos nossos anais de eventos e sempre, na medida do possível, esses dados são divulgados. Na verdade são abertos, links públicos que podem ser acessados por qualquer pessoa. Inclusive uma das nossas conversas com a nova direção dessa feira de iniciação científica é, justamente, fazer o contato com vocês, o pessoal do jornalismo, os empresários, pra pra ver o que está sendo feito, de estudo, de pesquisa. Por que não pegar esse estudo e aplicar em case real? Às vezes a gente fica dentro de um contexto de simulação, um contexto um pouco mais fechado, porque a pesquisa é complexa de fazer em grande escala, mas falta ainda um pouco mais essa aproximação, também, da universidade com os órgãos públicos. Na verdade é publicitado, mas as pessoas desconhecem onde consultar e onde obter essas informações.

DIARINHO – O IFC realiza na região, em maio, o 5º Hackathon Shift Smart Cities. Quais os avanços da primeira edição até esta quinta? Ele fica apenas na esfera acadêmica ou há interação de fato com as cidades?
Alexandre Amaral: O evento é proposto pela comunidade de software liver, a Hackaton Shift, que é uma comunidade muito atuante em Santa Catarina e já fez vários Hackatons, tem uma grande expertise nessa área, na vertical, cidade inteligente, meios de pagamento, a questão de saúde, e quando eles procuraram a gente pra fazer essa parceria, pra fazer a quinta edição no nosso campus, é muito interessante. Porque soma com uma sequência de trabalhos, de duas maratonas. E um terceiro momento também que, no ano passado, no primeiro semestre, a gente fez como se fosse uma minimaratona de seis horas que falava única e exclusivamente de mobilidade. Estamos trabalhando com esse tema. Um pouco focado em turismo, turismo inteligente, depois um pouco na questão de mobilidade, depois turismo inteligente com mobilidade e sustentabilidade, não tirando sustentabilidade do contexto. E agora esse guarda-chuva maior que é smart city, e abre um leque de possibilidades pra desenvolvimento de soluções voltadas pra saúde, questão de mobilidade, a própria casa inteligente e indústria 4.0 e variados temas que estão dentro desse guarda-chuva, desse tema maior que é o de cidades inteligentes.

DIARINHO – A informação pertence a quem, falando sob o aspecto da lei e observando segurança e privacidade nas redes?
Alexandre Amaral: Essa é outra questão, outro debate, a questão da segurança e privacidade. A Europa, por exemplo, está trabalhando muito forte com as normativas de regulamentação, isso vai afetar o Brasil por causas das importações e exportações, mas é uma tendência que a gente tenha nos próximos anos leis e um monitoramento mais efetivo. Há no Brasil algumas leis, mas tem violações constantes e não tem penalidade para isso. Porque quando você está dentro do mundo digital isso é muito complexo. E numa velocidade cada vez maior dessa comunicação, a gente tem cada vez mais meios de comunicação rápidos, um volume muito grande de dados, e como monitorar e controlar isso? É outro grupo de pesquisa que trabalha fortemente com essa questão, tanto de elaboração dessas leis e regulamentos, e também por outro lado, como monitorar pra detectar quem está infringindo, que é um desafio maior ainda. Essa é minha percepção como pesquisador na área de segurança. Até porque esses dados podem ser criptografados, até que se decifre o impacto já foi, então é uma área bem complexa. [Qual a dica para ter segurança na rede?] Dicas básicas. Ter seus dispositivos e softwares atualizados, não ignorar quando aparece uma dica de atualização. E, principalmente: ter cuidado com aquilo que você posta. Qual tipo de rede você utiliza para transmitir os seus dados sigilosos. Tô ali no cafezinho, que é uma internet aberta, todo mundo compartilhando, toma um pouco de cuidado, pode ser que aquela rede tenha alguma vulnerabilidade e tenha alguém coletando esses dados e que vai usar contra você. Informações de cartões de crédito, logins de forma geral. A gente brinca que quanto mais você clica, quanto mais você posta, mais seus males se multiplicam. Inclusive você tem um grande problema nas redes sociais que você tem grupos com fins criminosos que monitoram as redes sociais pra utilizar as informações contra você. Não é incomum você encontrar pessoas falando que chegaram em casa e todos seus bens foram roubados, porque justamente postou ali que estaria 30, 40 dias viajando. Então foi verificado que aquela casa ficaria “disponível. Então, cuidado no postar, no falar. Porque toda informação que você fornece pode ser utilizada contra você a qualquer momento. Então é importante também essa conscientização. E como você está numa rede pública, essa informação pode ser usada pra vários fins, inclusive você tem algumas iniciativas de empresas que analisam mais o seu perfil social nas redes sociais do que o currículo que você entrega. Parece que faz mais sentido isso, a pessoa num momento de raiva ou por algum motivo, posta realmente quem ela é, e quando você está num cenário mais contido, que é escrever um currículo, você vai filtrar melhor o que você vai colocar e a forma como você vai colocar. Já nas redes sociais, na internet como um todo, as pessoas parecem que tem uma vida dupla, cria essa sensação de que eu desliguei meu smartphone, acabou. Não! O que você postou está lá e está espalhado por centenas ou milhares de serviços do mundo todo, dependendo onde você posta esse tipo de dado, de informação. Não esqueça que tudo que você posta vai ficar aberto e pode ser utilizado contra você a qualquer momento. O que falta muito hoje, principalmente aqui no Brasil, que a gente percebe trabalhando com os alunos e com a comunidade, quando a gente vai falar sobre segurança da informação e privacidade é um pouco disso. “Eu falo mesmo, posto mesmo, a vida é minha”. Ok, mas em algum momento essa informação pode ser utilizada contra você.

Hoje muitos têm um celular na mão, mas não utilizam pro fim que poderia ser utilizado, o poder computacional que tem naquela máquina. Poderia fazer muito mais coisas do que o entretenimento e a rede social”

DIARINHO – O Instituto Federal Catarinense lidera o ranking de eficiência acadêmica em Santa Catarina. Como o corpo docente do instituto chegou nesse patamar de desempenho?
Alexandre Amaral: São N medidas que ao longo dos anos têm sido tomadas. Queira sim, queira não, mesmo nas instituições públicas, onde o estudo é gratuito, o aluno pode acabar desistindo, por questão financeira. O instituto hoje, aqui em Camboriú, recebe alunos do Brasil todo. E aí o desafio é justamente: como esse aluno vai conseguir estudar, se manter? A gente tem algumas estratégias, uma delas é investimento em bolsas. Seja na área de pesquisa, projetos de extensão, ensino. Se faz uma aproximação com os empresários da região para ofertar estágios dentro da realidade desses alunos. Mas a gente como instituição acredita que ainda precisa fazer muito, porque pode ser que um aluno que desista por algum motivo, como financeiro, pode ser uma mente que poderia ter uma solução ou causar um impacto na sociedade como tantos homens e mulheres já causaram durante a história. Então, perder um aluno é motivo de muita tristeza […]. Porque se percebe a capacidade, se percebe que é uma pessoa comprometida, uma pessoa que quer, mas por uma questão financeira ou um motivo de saúde, não consegue continuar.

DIARINHO – Ingressar no IFC pode mudar a realidade de jovens de todas as classes sociais. Como são dadas oportunidades de ingressos aos alunos? Quais as dicas para quem sonha em fazer parte do IFC?
Alexandre Amaral: Participar de algum curso, ingressar em um curso do IFC realmente hoje é uma coisa muito legal, porque é o terceiro maior instituto do país. E isso também é interessante pra nossa região e tem motivado os alunos de outras escolas a tentarem ingressar. Se recebe muita gente de fora e aqui da nossa região tem poucos alunos, eu falo isso como coordenador do curso superior. A forma de ingresso no curso superior é através do Enem. Então você precisa fazer o Enem, depois você escolhe a instituição baseado em sua nota do Enem. Para além disso, do curso superior, a possibilidade de vagas remanescentes, quando não fecham por algum motivo as 40 vagas no curso de Sistemas da Informação, você abre um edital, onde se você tem já o ensino médio finalizado, você pode ingressar também, leva a documentação que é exigida, é calculada a pontuação, baseada no seu histórico escolar. Nos cursos técnicos você tem um processo seletivo, que é uma prova que geralmente acontece em novembro, onde você se inscreve com antecedência, tem lá os requisitos de inscrição.

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