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“Eu ainda quero jogar na seleção brasileira”

Entrevistão com Nego Buti, ex-jogador e ex-morador de rua, que tava sumido há oito anos

Quem o viu pelos campos do Marcílio ou do Barroso e pelas areias das praias da Atalaia e de Balneário Camboriú nem pensa duas vezes em afiançar: Jogava muita, mas muita bolsa mesmo. O famoso Nego Buti é uma lenda. E viva! Ao contrário do que muitos pensam ele não morreu. Para ficar longe do álcool e das drogas, o mais famoso e querido morador de rua de Itajaí está há oito anos vivendo na SOS Vida Jovem, uma casa de recuperação em Luiz Alves, ligada à igreja Mevam, de Itajaí. Ao jornalista Sandro Silva, Nego Buti abriu o coração. Falou das suas experiências como jogador, da vez que lhe atearam fogo por morar na rua, do motivo de largar a escola, da sua relação com a cachaça, a maconha e a cocaína. Mas esqueça uma entrevista triste. Ao estilo ‘malandro das antigas’, Nego Buti leva tudo no bom humor e todo mundo no bico. É um sarrista por natureza. Ri da própria desgraça. E toda vez que você ler a palavra “Risada”, nesta entrevista, imagine uma gargalhada aguda e quase incontrolável que pode durar até 10 segundos. Essa é a marca registrada de Buti. As fotos são do jornalista Patrick Schneider.

Raio X
Nome completo: Wilson Apolônio dos Santos
Idade: 65 anos
Natural: Itajaí
Estado civil: Solteiro, mas já viveu com uma mulher
Filhos: Não há registros
Formação: Quinta série do antigo ginasial
Experiências profissionais e outras: Jardineiro, operário da construção, vigia, estivador e jogador de futebol. Também foi morador de rua

[Antes mesmo de ouvir a primeira pergunta]
Nego Buti – Eu ainda quero jogar na seleção brasileira ainda. Jogava muita bola!

DIARINHO – Como é que você começou a jogar futebol?
Nego Buti – Comecei guri pequeno, entendesse? Eu jogava bola com a rapaziada e fui jogando, né!? Joguei muito futebol de areia na praia da Atalaia. Não tinha medo de jogar na Atalaia. Quando era moleque a maior parte ia ali na ponte do Fritz [ele se refere à ponte do ribeirão Schneider, no começo da estrada da Cabeçudas] e se jogava de lá. Joguei bola na Atalaia, em Cabeçudas, por aí tudo. A turma dizia que eu era bom. Joguei no Marcílio. [Você jogou mesmo no Marcílio, então!?] Não, eu era empregado do Marcílio. Eu e meu pai [Trabalhavam na manutenção]. Mas aí o seu Baião, o treinador, disse: “ó, aquele cara joga bola também”. Botaram pra treinar no Marcílio. […] Mas pô. No Marcílio tinha uns veteranos de guerra, que jogavam um dominozinho, tomavam uns goles. Tinha um bar, o bar do Aroldo, e eu tomava umas cervejas. Aí, outro dia, eu era empregado e fui trabalhar. E aí o treinador: “ei, não vais treinar?”. Aquela era uma fase, uma fase boa. [Mas você tinha quantos anos?] Ah! Naquela época eu devia ter uns 20, 30 e poucos anos, né!? Eu vou fazer meia cinco, agora. Mas hoje, quando chega idade de um Cacá, um Ganso, sabe o que eu fazia? Eu ia pra casa escutar novela com a mãe de “raidinho” [risada longa]. […]. [Mas o Marcílio chegou a te contratar?] Ah! Eu ganhava um dinheirinho. Eu jogava pela camisa. Domingo eu jogava bola. Mas aí eu ia lá no Matador [Comunidade Nossa Senhora das Graças, ao lado da Univali]. Não vou falar nada, mas tinha uns primos que também tomavam umas coisas e outra. Lá tinha minha turma. Chegava e eles diziam: “aí, Nego Buti, qual é a novela que tu fez aí?” Queriam saber do negócio. Na época era o Rei do Gado. Eu dizia que fazia novela, trabalhava na Globo Mas eu jogava bola pela camisa, né cara. Jogava pela camisa. Aí segunda-feira ia trabalhar. Pagava minhas continhas, né!? [Risada] [Então foi lá pela década de 60?] Sessenta e poucos.

DIARINHO – Você jogou também na Estiva?
Nego Buti – Joguei na Estiva. Um dia tava no barzinho do Lambreta, eu tava parado. Foram buscar uma seleção pra jogar lá em Tijucas. Foi eu, o Edésio do Marcílio, o falecido Edésio, o Dão, o Joel que também já morreu. [Tudo da Estiva?] Não, não. Eles foram fazer um time pra jogar lá, pra representar a estiva, né? Lá em Tijucas. [Você era cabeça de área, jogava na defesa?] Eu era, jogava muito. Hoje em dia é moderno. Hoje em dia joga o Mauro Silva e aquele, como é que é? O Dunga. Jogam os dois juntos. Eu jogava sozinho na posição [risada].

DIARINHO – Se diz pela cidade que você jogava muito. Qual o lance mais bonito que lembra?
Nego Buti – Ah! Foi ali no Barroso, eu fiz um gol. Jogava de cabeça de área. A bola veio de cruzado e eu anunciei bater. Chutei. O goleiro era baixinho, era o Walter. Mas como era lá onde a coruja dorme, não deu pra ele. [No ângulo superior da trave?] Não adianta, o goleiro não vai buscar. Foi de meio de campo [risada]. É como diz o outro, “Cristo vive em mim, aleluia!” [risada].

DIARINHO – Você jogou pelo Barroso, então? Mas o Barroso e o Marcílio não são adversários?
Nego Buti – Joguei pelo aspirante, né!? Joguei muita bola no Barroso. Um monte. Tinha aquele Camarão, o Camarão dentista. O Cabeludo, treinei com ele. Um dia chegamos na meia cancha. Eu, ele o Juquinha. Ali no Matador. Pra ganhar do Matador, de um a zero, com a torcida em cima de nós. Outro dia nós fomos jogar lá no coisa lá, no Parque Dom Bosco. Foi aquele, o Moacir, Moacir Sandri. Ele não jogava nada [risos]. Foi de ponteiro esquerdo. E eu de cabeça de área, fui pra beira do campo e disse: “aí, aqui o meu nome não é Buti não, é Wilson!” [rRisos]. Jogava o Nico, que jogou no Marcílio também. O time era bom.

DIARINHO – Quem era melhor: o Barroso, o Marcílio ou o time da Estiva?
Nego Buti – No profissional era o seguinte… eu era marcilista. A linha do Barroso era tudo cagãozinho. Era o Deba, o Mima e Godoberto. Era Hélio Ramos, Deba, Mima e Godoberto. Era quatro cagãozinhos. Se batesse com o pé, eles corriam. [risada].

DIARINHO – Dizem você jogou fora de Santa Catarina, que jogou no Rio de Janeiro. Isso é verdade?
Nego Buti – Eu fui quatro vezes pro Rio. Eu sou vascaíno. Apareceu um primo meu aqui e eu levei ele na Estiva [no cais do porto], onde caiu contêiner na cabeça d’um, e ele me levou pro Rio. Mas não, não, não joguei no Rio. Dali do Rio, sabe pra onde é que eu fui? Fui lá na Toca da Raposa [Centro de treinamento do Cruzeiro, que fica em Belo Horizonte] ver a seleção brasileira. O diretor de esportes naquela época, sabe quem era? O Pedro Lopes, de Blumenau. Foi uma viagem, meu irmão. […] Lá no Rio de Janeiro tem que visitar o Cristo Redentor, como turista [Risos]. Fui jogador, cara [risada].

DIARINHO – Você está quantos anos nessa casa de apoio do Mevam?
Nego Buti – Eu entrei em 2009. Oito anos.

DIARINHO – Por que e como você parou de beber? Pode falar sobre isso?
Nego Buti – O que me trouxe aqui, pra casa de recuperação, é porque eu era bom de saúde. Mas daí, depois de velha, a minha mãe morreu de diabete. Aí, sabe como é, né!? Diabete, se não cuidar… Tô tomando café aqui com adoçante, tá vendo? Diabete, se não cuidar, deixa cego, aleijado e um monte de coisa, né mano. [Você está com diabetes, então?] Tô e não tô. De vez em quando tá bom, tá curado. A dona Geni [Geni Liberato, empresária e moradora do centro de Itajaí] quando soube que eu tinha diabete, endoidou. A dona Geni é minha parceira, parceira. O Chacrinha é quem diz: “quem não se comunica, se trombica”. Valeu, mano? Um dia, quando a dona Geni me levou num médico do coração lá – eu era bom de boca, comia de tudo também, valeu – fiz exame de Aids e não deu nada. Depois de velho é que deu diabete. Aí endoidei. ‘Sofri pouco’ por causa dessa diabete. Oh! Também não tinha pai, não tinha mãe. Aí comecei a meter, tomar gelada, uma coisa, outra. Mas eu tô curado. Mas sou um cara bem preparado, ainda jogo uma bola aí.

DIARINHO – Mas você tem saúde ainda? Caminharia da Fazenda, lá da Esplanada, onde se criou, até a praia da Atalaia?
Nego Buti – Não se pode dizer que “saúde”, aí não. Se eu ver que tô cansado, tenho um quartinho lá pra bater as botas [risada]. [Aqui no sítio você pega uma enxada de vez em quando?] Pego. Direto. Pego direto, direto.

DIARINHO – Você chegou a morar na rua?
Nego Buti – Cheguei. Era morador de rua. Sabe onde eu dormia? Dormi muito tempo ali naquele… lá no Mini Preço, ali onde eles botam o bujão de gás [antigo Mini Preço do bairro Fazenda, na avenida Sete de Setembro, na frente da Havan]. Os caras que eram padeiros diziam: “aí Buti, vai morrer aí, cara”. Às vezes, eles chegavam de madrugada, porque trocavam de plantão, eu me apresentava, né!? Aí diziam: “o Buti, tu vais morrer aí”. Eu sofri. Tinha um cara ali no lado que era vascaíno e mais pra lá tinha aquele hotel, [Hotel Sandri]. Hotel Sandri. Tinha o pessoal que chegava de avião e ficava ali embaixo. Mas quando tavam lá em cima diziam: “lá tá o mijão, o catinguento lᔠ[risada]. Não, é por aí! E tem o seguinte, depois vão dizer, quando um dia eu entrar num avião: “não é aquele mijão, aquele catinguento?” [risada]. Dentro do avião, uma favelada voando. Olha que vou me jogar! [risada].

DIARINHO – Você morava na rua, mas as pessoas, em geral, lhe tratavam bem, gostavam de você, não é? Tem a dona Geni Liberato, por exemplo?
Nego Buti – Claro, claro. Dava apoio pra mim. [Que tipo de apoio?] Tem coisa que eu lembro. Ela me levou na casa de… lá em, em… Florianópólis, no instituto São José [Um centro de psiquiatria e tratamento para dependentes químicos], valeu? [Você ficou internado lá?] Fiquei. Foi lá que descobri que tinha diabete. Bebia muito. A minha irmã andava pra lá, andava pra cá. Valeu, mano!? Isso é fogo, né irmão!? Essa moda agora pegou. Às vezes a gente vai pela mão dos outros é ruim.

DIARINHO – Você tinha um primo, o Dico, o maior torcedor do Marcílio Dias e que também era muito famoso. O Dico chegou a morar na rua com você?
Nego Buti – Não, não. O Dico, quando chegou um dia, lá num aniversário, disse assim: “Aí, ó, esse é o Nego Buti. Ele é lenda viva”. O que é lenda viva, meu? [risada]. [Você e o Dico aprontaram muito?] Aprontamos, aprontamos. O Dico era foda. Ele quando vinha de madrugada, bêbado, vinha brigando com o poste [risada]. O Dico era uma figura. Nós era marcilista, né cara! Nós era marcilista. Quando jogava Marcílio e Joinville, eu endoidava. Igual ao aniversário dele. Ficava 15 dias. Marcílio e Joinville. Eu era o último a sair do Joinville. Nardela [Meio campo e um dos ídolos do Joinville], aquela turma toda.

DIARINHO – Você pode falar da sua dependência da bebida? Pra você é tranquilo conversar sobre isso?
Nego Buti – Falo, sim. Pode falar. Não dá nada.

DIARINHO – Como é que você começou a beber e ficou dependente do álcool?
Nego Buti – Tinha lá perto de casa um barzinho. A gente ia jogar um bichinho ali [Jogo do bicho], mas o pessoal tomava umas cachacinhas. E o meu irmão perguntou pra mim – o meu irmão já faleceu – se eu não queria tomar um copo de cachaça. Foi a primeira cachaça que eu tomei na vida. [Você tinha quantos anos?] Ah! Isso eu era moleque ainda. Devia ter uns 18 anos. Já era grandinho, já era grandinho. Mas eu tomei muito né? Aí comecei a jogar em Camboriú [Futebol de areia na praia de Balneário Camboriú] e ia acabar lá em Itapema. Lá tinha um cara, que tinha um barzinho, quando chegava com a turma lá, ele perguntava: “ganharam o jogo? Bah! Bota mais uma caixa de cerveja aí!”

DIARINHO – E cocaína, você provou?
Nego Buti – Não, não… Realmente é o seguinte, cocaína não. Eu já cheirei cocaína também. Todo mundo sabe, todo mundo sabe! A minha vida é um livro aberto. Já botaram fogo no cara, cachorro no cara e eu não fiz nada. Quando botaram fogo em mim, Itajaí parou. [Botaram fogo em você?] Claro! Ali no antifo Samuray. [Quando isso?] Ah! Faz uns anos. Tu não tavas em Itajaí? Peraí, peraí. Foi no dia… Tinha aquele faroeste do John Wayne, Burt Lancaster. Os caras veio lá do banheiro, um com o álcool e outro com fósforo e botou fogo. “Não faz isso!”. Mas não deu tempo. Largaram fogo em mim. Não fiz nada. E tinha um monte de gente. [E por que fizeram isso?] Não sei. Bobeira. Mas tinha gente metida no meio. Foi coisa aí. Tem que ver esse julgamento aí. […] Aí não tem o bombeiro? Um dia lá na praia o bombeiro disse: “aí, Buti, isso aí é queimadura de terceiro grau”. […] [Você tem marcas ainda?] Tem. Tem. Eu ia todo verão fazer curativo. Depois me chamaram de múmia“Aí múmia” [risadas].

DIARINHO – E pegaram as pessoas que botaram fogo em você ou eles fugiram?
Nego Buti – Não, não, não. Não pegaram. Levaram o cara pra julgamento. Mas aí quando me viu, o cara :“aí Buti…”. Pedia pel’amor de Deus pra retirar a queixa, entendeu? Mas quando chegou no dia o cara não apareceu. Eu digo: “vou é sair fora” e o cara não… Mas pagaram 50 conto pra mim. Pagaram 50 conto depois. Aí fomos endoidar. A turma queria me matar. Me chamava de bobo. Tinha uma mulher que trabalhava comigo lá, a mulher dizia: “pô tu não vale nada mesmo, hein? Não se bota fogo nem num cachorro” [risada]. Depois disso, eu tava lá na praia, vindo de Cabeçudas, quando chegou na Atalaia, pra ti ver, cara, 10 horas da noite, eu sozinho, veio dois cachorros e pegou, malandro. [Atacaram você?] Dois. Dois jaguaras pegaram eu. Aí o cara, quando viu que era eu, disse: “não te mexe, Buti”. “Não te mexe como, os caras querem me esfolar, pô” [Risada]. Um era um pitbull, mas o outro era um rottweiller. Sabe onde eu dormia, na época? Eu dormir lá embaixo perto da rampa de skate. Dormia no banheiro ali. O dia que o cachorro pegou eu, parceiro, eu tava de agasalho. Um amigo meu disse: “aí, Buti, a sorte tua que era inverno e tu tava agasalhado”. O, dois cachorros te pegar, mano!? [Mas esses cachorros eram de rua ou tinha dono?] Não. A mulher do postinho disse: “olha, tu vai ter que ver se esses cachorros são vacinados pra não pegar raiva”. Lá fui eu. Quando cheguei lá deixei pra lá, nem vi se o cachorro é vacinado. Dava uma mão de obra pra ir ver. É, a vida de artista não é fácil…

DIARINHO – Buti, você tem vontade de beber ainda?
Nego Buti – Não, não, não. Não tenho mais vontade de beber não. [Silêncio]. Olha, fui internado no instituto São José, lá, c’a madrinha lá. A dona Geni, da clínica São Lucas. Eu chamo ela de madrinha. [Ela já fez muito por você?] A mulher foi muito boa comigo. A mulher é o seguinte, a mulher é daquelas pessoas assim que todo sábado e domingo dá dinheiro pra pobreza. Quando chegava eu, tinha um que dizia: “quem é que vai ajudar? Eesse aí vive bêbado, jogado, bêbado”. Mas ela: “eu ajudo ele porque ele foi criado com o meu filho, estudou com o meu filho”.

DIARINHO – Você estudou até que ano?
Nego Buti – Eu estudei até a quinta série. Essa é a minha paixão. Eu rodei em matemática. E em matemática eu dava cola. Dava cola pros outros porque eles não sabiam. [Mas por que você rodou em matemática, então?] Pois é. Aí, no final da história, em língua nacional eu era fraco. Todo mundo rodou. Estudei lá no Victor Meirelles [Colégio estadual centenário no centro de Itajaí]. As ‘irmãs’ eram muito caretonas [Ele parece se referir às freiras que administravam o colégio São José] [O Victor Meirelles era um bom colégio naquela época] Depois, quando foi em matemática, a professora olhava pra mim. Aí todo mundo olhava pra mim. O problema é que rodei. Diz que homem não chora [A voz ficou grave]. Mas chorei. Chorei e não quis mais estudar. Aí comecei a trabalhar cedo. Comecei lá em Camboriú. Em prédio, em construção. [Você tinha na época quantos anos?] Quando comecei a trabalhar? Uns 14 anos, é por aí. Mas é como eu digo pra mim mesmo: “aqui a gente boa, é gente boa”.

DIARINHO – Você já fez mais o que na vida além de ser jogador, jardineiro e trabalhar em obras?
Nego Buti – Trabalhei na Estiva. Fui estivador. Pô, cidade portuária [risada]. [Você era ‘bagrinho’ ou tinha número de registro?] Não, não. Ei, na Estiva eu tinha número. Às vezes eu vinha cansado e diziam “370?”. E eu: “Marca!”. [Por que você saiu da Estiva?] E aí, pastor, trabalhei na Estiva! [Desconversou]. Sabe o bar da Vó? Ali perto do Mercado. Eu tava no bar da Vó um dia, disseram “tem 450 quilos”. Aí fui lá e trabalhei na Sul Atlântico. Trabalhei na Sul Atlântico, trabalhei na Kowalski. Dizem que eu não trabalhava. Eu trabalhava. Ei, ei, eu era igual ao Batman. [risada]. Dia e noite. Tinha dia na Sul Atlântico que encostava 20 barcos. Às vezes o cara trabalhava de noite ali, irmão, e às vezes diziam: “agora tem que colocar gelo no barco”. Quem é sombrinha não guenta. Não é o peso, é a friagem.

DIARINHO – Nesses seus 65 anos qual foi a parte mais legal da vida, algo que carrega com carinho no coração?
Nego Buti – Um dia, eu tava lá, fui ali no terminal de ônibus, quando eu voltei eu tinha que entrar em campo. O Cometa [Ah! Você jogou também no Cometa?] No Cometa. Perdi o campeonato porque eu cheguei tarde. Eles disseram “Lá vem o cara!”. [Você foi beber ou fumar maconha?] Fui ‘fazer a minha cabeça’ pra jogar uma bolinha. Eu era fogo. Eu tomei reativam [medicamento estimulante, não mais fabricado]. Fiz um monte de coisas. Mas só que depois eu disse: “ei, Buti, teu negócio não é tomar uma cervejinha não. Teu negócio é fumar um baseado”. Valeu? Posso morrer disso aí, mas eu fui o cara. Um dia joguei um futebol de areia lá, um campeonato na praia, peguei uma mina e levei lá no Régis [Hotel, lá na frente do mercado de peixe, lá. Passei uma noitada com uma gostosa. Aí, outro dia, pra comemorar, tomei um goró. […]

DIARINHO – Você jogou futebol de areia também, não foi?
Nego Buti –No futebol de areia era o cara. O nome do time era Atalaia. Mas depois me levaram lá pra turma do Sereia. Uma vez fizeram uma rodada, eu saí como cabeça de área no jornal. Eu peguei o cara e eu levantei o cara, meu! E o cara morreu agora. [Quem era?] O Edson Cardoso, lá de Brusque. Jogou no Marcílio, jogou no Barroso. Edson Cardoso. Deu infarto e morreu. O cara era bom. Mas lá em Camboriú lá, era só elite. Só magnata. Lá dos prédios, tão filmando, na beira da praia e coisa e outra. Não tem aquele, o filho do Garrincha, que trabalha lá no porto. O Garrinha que diz: “o nego Buti, tira onda. Agora pra jogar futebol de areia pintou a unha do pé” [risada]. Cara, eu vivi cara! Eu vivi! […]

DIARINHO – Você tá feliz aqui ou quer voltar pra Itajaí?
Nego Buti – [Ele fica sério] Pô, é tudo o que eu quero é voltar pra casa, ter um casamento. Amanhã faz oito anos que eu entrei aqui na casa de apoio, valeu? É chão! A vida lá fora é uma vida livre, é Atalaia. Mas, como digo pra ti, foi legal, o cara me tirou do álcool. [Você já foi casado?] Já fui casado. [Você tem filhos?] Tenho. [Quantos?] Por que todo mundo sabe. Sempre tem. Na terra da cachaça tem uma também [risada]. Quem vem aqui não perde a viagem [risada]. [Mas você tem filho ou não?] Acho que a nega fez aborto [risos]. Mas era legal. Nosso amor era lindo. Foi lá em Brusque. Eu trabalhava de guarda lá no Bradesco, lá. Arrumei um terno e tudo. Mas eu não entendia aquela coisa. O meu negócio era jogar a minha bola, valeu mano? Porque a minha bola era grande. Todo mundo sabe. Mas comecei de goleiro, valeu!? E no futebol apareceu muito goleiro. Apareceu o Nego Gato, o Marimbondo, um bocado de gente. Eu era o cara. Eu sou o cara! […] Aqui joga bola! Aqui joga bola!

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