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Viagem para os Açores

Casarão transformado em museu conta a história da imigração açoriana em Santa Catarina

Por James Dadam
james@diarinho.com.br

Todos os dias, milhares de veículos trafegam em alta velocidade pela BR-101. Quando passam pelos quilômetros 188 e 189, em Biguaçu, na Grande Florianópolis, os motoristas e passageiros mais atentos à paisagem conseguem, por poucos segundos, contemplar o velho casarão que atualmente abriga o museu Etnográfico Casa dos Açores. Poucos são os que param para conhecer o sobrado construído no século 19, memória viva da colonização açoriana em Santa Catarina.
São Miguel é atualmente um pequeno balneário na região da Grande Florianópolis. Situado sete quilômetros ao norte de Biguaçu, no passado chegou a ser capital provisória da capitania de Santa Catarina. A história desta antiga comunidade de pescadores está fortemente ligada à colonização açoriana.
Até 7 de setembro de 1822, data da proclamação da Independência, o Brasil era uma colônia portuguesa, portanto estava sujeito às decisões do rei de Portugal. Conta a história que, no século 17, o frei carmelita Agostinho da Trindade, na época vigário da freguesia de Nossa Senhora do Desterro, atual Florianópolis, teria sugerido a Dom João V (o V significa ‘quinto’, em números romanos) o envio de imigrantes portugueses para povoar a região da ilha de Santa Catarina, protegendo e ocupando o litoral. Para o rei, era uma oportunidade de resolver um grande problema do arquipélago dos Açores. Falta de terra, miséria, fome e terremotos afligiam a população das ilhas portuguesas. Levar aquela gente para o Brasil, onde havia terra em abundância, parecia ser a solução ideal.
Porém, há historiadores que afirmam que abalos sísmicos e miséria eram uma constante na vida dos açorianos. No livro “Os Açores nas encruzilhadas de setecentos (1740-1770)”, o professor e pesquisador açoriano Avelino de Freitas de Meneses relata que na década de 1740, quando o movimento migratório para o Brasil iniciou, os Açores viviam um momento de expansão econômica. Também afirma que dificilmente o governo português se sensibilizaria com a solicitação dos moradores pobres para emigrar. Segundo Avelino, o motivo de levar milhares de açorianos para o litoral brasileiro era puramente militar, para tomar posse definitiva das terras localizadas mais ao sul do continente americano.
A ocupação das terras era fundamental para determinar a posse de um território. Naquela época, Portugal e Espanha disputavam áreas imensas na América do Sul, e as fronteiras entre os territórios dos dois países não eram claras. O que vigorava era o chamado “uti-possidetis”, um princípio do direito internacional que estabelecia que as terras eram de propriedade de quem as ocupasse. Foi assim que a partir de 1747 os primeiros imigrantes açorianos embarcavam para Santa Catarina. Estima-se que cerca de seis mil enfrentaram a travessia do oceano Atlântico e se estabeleceram no litoral da então capitania de Santa Catarina. A maioria saiu das ilhas do Pico e Terceira, mas também há registros de açorianos provenientes das ilhas Faial, Flores, Santa Maria, São Jorge e Graciosa.
O governo de Portugal dava preferência de embarque às famílias constituídas, tanto que os imigrantes ficaram conhecidos como “casais”. A Coroa portuguesa acreditava que assim os colonizadores ficariam mais ligados à terra, nos locais para onde fossem destinados. Surgiam, assim, inúmeros povoados ao longo de toda a costa da capitania.
São Miguel da Terra Firme foi um deles. Não há uma data precisa para o início do povoado, mas acredita-se que ele tenha surgido com a chegada dos primeiros açorianos, entre 1748 e 1749, no máximo em 1750, pois no ano seguinte foi inaugurada a igreja de São Miguel Arcanjo. Em fevereiro de 1752, com a nomeação do primeiro vigário, São Miguel foi elevado à condição de freguesia, num território que cobria boa parte do litoral norte catarinense, desde as atuais terras do município de Biguaçu até a divisa com a Vila de Nossa Senhora da Graça do Rio São Francisco, atual São Francisco do Sul, que na época se estendia até o sul do rio Camboriú. Em 1755, a população local era estimada em 860 pessoas.
Em 1777, os espanhóis invadiram a ilha de Santa Catarina, expulsando os portugueses de Desterro. De 10 de outubro daquele ano até 2 de agosto de 1778, São Miguel foi a sede da capitania, não apenas pela proximidade com a ilha, mas também pelo desenvolvimento que apresentava. Na verdade, tentativas de transferir a capital de Desterro para São Miguel já haviam existido anteriormente. Na década de 1750, dois governadores da capitania solicitaram a mudança ao rei, sem sucesso.
Com o passar dos anos, a população aumentava. Toda essa gente vivia da agricultura, plantando mandioca, arroz, milho e linho. Alguns trabalhavam na pesca, principalmente nas proximidades da Armação da Piedade. Por volta de 1797, a freguesia contava com um engenho de açúcar, cinco fábricas de cana, 15 engenhos de aguardente, 190 engenhos de mandioca, dois para descascar arroz, 44 moinhos para moer trigo, seis curtumes onde se trabalhava o couro e uma armação de pesca da baleia, a Armação da Piedade. Naquele ano, São Miguel possuía mais de 20% de todos os engenhos de farinha de mandioca do litoral.
Embora próspera, a riqueza da freguesia se devia em parte ao trabalho escravo. Em 1810, cerca de 25% da população local era escrava. A maioria, quase 80%, era composta por homens, que trabalhavam na agricultura, nos engenhos, na construção de casas e também nas atividades domésticas.
São Miguel foi elevado à categoria de vila em março de 1833. Com o passar dos anos, foi perdendo parte do território e do prestígio. O município entrava em decadência econômica e sofria com surtos de malária. No final daquele século, surgia um povoado onde hoje é o atual município de Biguaçu. Em 1886, a prefeitura é transferida para o novo povoado, mas volta dois anos mais tarde para São Miguel. Em 1894, a sede do município passa definitivamente para Biguaçu, onde está até hoje.
Daquele tempo de riquezas, escravos e da época em que foi capital, restou apenas o casarão colonial, a igreja e o aqueduto, edificações tombadas pelo patrimônio histórico que testemunham o passado e uma parte da história de Santa Catarina. A história é contada no museu Etnográfico Casa dos Açores, aberto pra quem resolve reduzir a velocidade, fazer uma pausa e dedicar alguns minutos à descoberta do passado.

Sobrado de memórias
O casarão erguido na primeira metade do século 19 pelo fazendeiro e senhor de escravos João Ramalho da Silva Pereira representa a importância da localidade de São Miguel naquela época. Décadas mais tarde, ele foi comprado por Manoel Joaquim Madeira e reformado em 1865. Em 1978, passou para as mãos do governo estadual, foi restaurado e transformado em museu. Denominado Casa dos Açores, dedica-se ao estudo e à preservação da cultura açoriana.
Construído quando ainda não existia a BR-101 e num período em que boa parte dos deslocamentos eram feitos pelo mar, o casarão ocupa uma posição privilegiada. Logo na entrada, se destacam as antigas pedras que formam a calçada e levam os visitantes até o portão de ingresso. Ao entrar na casa não é possível deixar de notar a letra R da família Ramalho gravada nos tijolos do pavimento, antes de se chegar ao assoalho de madeira.
Na primeira sala, está a exposição permanente de móveis de época, doados pela família Madeira Reis, uma das antigas proprietárias da casa. Camas, guarda-roupas, penteadeira, roupas de cama e outros utensílios demonstram como era a vida privada de alguns dos açorianos que se estabeleceram no litoral de Santa Catarina. Destaque para os objetos de higiene pessoal, como a bacia e a jarra d’água sobre a penteadeira, e o penico aos pés da cama. Já naquela época, a posse de certos artefatos indicava o grau de riqueza de uma família. Até mesmo na hora de fazer xixi existiam diferenças entre pobres e ricos. Aqueles com mais posses faziam as necessidades em penicos de louças decoradas, enquanto quem habitava casas mais simples usava penicos feitos em metal esmaltado.
Também estão expostas mesas e cadeiras daquela época, e não é difícil imaginar as reuniões que os senhores de escravos faziam naquelas salas inundadas pelo sol da manhã e pela brisa do mar, enquanto observavam as ondas no mar pelos janelões de vidro.
Em outra sala e no corredor da casa, estão duas exposições temporárias. Uma delas é sobre a renda de bilros, muito difundida no passado, em todo o litoral. A outra exposição é de quadros e esculturas que retratam o cotidiano e as tradições dos povos açorianos em Santa Catarina.
Nos cômodos dos fundos da casa grande, há exposições de maquetes das fortalezas que faziam a proteção da ilha de Santa Catarina, bem como de miniaturas de engenhos de farinha e de cana de açúcar, além de ferramentas utilizadas para o trabalho naquela época. Logo após a abertura como museu, em 1979, por muitos anos a casa abrigou um engenho. Era, então, possível conhecer todo o processo de fabricação da farinha e ainda comprar alimentos produzidos na hora, como cuscuz e beijus. Atualmente, restam apenas alguns tachos e outros utensílios usados na época, como pilões e as cangas de madeira, estas últimas usadas para ligar os animais aos carros de boi. Um desses carros está exposto no local.
Toda a propriedade é cercada por uma chácara como mais de 150 mil metros quadrados, onde estão plantadas árvores frutíferas e outras espécies da mata Atlântica. Um rancho com canoas, redes e materiais de pesca apresenta como era a vida dos pescadores que se aventuravam pelo mar. Nos fundos do terreno há uma fonte, construída na primeira metade do século 19 e utilizada pelas escravas para lavar as roupas dos senhores do sobrado.
Apesar da quantidade e da riqueza dos materiais em exposição, há poucas placas explicativas e não há guias para acompanhar os visitantes. De acordo com uma funcionária do museu, no período vespertino trabalham os servidores mais antigos, que conhecem histórias e podem dar explicações. Um deles, inclusive, teria trabalhado por anos como guia. A visitação é gratuita e de terça-feira a domingo, das 8h às 12h e das 13h às 17h.

Engenharia que é história
Alguns metros ao norte do casarão, ao lado da cascata de São Miguel, está o aqueduto. Construído para canalizar a água da cachoeira, o aqueduto era formado por arcos que iam até o mar. A água era utilizada para abastecer os moradores da região e para mover os engenhos. O aqueduto também fornecia água para os navios que aportavam na baía de Anhatomirim.
Com a construção da BR-101, na década de 60, boa parte da construção acabou sendo demolida, assim como os engenhos. Restaram apenas quatro arcos, que dão uma ideia de como o sistema de abastecimento era feito. Durante os meses de calor, é comum a presença de turistas que vão ao local para tomar banho de cachoeira ao lado do monumento histórico.

A igreja do santo roubado
No lado sul do casarão, está a igreja de São Miguel Arcanjo, fundada em 1751, embora a placa na torre dos sinos comemore o bicentenário da construção em 1947. Em 1798, a igreja original estava em ruínas. Feita de estuque, uma massa de barro, areia e água, foi demolida para a construção de outra, de tijolos. Um dos sinos foi doado por Dom Pedro II durante uma visita que fez a santa Catarina em 1845. Conta a história que o imperador não chegou a desembarcar em São Miguel por causa do tempo ruim que fazia na região no dia da visita.
A igreja abre apenas durante as missas, que segundo informações da paróquia de Biguaçu, ocorrem apenas no segundo e no quarto domingo de cada mês. No mês de junho, acontece a festa do Divino e em setembro, a de São Miguel.
Para os fiéis, os motivos para comemorar o dia do padroeiro são ainda maiores desde que a imagem do santo foi reencontrada após ter sido roubada, em 1979. Depois de 32 anos desaparecida, a estátua foi encontrada em uma loja de antiguidades no Rio de Janeiro. Trazida de volta à cidade no final de 2012, por questões de segurança ela foi levada para a igreja matriz de Biguaçu, até que a igreja de São Miguel tenha condições para receber de forma segura a imagem.
Embora não se tenha o registro preciso da origem e da data em que foi feita, acredita-se que a imagem, que tem mais de um metro de altura, tenha entre 150 e 200 anos e que seja originária de Portugal. O valor dela é inestimável, mas estava à venda por R$ 700 mil.

Como chegar:
Saindo de Itajaí, pega-se a BR-101 em direção a Florianópolis. No quilômetro 188, já dá pra ver o aqueduto, no lado direito da rodovia. Pouco à frente, antes do quilômetro 189, está o museu e a igreja

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