Home Notícias Quentinhas Uma preciosidade que ficou apenas na memória – PARTE 1

Uma preciosidade que ficou apenas na memória – PARTE 1

Por Emerson Gislhandi

Costumava frequentar vez em quando o Bar da Trude, em pleno centro histórico da cidade, às margens do Itajaí-açu, tendo a ladeá-lo a antológica praça Vidal Ramos. Próximo a ele descortinavam-se a Igreja da Imaculada Conceição e o formidável Casarão Malburg, um dos mais encantadores exemplares arquitetônicos que marcam a pujante presença da obra colonizadora alemã no Vale do Itajaí.

Ambos, a igrejinha e o casarão, permanecem em pé, como guardiões da memória das cada vez mais raras edificações que viram florescer os primeiros tempos de uma Itajaí que já não existe mais!

O Bar da Trude ocupava parte de um magnífico prédio construído em 1866 que, além do famoso ponto de encontro de médicos, advogados, empresários, prostitutas, turistas e da marujada proveniente de diversos países que ali se reuniam para brindar a noite, abrigou também o consulado alemão e o Bar e Snooker Brunswick, entre outros comércios.

A casa chegou a ser catalogada pelo patrimônio histórico estadual em 1991, mas não chegou a ser tombada. A briga entre o proprietário, historiadores e Ministério Público foi parar na justiça e se arrastou por anos.

Enquanto isso, a casa ruía, e com ela o Bar da Trude, para desespero dos noctívagos e boêmios da cidade. E claro, dos inúmeros marinheiros que aportavam em Itajaí. Afinal, era o último reduto que lhes restava depois da derrubada do Bar Dinamarca, ocorrido mais de uma década antes para dar lugar ao Edifício Genésio Miranda Lins – conhecido por Redondão, próximo ao ferry-boat.

Do Bar da Trude tínhamos uma visão privilegiada dos barcos pesqueiros no vaivém da pesca e dos colossais e iluminados navios que navegavam lentamente para atracar no porto. Dentro deles, dezenas de marinheiros ansiosos por alcançar a terra firme e finalmente afogar as semanas de isolamento singrando mares no divertimento proporcionado pelos bares e rendez-vous espalhados pela cidade. E o Bar da Trude era certamente um local especial para afogar as mágoas e expandir a alegria aos goles!

Em 10 de janeiro de 2001, o proprietário botou o pouco da casa que resistia e muito da história no chão. Não só a história do sempre desprezado patrimônio arquitetônico, mas também a história imaterial, representada pelos causos contados em variados idiomas pelos divertidos marinheiros e aqueles contados pelos inúmeros frequentadores de Itajaí e região.

O Bar da Trude chegou inclusive a abrigar alguns eventos do Festival de Inverno promovido então pela Universidade do Vale do Itajaí, em meados dos anos 80. A Univali tentava resgatar o memorável festival artístico-cultural que fervilhou durante uma década e cuja derradeira edição havia sido realizada em 1982. E a universidade escolheu para sede de boa parte dos espetáculos que constavam da programação justamente o Bar da Trude, que na época já agonizava!

Ambiente mágico e acolhedor que era, com suas bandeiras de nacionalidades diversas penduradas na parede, junto às fotografias em preto e branco dos mais assíduos frequentadores locais e estrangeiros, surpreendentemente também fez parte da decoração durante alguns anos um pôster representando num bico de pena o Cavern Club, lugar onde os Beatles tocavam quando foram descobertos por Brian Epstein, que viria a ser o primeiro empresário da banda.

O quadro tinha uma história. Aliás, como tudo ali. Fora presente de um marujo inglês que o trouxera de Londres e dado a Trude. Muitas foram as ofertas para arrematá-lo, mas em vão. Trude não o vendia de jeito nenhum. Até que acabou dando-o de presente a um amigo.

É uma pena que tudo agora pertença apenas ao mundo da memória. Graças, como sempre, à desmedida e desenfreada especulação imobiliária, que ergue e destrói coisas belas!

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