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Um refúgio de tartarugas marinhas

DIARINHO foi conhecer base de visitação do projeto Tamar em Florianópolis, na barra da lagoa da Conceição

Raffael do Prado
raffael@diarinho.com.br

As nove tartarugas marinhas que vivem nos cinco tanques do projeto Tamar, de Florianópolis, nasceram em cativeiro. A mais velha tem 29 anos e é provável que todas elas morram sem jamais terem qualquer contato com o mar aberto. O mais perto disso é a água salgada que chega por canos até as piscinas onde esses animais estão em exposição. É triste imaginar que as tartarugas tenham que viver assim, mas elas são parte importante na divulgação do trabalho do Tamar para conscientizar visitantes sobre a importância em preservá-las.
A base do Tamar em Florianópolis é a única do sul do Brasil. A mais próxima fica em Ubatuba, litoral de São Paulo. Por aqui, além da exposição e do trabalho de educação ambiental, a estação do Tamar tem como objetivo principal monitorar a pesca incidental das tartarugas marinhas em todo a costa catarinense. “Estamos em Santa Catarina em razão do porto de Itajaí”, revelou a bióloga e gestora da base do Tamar em Florianópolis, Camila Trentin Cegoni.
É na região do porto do município itajaiense que se concentram centenas de embarcações de pesca industrial. E esses barcos, explica Camila, pescam, sem querer e diariamente, tartarugas marinhas. “Nós temos uma equipe do Tamar em Itajaí, no Cepsul. Eles saem de barco todos os dias e conversam com marinheiros e chefes de embarcações. A gente pede para conhecer o interior dos barcos e explica como eles podem fazer para salvar uma tartaruga, caso uma delas caia nas redes em alto mar”.
O Cepsul é o centro de Pesquisa e Gestão de Recursos Pesqueiros do Litoral Sudeste e Sul, mantido pelo instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), do Ministério do Meio Ambiente, instituto que também mantém o Tamar.
Além das embarcações industriais, a equipe do Tamar no Cepsul monitora barcos de pesca artesanal, principalmente entre Barra Velha e Florianópolis. E foi esse tipo de pesca que levou à construção da base na capital, há 10 anos, na barra da lagoa da Conceição, reduto de pescadores artesanais. “Não havia esse cuidado com as tartarugas marinhas e elas acabavam morrendo enroscadas nas redes ou mesmo pela ação predatória do homem, que as enxergava como alimento, o que é proibido”, disse Camila.

Poucos sobrevivem
Além da pesca, o lixo jogado nos oceanos e a degradação do habitat são hoje os três principais fatores de risco para as tartarugas marinhas. Para se ter uma ideia, a cada mil filhotes um ou dois chegam à fase adulta, contada a partir dos 30 anos. O restante perde a vida ainda filhote, na areia a caminho do mar, aves são os predadores, ou no oceano, vítima de peixes, tubarões ou dos seres humanos. “Nos anos 1980, a contagem de nascimentos tinha que ser maior para conseguirmos identificar algum sobrevivente. Foi uma década de mudanças: a pesca da tartaruga era intensa e o homem atacava os ovos, antes mesmo do nascimento dos filhotes. E foi nos anos 80 que o Tamar nasceu, após denúncias desse tipo de prática no Rio de Janeiro”, explicou Camila.
Sabrina Oliveira Rossi, 16 anos, estava com o pai na estação de Florianópolis. Atenta ao movimento das tartarugas, a adolescente não parava de tirar dúvidas com os monitores. A cada resposta, a jovem emendava uma nova pergunta. “É a primeira vez que vejo uma tartaruga viva. Vi outras, mas penduradas em paredes”, revelou Sabrina.

Alimentação variada
A equipe do DIARINHO esteve na base do Tamar quinta-feira, dia 26. Uma vez por dia, as tartarugas são alimentadas: recebem algas, peixes, moluscos, mexilhões e caranguejos triturados e sem as vísceras para não sujar a água dos tanques. Quinta é dia de alga, então cada animal recebe algumas porções dos tratadores, de punhado em punhado. Dá quase um quilo por tartaruga.

Uma tartaruga vive até os 100 anos
Gestora fala sobre as espécies e peculiaridades das cascudas do Tamar de Florianópolis

Tartaruga marinha é um réptil?
Sim. É da classe dos répteis, da ordem dos quelônios, que agrupam todas as formas de tartarugas identificadas no mundo. A origem desses animais não é bem conhecida, embora se estime que tenham surgido há cerca de 100 milhões de anos. Existem atualmente 13 famílias de quelônios, com 75 gêneros e 260 espécies. Destes, há apenas seis gêneros com sete espécies marinhas.

Onde tem mais desova dessas espécies?
Potencialmente, todo o litoral brasileiro pode receber fêmeas de tartarugas marinhas para desovar. Mas geralmente os animais procuram áreas com areia e água mais quentes. Por isso, as principais áreas de reprodução ficam no Rio de Janeiro e norte do Espírito Santo, e se estendem pelo nordeste, regiões do litoral brasileiro onde as temperaturas são mais altas.

Quanto tempo fica embaixo d’água?
Entre 10 e 30 minutos, em média. Quanto mais ativas, menos tempo mergulhando. Quando sobem para respirar, ficam na superfície de dois a três segundos. É o tempo necessário para eliminar o dióxido de carbono acumulado durante o mergulho e inspirar o oxigênio suficiente para o próximo. Mas, se quiser, a tartaruga pode permanecer na superfície por mais tempo, como, por exemplo, boiando para se aquecer, se alimentar, se orientar ou copular.

Tartaruga marinha dorme?
Sim. Dorme ou descansa. Geralmente à noite, mas também pode ser durante o dia. Dorme no fundo do mar, protegida nas pedras quando o fundo é rochoso ou com recifes. Também dorme boiando nas superfície. Mas isso varia. Quando está em áreas oceânicas, por exemplo, prefere descansar na superfície ou na coluna de água.

Por que precisam subir à superfície para respirar?
Porque as tartarugas marinhas têm pulmões e precisam respirar na superfície. Elas não tiram oxigênio da água, como fazem os peixes através das brânquias. Apesar dessa limitação, as tartarugas são ótimas mergulhadoras, pois seu eficiente sistema de transporte do oxigênio lhe permite o mergulho mais demorado, com pouco oxigênio.

Quanto mede e quanto pesa um animal adulto?
Também varia de acordo com a espécie. A menor de todas é a oliva, pesando em torno de 40 quilos, com o casco de 80 centímetros em média. A maior é a de couro, que pode chegar aos 400 quilos e cerca de dois metros de comprimento de casco.

Quantas espécies existem no Brasil?
Das sete que existem no mundo, cinco ocorrem por aqui: a cabeçuda (Caretta caretta), de couro (Dermochelys coriacea), oliva (Lepidochelys olivacea), verde (Chelonia mydas), de pente (Eretmochelys imbricata). Mas como são altamente migratórias, as tartarugas marinhas tornam-se patrimônio de todas as nações. Passam a maior parte do tempo no mar e podem atravessar oceanos, para se alimentar em águas próximas a um continente e se reproduzir em outro.

Qual a comida preferida?
Cada espécie tem sua dieta preferida. A verde alimenta-se de algas e de gramíneas marinhas e a oliva gosta de crustáceos, peixes e moluscos. A tartaruga de couro só come águas-vivas e outros organismos gelatinosos e a cabeçuda prefere caranguejos, moluscos, mexilhões e outros invertebrados, triturados com a força da mandíbula. A de pente gosta mais de esponjas, mas também come, em menor quantidade, anêmonas, algas e crustáceos.

As tartarugas marinhas continuam ameaçadas de extinção?
Todas as espécies de tartarugas que ocorrem no Brasil continuam ameaçadas de extinção, em níveis variados, nas categorias Vulnerável, Em Perigo ou Criticamente em Perigo. Estão incluídas na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) e na Lista Nacional das Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção, do Ministério do Meio Ambiente.

O que o Tamar faz e como funciona?
Institucionalmente, está ligado ao instituto Chico Mendes da Biodiversidade (ICMBio), do Ministério do Meio Ambiente. Operacionalmente, é co-administrado pela fundação Pró-Tamar. Sua missão é conhecer, recuperar e proteger as populações das cinco espécies de tartaruga marinha que ocorrem no Brasil. Com patrocínio nacional da Petrobras, monitora áreas de desova e de alimentação desses animais, no litoral e em áreas oceânicas. Para isso, mantém bases de pesquisa na Bahia, Sergipe, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Ceará, Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo e Santa Catarina.

Quantos anos vive um tartaruga marinha?
Nem os pesquisadores do Brasil, nem os de outros países têm a resposta correta. Sabe-se que a tartaruga marinha é um animal de vida longa. Dependendo da espécie, só atinge a idade adulta com cerca de 30 anos. Por isso, os estudiosos do mundo estimam que uma tartaruga marinha pode chegar aos 100 anos.

Por que é preciso proteger as tartarugas marinhas?
Durante sua longa existência, uma tartaruga marinha leva e traz toneladas de nutrientes e energia vital à sobrevivência de tantas outras formas de vida. Peixes, crustáceos, moluscos, esponjas e medusas dependem dela para viver, assim como as formações de mangues, bancos de areia, de gramas marinhas e de algas, de corais, de recifes e de ilhotas. Proteger as tartaruga é, portanto, preservar a vida marinha e garantir a sobrevivência do planeta e da humanidade.

 

Vai lá ver você também…
O projeto Tamar tem 24 bases ao longo do litoral brasileiro. Somente cinco delas são abertas à visitação.
A base de Florianópolis fica na barra da lagoa da Conceição, na rua Professor Ademir Francisco, sem número. Fica a 25 quilômetros da ponte Colombo Salles.
Após passar pela avenida Beira-mar norte, é preciso acessar a SC-401 (norte) e virar à direita na SC-406 (leste). Assim que chegar à lagoa, seguir pela praia Mole, até chegar à barra da lagoa. Na primeira bifurcação, virar à esquerda e seguir pelo acesso norte da barra da lagoa.
No trevo do acesso norte, virar à direita e seguir até o loteamento Cidade da Barra, onde fica o centro de Visitantes do Tamar.
Ingresso
R$ 10, adulto
R$ 5, estudantes, crianças até 12 anos e pessoas acima de 60 anos
Crianças até 1,20m não pagam. Para escolas e grupos particulares, o valor é diferenciado em função do atendimento especial. Tem que consultar pelo telefone (48) 3236-2015. Funciona das 9h30 às 17h30, todos os dias.

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