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Trapiche pras palafitas; trilhas pra subir morro

Imaruí e Matadouro tavam na pauta dos debates da consulta sobre mobilidade urbana, ontem. Os moradores nem sabiam. Audiência pro povão do Centro, Vila, São João, São Judas, Dom Bosco, Ressacada, Carvalho e Barra do Rio foi a mais fraca de todas

Sandro Silva
sandro@diarinho.com.br

Era pelas 20h quando o médico Antônio Carlos Clarindo chegou no sa­lão do Clube da Vila, na Vila Operária, em Itajaí. Es­perava encontrar muita gente e um clima fervoroso de de­bate. Afinal de contas, estava marcada a consulta pública sobre o plano de Mobilidade Urbana de Itajaí pros mora­dores do centro, da Vila Ope­rária e dos bairros São João, São Judas, Dom Bosco, Res­sacada e Barra do Rio.
Mas quando o doutor An­tônio subiu ao enorme salão de festas do clube, viu pou­cas pessoas, entre funcioná­rios da prefeitura e o pessoal da empresa Le Padron, con­tratada pela associação dos Municípios da Foz do Rio Itajaí-açu (Amfri) pra condu­zir o processo de elaboração do plano.
A reunião da Vila foi um fracasso. Contando funcioná­rios da prefeitura, autorida­des, técnicos da Le Padron, assessores da câmara de ve­readores e alguns poucos po­pulares, o total de assinaturas no livro de presença foi de 29 pessoas. “Foi o dia mais va­zio”, lamentava o arquiteto e urbanista Gabriel Gollnick, 28 anos, um dos sócios da Le Padron. A responsabilidade de convocação e mobilização popular pra consulta pública é da prefeitura.
Presidente da associação de Moradores do Carvalho, uma das regiões da Ressaca­da, o médico Antônio Car­los estava indignado. “A pre­feitura não fez o seu papel”, criticou. Como representante de uma entidade comunitá­ria, sequer foi avisado da reu­nião. Soube à tardinha, quan­do o DIARINHO ligou pra entrevistá-lo sobre os proble­mas de mobilidade do bairro.
Com uma reunião profis­sional marcada em Balneá­rio Camboriú, ele fez das tri­pas coração para estar nos dois lugares. O doutor Antô­nio correu de volta pra Ita­jaí acreditando chegar a tem­po de participar dos debates sobre o futuro do vai-e-vem da população. “Do ponto de vista democrático, de partici­pação da comunidade, a reu­nião não existiu”, opinou.
As consultas servem pros técnicos da Le Padron en­grossarem o diagnóstico dos problemas de mobili­dade da cidade e também captarem ideias do povão. Com isso, vão montar um plano geral, que depois será apresentado de volta pra população em forma de audiências públicas, expli­ca o arquiteto Gabriel.
Durante à tarde, o DIARI­NHO visitou algumas das re­giões que pertencem às áreas cujo debate sobre mobilidade deveria ocorreu ontem e en­controu situações de assustar. Em plena Itajaí do século 21, cidade que tem o maior pro­duto Interno Bruto (PIB) do Estado, ainda tem gente que, pra chegar em casa, precisa andar sobre trapiches ou su­bir trilhas em morro. Uma Ita­jaí que Itajaí faz de conta que não conhece.

Chegar em casa é quase uma escalada
Eles moram praticamente no centro de Itajaí. Bem ao lado da maior universidade paga de Santa Catarina. Mas nada de ruas pavimentadas, ciclovias ou pontos de ônibus. Nem conseguiriam ter nada disso. Mal conseguem acessar o caminho de casa. O problema da mobilidade dos moradores do morro do Nossa Senhora das Graças, o Matadouro, é bem mais grave que um busão lotado ou um tráfego congestionado. Pra sair ou chegar de casa, esse povo precisa se submeter a uma trilha.
Ontem, os moradores do morro do Matadouro ouvidos pelo DIARINHO – e foram muitos! – não sabiam que a prefeitura estava organizando uma consulta sobre mobilidade urbana e que a região onde moram fazia parte do debate. Ninguém apareceu por lá pra avisá-los. “Eles só aparecem aqui em época de eleição”, alfineta o servente de pedreiro Heraldo Pinho Ferreira, 30 anos.
Heraldo, que mora há um ano na comunidade, já viu muita gente se acidentar, escorregando pelos caminhos do morro. Pra ajudar a vizinhança, fez uma cerca de madeira na trilha que passa logo acima da sua casa. “As pessoas descem escorando por aqui”, explica.
Cardíaca, com seis pontes de safena, a desempregada Claudete Fátima Dornelles, 43, precisa levar e buscar o filhotinho de seis anos todo dia na creche e, por isso, faz com dificuldades o sobe-e-desce. É nos dias de chuva que ela mais sofre. “Já fui de arrasto”, conta, lembrando um dos muitos tombos que tomou ao descer por um dos caminhos.
Pra Claudete, a solução pra mobilidade dos moradores do morro do Matadouro é simples. “Se deve de fazer uma escadaria do concreto, com corrimão”, sugere. Os moradores dizem que esta é uma reivindicação antiga da comunidade. “Só fizeram uma vez, um pedaço, esse aqui”, informa o conferente Gabriel Argena, 30, mostrando um pedaço de escada de concreto todo detonado, com o corrimão de metal quebrado e enferrujado, numa das subidas do morro.
Uma proposta que também é da dona de casa Rosângela Maria Rangel, 35. Se a sugestão tivesse sido acatada pela prefeitura, o filho de 17 anos de Rosângela não teria quebrado o fêmur ao cair perto de casa.
A falta de acesso adequado também cria outro problema. “Aqui é tão ruim que até o carteiro não sobe. Eles deixam as cartas lá na mercearia, lá embaixo”, explica Rosângela, que criou os seis filhos por lá. E não é por menos que os carteiros não sobem. A erosão detonou não só as escadarias como os caminhos de terra e pedra.
Ao ler os relatos acima, você já pode ter ideia do que passaram ontem dona Leoni Cardoso, 55, e a filha Cláudia Fabiano dos Santos, 30. Depois de esperar o caminhão do gás, subiram carregando juntas o botijão, com mais de 25 quilos. Moram no meio do caminho entre a base e o alto do morro. “Cada uma segura num ladinho e aí a gente vai”, conta Cláudia, com bom humor. Uma vez por mês, mãe e filha repetem a via crucis. “Tinha que ter uma rampinha mais adequada, né!?”, indica a moça.

Outros bairros
Carlos Alberto Clemente, 39 anos, é presidente da associação de Moradores do Bairro São João. Já cansou de enviar pra prefeitura requerimentos e ofícios pedindo melhorias pra mobilidade do bairro. Em geral não tem respostas. Nem mesmo informado oficialmente da consulta pública ele foi. “Não tô sabendo. Que coisa bonita, não avisaram nada pra nós”, reclamava ontem, ao saber da reunião na Vila Operária pela reportagem do DIARINHO.
Pro líder comunitário, um dos de segurança para os ciclistas. “Não tem ciclovia ou ciclofaixa na rua José Pereira Liberato, na rua Indaial, na rua Pedro Rangel”, lista. “E nós pedimos também que fosse feito na Caninana (avenida Irineu Bornhausen), em outubro ou novembro do ano passado, e não recebemos resposta nenhuma”, critica. principais problemas do bairro é a falta
A Caninana, segundo ainda Carlos, tem um outro problema grave de mobilidade. “Os garagistas botam os carros em cima da calçada e o pedestre tem que andar na rua”, acusa, contando que volta e meia é preciso ligar para o Codetran.
Caminhões andando em ruas cujo tráfego pesado é proibido e alta velocidade em avenidas do bairro também são problemas apontados por Carlos. “Se pegar os ofícios que nos últimos 12 meses mandamos pra prefeitura, a maioria é sobre mobilidade”, ressalta.
Antônio Carlos Clarindo, presidente da associação dos Moradores do Carvalho, na Ressacada, também não sabia da consulta pública quando foi procurado pelo DIARINHO, no final da tarde. Pra ele, esse é um tema fundamental pras comunidades. “Inclusive deveriam avisar para que a gente debatesse previamente os assuntos”, opina.
Segundo ele, um dos problemas do Carvalho é justamente a demora para entrar ou sair do loteamento, que fica às margens da rodovia Contorno Sul. A situação ficou assim, afirma, depois que a prefeitura botou uma sinaleira no entrocamento perto do posto RDP. Ele também cita o entupimento do trevo da Contorno Sul com a BR 101, nas horas de pico.

Centro
Já quem frequenta o centro não escapa de dois problemas. Se for de busão, aí é enfrentar a lotação e os atrasos. Jacilene Alves de Loes, 41, mora na Murta e vai de duas a três vezes por semana “pra cidade”. “Esse ônibus é sempre cheio”, reclama. Ela não usa outro tipo de transporte por um motivo: “Não ando de bicicleta nem de moto porque morro de medo desse trânsito”.
Trânsito que também deixa preocupado o auxiliar de entregas Edcarlos Alves, 34, morador do Cidade Nova. Geralmente vai de carro pro centro aos finais de tarde e não bastasse ter dificuldades em estacionar, ainda tem medo de atingir algum ciclista. “Na rua Brusque, por exemplo, tem estacionamento dos dois lados e não tem ciclofaixa”, aponta, citando outro grande problema do centro.

Ônibus não vai. As ruas tão uma lástima. E tem ainda os trapiches das palafitas
Não dá pra falar de mobilidade urbana em Itajaí sem olhar pra uma região da cidade que parece outro mundo. Esquecidas, desrespeita­das, discriminadas, algumas ruas do Imaruí, no bairro Barra do Rio, estão longe de se pare­cerem com as largas avenidas ou as ruas bem pavimentadas do centro.
As antenas skygato chamam a atenção, penduradas em casebres sobre o mangue da margem esquerda do rio Itajaí. Em alguns desses lares somente é possível chegar atra­vés de trapiche, enjambrado com tábuas, to­cos e troncos.
Por lá, os moradores chamam o mangue de vala. Os dejetos das casas transformaram a água num líquido escuro e fedorento, que acompanha as passadas dos moradores em di­reção às palafitas onde moram. “Nessa parte aqui a gente não tem esgoto”, reclama Caroli­na de Lima, 64 anos, a dona Pópa.
Se falta saneamento básico, não é difícil sa­car logo que também falta estrutura de mobi­lidade. “Aqui também a gente não tem ôni­bus. Se precisa ir no centro, tem que ir lá em cima”, emenda dona Pópa, indicando o pon­to, que fica mais de um quilômetro adiante. Agora, imagine, em dias de chuva e numa rua sem calçamento, sair de casa pra pegar o transporte coletivo.
Às vezes dona Pópa vai pro centro na garu­pa da bicicleta do marido. Confessa que não gosta muito de pegar os busões. “Eles passam muito depressa e não dá tempo pra gente ler pra onde ele vai”, reclama.
Já a vizinha Norma de Oliveira, 73, não quer saber nem de ônibus nem de garupa. “Eu não sei ler. Aí só vou de bicicleta”. Isso mesmo, a senhorinha setentona não abre mão da zica como meio de transporte. “Eu saio com a minha bicicleta todo dia. Vou pro cen­tro, vou receber, vou pagar conta”, diz, listan­do as tarefas que faz com a ajuda da magrela.
Mas dona Norma não esconde o medo de pedalar pelas ruas de Itajaí. Não é por menos. “Uma vez o carro bateu em mim que quebrou tudo a minha bicicleta. Mas só machuquei a perna. O pessoal do mototáxi me levou pro hospital”, conta. Por isso, quando não está nas poucas ciclovias ou ciclofaixas, toma um cui­dado extremo. “Sempre vou bem pela beirada”.
A vizinha Tânia Maria Moreira, 58, até an­daria de ônibus se ele aparecesse com mais frequência na comunidade e se entrasse nas ruas mais para dentro do Imaruí. Mas como isso não acontece, todo dia vai pedalando pro trabalho, no centro. “Pra frente do Porto é pe­rigoso que nossa!”, diz, apontando um dos lo­cais mais cabreiros pra quem vai da periferia para o centro.
É que, quando acaba a ciclofaixa da rua Blumenau, o ciclista fica ao Deus-dará. “Tem esses contêiner, né!? Tenho bastante medo ali daquele porto. Às vezes tem dois caminhões um do lado do outro”, solta, explicando por­que é perigoso andar por lá.
Ruas sem calçamento, calçadas inadequa­das ou tomadas por entulhos, veículos ou ma­teriais de construção são outras situações que ajudam a fazer o Imaruí um poço de proble­mas quando o assunto é mobilidade urbana.

HOJE TEM MAIS
Bairro Fazenda
Das 18h30 às 22h
Salão da Sociedade Fazenda
Rua Florianópolis, 100
Área de abrangência: Fazenda, Fazendinha, Praia Brava e Cabeçudas.

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