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Trabalhadores da indústria voltam às salas de aula

Sesi estima que mais de 400 mil trabalhadores da indústria catarinense ainda não concluíram o ensino Médio

Por Victor Miranda
victor@diarinho.com.br

“Eu não quero simplesmente passar, eu quero entender realmente as coisas”, diz dona Uta Horstmann. Aos 65 anos de idade, a cozinheira que parou de estudar aos 12 anos voltou à sala de aula depois de mais de meio século longe dos cadernos. Ela faz parte dos mais de 800 alunos que participam do programa de Educação de Jovens e Adultos (EJA) do sistema Fiesc (federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina) na região de Itajaí, mostrando que não existe idade para quem quer aprender.
Cerca de 400 mil trabalhadores da indústria catarinense não concluíram o ensino Médio, número que motivou o sistema Fiesc, através do serviço Social da Indústria (Sesi) a mudar o foco para incentivar esses profissionais a completar os estudos a partir de um programa que mescla a metodologia de educação a distância com o ensino presencial.
Na região de Itajaí, o programa é dividido de acordo com a vocação da indústria de cada município. Em Balneário Camboriú, o foco é a indústria da construção civil, e em Itajaí, o programa é voltado para o setor da pesca e da construção naval. Em Balneário Piçarras, através do programa Ebep (educação Básica e Educação Profissional), os cursos são oferecidos para toda a comunidade com o intuito de capacitar pessoas para a indústria.
Hoje o perfil dos alunos que retornam para a sala de aula é diversificado, variando muito de acordo com o segmento da indústria. “Nós recebemos muitos alunos de fora, que migraram de outras regiões para trabalhar na indústria daqui. Em geral, é um público mais jovem, na casa dos 20 e poucos anos. Mas não podemos dizer que isto é uma regra, porque temos alunos de todas as idades, a partir dos 18 anos”, explica Cinira Rúbia Pinheiro, supervisora de Educação do sistema Fiesc (Sesi de Itajaí).
Vários fatores levaram essas pessoas a deixar o estudo regular. Segundo levantamento feito pelo Sesi, entre as mulheres uma das principais causas é a gravidez precoce e a necessidade de ajudar no sustento do lar. Entre os homens, o trabalho é o principal responsável pela interrupção dos estudos.
O retorno à sala de aula nem sempre é fácil, pois o ganha-pão da família é sempre a prioridade. “Muitas vezes, esse trabalhador prefere fazer hora extra para melhorar a renda do que estudar. O próprio trabalho os tira da escola”, ressalta Rúbia.

Na região de Itajaí, Fiesc leva à sala de aula mais de 800 pessoas
Para conhecer a realidade desses trabalhadores que resolveram voltar a estudar depois de tanto tempo longe de uma sala de aula, o DIARINHO visitou uma turma de funcionários da indústria da construção civil em Balneário Camboriú. As aulas acontecem todas as terças e quintas-feiras, na sede do sindicato da Indústria da Construção Civil (Sinduscon) com mais de 40 alunos que estão cursando o ensino fundamental.
Quem está acostumado com aquele zum-zum-zum de uma sala de aula convencional pode estranhar, ao ver uma turma com mais de 40 alunos onde todos prestam atenção, procurando esclarecer as dúvidas a respeito da tão temida matemática. Num ambiente descontraído, apesar de quase todos ali terem vindo de um cansativo dia de trabalho, a professora Adriana Schubert, 29 anos, passa alguns exercícios no quadro, enquanto a equipe de reportagem tenta atrapalhar o mínimo possível o andamento da classe.
Celso Gonçalves, 46, faz parte desta turma. Ele voltou a estudar depois de 30 anos longe da escola. O pedreiro, que trabalha na construtora Haacke, em Balneário Camboriú, conta que percebeu a necessidade de voltar a estudar em função das próprias oportunidades que surgiam dentro da empresa onde trabalha. O retorno à sala de aula já lhe trouxe alguns benefícios. “Hoje eu sou chefe de uma equipe e já pude fazer alguns cursos que são ofertados pela própria empresa”, explica.
Nascido em uma família de oito irmãos, criado sem pai, Celso teve que se virar nos 30 para ajudar no sustento da casa, por isso parou de estudar aos 16 anos de idade. “O tempo perdido a gente não recupera, mas eu acredito que ainda posso buscar um futuro melhor”, diz o pedreiro em momento de reflexão.
A auxiliar de serviços gerais Aline dos Santos, 22 anos, voltou a estudar depois de seis anos. Ela teve que deixar os estudos em função da gravidez não planejada, mas agora quer concluir a formação e conquistar um emprego melhor. “Muitas vezes, eu chegava para uma entrevista e me diziam que eu não estava apta por não ter estudo”, lamenta.
Aline conta com o apoio da família para estudar e confessa que não é fácil a correria de trabalhar, tomar conta das duas filhas, uma de oito e outra de cinco anos, e ainda estudar. No entanto, ela afirma que vai continuar e pretende cursar a faculdade. “Eu quero fazer pedagogia, porque eu adoro criança”, afirma a futura professora, que deixa as filhas com o marido para que possa frequentar as aulas no Sinduscon, às terças e quintas-feiras.
João Osvaldo Vieira, 52 anos, trabalha na construtora DJC e participou de uma turma de nivelamento no ano passado para poder ingressar no ensino Fundamental. Ele ainda trouxe a mulher para estudar junto com ele, buscando o incentivo mútuo para a retomada dos estudos. “Nós morávamos na roça, em Canoinhas, onde eu era trabalhador braçal. Parei de estudar com nove anos”, diz o pedreiro, que sonha em conquistar o posto de mestre de obras.
Outra grande conquista para João foi aprender a mexer com o computador por causa do ensino à distância, uma atividade complementar das aulas presenciais. “Agora, eu já consigo me virar direitinho”, garante.

Troca de conhecimento
Há quatro anos lecionando no Sesi, a professora Adriana considera que os alunos do programa EJA são muito mais interessados do que os alunos das escolas convencionais. “Eles estão aqui com toda uma bagagem de conhecimento de vida e estudam por opção. Por isso eu os considero bem mais dedicados”, ressalta a professora, que também atua na rede particular de ensino.
Para Adriana, existe uma troca de conhecimento muito grande entre professores e alunos, pois a experiência de vida de cada um representa um saber que, muitas vezes, eles não percebem que possuem. “O que nós fazemos é conciliar isso que eles já têm com o conhecimento científico”, ressalta a professora.
Uma constatação feita pelo projeto é que existe um perfil bem diferenciado entre os vários segmentos da indústria. Na construção civil, apesar da baixa escolaridade, muitos têm uma boa condição financeira em relação ao salário médio oferecido pelo mercado de trabalho. No entanto, muitos correm atrás para conseguir melhorar ou mesmo se manter nos atuais empregos, diante de um mercado cada vez mais competitivo. “Eles sabem que não podem ficar só nisso. E temos visto bons resultados, pois muitos fazem faculdade e crescem dentro das empresas”, afirma Adriana.
No ramo da construção naval e da pesca, o perfil é diferente. Muitos funcionários vieram de outras regiões, principalmente do Nordeste para buscar melhores condições de trabalho na região de Itajaí. “Eles também são muito dedicados, mas percebemos que eles têm dificuldade maior pelas condições de trabalho a que se submetem”, explica Rúbia.
Já em Balneário Piçarras, os alunos que participam do Ebep são geralmente mais jovens, na casa dos 20 e poucos anos. “São pessoas da comunidade que não terminaram os estudos e voltam à sala de aula fazendo, ao mesmo tempo, o curso técnico”, explica Adriana.
Atualmente, são oferecidos em Balneário Piçarras os cursos de soldador, desenhista mecânico, caldeireiro e de almoxarifado. O ensino, que é totalmente gratuito, também é ofertado para toda a comunidade.

Incentivo das empresas
As turmas são formadas em parceria com as empresas que, muitas vezes, montam uma sala de aula para os funcionários no próprio local de trabalho. Com duas aulas presenciais por semana, mais as atividades desenvolvidas através da internet (educação a distância – EAD), o programa tenta facilitar ao máximo a permanência dos alunos que, com muita dificuldade, conciliam trabalho, família e estudo.
O Sesi é responsável pelos professores e pelo material didático, ao passo que as empresas precisam ceder uma sala de aula com quadro, carteiras, internet, além de oferecer lanche para os trabalhadores que participam do programa. Outra parceria importante para o andamento da educação de Jovens e Adultos é feita com os sindicados patronais da indústria.
Muitas vezes, essas empresas acabam fazendo mais do que isso, incentivando os funcionários a concluírem seus estudos. “Temos empresas que premiam os melhores colocados em frequência, cedem horário de trabalho para que os funcionários estudem, não descontam o vale-alimentação, entre outras coisas”, conta a supervisora.
Uma dessas empresas é a Vitalmar, do ramo de comércio e indústria de pescados, que atua em Itajaí desde 1996, contando hoje com cerca de 600 funcionários diretos e indiretos. Parceira do programa EJA desde 2010, a Vitalmar construiu na própria sede, no bairro Nova Brasília, três salas de aula climatizadas, uma biblioteca e uma sala de informática para que os funcionários possam estudar.
Dario Luiz Vitali, 51 anos, sócio-proprietário da empresa, diz que o seu objetivo é mostrar para os colaboradores que eles podem ir muito além. Atualmente, o espaço cedido pela Vitalmar conta com 27 alunos no ensino Fundamental e 30 no ensino Médio. “Nós temos exemplos de alunos que estudaram aqui e hoje pleiteiam uma faculdade”, conta, orgulhoso, o empresário.
O gerente da Vitalmar diz que o interesse pela educação veio de casa. O pai dele, Lázaro Vitali, morava na área rural e não teve a oportunidade de seguir o ensino regular, mas se tornou um autoditada. “Meu pai estudava em casa, passava horas depois de um dia de trabalho com um livro aberto, lia tudo que aparecia pela frente. A bíblia ele leu três vezes”, relata Dario.
A estrutura montada pela Vitalmar já atendeu cerca de 30 projetos sociais ligados à educação, cultura e esporte. “A educação e o conhecimento são patrimônios pessoais intocáveis. Isso ninguém pode tirar de você”, conclui Dario.

Lição para os mais jovens
A dona Uta conta com o apoio da família para voltar aos estudos. Ela mora em Balneário Camboriú há 22 anos e participa do programa, tendo como vínculo o marido, aposentado do ramo da construção civil. “Eu sempre tive vontade de continuar a estudar. Onde eu morava, em Agrolândia, a gente aprendia até a quarta série e daí tinha que ir para Rio do Sul. Então, aos 12 anos eu tive que parar de estudar e nunca mais voltei”, lamenta.
Os filhos e netos de dona Uta incentivam para que ela prossiga com os estudos. “Peço a ajuda para as minhas filhas e a minha neta, que agora vai fazer 16 anos”, conta a cozinheira que, mesmo aposentada, continua trabalhando na Apae de Balneário Camboriú.

Quer voltar a estudar?
Quem trabalha na indústria ou é dependente de alguém que é trabalhador do setor, pode voltar a estudar. O programa de educação de Jovens e Adultos do sistema Fiesc é gratuito e oferece o ensino Fundamental e Médio para aqueles que, por algum motivo, tiveram que interromper os estudos. Para isso, basta procurar o Sesi em Itajaí através do telefone (47) 3341-2813.
Atualmente, existem salas de aula nas empresas Camil e Lear em Navegantes, Embraed, FG e Sinduscon em Balneário Camboriú, Fibrafort, GDC e Vitalmar em Itajaí, além das turmas que têm aula na sede do Sesi, na avenida Coronel Marcos Konder, 496, centro.
As aulas do Ebep, em Balneário Piçarras, funcionam no centro Integrado de Ensino Fundamental (Cief), na rua Joaçaba, s/n, centro.

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