TIAGO IORC

“Eu acho muito especial o fato de ter pessoas mais novas se interessando; são elas que movimentam as coisas”

Ele não canta funk, não forja escândalos nem aparições em público e não quer tocar música da moda só pra ficar famoso. E tem mais: sequer foi na porta das gravadoras pra apresentar o seu trabalho. Mesmo assim, ocupa espaço no mercado fonográfico, emplaca músicas próprias em trilhas sonoras de séries e novelas no Brasil e no exterior e já arregimenta uma legião de fãs, em especial entre os jovens. Quer saber qual a mágica de Tiago Iorc? Nenhuma. Ele simplesmente faz o que tem vontade de fazer, que é passar para o público o que sua alma de artista está sentindo. Durante sua passagem por Itajaí, em abril, na turnê feita pelo sul do Brasil, o jovem cantor e compositor tirou um tempinho para uma conversa com o DIARINHO sobre trabalho e carreira. A entrevista foi concedida aos jornalistas Dayane Bazzo e Sandro Silva. Os cliques são de Lucas Correia.

Raio X
Nome:
Tiago Iorczecki
Idade: 28 anos
Naturalidade: Brasília
Estado civil: Solteiro
Filhos: não
Formação: Comunicação Social / Publicidade e Propaganda
Trajetória profissional: Vendedor, garçom, tradutor, compositor, cantor

DIARINHO – Explique pra gente como, antes mesmo de ser conhecido na grande mídia, conseguiu emplacar músicas em trilhas sonoras de novelas e séries, como ‘Viver a Vida’, ‘Malhação’ e ‘Vida da Gente’?
Tiago Iorc –
Foi o seguinte. Eu era músico em Curitiba. Tocava nos bares e tal. Tocava em bandas covers. A gente tocava pra ganhar uma grana. Eu já pretendia seguir alguma coisa com música, mas não necessariamente uma carreira artística. Eu nunca tinha parado pra escrever música. Não era o meu objetivo. Pelo menos, isso não era claro pra mim. Só sabia que queria viver de música, de alguma forma. Aí, eu escrevi uma música de brincadeira, em casa, gravei de forma bem amadora mesmo. E repassei para os meus amigos e eles gostaram. Começou a circular nos e-mails dos amigos. E aí levou uns dois anos disso… [Qual era a música?] Na verdade era um trecho de uma música que depois se tornou ‘Nothing but a song’ [Nada além uma canção], que foi a música que entrou em Malhação. E foi o seguinte, essa música chegou aos ouvidos de alguém que trabalhava na Som Livre [a gravadora], em 2007, e eles gostaram da música, entraram em contato e perguntaram: “Ó, a gente adorou este trabalho aqui e tá montando um selo novo com intenção de lançar novos nomes pro mercado da música no Brasil. A gente quer saber como é o teu trabalho autoral”. Eu falei: “Meu trabalho autoral é isso aí, esses segundos aí dessa música”. Então eles me convidaram pra fechar essa música, finalizá-la, e eu gravei uma demo [gravação de demonstração] no estúdio de um amigo. Mandei pra eles, e eles mostraram pro pessoal da produção musical de Malhação. O cara gostou e resolveu colocar na trilha. [Você, então, fez o caminho inverso? Não bateu nas portas das gravadoras, elas que bateram na sua porta?] É, mais ou menos isso.

DIARINHO – A maioria das músicas que você canta e compõe são em inglês. Isso é algo natural para você ou faz parte de uma estratégia pra conquistar o público internacional?
Tiago Iorc –
Eu fui pra fora muito cedo. Nasci em Brasília. Meu pai trabalhava lá na época. Era de família gaúcha, mas minha família viajava bastante por conta do trabalho do meu pai. Logo que eu nasci, meu pai se mudou para a Inglaterra. Eu era bebezinho quando a gente foi pra lá. Meus primeiros anos foram lá. Voltei com cinco anos pro Brasil. Então, eu acabei aprendendo o inglês antes do português. Na verdade, as duas coisas meio juntas, porque meus pais falavam português em casa. Mas eu falava mais inglês que português. [Você chegou a ir pra educação formal na Inglaterra?] Acho que fiz uns dois anos de colégio lá, os anos básicos. Quando voltei pro Brasil, eu fiz a primeira série ou coisa assim. Na hora de fazer música, mesmo, começou a sair. Como eu te falei, essa primeira música veio meio sem pretensão nenhuma. Era só uma melodia. Não era pra ser nada além daquilo. Foi meio que uma consequência do tipo de música que eu queria fazer, com a minha manifestação, que foi sempre na língua inglesa, também. Em casa, a gente sempre falou muito inglês. Eu mantenho isso sempre muito presente na minha vida com as pessoas que eu conheço lá de fora e que mantenho contato. Então, foi uma questão natural pra mim. Era a forma como eu sabia fazer música no começo. E hoje, neste último disco, eu já gravei músicas em português. [E por que você começou também a fazer músicas em português?] Por quê? Foi pelo mesmo motivo pelo qual eu resolvi fazer músicas em inglês: é sempre muito uma manifestação que eu estou a fim, que está natural pra mim. [É mais intuitivo do que uma decisão consciente?] É! Tanto que, por muito tempo, as pessoas me perguntavam “mas por que tu cantas em inglês? Por que tu não compões em português e tal”. Mas eu não sentia isso como uma necessidade, como uma pressão, sabe, do tipo “Ah! Preciso fazer isso pra continuar fazendo o que gosto”. Mas, daí, neste último disco, aconteceu. Senti que fazia sentido. As músicas vieram e ficaram compatíveis com o meu trabalho que já existia. O mais legal é que, agora, abriu essa possibilidade de seguir esses dois caminhos, né? Quanto à tua pergunta inicial, sim, de fato não é uma estratégia, mas, de fato, abre essa possibilidade pra trabalhar lá fora, pelo fato de ser inglês. Tanto que o disco foi lançado lá.

DIARINHO – A MPB não o seduz a ponto de virar essa relação e ser a mais cantada por você? Como tá isso agora?
Tiago Iorc –
Hoje, sim. Hoje eu tô mais presente aqui, no Brasil. Então, isso tem uma consequência maior… Torna o meu trabalho mais presente, torna o ciclo das coisas mais frequentes, mais constantes. Isso que a gente tá fazendo aqui, hoje, é porque eu posso estar aqui, e isso acaba tendo como consequência um maior conhecimento das pessoas do meu trabalho. Por isso começou a fazer mais sentido as músicas em português nos shows e a possibilidade de essas músicas serem tocadas nas rádios. Isso tem sido muito especial e tem ativado uma vontade maior de explorar mais esse lado que se abriu com o novo disco. [No palco, a tua percepção é que o público brasileiro tem preferência por músicas em língua portuguesa ou não pinta essa percepção?] Meu trabalho é uma dualidade mesmo, né? São dois universos, e as pessoas gostam igualmente dos dois. Só que aqui, a questão da língua é muito forte. Aqui, a pessoa pode não conhecer a música, mas ela reconhece o que tá sendo falado. E acho que isso é muito forte na comunicação. Teve um show que fiz num evento no final do ano passado e isso me chamou a atenção. Tava passado o som com uma música minha, que escrevi em português, e uma pessoa de mais idade, que fazia parte da produção, chegou e falou assim: “Adorei a letra dessa música”. E isso me comoveu. No sentido de que uma pessoa que não fazia ideia de quem eu era, que talvez não tivesse a intenção, nem pretensão nenhuma de conhecer o meu trabalho, foi conectado pela questão da língua. Isso, pra mim, se transformou numa questão muito forte aqui, no Brasil. Meu interesse é comunicar, é passar o que sinto, é passar as coisas que eu vivo e dividir alguma coisa com as pessoas. Assim como a gente tá aqui hoje, dividindo informações e dividindo experiências. Isso chamou minha atenção no sentido de que dá pra explorar de uma forma verdadeira, já que estou mais à vontade. Isso possibilita um mar muito bonito pra navegar aqui, no Brasil.

DIARINHO – Como surgiu a parceria com Maria Gadu? Por que justamente ela? O que os aproxima como intérpretes?
Tiago Iorc –
Eu conheci Maria Gadu nos bastidores. Logo que me mudei pro Rio, no lançamento do meu primeiro disco, ela tava lá também. A gente morava no mesmo bairro e frequentava a mesma galerinha. Ela tocava num barzinho, com uns amigos, e eu frequentava esse barzinho de vez em quando. Então, a gente acabou se cruzando, nesses bastidores do início das duas carreiras. Todo mundo que conhecia a Maria ficava encantado com o trabalho dela, e a gente teve uma conexão muito bonita lá no início. A gente trocou vontades musicais e manteve uma amizade desde então. [Vocês já tinham tocado juntos alguma vez?] Foi o seguinte: um pouquinho antes de ela lançar o disco, eu tava fazendo uma série de shows numa casa que já fechou lá no Rio. Era um lugar muito especial. Era um lugarzinho pequeno, em cima de uma livraria. Se chamava Letras e Expressões. Acho que era Ipanema. Era um cantinho assim, pra 150 pessoas. Só que era muito gostoso de fazer voz e violão, num show mais intimista. Aí, eu a convidei pra fazer uma participação e ela veio, cantou no meu show. Depois do meu show, eu fui e cantei lá no barzinho com ela. Então, tinha essa troca. Aí, depois disso, as duas carreiras foram uma pra cada lado. A gente trabalhou muito. Quando eu decidi fazer essa versão de música inédita, quando eu cantava o refrão, já imagina uma voz diferente da minha e imaginava uma voz feminina. A primeira pessoa que me veio na mente foi a Maria. Eu a convidei, e ela topou fazer. E foi por isso!

DIARINHO – Conhecendo hoje a realidade do mercado fonográfico brasileiro e internacional, como você encara a relação entre talento e o sucesso?
Tiago Iorc –
Acho que são coisas completamente distintas, né? Pra mim, sucesso é uma questão de estar na plenitude do que pode ser feito, de onde pode se chegar, não necessariamente a fama. A fama é outra questão. Em relação ao talento, me parece que quando o talento existe e é persistido no sentido de lapidar uma possibilidade de fazer coisas bem feitas – no meu caso, na arte de dar carinho e atenção às coisas e aprender com as coisas que vivo e querer fazer, inventar, experimentar com a música –, acho que isso acaba tendo uma consequência um pouco mais duradoura no sentido de como as pessoas vão perceber isso e de como isso vai se sustentar ao longo do tempo. Agora, se isso não existe, talvez torne as coisas mais efêmeras. Porque podem surgir, mas talvez se esgotem mais rapidamente. É óbvio que existem todas as possibilidades disso, né? Às vezes é por uma questão mais midiática mesmo, é interessante midiaticamente, mas não necessariamente por algum talento. Ou o talento também se torna interessante midiaticamente. Todas as possibilidades são vistas hoje. O que me parece é que as coisas que mais persistem, que permanecem, é porque têm alguma coisa que segura tudo junto. Porque são altos e baixos, são experimentos que muitas vezes dão mais certo ou não. Vejo artista que acompanho desde sempre, artistas que admiro, que têm anos de experimentações e de vontades que tão ali manifestadas, às vezes são mais bem sucedidos, às vezes menos, mas no andar das coisas, têm sempre algo importante que tá sustentando isso. Caso contrário, torna-se finito.

DIARINHO – Quais são as suas grandes influências como cantor e compositor? Existe aí também uma influência familiar?
Tiago Iorc –
Na família, ninguém relacionado com música. Eu fui o único que saiu do curso normal das coisas [risos]. Acho que, no fundo, na minha família existem pessoas muito talentosas para a arte, mas que não desenvolveram isso por questões da época mesmo, da educação, pois não era este o objetivo, não era interessante investir numa carreira que fosse diferente das coisas normais, que podem dar certo. Tanto que, no meu caso, não foi diferente. Os meus pais adoravam quando eu tocava – e eu toco desde pequeno. Mas eles sempre deixavam bem claro: “Estuda uma outra coisa, que vai te dar um pouco mais de estabilidade financeira”. Por isso eu fiz comunicação social. Eu fiz, na verdade, dois cursos quando me mudei pra Curitiba. Fiz comunicação social e fazia música também. Música eu fiz um ano e pouco. e aí percebi que o curso [de música] não era o que eu queria na música. Aí, eu deixei de estudar e fui tocar. Em relação à família, não houve muitas influências, instigações que aspirassem coisas musicais. Mas fora da família, sempre cresci num ambiente que, por não ser musical, se ouvia muito o que se tocava nas rádios, os artistas populares da época dos meus pais. Cresci num ambiente que se ouvia muita música popular mesmo. Então, quando era mais novo, se ouvia muito lá em casa James Taylor, Tom Jobim, Elis Regina. Aí, quando eu fiquei um pouquinho mais velho, comecei a ter o gosto pela música realmente. Eu cresci no Rio Grande do Sul. Então, eu ouvia muito da cena musical de lá. O Duca Leindecker, do Cidadão Quem, é pra mim uma das principais referências como compositor, como letrista e como cantor. Essa música que eu gravei com a Maria Gadu é uma regravação de uma música dele. [E a família Ramil, também lhe foi referência no Rio Grande do Sul?] Eu conheço muito pouco, mas tenho um carinho por eles nato, por me identificar com o trabalho que eles fazem. Mas não foi um trabalho que eu acompanhei, como foi o do Cidadão Quem, que eu ouço desde sempre. Aqui, pra mim, seria mesmo o Duca.

DIARINHO – A que você atribui a sua identificação com o público adolescente tendo uma música que, a princípio, não teria esse apelo?
Tiago –
Tu achas que não? A música não teria esse apelo? [Essas regravações brasileiras que você fez são de uma geração um pouco mais antiga e uma parte do teu público fiel é um público mais novo. Isso não é curioso?] Isso é muito especial. Eu comecei a reparar isso, a partir do momento em que a música sai daqui, que ela vai pras pessoas, ela tem o rumo próprio. Você pode até tentar direcionar, mas não existe controle nenhum sobre como ela vai ser recebida. Eu não sei isso que tu comentaste, se é ou se não é pra esse público, não tenho tal percepção, porque eu não sei se difere muito do que esse público tá ouvindo ou se pode ser, também, o que aquele público quer ouvir. Eu não me preocupo muito com isso. Acho muito especial o fato deessas pessoas mais novas estarem se interessando, porque são justamente elas que movimentam as coisas. Normalmente, todos os grandes movimentos que a gente viu e presencia em escala histórica a são sempre movimentos jovens. São os jovens que têm energia, que têm vontade, que têm tempo pra ir lá, ouvir música, que têm tempo pra ir a um show, enfim que têm essa disponibilidade. Então, pra mim, é muito especial esse interesse, porque também são as pessoas novas e o legal é que essas pessoas vão crescendo e envelhecendo junto com meu trabalho. Existem pessoas que me acompanham desde o comecinho e que tão indo aos shows ainda e dividindo essa experiência com a galera que tá chegando agora.

DIARINHO – A internet tem sido uma grande ferramenta para a divulgação do trabalho de músicos jovens. Qual o papel da web na sua carreira?
Tiago –
Fundamental. Como acabei de falar, esse público jovem é o que mais se manifesta nas redes, é o que mais tem tempo pra ficar ali, pra dividir, compartilhar as coisas. Então, é muito legal, porque eles mesmos divulga. A gente faz isso, a gente é multiplicador do que a gente gosta. Se a gente come aqui, neste restaurante, e gosta da comida, a gente vai espalhar pras pessoas: “Vai lá, naquele restaurante”. Eu acho que essa força dos jovens na internet é muito importante e muito forte na questão de espelhar a notícia mesmo. Quando a coisa se torna interessante pras pessoas, elas ajudam muito nessa divulgação. Por isso é um dos principais movimentadores do que eu faço, porque sempre tem muita gente interagindo através dessas redes sociais.

DIARINHO – No clipe da música ‘Morena’, de Los Hermanos, que foi gravado numa rua de Lisboa, você aparece com uma câmera acoplada ao violão, numa produção que parece ser bastante caseira, mas não por isso de qualidade inferior. Esta é uma opção para fazer a diferença nos clipes ou é um jeito de baratear a produção? Tá dando certo?
Tiago –
Eu acho que pode ser um pouco das duas coisas, porque eu sempre gostei muito de produzir vídeos, mesmo antes de entrar pra faculdade, onde eu estudei um pouco de cinema, um pouco de vídeo. Eu tinha uma camerazinha em casa quando era criança e sempre gostava de fazer vídeos. Então, eu acho que isso se tornou um alicerce do que eu faço hoje. Paralelamente à música, existe uma necessidade de estar alimentando o meu trabalho com questões de imagem, vídeo, foto e tal. E eu gosto muito de experimentar com as coisas e gosto de estar envolvido com isso, gosto de viabilizar as coisas também. Até então foi assim, todos os vídeos que eu postei são relacionados ao meu trabalho e são sempre produções muito pequenas, sem grandes orçamentos nem coisas mirabolantes acontecendo. Mas, ao mesmo tempo, eu acho que comunica o que precisa comunicar, manifesta e se torna interessante. Não é por ser de baixo orçamento ou por ser de baixa produção que deixa de ser uma coisa bem produzida, vamos dizer assim, ou que não comunica com precisão. No caso do vídeo de “Morena,” com a câmera acoplada, era porque não tinha ninguém pra me filmar; eu tava sozinho. Então, eu queria filmar aquilo e achei essa forma pra fazer a gravação. Talvez, uma outra pessoa filmando não teria o mesmo efeito. Então, às vezes, a carência, a falta de alguma coisa, uma coisa que pode ser um problema, na verdade se torna uma oportunidade pra explorar outras coisas. Eu acho que isso é muito especial na arte, pois essas carências se tornam alguma coisa.

DIARINHO – Num outro clipe, da música ‘Forasteiro’, você aparece em pé, num calçadão, com imagens em timelapse. E o legal é que as pessoas interagem com você. Quanto tempo ficou lá, imóvel, e como foi essa interação com os que passavam? Foi algo natural?
Tiago –
Parece que foi uma coisa pré-produzida de tanta interação. O que aconteceu foi o seguinte: eu tava tocando num festival em Austin, no Texas. É um festival muito legal, que se chama South by Southwest, com bandas do mundo inteiro. E o que acontece? Eles fecham o centro da cidade só pra pedestre e pras pessoas que tão no festival. Desta forma, as ruas ficam cheias de gente, de bandas, de todo mundo que tá vivendo aquilo ali. [Inclusive passam músicos na frente da câmera] Isso, passa a galera carregando equipamento e tal. Eu fiz essa viagem. Eu tinha alguns shows lá, nos Estados Unidos, e no Canadá também. Aí, fiz questão de levar um grande amigo meu, que é fotógrafo, que eu conheci lá em São Paulo, pra ele fazer o acompanhamento dos bastidores da turnê, com fotos e tal. A gente foi pra fazer vídeos também do trabalho que tava pra ser lançado. Este último disco tava pra ser lançado, e a intenção era fazer alguns vídeos já pra jogar com o lançamento do disco. Nesse dia, eu tava fazendo um show no festival, e ele teve a ideia de fazer uma foto com câmera num tripé e com o tempo do obturador um pouquinho mais longo pra me pegar parado ali e o rastro das pessoas passando. A ideia era essa, só que as pessoas não paravam de se meter no meio da foto. Então, a foto foi pro beleléu, porque todo mundo queria de alguma forma interagir, e a gente já tava até desistindo. “Ah! Não vai dar, não vai dar pra fazer a foto”. Então, a gente tava prestes a desistir quando ele resolveu começar a gravar. Ele trocou a função da máquina fotográfica pra função que filma e deixou gravando e disse “fica aí parado”. Aí ele começou a gravar. Não foi tanto tempo quanto parece pelo número de interações que teve, mas foram uns 20 minutos, eu acho. E foi bem na hora mágica, a hora em que o sol tá se pondo. Então, tem até uma diferença de luminosidade no vídeo, e as pessoas não paravam de fazer aquilo. Aí, a gente foi assistir às imagens depois, e não conseguia parar de rir pelos personagens que apareceram lá. Depois que a gente assistiu, a gente pensou “Precisamos usar isto aqui pra alguma coisa.” E a gente só jogou ela em cima de “Forasteiro” e acabou encaixando perfeitamente, mas não foi feito com essa intenção.

DIARINHO – De um tempo pra cá, e em especial no seu álbum mais recente, o Zeski, o estilo de melodia em suas músicas muda, são mais calmas e acústicas. Seus sucessos anteriores, como ‘Nothing but a song,’ ‘Blame’, ‘Story of a man’ e ‘Scared’, que impulsionaram seu início de carreira, eram músicas mais animadas. A que você atribui essa mudança? Como seus fãs receberam a novidade?
Tiago –
Cada disco reflete bem a manifestação de cada momento. Talvez, no primeiro disco, eu estivesse um pouco mais enérgico, um pouco mais jovem. Isso refletiu mais na energia daquilo e nas composições talvez um pouco mais abertas mesmo. Aí depois, no segundo disco, um pouquinho mais fechado, porque eu tava num momento mais quietinho. Eu fiquei um bom tempo em casa, só compondo. E este terceiro disco parece que é um meio do caminho, entre os dois, e eu acho que isso se encaixa um pouco com a forma como eu gosto de cantar. Parece que é o jeito que isso vai sempre se encaixando de acordo com a minha voz, quando a música precisa um pouco mais de energia e a voz vem diferente. Com relação ao público, acho que existem pessoas que gostam mais do meu trabalho hoje, mas também existem pessoas que se identificam mais com os meus primeiros trabalhos, e isso sempre vai existir, né? A minha vontade é que, de fato, sejam trabalhos diferentes, porque eu hoje sou diferente do que eu era alguns anos atrás.

DIARINHO – Nessa turnê nacional que você está fazendo, você decidiu que seria acústica, apenas voz e violão. Por quê? E qual a diferença entre os outros tipos de show que você faz? Os fãs que vão assistir a um ou ao outro perdem alguma coisa específica de cada show?
Tiago –
Sabe que eu tinha a impressão que um show acústico seria menos interessante para as pessoas? Até que, uns anos atrás, eu fiz um show em Belo Horizonte, com a banda, e na sequência eu tinha um show em Ouro Preto, que era num teatro menor, ondeeu fiz apenas voz e violão. Aí, o pessoal que tava no show, depois, acho que eu tava recebendo as pessoas, eles perguntaram “Ah! Vai ter show em Ouro Preto?” Eu falei “É, só que lá vai ser só voz e violão”. Daí, o guri com quem eu tava conversando e o pessoalzinho que tava com eles ouviram e disseram assim “Ah! Voz e violão? Então nós vamos ter que ir também”, porque pra eles era uma outra experiência, a possibilidade de estar um pouco mais próximo, talvez, e de ouvir as músicas de uma outra forma. Eu acho que, no fundo, o meu trabalho é isso. Quando se chega na raiz do que eu faço, é a voz e o violão, que é como todas as músicas nascem. [O desafio é maior?] Não, é diferente. São shows completamente diferentes. A interação se torna um pouco mais próxima quando as pessoas estão num show de voz e violão, até porque os espaços são um pouco menores. Dá pra ser um pouco mais pessoal. Eu já fiz shows pra muitas pessoas, e a interação não funciona da mesma forma como num teatro, onde tu ouves o silêncio e dá até pra brincar com esse silêncio. Acho que cabem algumas particularidades que só o silêncio permite, das nuances, tanto na música quanto na comunicação ou de fazer alguma coisa mais engraçada ou qualquer coisa, e isso se percebe mais com as nuances do silêncio. Mas a intenção desse show voz e violão, dessa turnê voz e violão, é mais pra possibilitar passear, porque o Brasil é um país muito caro e se viabilizar uma turnê pra levar uma equipe, é muito caro. Às vezes, nem compensa. Então, a minha vontade é estar no máximo de cidades possíveis, e essa turnê é mais pra eu viajar e estar perto das pessoas, que é o que elas querem, dividir essas músicas e tal. Num segundo momento, este ano, no segundo semestre, a gente vai fazer uma turnê com a banda em outras cidades, talvez repetindo algumas. [Itajaí tá nessa segunda turnê] As datas tão sendo confirmadas. Eu sei que vai ter em Florianópolis. Talvez em Itajaí também.

DIARINHO – Qual a diferença entre o público brasileiro e o europeu? Há diferenças entre o público do sul do Brasil com o do restante do país?
Tiago –
Sim. Eu acho que as nuances tão muito visíveis não só na hora do show, mas na convivência. Eu cresci no Rio Grande do Sul e me sinto diferente das pessoas de outras partes do Brasil. Mas, no fundo, eu acho que, apesar de a manifestação ser um pouquinho diferente, por exemplo, lá pra cima as pessoas são um pouco mais abertas, elas se manifestam mais. Lá no nordeste, por exemplo, as pessoas são muito calorosas e muito abertas, gritam e tal. Eu sinto que os shows aqui, no Sul, em Santa Catarina, Rio Grande do Sul, as pessoas são um pouco mais contidas, parece ser até um pouco em consequência do clima. A gente é um pouco mais contido. Em relação a lá fora, é a mesma coisa. Depende de cada lugar. Eu toquei na Coreia do Sul, por exemplo, onde as pessoas não falavam inglês e têm uma educação muito rígida, muito certinha. Então, eles são muito comportadinhos. O que é muito especial também, porque dá pra sentir que tem muito carinho ali a ser manifestado, mas eles manifestam de outra forma. Então, é bonito compreender isso e interagir da forma coerente com cada público.

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