Home Notícias Quentinhas Seguradoras não bancam mais danos com enchentes

Seguradoras não bancam mais danos com enchentes

Apesar do seguro existir, companhias se recusam a fazer cobertura pra casas e imóveis de empresas

Sandro Silva
sandro@diarinho.com.br
Se você tem casa, um ponto comercial ou uma indústria em algum ponto da cidade que costuma ser atingido por enchentes ou alagamentos, nem perca tempo procurando algum corretor ou banco pra fazer um seguro do imóvel. O melhor mesmo é rezar pra água passar longe. Desde 2011, aqui na região, as seguradoras resolveram não mais renovar as apólices ou fazer novos contratos que cubram sinistros decorrentes de inundações. “O seguro contra enchentes existe enquanto produto, é muito procurado pelos clientes, mas ninguém vende, as seguradoras não comercializam”, afirma o corretor Ari Cristofolini Júnior, 28, que há duas décadas trampa no ramo e é um dos sócios da Coligação Corretora de Seguros.
O problema começou há 30 anos, afirma Júnior. “Desde as grandes enchentes de 1983 e 1984 as seguradoras já começaram a não querer mais fazer seguros que cubram esse tipo de sinistro”, explica. Com as cheias de 2008 e 2011, a coisa se agravou ainda mais. “Você consegue fazer seguro contra incêndios, vendavais, roubo, problemas relacionados à rede elétrica, mas se for colocar ‘verba’ pra enchente, aí as seguradoras não vão aceitar”, reforça Ari.
Não que os seguros contra inundações não existam. Eles até estão previstos pela superintendência de Seguros Privados (Susep), do ministério da Fazenda, como produtos a serem comercializados no país. O problema é a recusa das empresas. “Devido à alta sinistralidade das seguradoras, particularmente em nossa região, a aceitação dos riscos de alagamento e inundação é muito restrita”, explica Jonas Ambrósio Jacinto, representante na foz do Itajaí do sindicato dos Corretores de Seguro de Santa Catarina (Sincor).
Pra corretora Marilda Cabral Almeida, 44, “restrita” não é bem a palavra que deve ser usada nesse caso. Ela diz que as seguradoras sequer tão impondo condições pra fazer contratos de cobertura de inundações. De cara já se negam a vender o produto. “Hoje não tem nenhuma seguradora que atue no Brasil que cubra enchente”, afirma, reforçando a informação do colega Ari Júnior.

Decisão revolta presidente da CDL
Os comerciantes de Itajaí tão sempre entre os mais prejudicados com as enchentes e alagamentos na região. Por isso, a decisão da seguradoras em não mais dar cobertura pra sinistros causados por inundações, deixa Hamilton Sedrez, presidente da câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Itajaí pra lá de contrariado.
Pra ele, não é correto as seguradoras não venderem um produto que existe por lei. “A gente estar numa região vulnerável a enchentes não justifica não oferecerem o produto. Seguro é risco, oras”, pondera.
Hamilton avisa que se algum lojista procurar a CDL reclamando da sacanagem das seguradoras, os advogados da entidade serão mobilizados. “Vamos disponibilizar o departamento jurídico para tentar judicialmente fazer o contrato”, conclui.
Uma batalha nos tribunais que seria inglória, acredita Jonas Jacinto, do sindicato dos Corretores. “Desastres naturais podem, sim, ser cobertos por uma apólice de seguros, no entanto não há nada que obrigue empresas privadas e com fins lucrativos a aceitar compulsoriamente este tipo de risco”, adianta.
Uma opinião compartilhada pelo advogado Rafael Martins, chefe da procuradoria de Defesa do Consumidor (Procon) de Itajaí. “As seguradoras são obrigadas a vender o produto só a partir do momento que fizerem a oferta. Senão, não são obrigadas”, explica. Ou seja, se não tiver no site ou em qualquer propaganda que a seguradora oferece cobertura contra enchentes para casas e empresas, então nem adianta berrar.
Em nota encaminhada por e-mail, a direção da superintendência de Serguros Privados (Susep), do ministério da Fazenda, informa que as seguradoras não têm obrigação de oferecer qualquer tipo de seguro. No entanto, o seguro ofertado deve conter literalmente a informação “a aceitação do seguro estará sujeita à análise do risco”.
A direção da confederação Nacional das Seguradoras, procurada no início da tarde de ontem, não se manifestou.

Na região, últimas apólices foram em 2011
Dona da Itajaí Corretora de Seguros, que já tem quase 20 anos de mercado, Marilda Almeida foi uma das últimas a conseguir vender apólices que cobriam perdas ou prejuízos com enchentes na região. Entre os poucos clientes que ainda conseguiram renovar contratos pra esse tipo de cobertura tava a dona de casa Deise Pera, 38 anos, moradora do Dom Bosco.
Colocar a casa no seguro sempre foi uma preocupação da família de Deise. “Meus avós perderam tudo num incêndio da casa, móveis, dinheiro, joias. Por isso, a gente sempre fez seguro”, conta. Desde 2006, ela e o marido mantêm a casa sob ‘proteção’ de uma seguradora.
O que Deise não tinha atentado, até 2008, era cobrir sua residência contra inundações. E não deu outra. “No dia 22 de outubro de 2008 eu saí de casa às sete da manhã e às sete da noite a água entrou. Foram 60 centímetros de água”, lembra.
Foi difícil pra dona de casa se recuperar do trauma e do prejuízo. “Eu perdi muita coisa. A casa era nova, toda mobília era sob medida e aí não tinha como tirar. Perdi a cozinha, fogão, máquina de lavar louças, o quarto do meu bebê que só tinha 30 dias”, conta. Só o jogo de cozinha, que havia acabado de ser instalado na nova residência, custava cerca de R$ 10 mil. “Só agora eu tô conseguindo falar sobre isso”, emenda Deise.
Foi depois disso que o casal procurou Marilda, corretora de confiança da família, pedindo que procurasse uma alternativa para que não sofressem novamente um prejuízo tão grande. A corretora conseguiu achar, na época, uma das poucas empresas que ainda faziam seguros contra sinistros por conta de inundações.
Deise conseguiu renovar a apólice até 2011, quando sofreu novamente com a enchente. “Mas dessa vez foi menor, porque só teve uma lâmina de água dentro de casa e a gente conseguiu tirar muita coisa”, afirma. Foram cerca de R$ 10 mil em prejuízo, repostos pela seguradora. Depois disso, Deise e o marido nunca mais conseguiram contratar um seguro que os protegesse contra os problemas provocados por enchentes ou alagamentos.

R$ 80 mil de prejuízo com a enchente
O empresário itajaiense André Garcia, 54 anos, dono da JP Condimentos, descobriu da pior maneira que o seguro que tinha contratado não cobria danos causados por conta da enchente. Na inundação de 2008, mesmo tendo seguro, acabou tendo que arcar com os R$ 80 mil de prejuízos com a perda de matéria prima, embalagens e equipamentos.
André não havia lido o contrato com a seguradora e acreditou que a cláusula “desastres naturais’, que estava na apólice, cobrisse também os problemas com enchentes. E foi aí que acabou se dando mal. Seis máquinas ficaram danificadas, praticamente todos os alimentos processados e embalados por lá foram destruídos e muito insumo foi perdido. Nada disso foi pago pela companhia de seguro. “Na época foi frustrante. Fique desapontado. Você faz seguro esperando que lá na frente cubra um possível prejuízo e, na hora, descobre que não”, desabafa.
Sem se dar por satisfeito, André procurou um empresário vizinho, cliente da mesma seguradora, e os dois pensaram em entrar na justiça. “Procuramos um advogado, que leu a apólice e explicou pra gente que não adiantava entrar na justiça, que não iríamos ganhar”, conta.
O Fiat Doblô usado pra entrega de mercadorias e o Celtinha da firma utilizado pelo vendedor tavam dentro do galpão da JP Condimentos e sofreram perda total na enchente de 2008. Além disso, bandidos pularam o muro da rodoviária e entraram pelos fundos da empresa, que fica na rua Sidnei Shulze, no bairro Cidade Nova. “Levaram R$ 3 mil entre mercadorias e equipamentos”, contabiliza André. O prejuízo dos carros e com os materiais furtados foram repostos pela companhia de seguros.
Em 2008, a água chegou a um metro e meio dentro da JP Condimentos. Na enchente de 2011, foram apenas 40 centímetros e os prejuízos foram bem menores. “Dá é um trabalho muito grande pra limpar”, comenta o empresário.

Investiu num elevador como seguro
Como André não conseguiu encontrar uma seguradora que lhe contratasse cobertura contra inundações, teve de criar sua própria forma de proteger os maquinários e produtos da empresa. Construiu um segundo piso e instalou um elevador de cargas. “Hoje tenho o depósito lá em cima. Antes que a água venha, subimos tudo para o segundo andar. Estamos preparados”, acredita.
Só com o elevador, o dono da JP Condimentos gastou R$ 16 mil. Mas, pra ele, vale a pena. “Como aqui em Itajaí se consegue ficar sabendo quando vai ter enchente, com esse sistema a gente não sofre mais com perdas de materiais e maquinários”, afirma.

Veja como funciona o seguro pra carros em caso de inundações
São duas perguntas que o corretor Ari Cristofolini Júnior costuma ouvir quando vende um seguro de carro: se há cobertura pra incêndios provocados pelos vandalismos do PGC e por danos causados por enchentes e alagamentos. A resposta à segunda pergunta é um “sim”, seguida de alguns “poréns”. Entre eles, o de que o cliente não tenha colocado o veículo em situação de risco.
Jonas Ambrósio Jacinto, representante do sindicato dos Corretores de Seguro de Santa Catarina (Sincor), explica que a cobertura contra inundações já tá implícita nas apólices. “Desde 2004, a SUSEP, órgão federal que fiscaliza as operações de seguros no Brasil, determinou que os planos básicos de seguro para veículos terrestres também cubram a submersão total ou parcial do veículo em água doce”, informa. Isso vale até mesmo pra carangos e motocas que estiverem em garagens no subsolo de prédios. Só não vale pra água da praia.
Se o carro vai ser consertado ou a seguradora vai considerar perda total, isso vai depender da análise de um profissional. Mas, ressalta Jonas, geralmente há um padrão de procedimento. “Quando a água fica abaixo do painel, é possível fazer a recuperação. Porém, quando afeta o motor e ou painéis eletrônicos, é comum ter a perda total do veículo”, completa. Isso, no entanto, se o prejuízo for maior que 75% do valor do seguro.
A dica tanto de Jonas Jacinto quanto de Ari Júnior é que o dono do veículo tente evitar ao máximo colocar o carro dentro da água. “O seguro só não paga os danos no automóvel quando houver uma intenção do cliente”, observa Ari. “Por exemplo, se o segurado ao invés de parar o carro e esperar o escoamento da agua, voluntariamente resolver arriscar e passar por áreas alagadas”, completa Jonas.
Outra dica deles é que se procure um corretor de seguros e não um banco. O corretor, além de mais preparado para apresentar os detalhes do seguro, funciona como uma espécie de representante do cliente junto à companhia de seguros. “A vantagem é que a pessoa vai ter um suporte depois que adquirir o seguro”, conclui Ari.

Compartilhe:

Deixe uma resposta

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com