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Rancho La Cautiva: Um lugar para voltar às origens

“As crianças de hoje têm medo dos animais. Têm medo da natureza, de caminhar no meio do pasto. Não podem se sujar. Encaixotaram as crianças”. Foram estas constatações que levaram a argentina Maria de Lourdes García, 42 anos, a Maria Gringa, a transformar as terras nuas de um sítio no Brilhante 1 no Rancho La Cautiva. Pior que esses medos, diz a educadora, é elas pensarem que o leite foi fabricado e colocado na caixinha, assim como o ovo.
Para mostrar como é a realidade da vida no campo, como se planta, como se trata dos animais e como se faz brinquedos, Maria Gringa projetou o rancho depois de se preparar na Universidade do Cavalo, em Sorocaba/SP, e aprender a didática para lidar com crianças especiais na Associação Nacional de Equoterapia (Ande Brasil), em Brasília.
Enquanto Maria explica como desenvolve seu trabalho, a filhinha Ana Clara, de dois anos, corre descalça seguida de perto pelos cachorros. A menina, ainda um bebê, monta como gente grande. “Acho que é porque eu cavalguei até os oito meses de gravidez”, justifica a mãe coruja. Qualquer criança a partir da idade da Clarinha pode aprender a montar, diz Maria. A Pretinha, como chama a mãezona, é independente e tem uma postura diferente das outras crianças da mesma idade.
Há 16 anos, quando veio para o Brasil, a educadora foi morar num apartamento em Balneário Camboriú. “Eu me agoniava e foi uma luta para a minha família me apoiar. Não suporto mais morar em apartamento. Eu acho que aprendi muito bem a conviver com a minha solidão. Solidão no sentido de estar só, para ouvir isto (aponta para o céu, fica calada para ouvir um passarinho). O boi. A burra está fazendo o som dela, os cavalos estão relinchando, as galinhas… eu não troco isto. Eu acho que o ser humano perdeu muitos valores, e o desrespeito que hoje tem eu não suporto”, confidencia.
A escolha por viver no campo foi um processo natural. Ela viveu até os oito anos numa fazenda, subindo em árvores, correndo pelo campo e confeccionando os próprios brinquedos. É esta vida que ela quer para a filha e para as crianças de modo geral. “Se você foi criada no campo aquilo não sai de dentro do seu coração, de sua alma, de seus genes. É tanto amor que você tem por aquilo que é difícil se adaptar em um lugar fechado entre quatro paredes. Tu tens que ter este verde, os teus bichos te lambendo, tu tens que cheirar o cheiro do cocô do boi. A minha felicidade já está feita, é aqui”.

Onde fica o Rancho
O ponto de referência é a cooperativa de arroz, um dos parceiros do rancho, que colabora doando ração para misturar no alimento dos cavalos. A proprietária conta que aceita e necessita de qualquer tipo de doação, seja em dinheiro ou produtos.
Ao entrar na estrada geral do Brilhante 1, o visitante não demora muito a ver os silos da cooperativa, à esquerda. Há uma placa no início da rua Serafim Gamba; seguindo por ela, mais adiante vai encontrar a seta indicando a rua Moisés Gamba.
Pronto. É só subir a ladeira e chegar ao topo, onde está o La Cautiva. O contato pode ser feito pelo telefone (47)9962-
6877 e pelo Facebook.

Projetos sociais e aulas particulares
Qualquer pessoa pode fazer aulas de equitação campeira, para aprender a ser peão, ao preço de R$ 250 mensais. Os demais serviços prestados são filantrópicos ou bancados por parcerias. Maria Gringa mantém a escolinha de campo para os alunos que vão em grupos passar o dia e aprender as lides rurais. O custo é quase simbólico: R$ 10 por criança. Se a escola for muito carente, Maria pede que não deixe de levar a meninada por este motivo. É só conversar.
Esta semana está chegando a Ramona, uma vaca holandesa com jérsei, para que os visitantes aprendam a tirar o leite direto das tetas e conheçam o sabor real do líquido. No campo há uma jegue, a Paloma, um tourinho nelore chamado Pepe, que Maria pretende domar para montaria, e cinco cavalos de trabalho. Depois tem galinhas, ovelhas, marrecos, patos, um peru tão feio que parece urubu e outros bichos.
O terceiro foco do rancho é a equoterapia, ou seja, a equitação especial. Maria revela que atende 51 crianças vizinhas sem nenhum custo para elas. Alguns destes alunos da escola Básica Professor Martinho Gervási são especiais, com algum tipo de retardo ou autismo. “Um grande índice da população do Brilhante casou-se com parente de sangue. Desses casamentos consanguíneos vieram muitas crianças especiais. Então o que eu faço: se o rancho La Cautiva está dentro do Brilhante e se estas crianças especiais estão dentro do Brilhante também, eu beneficio as pessoas do meu bairro. Eu vim ao mundo pra ter isto e para poder ajudar estas crianças”.
Maria também tem um projeto aprovado pela lei de incentivo à cultura da Fundação Cultural de Itajaí. O “Conexão Arte & Campo – A prática artística no dia a dia rural” recebeu R$ 15 mil este ano para ensinar as crianças a criar seus brinquedos, como se fazia antigamente. “Como brincava o vovô, a vovó? Não tinha nada de tecnologia, nada de videogame, não tinha tevê. O que eles faziam? Eles construíam seus carrinhos. Eles costuravam e bordavam suas bonecas, faziam as próprias tintas, e é isto que mostramos aqui”.

  • Trecho da reportagem especial publicada na edição de segunda-feira, 16 de maio de 2016.
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