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Quando os caixões chegaram, eu sabia quanto sofrimento veio junto

Por Maikeli Alves
geral@diarinho.com.br

Às 8h33 de terça-feira, 29 de novembro, acordei com uma ligação da minha editora no DIARINHO, a Franciele Marcon. Era minha folga. Quando atendo o telefone, ela pergunta se eu já estava sabendo do que aconteceu com a Chapecoense. Digo que não e ela conta que o avião da equipe caiu na Colômbia. Pergunto se é mesmo verdade, ela confirma, fala das mortes e me manda fazer a mala para ir a Chapecó.
Na hora não tinha caído direito a ficha, mas quando ligo a televisão para me inteirar do assunto, meu estômago se embrulha e a adrenalina de ir para um lugar que eu não conheço me coloca no automático para agilizar tudo. Por volta das 11h, eu e o fotógrafo Marcos Porto, meu colega dos tempos de RBS, seguimos para o Oeste de Santa Catarina.
No caminho fico zapeando as rádios, olhando a internet e tentando entender tudo que estava acontecendo. Por volta das 19h entramos em Chapecó e mesmo sem nunca ter estado ali eu já sentia que a cidade estava diferente. Meia hora depois chegamos a Arena Condá para dar início a uma das coberturas mais difíceis que já fiz.
O Marcos começou a fotografar e eu iniciei as entrevistas. Queria abraçar todos aqueles torcedores e familiares, vontade de chorar com eles. Quando começam a cantar as músicas da torcida e a chamar os nomes dos que se foram, encho os olhos de lágrimas. Seguro o choro e continuo o trabalho. O dia seguinte seria pior.
Pela manhã, já tinha gente em vigília no estádio. Centenas de jornalistas em campo e nas arquibancadas fazendo flashes ao vivo, equipes de televisão a postos. Me senti mal por ter que contar a história da tragédia que destruiu os sonhos daquela cidade e de um time tão querido, que chegava ao auge de sua história. Entrevistar aquelas pessoas foi a coisa mais difícil que fiz como jornalista.
Lembro dos vídeos que circulam na internet antes do voo trágico. Todos felizes. Penso nos colegas mortos e na satisfação que deviam estar ao fazer a cobertura de um jogo tão importante. De novo, vem as lágrimas. O jornalista André Podiacki, da RBS, foi meu colega. Nunca tive muito contato com ele em função da distância, mas chegamos a trocar e-mails sobre pautas esportivas. Era um cara gentil, me dando dicas para elaborar um perfil de um técnico.
Engulo o choro e faço o meu trabalho. Escrever, naquele dia após o acidente, foi complicado. As palavras não saíam como eu queria. Pensava na cidade, tão silenciosa, e na dor que eu sentia pelas vítimas.
Falar com os atletas que ficaram também foi difícil, a coletiva abarrotada de jornalistas ainda mais, principalmente quando o presidente em exercício, Ivan Tozzo, falou sobre o voo que não pegou porque teve um pressentimento ruim. Ele se emociona e me faz pensar de novo na tristeza desse acidente. Era pra ser uma semana de festas. Foi uma semana de luto.
Sentada na sala de imprensa, foco em escrever. Desvio algumas vezes o olhar do computador para ver um dos meus ídolos, o jornalista Caco Barcellos, ali na minha frente, me perguntando se a tomada funciona. Na hora até penso na grandeza de tudo aquilo. Depois me envergonho por querer uma selfie com o Caco. Esqueço meu capricho bobo e retomo às ideias.
Saio do QG da imprensa quando os torcedores já lotavam a arena. Parecia dia de jogo, um dia de festa. Mas era o dia mais triste que aquela cidade já viveu. De novo falar com as pessoas se tornou um martírio e eu só tinha vontade de chorar. Consolar de alguma maneira o que era inconsolável. Me colocar no lugar deles tornava a situação mais dolorosa e nem podia imaginar o meu time, o Grêmio, vivendo algo assim.
As homenagens foram emocionantes. Todo estádio estava iluminado pra eles, os guerreiros que representavam todo o Oeste de Santa Catarina e se foram tão tragicamente. Era um voo cheio de sonhos e as palavras me faltavam para contar tudo que aquilo representava.
Acordei no dia seguinte para dar meu adeus a Chapecó. Pela manhã, chorei junto com um casal que olhava as mensagens de adeus deixadas na entrada do estádio. A Chape fazia parte da história deles. Se conheceram na festa do título do Catarinense de 2007 e se casaram. Abraçados, os dois choravam tanto que me senti uma intrusa ao falar com eles.
Fomos embora e até agora eu sinto um vazio inexplicável. Na sexta-feira, quando sentei na redação, me transportei de volta ao estádio e fiquei lembrando de tudo o que vi e vivi naqueles três dias intermináveis. E depois de ter escrito tudo isso não tenho palavras para descrever como estou me sentindo, não sei dizer quantas lágrimas ficaram presas. Só sei que a dor de Chapecó vai ficar para sempre na minha memória, assim como aqueles rostos, vozes e o choro de cada um que passou por mim.
Sábado, quando os caixões chegaram ao Oeste, eu não estava mais lá. Mas sabia exatamente quanto sofrimento veio junto com eles. Pela televisão, chorei com as famílias e a torcida. Sei que foi o dia em que a cidade conseguiu compreender que o acidente realmente aconteceu. Que é verdade, e que só o tempo vai fazer com que superem essa tragédia. Força Chape! Força Chapecó!

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