Home Notícias Quentinhas Proposta é ter bebês naturalmente

Proposta é ter bebês naturalmente

Nascimentos sem cesariana, sem anestesia e com a participação da família são uma alternativa saudável

Sandro Silva
sandro@diarinho.com.br

A itajaiense Camila Meriane Stock Rambo, 30 anos, passou por uma experiência intensa. Teve seu segundo filho no banheiro de casa. Foi o marido, o bancário Kleber Rafael Rambo, 34, quem cortou o cordão umbilical do pequeno Henri. O que se passou com o casal não foi um acidente nem um parto de emergência. Ter o filho naturalmente, longe do hospital e no banheiro foi uma opção consciente de Camila e Rafael.
Mas por que ter o filho no banheiro de casa? “Como usava bastante o chuveiro para ajudar no nascimento, optamos pelo banheiro, que foi preparado para isso e contou com a assistência de profissionais”, explica Camila, numa naturalidade de espantar. É que ela e Rafael são adeptos do chamado “parto humanizado”.
Henri nasceu na segunda-feira de carnaval deste ano. Dois anos antes, a irmãzinha Linda também já havia vindo ao mundo de uma forma bastante parecida, mas num hospital de Brusque, onde o conceito de “parto humanizado” já vem sendo praticado há alguns anos.
Nos dois casos, os pais ficaram o tempo todo junto do filho que nasceu e deram o primeiro banho na criança. Nada do bebê ficar afastado deles. “Toda a gravidez é incrível, mas realmente o momento em que tu vês o nascimento da criança, que vê o bebê chegando, o primeiro chorinho, o fato de nascer e vir pro colo, você tocar, cheirar, acalmar, esse instante é precioso”, dispara o bancário, sem esconder o encantamento de ter participado do momento do parto. “Mas, quem faz todo o trabalho é ela”, emenda Rafael, referindo-se à esposa.
É exatamente isso que tá na essência do “parto humanizado”. É a mulher a figura principal. “É um parto em que o protagonismo do processo é assumido de forma intensa pela mãe. Ela não é um agente passivo como nos outros partos”, explica o médico itajaiense Antônio Clarindo, 49 anos, um dos defensores da proposta.
O conceito, segundo o obstetra, é muito mais do que apenas a forma como a criança vai nascer. “É a mulher ter o direito de decidir que posição quer ficar, em qual espaço vai querer estar com o bebê, por quem quer estar acompanhada”, diz. “Pode ser na água, no chuveiro, em casa, no hospital, com a mulher deitada ou de cócoras. Não importa a maneira,” completa a publicitária Luísa Raquel Dias, 37, que atua como doula na equipe de Antônio (veja na página seguinte o que é o que faz uma doula).
Além disso, a proposta é também evitar o uso de medicamentos e diminuir ao máximo a interferência do médico na hora do nascimento. “Tem várias formas de analgesia não medicamentosa”, reforça Antônio. Traduzindo: há muitas maneiras de diminuir a dor do parto sem aplicar analgésicos.
Uma delas é o acompanhante, exemplifica o médico. “Quando a mulher se sente segura, ela fica menos ansiosa e isso facilita a ação da ocitocina, um hormônio que entre outras funções facilita as contrações uterinas”, ressalta.
Há casos, observa Antônio, que é preciso que o parto seja feito num hospital e até mesmo com o uso da cesariana. Quanto à escolha dos pais de que o bebê nasça em casa sob a assistência de uma parteira ou de uma enfermeira obstetra, isso somente deve ser feitonas chamadas gravidez de baixo risco. Mesmo assim, alerta o médico, é preciso ter um plano B, como avisar um médico e um hospital, em caso de complicações não esperadas.
Inspirou-se na Gisele Bündchen
Camila (que aparece no comecinho dessa reportagem) não foi acompanhada pela equipe do doutor Antônio. Até então, nem o conhecia. Seu partos foram assistidos por profissionais do grupo chamado Nascendo em Família, que atua em Brusque e em Blumenau.
A itajaiense chegou até eles depois de pesquisar formas de ter um parto natural. “Desde o começo sempre tivemos a ideia de ter um parto normal”, conta. O que ela e Rafael não sabiam, até então, é que além de natural o nascimento do bebê poderia também ser de forma mais harmoniosa.
Sem medo das críticas de que foi atrás de modismo, Camila admite que ao ler numa notícia que a modelo Gisele Bündchen, 35, tinha feito um “parto humanizado”, ficou ainda mais motivada pra conhecer a proposta. Hoje, é quase uma ativista. “Quando você começa a saber como os partos são feitos, começa a ver uma diferença entre um e outro. O convencional é mais pro médico e não pra mulher. O ‘humanizado’ é voltado pra família, pra mulher, pro bebê e pro marido. É voltado pra você”, defende.

Está chegando na região
A costureira Luara Tiago, 25 anos, de Brusque, chegou a pensar que o sonho de ter um filho de forma natural nunca se realizaria. Mãe de uma menina de três anos, ano passado ficou grávida da segunda filha. Como Bianca, a mais velha, nasceu de uma cesariana, tinha a certeza de que não poderia mais ter filhos por parto normal.
Mas estava enganada. “Isso é um mito muito difundido”, ressalta o médico Antônio Clarindo que foi quem convenceu Luara a realizar o sonho. Brenda nasceu há quatro meses num “parto humanizado” assistido pelo obstetra itajaiense, que atua no hospital Evangélico, de Brusque.
A mulher conta que sofreu pressões quando contou sua decisão. “Quando falava que ia fazer normal as pessoas me criticavam. Diziam que era loucura, depois de uma cesariana, fazer o parto normal”, lembra. Brenda nasceu saudável, com 4,1 quilos.
Ligado ao instituto de Saúde e Educação Vida (Isev), que assumiu recentemente o hospital Santa Inês, de Balneário Camboriú, o doutor Antônio montou uma equipe para trazer a ideia do “parto humanizado” para a região. Ele acredita que ainda neste segundo semestre a equipe começa a atuar.
A enfermeira Bruna Melo, 27, especializada em obstetrícia, integra o grupo. Faz questão de dizer que largou a obstetrícia convencional por acreditar que o “parto humanizado” é muito mais eficiente. “O sistema hospitalar é caracterizado por um modelo tecnocrático. Ele transforma o parto numa linha de produção”, critica. “As pessoas precisam de atendimento diferenciado. O que é bom para uma gestante não é bom para outra”, reforça.
Além de mais eficiente, um parto natural é mais seguro para a mulher e para a criança, garante o médico Antônio. “A mortalidade nas cesarianas é três, quatro vezes maior que num parto normal”, afirma. E mais: “Nas cesarianas, a possibilidade de complicações para o bebê é 120 vezes maior”.
No Brasil, diz o médico, 55% dos partos feitos pelo sistema Único de Saúde (SUS) são cesarianas. “É a maior taxa do mundo”, observa Antônio Clarindo. Para a organização Mundial da Saúde (OMS), o indicado seria algo perto de 15%.

Profissional faz acompanhamento das famílias
Doula. Com a difusão do conceito de “parto humanizado”, essa palavra tá começando a ficar popular. Mas o que é isso? “A doula é uma acompanhante de gestante. Dá suporte a apoio emocional”, explica Luísa Raquel Dias, 37 anos, formada em publicidade e propaganda.
Luísa teve duas filhas de parto normal, mas na época não conhecia a proposta do “parto humanizado”. “Passei sozinha, sem acompanhamento, essa fase dolorosa”, comenta.
Há três anos, quando conheceu o novo conceito, tomou uma decisão radical pra ajudar outras mulheres. “Larguei minha antiga profissão e agora sou doula. Ganho menos. A gente faz por amor”, diz. Luíza é uma das doulas da equipe do médico Antônio Clarindo.
A psicóloga Sara Helena Dadan, 45, de Itajaí, tem opinião parecida. “A vida não foi a mesma pra mim depois que comecei a trabalhar com isso. Entendo como uma missão de vida”, afirma. Foi em 2006 que ela teve o primeiro contato com a ideia. “Fiz o primeiro curso em São Paulo e me apaixonei”, conta. E a ligação foi tão grande, que acabou fazendo um estágio como voluntária no hospital Amparo Maternal, também em Sampa.
Aos 42 anos, Sara teve uma filha através de “parto humanizado”. Mas antes disso já atuava como acompanhante de gestantes e famílias que queriam ter filhos de uma forma mais harmoniosa. Sara já assistiu mais de 100 partos. “Parei de contar nos 90 e pouco”, brinca.
A tarefa da doula é ajudar a família a passar pela gravidez da melhor forma possível. Os contatos já começam no pré-natal. Há visitas na casa e atividades em grupos, onde as gestantes aprendem como se portar antes, durante e depois da gravidez.
Exercícios físicos também fazem parte das atividades. Ah! E os maridos recebem toda a orientação sobre o que fazer na hora do parto, que geralmente é assistido por um médico e uma enfermeira obstetra.
A doula, faz questão de dizer Sara, não atua como profissional de saúde. Isso é tarefa do médico e de um enfermeiro especializado em obstetrícia.
Participante do grupo Nascendo em Família, de Brusque, hoje a psicóloga ajuda a formar novas doulas e a divulgar a proposta. Não dá pra ficar rico na profissão. “Uma doula pode receber de R$ 800 a R$ 1,6 mil por acompanhamento”, calcula Sara. “Viver disso ainda não dá. Mas é uma renda a mais”, completa.

Semana que vem tem curso pra formação
Na semana que vem, a empresa Gerando Novas Vidas, de Brusque, começa um curso de formação de doulas. A primeira etapa acontece de 10 a 12 de julho (sexta-feira a domingo). A segunda etapa será de 17 a 19.
As inscrições ainda estão abertas. Custa R$ 940 e pode ser pago em três vezes. O contato é através do site www.gerandonovasvidas.com.br ou pelos telefones 9977-3025, 9977-3004 (com Sara) ou 9965-7348 (com Elisabete).

Compartilhe:

Deixe uma resposta

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com