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Professora Valéria Ferreira

Muita gente tem filho pequeno – ou neto, enteado ou irmãozinho pelo qual é responsável. Por isso, é grande o número de brasileiros que agora vai ter que se virar nos trinta e arranjar um jeito de botar na escola a criançada que tem entre quatro e seis anos. Quem não fizer isso, descumpre uma mudança na lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, a famosa LDB. E pior, corre o risco de ser processado com base no estatuto da Criança e do Adolescente. Se você ficou assustado, então o Entrevistão com a pedagoga Valéria Ferreira é leitura obrigatória neste final de semana. Com quase três décadas trabalhando com a pimpolhada em sala de aula ou ensinando professores, a pesquisadora mostra os prós e contras da mais recente polêmica da educação brasileira. Valéria também fala sobre a qualidade da formação dos professores, as novas tecnologias que a criançada leva pra sala de aula e até sobre qual é o papel da educação diante da onda de intolerância no país. A entrevista foi feita pelos jornalistas João Pedro Pereira e Sandro Silva. Os cliques são de Elton Damásio. Já a decisão de considerar boa ou ruim a educação formal que seu filho recebe, isso fica por sua conta.

RAIO X
Nome: Valéria da Silva Ferreira
Idade: 47 anos
Estado civil: casada
Filhos: Dois
Formação acadêmica: graduação em Pedagogia pela Univali, mestrado em Educação pela Universidade do Paraná e doutorado em Psicologia da Educação pela pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo.
Experiência profissional: professora de educação infantil do colégio de Aplicação da Univali, professora do curso de Pedagogia da Univali, pesquisadora e coordenadora do programa de pós-graduação em Educação (PGE) da Univali. Também lidera o grupo de pesquisa ‘Contextos Educativos e Práticas Docentes’, do PGE

DIARINHO – A polêmica atual é a mudança recente na lei de Diretrizes e Bases da Educação, a LDB, que obriga os pais a manterem as crianças na escola a partir dos quatro anos de idade. Qual o argumento oficial usado para justificar a mudança e qual a sua opinião como pedagoga sobre isso?
Valéria Ferreira –
Realmente, é uma polêmica. A educação infantil, até então, era um direito da criança, um dever do estado, mas não uma obrigação dos pais. Agora mudou. A matrícula é uma obrigação a partir dos quatro anos. Isso é uma tentativa de aumentar o tempo de escolaridade do brasileiro e de garantir vagas, pois se é uma obrigação, há uma certa pressão para que essas vagas sejam oferecidas. O lado bom é que vai garantir, vai pressionar realmente os governos a abrirem essas vagas. O lado ruim é que, como isso é uma pressão muito repentina, a qualidade talvez não seja tão boa. Isso porque a educação infantil tem um custo muito alto. Aí, por justificativa da força de lei, alguns governantes acabam deixando om alunos de até três anos, pra atender as crianças a partir de quatro anos. Ou, ainda, colocando em lugares que não são adequados. Então, a rapidez com que isso precisa ser realizado é uma coisa ruim.

DIARINHO – Há quem diga que ao tirar a criança do seio da família, ou do seu convívio social e jogando numa escola, há aquele sentimento de pertencimento a uma comunidade, a um grupo social. Esse debate chegou a vir à tona durante as discussões que levaram à aprovação da lei?
Valéria Ferreira –
Veio, veio à tona, sim. Antes, como não era uma obrigação, os pais tinham a liberdade de escolher se a criança fica ou não junto da família. Apesar de que a gente sabe que, atualmente, esse seio da família não existe mais como era há alguns anos. Talvez, hoje, a criança ao ficar em casa fique até mais abandonada, não tenha quem olhe por ela, muitas vezes fica com pessoas inadequadas, fica fazendo atividades inadequadas, só na frente da televisão… Então é polêmico, porque há esses dois lados. Agora, não é porque vai para uma instituição de educação infantil que vai ser ruim. Lá deve ser um lugar de desenvolvimento. O que alguns educadores pensam é que, talvez, não precisasse ser em período integral, porque senão a criança passa toda a infância dela institucionalizada. Tem crianças que passam cerca de 12 horas na instituição, de janeiro a janeiro. [A mudança na LDB é que o ensino a partir dos quatro anos de idade seja integral?] Não, não é integral. Mas acaba que os pais começam a solicitar que seja integral. [Mas quatro anos seria a idade ideal para que a criança comece a frequentar uma escola?] Hoje, as crianças já estão na educação infantil. Isso é fato. Tanto pelas mulheres no mercado de trabalho quanto por algumas famílias que precisam complementar o sustento, já que a escola oferece alimentação. As crianças já tão indo bebês à escola. A educação infantil, por lei, é até os seis anos. Agora, é até cinco anos e alguma coisa. Então, essas crianças já estão numa instituição. A obrigatoriedade vem muito mais como uma forma de forçar essas vagas a realmente existirem pra todos. [E a sua opinião enquanto pedagoga e enquanto docente do ensino superior?] Olha, enquanto cidadã, eu acho que isso deveria ser uma escolha da família. Acho que cada vez mais há uma intervenção do Estado na forma de ser e estar das famílias. Nesse sentido, acho que é ruim. Mas, por outro lado, é importante ter essas vagas. A nossa realidade, sobretudo aqui, em Itajaí, é muito diferente do restante do Brasil. Em alguns lugares, não há educação infantil. Os governos e os municípios, que são obrigados a oferecer as vagas, simplesmente não oferecem. Então, acho que é pra tentar equilibrar essas diferenças no país. No nosso caso, na região, quase todas as crianças já estão. De qualquer forma, precisa ser um lugar que apoia o desenvolvimento da criança, que precisa ter fins educativos e nunca só ser uma justificativa para os pais poderem trabalhar. Essa justifica, sim, é lógica, é válida, mas é um direito da criança ter uma boa educação nesse nível de ensino. Então, tem que ser um lugar de qualidade, que trabalhe o desenvolvimento pleno, mas que não vise a escolarização. Uma preocupação também dos pesquisadores da área é a escolarização precoce. Com a obrigatoriedade instituída agora, algumas pessoas imaginam que se é obrigatório, então a criança vai ter que ser escolarizada. E não é esta a ideia. [Não tem obrigação de pré-alfabetização, então?] Não, não tem obrigação de alfabetização. Continuam os trabalhos que sempre foram feitos na educação infantil, que é promover o desenvolvimento integral da criança, que é trabalhar pela socialização da criança, respeitar a infância, os direitos das crianças. A preocupação é essa. E não é impedindo isso que vamos garantir os direitos das crianças. A gente tem que lutar pra que a infância seja plenamente vivida também dentro das instituições.

DIARINHO – Como não há provas ou testes como critério de promoção nas séries seguintes da educação infantil, como se pretende mensurar o desenvolvimento da criança nesse estágio?
Valéria Ferreira –
Não há critério nenhum. E isso também já é garantido por lei. Não há critério nenhum que possa interromper a passagem da criança para o ano seguinte. Isso se dá por idade. [Como, então, se consegue medir o desenvolvimento da criança?] Essa avaliação é de liberdade de cada instituição, e a avaliação é só para um acompanhamento dos pais. Ela não tem fins para promoção. E a gente tem que ficar atento para que isso não se reverta, para que as pessoas não comecem a querer outras coisas. Não há nenhuma maneira de retenção da criança em determinado período da educação infantil ou uma avaliação para fins de promoção. A avaliação é só para compartilhar com a família o desenvolvimento das crianças. [Essa avaliação possibilita, por exemplo, identificar problemas cognitivos ou de outra ordem?] Não. A ideia também não é essa. A ideia é o que a criança está desenvolvendo naquele espaço e não de fazer essas e outras avaliações. A não ser que seja um caso muito especial; aí, a escola pode recomendar uma avaliação por um profissional para identificar se a criança tem alguma deficiência. Neste caso, a escola só acompanha e encaminha. Mas não tem o fim de avaliar outros problemas.

DIARINHO – Por essa nova interpretação da LDB, a educação infantil não passaria a ser uma grande creche obrigatória?
Valéria Ferreira –
Pela LDB, a divisão é: até três anos, creche; de quatro a seis, pré-escola. Então, a gente chama a tudo isso de educação infantil. Tu queres dizer creche como lugar em que os pais só deixam as crianças? Se for isso, não vai ser uma grande creche, porque o conceito de creche é para crianças de até três anos. E é muito diferente o atendimento que se dá para uma criança com até três anos. Nesta fase, por lei, é dito creche. Quem trabalha na área não gosta muito desse nome, porque a educação infantil é como um todo. Mas, enfim, se diferencia. A creche é um atendimento que está voltado mais ao cuidado e ao desenvolvimento da criança. De quatro a seis anos, por lei, se entende o pré-escolar, mas que a gente batalha pra não ter essa ideia, de que é preparatório para o ensino fundamental. Ela não tem essa função. [Mas no que se refere a estímulos, por exemplo, o que difere uma creche desse atendimento de quatro a seis anos?] Não difere nada. É tratado como infância, com objetivo de desenvolvimento pleno e integral. A única diferença, agora, é por força de lei, que não tem a obrigatoriedade. Claro, ela tem um currículo mínimo. O governo tá tentando definir uma diretriz mínima nacional, mas não é um currículo escolar. Mas vai dizer como se deve fazer o desenvolvimento integral da criança. É lógico que são professores formados, que sabem a diferença das atividades, que essas atividades são lúdicas. Claro que até três anos você vai ter bebês, que precisam de uma atenção maior do que as crianças de quatro a seis anos. A atenção de que eu estou falando é uma atenção mais contínua, como banho, troca de fralda, alimentação mais individual. A forma de cuidar é que muda um pouco.

DIARINHO – Pelo que consta da mudança da LDB, a obrigatoriedade de manter as crianças na escola já a partir dos quatro anos vale pros pais a partir da promulgação da lei. No entanto, para os governos estaduais e municipais, foi dado o prazo de dois anos para a adequação. Não há um contrassenso, já que aos pais é obrigatório a partir de agora e aos governos, que são responsáveis por disponibilizar vagas, o prazo é de dois anos?
Valéria Ferreira –
Sempre as nossas leis, as nossas políticas públicas aparecem de forma muito flexível. Há interpretações diversas, os prazos aumentam… Aí, claro que fica esse contrassenso. [O estatuto da Criança e do Adolescente prevê punição aos pais que não cumprirem a determinação da lei que obriga manter crianças na escola. Mas se os governos têm obrigatoriedade só daqui a dois anos e os pais são obrigados a partir de agora, não pode haver um conflito aí?] Pode, sim. Já se cria, por sinal. É um direito da criança, uma obrigação do estado, mas não é dever dos pais. Mas se os pais querem, tem que ter vaga. Em geral, alguns pais procuram o ministério Público e, por força da lei, exigem a vaga. O conflito já tá instituído. A educação infantil sempre foi muito conflituosa, porque ela é uma instância municipal e muitos governantes não têm interesse na educação infantil, acham que ela demanda um orçamento muito alto, por isso vão deixando de lado. Se não são os pais a fazerem essa exigência, a sociedade começar a exigir, isso é deixado de lado. Mas acho que isso vai se organizando, vai melhorando, justamente nesse conflito.

DIARINHO – Há uma matemática que diz que, na educação básica, o governo brasileiro gasta em média R$ 1,5 mil por criança na escola. Na educação infantil é mais que isso?
Valéria –
É mais! [Muito mais?] Não sei te dizer agora os números, mas é mais. Uma criança, mesmo que ela fique só num período, precisa de alimentação, tem café da manhã, lanche, almoço… Se for para o período da tarde, tem o outro lanche ainda. Há crianças que ficam até as 19h e aí, então, precisa de mais profissionais para atender, são mais horas de trabalho e aí são mais custos. Os bebês precisam ainda de fralda, de outro tipo de atendimento. Os prédios, os ambientes físicos, precisam de uma série de outros cuidados. Nem todos os governantes são cuidadosos, mas por lei o espaço físico também exige uma série de especificidades. Não é qualquer sala, qualquer lugar. O ensino fundamental também, mas o ensino fundamental precisa de mais atenção nisso. Então, tudo isso deixa a educação infantil mais cara.

DIARINHO – Itajaí registrou, no começo deste ano, um déficit de quase cinco mil vagas nas creches. Qual seria o papel da universidade nessa situação?
Valéria Ferreira –
Nós não deliberamos nada sobre isso. A nossa única função é falar, é estar nessa discussão, é participar dos fóruns. Esse déficit é preocupante e precisa ser revertido, mas há que se tomar muito cuidado. Porque se a gente quiser de uma hora para outra, o que é que acontece? Haverá mais casas adaptadas, profissionais sem formação adequada… Mas principalmente os lugares, as condições físicas dos ambientes. Essas casas que são adaptadas ficam muito ruins. Então você tem, às vezes, na educação infantil de quatro a seis anos, 25 crianças em salas muito pequenas, com banheiros inadequados. E é tão ruim para as crianças quanto para os profissionais, pois as condições de trabalho caem muito. Fica muito mais estressante. Às vezes, são casas de dois pisos e você tem que cuidar das escadas. Embora pra abertura de um novo local é exigida uma série de documentos, tanto do conselho Municipal da Educação como dos bombeiros e do pessoal da Saúde, por exemplo, que é muito vigilante nesse sentido. Então, é preciso fazer isso com cuidado, porque às vezes as pessoas têm um discurso “vamos atender tudo de uma vez”, mas vamos botar onde essas crianças e com quem? Então, as coisas têm que ser feitas com muito critério.

DIARINHO – Há quem defenda a educação em período integral. Isso valeria também para as crianças na fase de quatro a seis anos?
Valéria Ferreira –
A gente tem que avaliar quem realmente precisa estar em período integral. Todas têm esse direito, de estar na escola, e agora com obrigação, mas nem todas precisam do integral. Acho que precisa ter esse equilíbrio, porque algumas necessitam e outras não. [Os critérios seriam necessidade de cuidados em casa, se os pais trabalham ou não e a questão do risco social?] O risco social, principalmente. Sou do conselho Municipal de Educação e, num outro período, em que também participei dele, era muito esse discurso “Ah! Aquela mãe que não faz nada, e a criança dela tira vaga de uma outra que tem a mãe que trabalha”. Ora, mas aquela criança, por conta da situação da família, precisa muito mais. Mas a outra criança, da mãe que trabalha, também tem direito. Então, a gente tem que ter esses pesos. Embora a lei não coloque nenhum tipo de critério e não faça nenhuma distinção.

DIARINHO – Recentemente, o início dos trabalhos das escolas em Itajaí foram atrasados por conta do calor. Em Itajaí, creches e centros de educação infantil estão adequados?
Valéria Ferreira –
Isso foi mais no ensino fundamental. Nós temos diferentes tipos de escolas. Temos escolas que já têm aparelhos de ar-condicionado, piso adequado, toda a infraestrutura. E temos também casas adaptadas que não são boas. Portanto, a gente tem essa diferença, por conta de ofertar mais vagas, devido a essa presa. E uma questão complicada que ainda não foi resolvida – e também não sei como resolver – é a questão da construção dos novos prédios. Esses processos de licitação atrasam, alguns prédios que mal foram inaugurados já tão rachando, caindo. Isso é um problema grande dessa estrutura governamental, que não é só daqui, mas de todo o Brasil, que é isso de processo de licitação, dessas empresas que ganham e fazem um serviço ruim. Isso é sempre um dinheiro que vai por água abaixo. Trata-se de um problema que eu não sei como resolver, mas que tem que ser resolvido.

DIARINHO – Entre os 65 participantes do programa Internacional de Avaliação dos Estudantes, o Pisa, o Brasil figura entre os últimos colocados. Isso pelos dados mais recentes, divulgados em dezembro do ano passado. Pelo programa, por exemplo, estamos em 60º lugar em matemática, 55º em leitura, 59º em ciências. Por que esse desempenho vergonhoso?
Valéria Ferreira –
É, é vergonhoso, sim. No entanto, essas avaliações internacionais vêm com padrões de outras realidades. É algo muito comparativo. É um pouco cruel esse tipo de avaliação. [Por quê?] Porque essas avaliações de grande escala mundial são bases para se promover políticas, mas ao mesmo tempo eles não têm interesse em promover políticas para alguns países. Por isso sempre vão ser testes que saem fora da realidade, que são com base em outros conteúdos, em outros currículos. O currículo do Brasil é ruim, mas ele também tenta se adaptar à realidade do país, que tem muitas diferenças. Então, o resultado desse tipo de pesquisa é um indício de que tá ruim? É! Ponto. Ninguém pode dizer que não é; não se pode negar. Mas a gente sempre tem que ficar muito atento a esse tipo de avaliação em grande escala. Ela tem outras vertentes por trás, também. Agora, que o que tá aí não é adequado, não é. A gente teve, historicamente, uma formação de professores que não é muito adequada. E essas leis e políticas que tentam melhorar, sempre deixam uma brecha pra ficar flexível. Aí, alguns [governantes] investem, outros não. Na própria LDB, quando fala da formação do professor, na primeira versão dizia “vai ser feito em nível de segundo grau, com o magistério”. Aí, toda a área da educação foi em cima e disse que não, que se a gente quer crescer, a formação do professor tem que ser em nível superior. Aí mudou, mas mudou pro “preferencialmente”. Então a lei ficou frouxa. São professores sem formação, e aí a lei é frouxa. Pra atender algumas realidades, alguns estados e alguns governos que não querem investir, afrouxam.

DIARINHO – Os professores continuam reclamando dos mesmos problemas de 20 anos atrás: salários baixos, pouca estrutura na sala de aula, pouco incentivo na formação e atualização profissional… O que temos que fazer pra que daqui a 20 anos o professor não esteja reclamando do mesmo problema?
Valéria Ferreira –
Precisa investir na educação prioritariamente. Investir em recursos. E vou dar a minha opinião: isto só vai acontecer quando realmente existir uma política que não for frouxa. Se é prioritariamente formado? Então é! Tem que ser uma boa formação? Tem. Não é qualquer local que faz formação de professor? Não é! Hoje você tem formação de professor em tudo quanto é local. Qualquer instituição forma professor. Então agora, se tá ruim, daqui a algum tempo a gente vai ver que vai estar pior. E às vezes há um interesse de que fique ruim. Porque quando você tem professores sem uma boa formação, você abre imediatamente um mercado lucrativo para livro didático, kit de grandes empresas pedagógicas, que vendem livro didático, formação, orientação etc. Você abre um mercado de formação continuada. São cursos, cursos, cursos. Isso é um mercado muito lucrativo. Então, também há um interesse em não ter uma boa formação.

DIARINHO – Passada uma década do alastramento dos cursos a distância, é possível dizer que eles realmente formam o educador com eficiência, ou se confirmou que são, em sua maioria, cursinhos “Walita”?
Valéria Ferreira –
Não é a modalidade o problema, mas sim quem oferece. Claro que na modalidade a distância, com a possibilidade tão frouxa da lei, que permite a qualquer lugar oferecer, você tem de tudo quanto é jeito. Há cursos a distância que são muito bem estruturados, organizados, cuidadosos, e esses são os que ficam em cima na avaliação, o que as pessoas pegam no pé. Para os outros, parece que todo mundo fecha os olhos. [Há uma deficiência na fiscalização por parte do ministério da Educação e das secretarias estaduais?] Para as universidades, essa fiscalização é bem rigorosa, mas para os institutos de ensino superior, não. É aquela coisa que ficou frouxa; você nunca sabe o que acontece. Eles estão sempre avaliados, com as suas licenças, com os cursos credenciados e, por outro lado, as universidades, como a nossa, comunitárias, mas também as federais e as estaduais, vivem sob um processo de avaliação contínuo e exigente. [Mas não é ruim essa pressão…] Não é ruim, pois significa que vamos melhorar a qualidade, mas a gente não sabe como os outros ficam. No Brasil, essa questão de “ah, vamos fazer a expansão do ensino superior”, tá sendo feita de qualquer jeito. Melhorar, pra mim, é quando se pensa em qualidade, expansão com qualidade. A expansão não foi pensada com qualidade, foi só para subir números e atender a essas políticas internacionais.

DIARINHO – O que mudou na educação brasileira da virada do século para cá?
Valéria Ferreira –
Mudou muita coisa. O mundo mudou. Essa questão da docência, a entrada das tecnologias… [O método em sala de aula mudou ou continua um professor gastando muita saliva?] Isso muda muito devagar, porque se trata de culturas que são cristalizadas. Agora, quando a gente muda? Quando os alunos mudam. Você já dá aula com todo mundo com seus laptops ligados. Isso provoca mudança também nas metodologias, pois você tá falando e os alunos já estão checando, indo lá na frente da informação. Pensava-se que, com o uso da tecnologia, a figura do professor não seria mais importante. Pelo contrário: com o passar do tempo, percebe-se que o professor ainda é fundamental. Um profissional que não domine o conteúdo, que não tenha uma boa formação, não trabalhe com pesquisa, os alunos derrubam. Porque eles [os alunos] já tão checando os dados no laptop, já estão adiante. [Essa evolução obrigou o professor a melhorar também?] Obriga, senão ele vai cair num faz de conta.

DIARINHO – Apesar de toda essa conectividade, há quem diga que as pessoas tenham cada vez menos contato direto umas com as outras. Os jovens estariam conversando menos, inclusive na escola, e preferem estar mais ligados em celulares, tablets e computadores. O que tem de exagero e de verdade nisso? Como o professor pode incentivar relacionamentos entre alunos, que não sejam os virtuais?
Valéria Ferreira –
A verdade é que essa nova geração é a geração touch. Eles estão conectados 24 horas por dia, quase. Não conversam pessoalmente. Você conhece as pessoas muito mais pelas mídias do que se fosse conversar com elas. Porque as pessoas, com o encantamento das mídias, acabam revelando facetas, as quais demorariam muito pra ser reconhecidas. As redes sociais mostram isso. As pessoas se abrem mais. Mas o que faltam são essas relações verdadeiras, em que você possa trabalhar mais com a solidariedade, a tolerância, porque essas coisas são cultivadas mais de perto, com a proximidade física. A gente vai ter que aprender a lidar com isso, porque nós, educadores, somos de outra geração. Alguns professores ainda se negam. “Ah! Eu não tenho rede social. Isso tudo é uma bobagem”. Mas a gente tem que ter, pra aprender essa linguagem, esse contato, pra que vá buscar melhor as soluções. Até pra saber tirá-los disso e entender se esse relacionamento é necessário e como vai ser. [Como a academia tá enfrentando toda essa revolução tecnológica?] Com muita dificuldade, porque a evolução dessas tecnologias aconteceu muito mais rápido do que as pesquisas. Já se discute muito, são temas muito polêmicos, mas não há consenso. As mídias chegaram pra ficar, então a gente não dá conta. Quando você conhece uma mídia, já tem uma nova. Isso vai trazendo acesso a muita informação. Na educação dos jovens, precisamos cada vez mais saber mediar as escolhas. Fazê-los serem leitores competentes pra discernir as informações, saber buscar as de mais qualidade, fazer escolhas. A educação vai ter que ser dirigida cada vez mas pra isso, ter uma leitura mais crítica de todos esses acessos a informações.

DIARINHO – Os professores têm saído da universidade prontos pra lecionar?
Valéria Ferreira –
Pronto a gente nunca sai, totalmente. Acho que o nosso currículo de Pedagogia é um campo de muitas forças. Muita gente tenta puxar pra um lado, puxa para o outro. Então, o nosso currículo acaba sendo muito generalista. Atualmente, um pedagogo, quando se forma, tem que ser habilitado pra trabalhar com ensino infantil, ensino fundamental. Sai habilitado pra educação técnica, EJA (educação de Jovens e Adultos). Então, é muito amplo. Lógico que você dá uma base, mas ele vai precisar, necessariamente, de aperfeiçoamento. Eu, pessoalmente, acredito que deveria ter uma base mais sólida, embora alguns cursos tentem prezar por isso. [A obrigação da formação continuada tem resolvido parte desse problema?] Não é uma garantia. Ajuda, mas não garante nada. Um colega fala que, se houvesse uma boa formação, ninguém precisaria de formação continuada. Agora, é lógico que o professor não pode parar no tempo. Esse novo contexto que está se delineando exige dele um constante aperfeiçoamento. Mas a gente tem diversos tipos de formação continuada. Tem algumas que são só pra gastar verba. Eu tenho tanto pra gastar, então faço um curso. Outras redes se preocupam em saber o que os professores precisam e discutem problemas mais locais, que são, na minha opinião, as melhores. Mas a formação continuada não garante qualidade. A gente precisa de outras coisas que garantam a qualidade na educação.

DIARINHO – Quando se fala em ensino, há duas correntes teóricas: uma que preconiza a formação humana e a outra mais técnica, que ensina o aluno o que ele precisa pra entrar no mercado de trabalho. Qual das duas deveria ser adotada pelo ensino público?
Valéria Ferreira –
É outro tema polêmico. Há algum tempo, isso era bem marcado. Você tinha a universidade para uma elite e pra uma classe trabalhadora o ensino técnico. Atualmente, há uma tentativa das escolas técnicas federais de terem pesquisa, um ensino mais sólido, equivalente ao diploma de ensino superior. A grande questão é: se tem a universidade, pra que ter o outro? Aí é uma guerra, também, de tomada de campo, de verba, lugar, profissionais. [O mercado tem feito pressão quanto a isso?] O mercado faz mais pressão no ensino médio. Tanto que nós temos o Jovem Aprendiz, do governo federal, que estimula e ajuda as escolas de ensino técnico. Claro que existe uma crítica pertinente a respeito disso. [Pertinente por quê?] Porque, como eu disse, se nós já temos universidade, pra que ter algo mediano, paralelo, outra coisa? No entanto, o ensino médio é um estímulo para muitos jovens. Eu não digo estímulo ao mercado de trabalho, embora toda política seja voltada para o mercado de trabalho e pra ajudar as empresas. Mas ele representa o ingresso do jovem ao mundo trabalho. Porque ele acaba conhecendo, se interessando. É uma porta para a formação dele também. E muitos desses currículos são bons. Eu conheço alguns currículos de algumas escolas técnicas de ensino médio, e elas têm uma metodologia muito interessante.

DIARINHO – Nós temos vivido uma onda de intolerância, em que as pessoas têm feito justiça com as próprias mãos. Inclusive, há o risco de um retrocesso nos direitos fundamentais e individuais das pessoas. Em entrevista recente ao DIARINHO, o escritor Frei Betto disse, literalmente, que a educação integral e de qualidade é uma das saídas pra esse problema. A senhora acredita nisso ou acha uma responsabilidade demasiadamente grande para o sistema educacional?
Valéria Ferreira –
Acho que é grande pra ficar no sistema educacional. Porque, de novo, a gente tá institucionalizando a infância e a juventude, achando que uma instituição do Estado, com regras, dê conta disso. E eu acho essa questão da intolerância muito maior. Intolerância são as questões de trabalho. Cada vez a gente tá mais regulado, em todos os sentidos. O mundo tá oprimindo muito as pessoas. Não são as redes digitais que estão provocando a intolerância: é a falta de tempo. Por que as pessoas brigam tanto no trânsito? Brigam porque são responsáveis. Não estou justificando, e sim fazendo uma análise. As pessoas querem chegar no horário, cumprir os compromissos. No caminho, vão ficando presas e cometendo barbaridades, uma em cima da outra, porque querem cumprir os compromissos. Você tá cada vez mais oprimido e não tem tempo pra cultivar uma amizade, se dedicar à família. Quem tem tempo? E essa cobrança, até de uma forma subjetiva, é muito grande em cima das pessoas. Vou dar um exemplo. O pai de aluno uma escola de educação infantil. Ele não quer só botar o filho porque é obrigatório. São poucos os que pensam assim. Quer que o filho esteja num lugar bom, que se desenvolva. É mito achar que os pais não se preocupam com a educação dos filhos. Querem um bom professor, ver o filho crescer feliz. Ao mesmo tempo, não há vaga. Se ele não cuida do filho, vai ter uma cobrança do estado. Aí, chega lá e não tem a vaga. Então, ocorre o que aconteceu semana passada, quando uma senhora deixou a filha com o prefeito [Jandir Bellini, de Itajaí]. Quer dizer que ela tá oprimida, sem solução. Se deixar a filha sozinha, responde ao ministério Público. Ao mesmo tempo, ela tem que trabalhar e chegar na hora. A empresa não quer saber se ela tem filho ou não. “Aqui, é uma profissional”; muitas empresas dizem. Não querem saber. Então, a pessoa fica sem saber o que fazer. Aí ela vai na Saúde e não tem um médico, e na televisão fala: “Não tome remédio sem receita médica”. Isso é horrível, você não poder se automedicar. Mas você não consegue consulta, não consegue exame. Vai ao farmacêutico e não consegue tomar o remédio; então, o que faz? Essas pequenas coisas vão te oprimindo e você vai ficando intolerante. Eu acho até que o nosso povo é muito pacífico. Mas, cada vez mais, cresce o número de pessoas que perdem a cabeça e acabam até educando pra intolerância. [Até que ponto vai o papel da Educação nessa questão da intolerância?] Ela vai fazer sua parte, mas não vai garantir. A gente pode vender o mundo colorido e, chega lá fora, não é. Ela tem a parte de cultivar a solidariedade com um grupo, amigos, fazer esse ambiente mais humanizado dentro da escola, educar mais pra uma questão da estética, da ética. Mas você pode ser o mais bem educado, chega uma hora em que seus diretos são negados e os deveres cobrados. Há um discurso divulgado o dia inteiro: coma bem, não tome remédio sozinho, cuide de sua saúde, vá ao médico, vá ao dentista. E você vai aonde? Você tá sozinho. [Pessoas cultas e educadas, então, não estariam livres dessa onda de intolerância?] Não estão, e sabe por quê? Você pode fazer isso na hora de um desespero, e as pessoas que têm um pouquinho mais de senso crítico também vão percebendo isso. Vão percebendo o quanto são manipuladas; reparando que as cidades, até então tranquilas, não estão mais calmas. O trânsito sufocado, as ruas cada vez mais apertadas e a natureza sendo destruída. Você tem seu senso crítico, por isso também pode perder a cabeça. As emoções acabam vencendo a racionalidade, e a racionalidade, de alguma forma, motiva uma emoção mais exaltada. Ninguém tá livre.

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