O QUE HOUVE?

Sabe que eu não sei? Quer dizer, até acho que sei, mas não consigo entender direito. Parece um “jogo dos sete erros”, uma cena em que a gente, cada vez que olha com mais atenção, nota mais uma coisa errada. Uma sucessão de erros.
Até onde consegui saber, o primeiro erro foi a prisão, numa das lanchonetes da UFSC, mais precisamente no CFH, de suspeitos de serem usuários de drogas. Prisão, por policiais a paisana, num local público, sempre chama a atenção. Numa universidade, então…
Daí, quando os policiais levaram os detidos para o bosque (tradicional local de meditação dos puxadores de fumo), várias pessoas foram atrás. Inclusive professores, preocupados com aquela ação pouco comum. O resto era mais ou menos inevitável: a solidariedade dos colegas, os curiosos, os que gostam de ver o circo pegar fogo criaram uma situação que encurralou os policiais, que chamaram reforço (que chegou rápido, como se estivessem ali por perto, esperando).
Primeiro vieram outros policiais federais, depois do batalhão de choque da Polícia Militar. Aí a coisa desandou de vez. Os policiais foram embora e os “baderneiros” (tem gente que gosta muito desta palavra) viraram as “viaturas” e foram, pra variar, “ocupar” a Reitoria.
E por que tudo isso? As drogas são um problema histórico na UFSC. A proximidade com os morros e o número elevado de usuários cria um ambiente difícil de controlar.
Por que então uma ação da Polícia Federal contra drogas gerou tal reação? Daqui de longe acho que houve uma trapalhada inicial de quem fez a abordagem e a prisão. É óbvio, mesmo para um leigo nas artes policiais, que o ambiente estudantil é facilmente inflamável e eles encostaram um fósforo num barril de pólvora..
Perto de onde houve a prisão, havia uma reunião de professores de um dos sindicatos nacionais da categoria todos, claro, habituados às lutas políticas. Correram para o bosque, quando ouviram o alerta de que a polícia estava levando estudantes. E dirigentes do Centro também foram pra lá. O que estava a polícia fazendo na UFSC às duas horas da tarde? Até vocês, se estivessem ali perto, iriam ver o que estava acontecendo.
Aí foram horas de uma conversa de surdos. A polícia federal só aceitava uma proposta: que a multidão se dispersasse e os deixasse em paz. Os interlocutores que falavam em nome da UFSC, não queriam que os presos fossem levados pela polícia. Queriam fazer valer a autonomia universitária.
A esta altura, os maconheiros já não estavam mais no centro da questão. O assunto já era outro: de um lado, fanfarrões e despreparados, alguns policiais diziam idiotices ameaçadoras do tipo: ““aproveite a democracia, porque se tiver uma ditadura você será o primeiro a dançar”. Um elenco de provocações que chamou a atenção dos mais experientes. “Parecia coisa orquestrada”, reclamavam, do outro lado, indignados com a insistência dos policiais. Estudantes e professores uniam-se na defesa da “autonomia ampla e irrestrita”.
Um capítulo especial da comédia de erros foi protagonizado pelo Super PF, o Superintendente da Polícia Federal, Capitão Nascimento, digo, delegado Paulo Cassiano Júnior. Indignado com a nota “de repúdio” que a reitoria da UFSC publicou às 23:30 da terça, o delegado parecia um garoto de colégio, chamando para a briga o desafeto e reagindo com o fígado a uma provocação. De uma autoridade da polícia federal esperava-se um pouco mais de visão estratégica. As ofensas que dirigiu à reitora da UFSC (“A reitora quer transformar a universidade numa república de maconheiros”, por exemplo) funcionaram como gasolina ateada a um fogaréu que, sem combustível adicional, poderia se extinguir mais cedo.
A reitora errou no tom da nota, até porque tinha pedido à Polícia Federal ajuda para lidar com o problema das drogas no campus. E o delegado errou no tom da resposta.Antes, a UFSC já tinha errado ao não acompanhar e treinar adequadamente seu serviço interno de segurança, do qual os alunos têm tanto medo quanto têm dos assaltantes, ladrões e traficantes.
O que deve preocupar a todos, é a tentativa de desqualificar uma universidade como a UFSC e os estudantes de uma maneira geral, por causa de um problema que embora exista há décadas, não é generalizado. Em ano de campanha eleitoral para a reitoria, há quem suspeite que, no fundo dessa “ação”, estejam adversários da atual reitora, tentando criar um clima de falta de controle, de ilegalidade e de “caos”, que lhes seria muito favorável.

Legenda:

Taí a síntese do “diálogo” de terça-feira na UFSC: o spray de pimenta “tamanho família” da Polícia Federal, acionado contra um perigosíssimo professor, que provavelmente estava armado com palavras letais. Foto: Marco Santiago/Notícias do Dia.

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