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O pico da Atalaia e os ariscos “locais”

Ivan Rupp, especial para o DIARINHO
ivanrupp@terra.com.br

Com o aumento de surfistas locais na Atalaia, começaram os atritos com os surfistas que vinham de fora, atraídos pelas praias propícias para o surfe do litoral catarinense, como Imbituba, Garopaba, Joaquina, Praia Mole, Guarda do Embaú, e, logicamente, o Molhe da Atalaia, considerada uma das melhores, senão a melhor, esquerda do Brasil.
Alvarenga fala sobre os motivos do início do atrito. “O pico da Atalaia ficou mais restrito porque os cariocas vinham pra cá, os santistas vinham pra cá e eles tinham um surfe mais desenvolvido, um equipamento melhor. Chegavam aqui e… pô! Naquela época nós não tínhamos nem roupa de borracha. Entrávamos com camiseta Hering, entendeu? A primeira roupa de borracha apareceu quando a mãe do Beto foi pra França e trouxe uma roupa de borracha pra ele… Três ou quatro de nós usávamos aquela roupa. (…). Os caras vinham com equipamento, todos preparados, e sem respeito. Então nós tínhamos que botar eles pra correr. A onda do Molhe da Atalaia é uma onda que só dá no canto, um pico só. Cinco seis pegando onda já ficava difícil. Aí deu aquela concorrência e nós tomamos conta. Os caras não respeitavam. (…). Hoje está diferente. Vê lá (Alvarenga aponta do Bar do Ivan, na beira da praia, os surfistas pegando onda no Molhe da Atalaia, no domingo nublado em que conversamos): Tem 15 na água disputando três ondas. É um esporte que todo mundo quer praticar, mas que depende das condições do mar. Então fica difícil. Fica estressante. Eu nem entro na água quando tem muita gente. Ou venho bem cedo, ou espero até meio dia, quando o pessoal sai e eu entro”, conta.
A defesa de seus “points” feita pelos nativos de cada praia propícia ao surfe recebeu o nome de “localismo” e existe nos principais “point breaks” do mundo. Na Atalaia não poderia ser diferente. Carlos Augusto Monteiro, o Ceguinho, diz como começou por aqui e dá sua opinião sobre o assunto. “Dois, três anos depois de começar a surfar é que eu comecei a observar o localismo, que só existia para o pessoal de fora. O Alvarenga foi surfar em Imbituba e correram com ele de lá. Então, a coisa veio para cá. O pessoal do Rio de Janeiro e São Paulo era muito debochado. Eles não tinham respeito pela gente, eles se achavam os caras. Entravam nas ondas de todo mundo, então foi um jeito de proteger a praia. Até hoje é assim. O que eu noto é que a violência aumentou muito. Antes era diferente, era mais na base do bate-boca. Hoje em dia se criou uma coisa de amor pelo poder na água, isso que desestimula a gente. O localismo acabou criando uma fama na mídia que faz com que as pessoas queiram se promover com isso. Muitos veem no localismo uma oportunidade de notoriedade e se valem da força para conseguir o que querem. É uma sociedade mais violenta hoje, e isso se reflete na praia. Por exemplo, o MMA não é a causa da violência, é um reflexo dela. (…).Mas acho que o localismo era uma coisa que precisava ser feita. Defender o que é nosso. O Molhe da Atalaia é um pico só. Não dá pra todo mundo”, comenta.

Uma corajosa nas águas do Atalaia
Jackie Rosa, jornalista e uma das raras garotas que se aventurou a entrar na água com uma prancha no final dos anos 1970, início dos 1980, conta sua experiência e analisa o localismo. “Vim do Rio de Janeiro para Itajaí passar as férias de julho de 1979, com amigas. Garotas surfando por aqui era uma coisa que não existia, e minha avó, e minha tia, mãe do Sanho, que era meu primo, ficaram muito apreensivas com a nossa determinação. Mas vim pra pegar onda. A gente chegou na Atalaia com uma Brasília preta, com placa do Rio, e logo que eu parei na praia furaram o pneu. Eu tinha 15 anos. O Aquiles, que chamavam Jacaré, acabou ficando nosso amigo e a hostilidade parou. Logo, os meninos já sabiam que o carro era da gente e houve uma aceitação pelo fato, eu acho, de sermos garotas. (…). Mas o localismo era “punk” na Atalaia. E quero deixar uma coisa clara aqui: eu não sou contra o localismo, eu sou contra o barbarismo. Acho que tem que haver um respeito pelo local, pelo nativo, pelo pico. Um pico “crowdeado” não dá mesmo. Neguinho pensa: “Então eu moro aqui e não posso pegar onda?”… Ainda mais uma onda como a da Atalaia, famosa no Brasil inteiro. Hoje não é mais assim, mas o mito ficou”.
Jaime Guimarães também dá seu testemunho sobre as causas e efeito do localismo na Atalaia. “O localismo surgiu entre 1977 e 1978. Isso eu posso contar porque eu vivi. Tem muita gente que fala: “Ah o cara fez isso, fez aquilo”… Não, não fez. A gente era muito inocente, a gente recebia muita gente de fora aqui. E, assim como começamos a sair pra descobrir novos picos e tal, vinha gente pra cá também. Vinha muito pessoal de São Paulo e do Rio. Pô, a praia era de todo mundo, mas começou a vir muita gente mesmo. Vinham de Kombi. Não respeitavam e começaram a tomar conta do pico, e nós ficamos chupando o dedo. Até que um e outro começaram a ser mais agressivos com os visitantes, tipo, “Pô, aqui é o nosso quintal, né?”. (…). Tem histórias de que o pessoal saía d’água, jogava pedra, e tal. Quando o pessoal começava a incomodar dentro d’água, tinha gente nossa que ia lá e detonava os carros dos caras. O problema aqui se agravou, foi exagerado, porque aqui tem um pico só – falo da Atalaia. É uma onda pra 30 pessoas. Tu vai na Joaquina, lá tem o seu localismo. Mas a Joaquina é extensa, vai até o Campeche, vai até não sei aonde… Aqui não, é um pico só, e deu”.
“Acho que tem que ter respeito e tem que ter abertura. Eu sempre critiquei o localismo porque a gente teve um atraso muito grande na evolução do surfe porque a gente se fechou. Só agora uns e outros estão se destacando. Porque, lógico, se tu não dialogas, tu não vais ter um intercâmbio, uma troca de cultura. Esse atraso rolou. (…). Veja Balneário Camboriú, que sempre foi mais aberta: Teve o Teco Padaratz se destacando, o Neco, o Davizinho Husadel, o Saulo Lyra… O Saulo começou aqui, nas primeiras turmas”…

Cut-back
Ao contrário do que os críticos do surfe dos anos de 1970 vaticinavam, a turma da “malandragem” da praia da Atalaia se transformou em competentes profissionais. Advogados, médicos, engenheiros, empresários, um piloto de avião, cinegrafistas e jornalistas estão entre as profissões que os primeiros surfistas da Atalaia escolheram para seguir carreira.
Mais do que isso, o estilo de vida do surfe marcou sua influência nas gerações que se seguiram e que herdaram desse esporte o amor pelo mar e pela praia, pela vida mais simples e despojada e pelo respeito à natureza.
Nas ondas do Molhe da Atalaia grandes amizades foram feitas e se perpetuaram pela vida afora, preconceitos foram quebrados, e uma bela história de amor ao esporte, à liberdade e à amizade foi escrita.
Sob o sol da Atalaia nos anos de 1970, uma geração nascida sob a égide da caretice e da repressão de direitos e de costumes achou um jeito de florescer com juventude, beleza e alegria, passando esse legado às gerações que vieram depois, e que continuam a entrar no mar, todos os dias, atrás da onda perfeita.

Localismo imperava até nos campeonatos
Jaime Guimarães volta à questão do localismo e suas pendengas ao contar a história do primeiro campeonato de surfe promovido na Atalaia. “Esse episódio se refere a um campeonato de surfe que aconteceu aqui, promovido pela Gledson, que o Felipe Graf trouxe. Começaram as baterias, e um e outro dos nossos entraram no meio das disputas para atrapalhar os surfistas de fora e tal. Dizem que chegaram a jogar um carro no canal do Itajaí-açu na época, em protesto, era o auge do localismo. Mas, de real, a única coisa que houve é que a noite o pessoal queimou o palanque do campeonato. Ponto. No geral, foi uma festa. E o pessoal fala assim como se fosse uma coisa do outro mundo… Houve uns atritos, mas não foi aquela coisa que se prega hoje. Isso não existiu. Ficou a lenda”, conta.
Álvaro Rocha Kenig, o Alvarenga, fala sobre o episódio e sobre a evolução que se seguiu no surfe local. “Antigamente – pelo menos eu e alguns amigos com quem eu andava –, não éramos chegados a campeonatos. Achávamos o surfe um esporte mais livre e não queríamos muitas regras. Quando fizeram o primeiro campeonato de surfe aqui na Atalaia, da Gledson – aliás, fizeram e não chegaram a completar –, a gente se revoltou. Tentamos boicotar o campeonato e tudo mais… Mas depois vimos que não tinha mais volta. Era um esporte que estava em ascendência e deixamos livre pra qualquer um que quisesse. Não intervimos mais na questão dos campeonatos”, relembra.
“Nós fomos os primeiros a fazer surfaris por aqui. Fizemos amizade com o Antônio Catão (hoje falecido), que morava em Imbituba e tinha muito contato com o pessoal do Rio. Eles faziam prancha e pegavam onda: o Iko, o Mudinho, o Perdigão, etc… Começamos a negociar pranchas, parafina, íamos para Imbituba e trazíamos mercadoria para vender pro pessoal daqui. Um intercâmbio entre Itajaí, Imbituba, Farol de Santa Marta, Guarda do Embaú, esses lugares. O Morongo começou em Garopaba a Mormaii. Tinha o Víctor Vasconcelos, que quando vinha do Rio ficava na casa do Antônio Catão, e eles pegaram e fizeram uma oficina de prancha na garagem da casa do Antônio, a Vic-Stick, e a gente encomendava pranchas com eles. Todos fizeram pranchas com eles: eu, o Reiser, o Ceguinho, o Jaime, o Dênis, todo mundo. A gente encomendava por telefone e ia lá buscar”.
Aos poucos uma rede de fornecedores e distribuidores de produtos de surfe foi se formando em Santa Catarina, a exemplo do que já ocorria no Rio, em São Paulo e em outros grandes centros. Num efeito não previsto, pelo menos por aqui, o surfe saiu da praia e ganhou as ruas se transformando numa grande indústria.
Quem comenta é a jornalista Jackie Rosa, que sempre teve sua carreira próxima ao esporte e ao surf style. “Eu tenho me especializado em jornalismo de moda e te digo uma coisa: até hoje o surfe dita moda. Vejo que a produção de costureiros famosos como Armani e Dolce & Gabbana muitas vezes é inspirada pelo surfe. Eles dizem: vou fazer a coleção em azul porque é muito mar, muito surfe, é tudo muito life-style. Eu acho que esse conforto de se viver melhor e mais apegado à natureza se deve aos primórdios da galera do surfe, que se preocupou sempre com a natureza, com a praia. Preocupação que existe até hoje, de brigar quando neguinho está invadindo a restinga, brigar pela praia limpa, pelo point. Acho que essa consciência vem lá de trás, dos primórdios (…). As grandes marcas internacionais refletem um modismo que deu certo porque era um estilo de vida”.

Estilo de vida
Surfe era estilo de vida mesmo. Na opinião dos pioneiros do surfe local, o estilo de vida da praia foi levado para a vida que se seguiu. É Ceguinho quem nos conta:
“Quando o surfe entra no teu sangue, muda a tua vida. Tu vais acompanhando o swell, acompanhando o tempo, as variações do tempo. Tu começas a acompanhar o clima, a natureza fala contigo, o vento e tal. Se chega um amigo e diz pra ti: ‘Pô! Tem altas ondas na praia!’… O teu coração já dispara, acelera… O trabalho luta contra a vontade de surfar e você fica querendo achar um jeito de se mandar dali e ir pra praia. (…). Hoje em dia, fiquei mais tranquilo. Vou no sábado, no domingo, não me preocupo mais, virou um hobby. Embora continue no sangue, mas não é mais a mesma coisa… Antigamente, Deus me livre, cara! Se tu não passasses na praia parecia que alguma coisa ficava faltando. Se o cara perdesse aquele swell, naquela data, parece que ficava faltando alguma coisa na vida. Aí tu ias lá, pegavas onda, voltavas, e ficava tudo legal… Às vezes, eu estava estressado no trabalho, ia pra praia e, quando eu voltava, parecia que eu vinha deslizando no gelo, patinando, não tinha problemas, não via problema em nada, me sentia leve, parece que descarregava tudo. (…). Hoje, o mar já é outra coisa pra mim. Não precisa estar tão grande, pode estar pequeno, tu podes estar sozinho, tu já começas a valorizar outras coisas. Já começas a dar valor ao pé na praia, à natureza toda em volta, começas a sentir a água batendo em ti, ficas mais contemplativo. Antes a coisa era evoluir, era comprar equipamento novo, o desempenho, trocar informações, buscar estilo, e tal”.
Alvarenga relembra como o surfe funcionou em sua vida. “Nunca deixei de surfar. Claro que diminuiu a frequência, mas nunca deixo de entrar quando o mar está bom, vou pra fora, outras praias, fui pra Costa Rica e tal. Eu trouxe do surfe saúde, disposição, contato com a natureza e com o mar. E a amizade. Fiz vários amigos na praia, na Atalaia”, e relembra, saudoso: “As ondas não entram mais como entravam antigamente, com aquela frequência. Entravam séries de cinco, seis ondas, tudo na mesma linha, todas perfeitas. Hoje entra, mas não entra com a frequência que entrava antigamente, talvez devido ao alargamento da boca da barra, não sei. Uma baita esquerda. Quando queríamos pegar ondas de direita íamos para Navegantes, tinha uma boa direita lá, grudada no molhe, tão boas quando as esquerdas da Atalaia. Agora tá mais difícil”.
Jaime Guimarães reflete sobre a influência do surfe em sua vida. “Levei essa influência do surfe e do mar pra minha vida. Mais tarde, fui fazer Biologia, e comecei a fazer documentários submarinos. Continuei surfando até 1989, 1990. Aí foquei no profissional e deixei o surfe de lado, mas não o mar”, recorda.

Dropando nas ondas da Atalaia
Remando contra todas as dificuldades e improvisações do início, o surfe na Atalaia evoluiu acompanhando a ascendência do esporte em todo o litoral catarinense. Pequenas empresas surgiram e, também, um comércio voltado para o esporte e estilo de vida mais livre e despojado dos surfistas, que confrontava com o clima cinzento da ditadura militar brasileira daquele período.
A falta de equipamentos nacionais para a prática do surfe e a demanda criada pelo público que aderiu ao surf style fez surgir mais e mais empreendimentos voltados a uma juventude que cresceu sufocada pelo conservadorismo exacerbado da ditadura de costumes decorrente da rigidez do regime militar.
Com quase 10 anos de atraso em relação aos Estados Unidos e à Europa, uma espécie de era hippie tardia invadiu, via galera da praia, a primeira geração dos filhos da ditadura que chegava agora à adolescência.
Jaime nos conta como esse movimento econômico e de comportamento, sem data comemorativa, sem discurso e sem bandeira começou. “O Lars e o Marreco faziam pranchas aqui, mas logo foram para Florianópolis porque lá o mercado era melhor. Fizeram a Barra da Lagoa, que era uma prancha melhor, menor. A primeira prancha que comprei deles foi uma 6.6, menor que as 7.0 que se usava então. Na época, quando eu cheguei na praia, o pessoal dizia: “Meu Deus! Tu não vai conseguir surfar com ela. É muito pequena! (risos)…Hoje se usa pranchas 5.0”… Eu senti a diferença logo, era uma prancha muito mais rápida, muito melhor”, relembra.
“Aí descobrimos o Victor Vasconcelos, de Imbituba, que fazia as pranchas Vic-Stick. E foi todo mundo pra lá. Formou-se na época uma galera catarinense que praticava o surfe, eram poucos, mas ocupavam o litoral. E era uma galera marginalizada. O surfe era coisa de vagabundo, de maconheiro… A gente passava um perrengue. Era discriminado mesmo. Principalmente pelo estilo de vida… Mas te falo o seguinte: 80% ou 70% nem usavam drogas. Mas usavam o cabelo comprido, a roupa rasgada, a camisa florida, diferente. E era muito recente a coisa do surfe e aquilo assustava as pessoas”, conta.
Para Jaime, o esporte veio como uma prática e um estilo de vida. “O contato com o mar foi uma descoberta que veio pra minha vida e veio pra ficar. Trouxe essa energia, essa coisa da natureza. Porque eu voltava pra casa deslumbrado, com a cabeça leve, com o corpo e a mente em forma. Eu acordava às seis da manhã no final de semana e ficava até uma hora da tarde dentro d’água. Vinha pra casa almoçava e voltava… Essa descoberta do mar, do surfe, da amizade, a coisa cultural que vinha junto… Todo mundo aparecia com uma novidade o tempo todo”, recorda.
Nessa mesma época surgiram os surfaris, as surf trips atrás de ondas. A primeira que Jaime fez foi para Matinhos. “Fomos eu e o Paulo Reiser, no Fiat 147 dele, bege, cor de burro quando foge. O meu pai deu a gasolina e lá fomos nós… Tinha o pessoal que ia para Imbituba. Depois descobrimos Garopaba… Lá eu conheci o Morongo, que depois veio a montar a Mormaii. Ele fazia roupa de borracha que ele mesmo cortava, com tesoura, na garagem da casa dele. Ele era um médico que veio de Porto Alegre pra trabalhar em Imbituba. Aí descobriu Garopaba, tinha uma casa de frente para o mar, que tem lá até hoje, acho. E, em Garopaba, se tinha o contato com os pescadores, que foi uma influência, também, na simplicidade, no modo de vida despojado que adotamos. (…). Eu comprei o meu primeiro sleeve Long John (roupa de borracha, em neoprene) lá na casa do Morongo. Não foi em loja. (…). O Felipe Graf teve a visão de apostar no Morongo e vender seus produtos na Giorama. O Felipe é que trouxe a Mormaii pra cá, ele era ligado em inovações, patrocinava campeonatos e tal. Inclusive aquele polêmico patrocinado pela Gledson”, relembra.

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