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O olhar e o ver

A visão é o órgão dos sentidos que nos faz reconhecer a luz, as formas, o tamanho das coisas, os espaços que estão à nossa volta. Entretanto, é o olhar que nos faz ver. José Saramago, no seu livro “Ensaio sobre a cegueira”, diz: Se pode olhar, vê.

O ver é concreto, o olhar é subjetivo. Muitas vezes, nós vemos o que os outros nos mostram e consentimos como se fosse o mais certo e verdadeiro.

Escritores e poetas têm escrito sobre o olhar e o ver. Letras de composições românticas nos falam sobre a cor dos olhos com interpretações apaixonadas. Os russos tornaram imortais os olhos negros; os portugueses exaltam a canção “Teus olhos castanhos, de encantos tamanhos, sinceros, leais”; e os castelhanos emocionam cantando “aqueles olhos verdes, translúcidos serenos, parecem dois amenos pedaços de luar…”, traduzidos para o português e tantas vezes interpretado pelos nossos cantores.

Nos dias atribulados de hoje, deixamos de olhar os espaços por onde andamos todos os dias, tirando a magia que existe à nossa volta. O que nos cerca, o que é comum para nossos olhos passa a não ser interessante e deixamos de olhar para ver e tudo parece um vazio. Se alguém nos perguntar o que vimos no caminho percorrido, não saberemos responder. A rotina não permite que vejamos. De tanto ver, não vemos mais.

Com um olhar, podemos ver para expressar alegria, tristeza, mas outras vezes, mesmo com os olhos bem abertos, não vemos porque escolhemos não ver. Tudo é uma questão do que fica registrado pelo nosso olhar. Por isso dizemos que o olhar é subjetivo. Cada pessoa vê o mundo de acordo com as características da sua própria vida.

Alguém já disse que precisamos olhar cada coisa como se fosse a última vez, isto é, olhar e apreciar tudo o que se vê. Em geral, vemos muito, mas olhamos pouco. Quando paramos para olhar alguma coisa, precisamos nos desligar de certos conceitos para presenciar, através do olhar, o que é imperceptível. É preciso ver com a visão e o coração.

Há uma grande diferença quando experimentamos ver como se fosse a primeira vez aquilo que vemos todos os dias. Nossos olhos ficam desgastados com o ver todos os dias. As crianças veem o que os adultos não veem. Têm os olhos atentos e limpos para admirar as belezas do mundo. O poeta consegue ver o que de tão visto ninguém mais vê. Um olhar deve ver além do supérfluo. Já escreveu Exupéry que “às vezes, os olhos são cegos. É preciso buscar com o coração”. É assim que se evita o monstro da indiferença. O ver também pode determinar um olhar de saudade por alguém que já partiu ou de esperança aguardando alguém que vai chegar. O olhar de cada um vai estabelecer a diferença entre o viver de todos.

É preciso olhar para ver a riqueza do viver de cada dia. Às vezes, nós olhamos o que víamos num determinado tempo e não percebemos o que está acontecendo no presente. Quando paramos para olhar o que iremos presenciar, percebemos o imperceptível.

O olhar nos remete a uma reflexão, necessita atenção especial. É mais humano, mais caloroso, é um momento de contemplação para sentir o que acontece conosco e com o mundo à nossa volta.

Entre o ver e o olhar, existe uma relação, pois para olhar é preciso ver, e depois de olhar, novamente ver, num movimento que envolve sensibilidade atenção.

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