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O (escárnio) sorriso da prosperidade

Por Luiz Fernando Ozawa

Tentar falar sério sobre a corrupção é difícil em tempos de verborragia inquisitória. Tudo vale em nome “do bem”. Tempos em que apontar o dedo é esporte, e olhar-se no espelho é trágico. O sorriso é brilhante, alvo clareado, esteticamente um estandarte em homenagem ao “sucesso de bem”.
Existe uma pretensa lista de milhares de brasileiros que possuem mais de um trilhão de reais em contas bancárias de um grande e multinacional banco com sede em paraísos ditos fiscais. Entre os ilustres cidadãos brasileiros que “prosperaram” e depositam suas riquezas para além-mar, vários são os rostos conhecidos na lista, alguns “comunicadores” das grandes empresas de comunicação e jornalismo. Pessoas “de bem” com vários milhares acolá.
Agora estoura outra operação da qual empresas (as maiores em seus ramos), renitentes devedoras de volumosos valores (sim, os mesmos que deveriam financiar políticas públicas e etc., criancinhas indefesas e etc.), parecem ter pago porcentagens da real dívida para escaparem de multas administrativas em conchavos na sorrelfa da ilegalidade. Famílias tradicionais do alto capitalismo nacional estão entre os envolvidos. Aqueles que são reverenciados (e invejados) em encontros da “high society”.
Pouco, para não se dizer nada é divulgado. O jornalismo investigativo contra si mesmo não funciona, não quer funcionar. Quem investiga o jornalismo investigativo? Bingo! O comum denunciante não gosta de ser denunciado, como o palhaço que não sabe rir de si. Também se molha quem está na chuva. Dizem que aquele bom moço norueguês de olhos azuis herdou do pai o mapa da mina (literalmente), de quando foi ministro em épocas anti-democráticas, de ditadura civil-militar. E por aí vai a meritocracia, de quem “fortuna” (sorte) tem, talvez.
E assim se descobre a faceta privada da corrupção. Entre as migalhas porcentagens que os agentes públicos recebem, estão os exorbitantes lucros dos entes privados, esses sim, que sobre os escombros da tragédia social brasileira, sobre os crânios desdentados de cadáveres raquíticos, sobre os pés descalços das crianças barrentas nas escolas sem teto, enfim, gozando sobre a República que apodrece no ventre sem nascer, e eis a “livre iniciativa” tupiniquim.
Essa pretensa prosperidade sem ilegalidade é tão rara quanto à condenação dos beneficiários de suas corrupções, que não raramente posam de heróis idolatrados como semi-deuses a quem se requer tomar de exemplo, defensores da moral, dos bons costumes, da “famiglia” (sic), como nos enredos de Coppola.
O sorriso dessa prosperidade é um verdadeiro deboche social. Liberdade? Igualdade? Ilusões alimentadas por “very important people” que detêm o oligopólio das ilegalidades maiores do submundo do capitalismo moderno, travestido de prosperidade instantânea, repentina e vertiginosa. Desse grupelho “especial” é que saem as maravilhas do discurso meritocrata, da “pouco”-ajuda, “você também pode”; “basta querer”; “o sol nasce para todos”; “acordar cedo, lavar a cara”; “mérito”; “fortuna” e outras falácias mais.
O sorriso do deboche, da sacanagem. O sorriso não é novo, é que o senso comum agora passa a entender o que para muitos é velho: a prosperidade repentina, o “milagre social” (ascensão meteórica) não existe, ao menos dentro dos parâmetros legais, morais e éticos, salvo raríssimas exceções – talvez das quais não conhecemos.

Paraísos fiscais
LEITOR – E a lista dos brasileiros milionários com contas em paraísos fiscais? E a grande mídia que é pega pagando propina contra multas fiscais?

OZAWA: O primeiro caso é emblemático. Por intermédio de ações (talvez até criminosas) ficamos sabendo da existência de ilustres brasileiros com mais de um trilhão de reais fora do país. A curiosidade reside em como aquele dinheiro foi parar lá, e qual a sua origem, e se foi declarado por seus “titulares”. No segundo caso, ainda é cedo, mas as investigações dão conta de pagamentos de propinas a mando de grandes empresas, grandes devedoras de impostos, inclusive a maior rede de comunicação do sul do país.

ADVERTÊNCIA: As ideias e opiniões expressas nesta coluna não são consultas ou pareceres. O Direito é uma ciência e por esse motivo comporta posicionamentos, ideias, críticas, teses e antíteses. As leis são de domínio público, assim como os posicionamentos dos Tribunais, mesmo assim, para o seu caso específico, sempre procure um advogado habilitado para orientação, saiba mais na OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) mais próxima.

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