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Meritocracia pra quem já nasceu merecido

Luiz Fernando Ozawa

Cena: o Príncipe de Aragão chega para o desafio de escolher o baú certo para casar-se com a linda Pórtia (e toda sua fortuna, claro). Rodeado pela comitiva real, inclusive pagos para rirem de suas infames piadas, faz seu discurso invocando o “mérito” (seu, claro). Quando abre o baú prateado, a surpresa… um palhaço, a imagem de um “idiota sorridente”, e sua perplexidade é evidente. E o príncipe se pergunta: “Não mereço mais que a cabeça de um tolo?” (…) “Meu mérito não passa disso!?”. E a linda Pórtia lhe retruca sabiamente: “Ofender e julgar são ofícios distintos, de naturezas opostas”. E no grande ato de autocrítica, o Príncipe de Aragão arrebata em tom melancólico: “Com uma cabeça de tolo vim procurar o amor, mas com duas eu vou-me embora”.

A obra literária “O Mercador de Veneza” é cheia de mensagens das mais variadas entre o romance que se passa no triângulo amoroso Mercador-Bassanio-Pórtia, além de ser uma bela estória shakespeareana, como de costume.

Traz uma série de questionamentos culturais e parece bem atual em vários sentidos, muito embora tenha mais de 400 anos. Em pleno 2014, um senador da República, derrotado nas eleições presidenciais, após lutar para chegar ao segundo turno (com aproximados 35 milhões de votos) e se dizer representante de 51 milhões de pessoas (o total de votos de todas as oposições), usou a tribuna do senado Federal – que dizem ter chegado só na parte da tarde – para proferir o discurso também de incentivo à meritocracia (e por muitos aplaudidos).

Mérito é um merecimento. Mas, afinal, o que é merecer? O que faz uma pessoa ser “merecedora” e outra “não-merecedora”? Força de vontade? Honestidade? Saúde física e psíquica? Quais outros tantos valores morais (axiomas) podemos inventar para dizer o que é ou não “merecimento”? Desmerecedora? O que faz, por exemplo, uma miss ser miss? A musa das musas? Ou ainda, quais seriam os critérios de desempate entre os mais merecedores para desmerecer um tanto mais que o outro desmerecido?

Meritocracia é uma espécie de governo dos merecedores. Também por vezes associado à tecnocracia, que é uma espécie de governo dos que “conhecem”, que têm estudos formais. Seria mais ou menos que trocar a democracia (eleições gerais livres) por uma espécie de concurso. Quem melhor se saísse, representaria os demais. Pois bem, tal tese é bem comum, e sempre volta quando uma minoria “esclarecida” perde uma eleição democrática. E aqui não foi diferente. E a meritocracia? Só os que merecem? (Mas, afinal, o que é merecer???)

A democracia é a chance dos desdentados, dos palhaços, dos semianalfabetos, dos travestis, das prostitutas, dos negros, dos orientais, dos doutores, dos jovens, e de tantas outras estratificações sociais que, malgrado sejam “minorias” nesta complexa sociedade, possam ascender aos poderes e representar os seus iguais. É dizer: eleição não é concurso, e concurso não é eleição. E que bom que temos ambos. Até porque há que se ter liberdade de escolha, dos doutores votarem em semianalfabetos e semianalfabetos votarem em doutores, isso só para exemplificar a parte “técnica”. Há quem defenda eleição para o funcionalismo público, por exemplo, ou sorteio para os mandatos antes eletivos, mas esse é outro tema.

Para um bon vivant nascido e crescido no carpe diem, da alta sociedade em que as providências e os provimentos já estavam à disposição sem qualquer esforço, bastando eleger o futuro dentro do leque de oportunidades que se abre diante de si, falar em meritocracia é o mesmo que o dono do pesque-pague ficar vociferando: “tem que ensinar a pescar e não dar o peixe”. Pois bem. Não se dá conta o senhor do pesque-pague (nem o príncipe bon vivant), que onde não há água, não há peixe, onde não há varinha, linha, pesca, não há pescaria. E mais: onde as pessoas se alimentam das iscas, o peixe é o humano. Ensinar o que mesmo? Caia na real!

A meritocracia pode confundir a sua cabeça, e não multiplique a tolice, já dizia o Príncipe de Aragão, que além de não ter Pórtia, seu mérito foi tão somente ter duas cabeças.

Liberdade de escolha

Leitor(a): Vi na internet que tem gente defendendo que a escolha de políticos deveria ser por concurso ou seleção. Não seria uma boa?
Ozawa
: Não, não seria. A democracia não comporta tecnocracia ou meritocracia, do ponto de vista de mandato popular. A liberdade de escolha está não só de quem pode escolher como de quem pode ser escolhido. É via de mão-dupla. Restringir quem pode ser escolhido também pode ser um passo para restringir quem pode escolher (há teses mal feitas a respeito disso). Ou seja, restrições de cunho morais (valores) na democracia não são bem-vindas. Não foi para isso que muitos morreram em 30 anos de lutas no Brasil.

Obviamente que no setor público haveriam de diminuir os cargos de “confiança” em todos os níveis e esferas da República, até como sinônimo de maior controle e prevenção de corrupções das menores para as maiores, mas isso já é outro tema.

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