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Mais turismo, menos água, mais esgoto

A equação título da crônica não é minha. É da própria empresa pública que fornece serviço de água e esgoto. Na microrregião do litoral norte de Santa Catarina, a justificativa pela falta d’água foi uma só: excesso de consumo. Uma cínica fuga para a falta de investimentos públicos nesta área.
Em plena data máxima da temporada de verão, na virada do ano, naquele que é considerado o “balneário mais badalado do sul do Brasil”, faltou água (e alguns moradores afirmaram que vertia esgoto pelas ruas). Mais uma vez é bom lembrar que nesta região, especialmente a cidade, está posicionada no topo do IDH, e dado os iates, carrões, coberturas e produtos em lojas “diferenciadas”, evidente que há uma camada da sociedade que goza de uma riqueza muito incomum pelo Brasil.
Mesmo assim faltou água. Sobrou esgoto. Triste realidade para aquela que insiste em querer ser o “melhor balneário” para o turismo. Os melhores tempos da cidade passaram, ficaram no passado. É difícil se conformar, afirmar isso, porque dói pensar que já fomos melhores, mas já era. A curva se fez há tempos, e a decadência é uma realidade inegável. Como querer ser o melhor se nem água e esgoto se oferece? (Isso para ficar só nas condições mínimas da dignidade da pessoa humana, também bem claras na Constituição da República).
O problema são os chuveirinhos da avenida Atlântica? Ou será as donas-de-casa lavando as calçadas? Ou ainda as lavações de carro? Se queremos soluções para o problema, temos que ser mais sérios neste debate e isso quer dizer imediatamente parar de reproduzir o discurso que interessa: a projeção de culpas. A psicanálise trabalha bem com isso: na fuga de assumir seus erros próprios, projete-os nas outras pessoas… é mais fácil. Assim fazem os gestores, vejamos a empresa local de água, em nota de 30/12: “[…] o consumo de água na cidade está alto em demasia e aumentando, fazendo com que os reservatórios percam carga muito rapidamente. Isto poderá, em determinado momento e se o consumo continuar crescendo, causar deficiências no abastecimento.”
Ora, a cidade tem mais de 50 anos, vive ao menos mais da metade disso do turismo (base da economia, de hotelaria, restaurantes, serviços e etc…), em virtude de suas praias. A população residente é ínfima, perto do inchaço que ocorre nas datas de fim de ano, e janeiro. Tal situação é pública e notória. Então o “consumo de água alto em demasia e aumentando” não só é uma realidade, como extremamente previsível, óbvio, lógico, evidente.
O lógico não ajuda. O previsível não é desculpa. Quando criada, a empresa municipal de água e saneamento prometeu, finalmente, investir em políticas públicas para evitar tais problemas, quando da sobreposição à empresa estadual que se omitia. Pelo visto, tudo o que foi feito não foi o suficiente, todavia. É preciso fazer mais e melhor e mais rápido.
A região é rica em fontes de água, banhada por vários rios e afluentes. A estiagem não pôde ser a culpada porque as chuvas foram generosas, então só restou o “consumo alto em demasia”. Mas se a empresa “lucra” com o consumo não haveria de comemorar o mesmo? Evidente que é necessária a economia. A água é um recurso que tem que ser respeitado, mas o cidadão também merece um certo respeito.
Se não há estrutura, que não se venda aquilo que não tem: chega de mentiras com o turista.

Como responsabilizar os gestores
LEITOR(A): Os gestores da coisa pública não podem ser responsabilizados pessoalmente pelas omissões reiteradas na questão da água e do saneamento?
OZAWA: Há mecanismos legais para que isso ocorresse caso o país fosse um pouco mais sério. Infelizmente, parece que a questão da água e saneamento básico ainda é um fantasma invisível que vive no submundo e só vem à tona no fim do ano. Administrativa, civil e até criminalmente haveriam de responder os gestores, na busca por suas responsabilidades pessoais frente às reiteradas omissões no que tange à política pública de água e saneamento. Um ano inteiro, quatro anos, oito anos, décadas não foram suficientes para que o gestor alinhasse a república com a realidade. Já é tempo de haver responsabilidade pessoal por tal crime de lesa dignidade.

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