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Mais de 100 mil brincaram no Navegay

Navegay reuniu mais de 100 mil pessoas na segunda de Carnaval

Texto: Sandro Silva
Fotos: Lucas Correia

Eles – ou elas, se preferir – eram milhares. Mais de 100 mil, pelas contas do prefeito Roberto Carlos de Souza (PSDB), de Navegantes. Era tanta gente, que os 1100 metros de comprimento da avenida João Sacavem, no centro da cidade, não deram conta de receber os foliões. Só trios elétricos eram 14. Como já era esperado, o Navegay deste ano deu um banho de alegria e botou no chinelo todos os outros carnavais da região.
Diabinhas, noivas, chapeuzinhos vermelhos, baianas, aquelas com um look mais comportado e outras num estilo mais provocante, com direito a cinta liga e calcinha fio dental. A machalhada soltou a franga, no que pode ser considerado o maior bloco de sujos de SC.
E não pense que o Navegay é coisa de juventude. Só de sunga, uma gravata borboleta e um quepe de capitão de barco, o carioca Carlos Hoss, aos 63 anos, tava entre a multidão. Acostumado ao carnaval carioca, o mais famoso do mundo, Carlos era só elogio à folia dengo-dengo. “Amazing (surpreendente, em inglês), indescritível, maravilhoso”, soltou, garantindo que, a partir de agora, trocará a festa do Rio de Janeiro pela folia navegantina.
Num vestidinho rosa com tiara da mesma cor e um leque para fechar o figurino gay, lá tava todo serelepe o quarentão Márcio João da Silva. Veio de São Francisco do Sul pra curtir o Navegay. Pra ele, o mais legal era o clima de paz da festa. “Esse Carnaval é maravilho. O pessoal brinca na boa. Não tem violência”, atestava o São Chiquense de 48 anos.
As travestis paulistanas Michella, 34, e Roberta Gloss, 18, também estavam por lá. Com roupas provocantes, levavam na boa o assédio dos mais inconvenientes. Era a terceira vez que Roberta pisava na João Sacaven pra curtir o Navegay que, para ela, é uma festa voltada pros homossexuais. “É um sucesso! É uma confraternização entre os gays”, afirmava.
Tinha quem foi só pra dançar, desfilar. Mas tinha também quem foi pra caçar. Ou melhor, pra ser caçado. Era o caso dos amigos itajaienses Rafael Wan Dall, 22, Carlos Becker, 21, e Thiago Amaral, 23, que foram vestidos de chaupeuzinhos vermelho. “Hoje faz seis anos que a gente tá com essa mesma fantasia”, dizia, emendando: “A Loba Má já apareceu várias vezes, mas a gente não pode contar”.

Mais de meio milhão investidos
No alto de um trios elétricos que animavam o povão, tava o prefeito Bob Carlos. “O mais legal é a alegria das pessoas e a forma espontânea como elas fazem a sua manifestação. Cada um do seu jeito, da sua maneira, mas no final se torna essa festa bonita”, dizia, feliz com o resultado do Navegay.
Mas o Carnaval de Navega não saiu de graça. Incluindo os desfiles de blocos e o Navegay, a prefa gastou mais de meio milhão de reais. “Esse investimento traz retorno para a cidade, principalmente na questão turística”, argumentava o prefeito.
O Navegay tem 37 anos. Começou com uma brincadeira de bloco de sujos e hoje é uma das maiores folias do Carnaval catarina. Na segunda-feira, a festa terminou oficialmente por volta das 22h. Pra dispersar os poucos foliões que ainda ficavam pela avenida e liberar a passagem pra carros e motocas, a polícia Militar fez um cordão e foi varrendo o povão pras calçadas ou em direção à praia, onde muita gente continuou a folia.

Aproveitou para protestar
O servente de pedreiro Sayde de Souza é daqueles dengo-dengos que têm orgulho de serem nativos. “Tenho 39 anos e moro há 39 anos aqui”, dizia, enquanto dava voltas pra mostrar a fantasia pra lá de estranha, enjambrada com vários brinquedos infantis. “É de combate à pedofilia”, explicava.
Sayde resolveu ir pra avenida pular e protestar contra o que considera uma cultura de impunidade na legislação brasileira. “A polícia prende e a justiça solta. Então, que é que adianta?”, criticava, afirmando que nunca teve nenhum parente vítima de pedofilia, mas se preocupa com os pequenos da região. “Tem muita criança em Navegantes”, justificava.

Saiu mais água do que bera
Folia de Carnaval costuma ser sinônimo de bebedeira. Mas, no Navegay, das bebidas oferecidas por comerciantes fixos e ambulantes na avenida João Sacavem, a que mais saiu foi água. E muita água!
O pessoal da sorveteria Gula-Gula, que fica no meio do trecho da avenida, trocou a festança pelo trabalho. Improvisou um balcão na entrada do comércio e lavou a égua. “As vendas tão muito boas. Compensa a gente ficar trabalhando do que pulando”, admitiu Neto Rodrigues, 28, fantasiado de velhinha nua e sem parar de atender a clientela. Por lá a garrafinha de meio litro de água tava dois pilinhas e era a que mais saía.
Nos ambulantes, a água era vendida a R$ 3. A família de Wagner Alves, 26, que é de Balneário Camboriú, plantou um carrinho pra vender bebidas bem no meio da avenida João Sacaven. “Hoje o pessoal tá procurando mais cerveja e água, mas é mais água,” informava Wagner.
Pro ambulante, valeu a pena ter investido no Navegay. E não só por conta das vendas, que iam de vento em popa. “Eu tô curtindo a festa também”, garantiu.

Tinha até gringo na folia
Há mais de 10 anos a família do argentino Victor Raniel, 40 anos, vem veranear em Balneário Camboriú. Na segunda-feira, ele, a família e alguns amigos brasileiros montaram uma barraquinha de praia num trecho da avenida João Sacavem, bem ao lado onde os bombeiros voluntários refrescavam os foliões com mangueiradas de água.
Victor, é claro, adorou toda a festa. “Hermoso! Hermoso! Muito linda a festa. É a primeira vez que venho. É tudo muito bonito”, dizia, em castelhano, já prometendo que no ano seguinte estaria de volta.
O amigo brasileiro Marcelo Albanaz, 34, lembra que a família de Victor sempre ouviu falar do Navegay e tinha vontade de conhecer a festa. “Só que nunca coincidiu de virem pra cá nessa época do ano. Aí se organizaram e vieram este ano só pro Carnaval”, conta. Por isso, Marcelo fez questão de ciceronizá-los.

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