Home Notícias Quentinhas Leandro Karnal fala sobre ética na câmara de vereadores

Leandro Karnal fala sobre ética na câmara de vereadores

Historiador palestrou na noite de quinta-feira

O professor e historiador Leandro Karnal esteve ontem na Câmara de Vereadores de Itajaí palestrando sobre ética no serviço público. A palestra encerrou a última etapa do curso de capacitação dos servidores do Legislativo, que atendeu mais de 70 funcionários. Além dos barnabés, participaram os vereadores eleitos para a próxima legislatura e convidados. Quase 300 pessoas lotaram a câmara.
Antes de ser o centro das atenções no plenário, onde palestrou sobre ética, Karnal atendeu a imprensa. Crise política, democracia, intolerância, corrupção, ideologia, gestão e ética estiveram entre os assuntos.
Ao DIARINHO, o professor, que é doutor em História pela Universidade de São Paulo (USP), comentou sobre as principais razões que estão provocando a intolerância política no país, dividido de maneira simplista entre “petralhas” e “coxinhas”.
Segundo Karnal, o Brasil descobriu o que é “Guerra Fria” somente em 2013, quando houve centenas de manifestações que mostraram um país dividido. “E isso já quase 20 anos depois da queda do muro de Berlim. Foi uma grande descoberta. As pessoas estão tão entusiasmadas, que classificam as outras de comunistas ou socialistas, de petralhas ou coxinhas”, disse, com uma pitada de bom humor.
Outro ponto que aumenta a troca de ofensas e a rivalidade entre grupos que pensam diferente tá ligado à internet, avalia Karnal. Ele observa que as redes sociais deram voz a todas as pessoas e elas passaram a achar importante não apenas ter opinião, mas também expressá-la. “Todo mundo quer dar uma opinião. E todos nós, dentro de um jogo democrático que capilarizou as informações, decidimos que era importante manifestar essa opinião”.
Numa terceira justificativa para tanta discórdia, o professor destacou a dificuldade das pessoas em lidar e aceitar o que é diferente. Karnal considera que se tem projetado no outro o que é bom para si mesmo. Daí a outra pessoa se torna boa, apenas se ela é parecida comigo. No entanto, quando essa pessoa fala algo que discordo, surge o ódio. “A qualidade da minha fala não tem a ver com o espelho de cada um. Posso ser ótimo, concordar com tudo que você pensa e a minha fala ser uma porcaria. E eu posso ser muito bom, mesmo que você discorde do que digo,” explica.
Karnal ainda pontuou que a perda da capacidade de aceitar uma opinião ou uma situação divergente tem levado as pessoas a verem os diferentes como inimigos Isso pode levar ao fascismo, que é a não aceitação do diferente. “Nós estamos mais mimados do que nós éramos. As pessoas acham natural que a divergência seja tratada do ponto de vista pessoal. Por isso que é importante ressaltar: quem discorda de mim não é meu inimigo. Quem discorda de mim, discorda de uma opinião,” completa.

Crise como parte da construção da democracia
Karnal também comentou a construção da democracia num ambiente de constantes crises. Para o historiador, os conflitos e as crises são o mérito da democracia e não a sua desgraça. As crises servem para fortalecer o ideal democrático. “A democracia é um processo. Ela está sendo muito arranhada, abalada, enquanto as ditaduras caem. As ditaduras simplesmente são derrubadas, as democracias sobrevivem, apesar das longas crises”.
Conforme Karnal, a crise política e econômica no Brasil é um momento excelente para se discutir questões importantes como o custo e a eficiência do Estado. “Quando a gente consegue debater isso, nós avançamos. Cabe a nós não desmerecer a democracia ou as instituições. Que se critiquem senadores, deputados, mas que nunca se desmereça a importância fundamental do Congresso Nacional, enfim, do poder legislativo,” conclui.

Compartilhe:

Deixe uma resposta

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com