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Intolerância e preconceito mataram haitiano

Trabalhador respondeu uma provocação e foi jurado de morte por guri de gangue. Um dos suspeitos tem 16 anos

Preconceito contra estrangeiros? Intolerância? Talvez essas duas coisas tenham sido a motivação para o assassinato do imigrante haitiano Fetiere Sterlin, o Feti, 33 anos, morto na noite de sábado, depois de ser atacado por um grupo no bairro Nossa Senhora das Graças, na periferia de Navegantes.
Antes de ser jurado de morte por ter respondido a um xingamento, Feti ainda teria ouvido a frase “volta pra tua terra!”, contou a esposa do haitiano, a brasileira Vanessa Nery Pantoja, 27, que chegou a ser agredida pela gangue que atacou o marido.
Xenofobia é o termo que significa medo de quem vem “de fora”, preconceito com os estrangeiros. Frinel Cios, 32, meio irmão de Feti, conhece a palavra. “Aqui no Brasil tem muito. E nós, que é negro, é pior ainda”, diz, reforçando a suspeita de que a motivação para a morte do parente foi mesmo preconceito.
Uma teoria que não tá descartada pela polícia. “O pano de fundo parece ser mesmo a xenofobia”, comenta o policial civil Leander Barbosa de Oliveira, da depê de Navegantes, que ontem participava das ações para tentar identificar os suspeitos do crime.
Um deles, um adolescente de 16 anos, foi identificado e reconhecido pela mulher da vítima. O garoto prestou depoimento durante toda a tarde de ontem ao delegado Rodrigo Coronha, mas negou a participação no crime.
Vanessa contou ao DIARINHO que ela, o marido, um primo dele e dois amigos foram até uma festa de haitianos. Era perto das 23h. Como a festa tinha acabado, estavam voltando pela rua Adolfo Köhler, quando três rapazes de bicicleta passaram a provocar o grupo.
“Masisi”. A expressão em crioulo (a língua nativa dos haitianos) que significa “viado”, homossexual, foi dita em tom de xingamento. O imigrante Feti, que nunca havia se metido em confusão no Brasil, não teve sangue de barata. Quando ouviu a palavra, seguida da expressão “volta pra tua terra”, revidou.
“O Feti falou, ‘masisi é teu pai’, só isso. Nem olhou pra eles e nós continuamos conversando”, narra a esposa de Feti.
Ainda pelo que Vanessa contou ao DIARINHO, o trio de zica chamou mais palavrões e um deles, que seria maior de idade e que já foi identificado pela polícia, jurou Feti de morte. “Vou voltar aqui e te encher de bala”, teria dito.
E voltou. “Uns 15 minutos depois. Mas vieram num grupo de cerca de 10 caras, com uma faca e ferramentas de construção, com marreta, pá”, conta a mulher.
A maioria dos guris foi pra cima de Feti. Vanessa e os outros amigos também tiveram que enfrentar a violência. “Foi coisa de dois, três minutos. Quando vi o Feti no chão e corri, ele tava todo ensanguentado. Quando ele tava no meu colo, começou a vomitar sangue e saiu muito sangue das costas também”, relata Vanessa. 

Um dos suspeitos é levado à delegacia
A polícia não descarta que tenha havido preconceito no episódio da morte do trabalhador haitiano. Mas, por enquanto trata o caso como latrocínio, já que o bando teria roubado o celular de Feti depois de largar a vítima com várias perfurações pelo peito e costas, além de outras marcas de espancamento.
O agente Leander de Oliveira informa que já há suspeitos pro crime. Não revela quantos. Pelo o que o DIARINHO apurou, um dos homens que teria participado do assassinato seria um traficante do bairro Nossa Senhora das Graças.
O adolescente de 16 anos que ontem apareceu na delegacia com um ferimento de faca logo acima do joelho direito também é suspeito de ter participado da morte. O garoto negou e disse que se feriu numa outra briga, naquela mesma noite. “Eles devem tá me confundindo porque isso que aconteceu comigo foi na mesma hora dele”, afirmou ao DIARINHO, quando saía da delegacia.
O adolescente alega que tava em casa e foi chamado por um amigo, que tinha sido ameaçado por outros rapazes do bairro. “Eu nem sabia da morte. Fui ajudar um amigo porque tinha uns outro gurizão que queria pegar ele”, afirmou. Foi nesse outro suposto confronto que o jovem foi atingido por uma facada na perna. O tal amigo, também adolescente, foi levado como álibi na delegacia.
A polícia não acreditou na história. “A hipótese é que ele mesmo se feriu durante a agressão ou no conflito foi golpeado num ‘fogo amigo’”, arrisca dizer o agente Leander. Já a mãe do jovem, a desempregada R.S.O., 39, jura que o filho é inocente. “Não foi ele. Ele tava em casa dormindo quando o amigo foi chamar. Mas não foi ele”, disse ao DIARINHO.
Vanessa, a esposa do homem morto, reconheceu o adolescente como integrante do grupo que os atacou. “Ele tava junto. Se ele desferiu algum golpe no Feti eu não sei, mas ele tava junto”, acusou.

Corpo ainda sem liberação no IML
Até ontem à noitinha, Vanessa, companheira de Feti, e o meio irmão Frinel tinham um objetivo maior do que buscar por justiça. “O que eu quero primeiro é dar um lugar adequado ao meu marido”, comentou a moça. É que eles não conseguiram liberar o corpo do imigrante do instituto Médico Legal (IML) de Itajaí.
Frinel conta que o pai o abandonou quando nasceu e foi criado pelo avô materno, que foi quem o registrou. Por isso, não tem o mesmo sobrenome de Feti. Vanessa vivia há dois anos com o haitiano, mas não eram casados no papel.
O professor João Edson Fagundes, 46, que dá apoio à associação dos Haitianos de Navegantes, tentava ontem acionar as secretarias de assistência social de Itajaí e Navegantes pedindo ajuda para liberar o cadáver de Feti. “É que o IML só pode liberar para um parente de primeiro grau”, explicou. “Mas o pai dele, que tá nos Estados Unidos, não pode vir pra cá”, argumentou Frinel, nervoso com a burocracia.

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