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Índio guarani perto de ser advogado indígena da Santa & Bela

Seu foco de atuação será a questão indígena, uma luta na qual ele participa há mais de 20 anos

A tanga e o cocar darão lugar ao terno e à gravata. O ambiente rústico da aldeia será substituído pela formalidade dos fóruns de justiça. O título de cacique vai ganhar o acréscimo da graduação em Direito, o que poderá em breve torná-lo um advogado de carteirinha. A vida, antes restrita aos índios e suas tradições, agora vai ganhar o mundo das petições, audiências, recursos e todo universo burocrático da advocacia. Dentro de poucos meses, as mudanças citadas serão concretas e, pela primeira vez na história da Santa & Bela (conforme informações da Univali), um índio vai se tornar bacharel em Direito, tudo isso cursando uma universidade peixeira.
Depois de tirar nota 10 no seu trabalho de conclusão de curso, na Univali, o índio guarani Hyral Moreira, 36 anos, conta os dias pra se tornar bacharel em Direito, o que deve ocorrer no final de 2012. Além disso, ele já tem até prova da OAB marcada pra fazer, em julho. Seu foco de atuação na futura profissão será a questão indígena, uma luta na qual ele participa há mais de 20 anos, sendo desde os 14 anos um dos líderes da terra indígena M’Biguaçu, localizada às margens da BR-101, em Biguaçu. “Somos 180 índios na aldeia. Há poucos anos ninguém estudava em universidade, agora já somos cinco índios fazendo curso superior”, afirma, acrescentando que ele será o primeiro a concluir a graduação.
Hyral é um sujeito simples, mas que não raro vê a fala mansa se alterar pra defender os direitos indígenas no Brasil. Ele explica o motivo de ter escolhido se tornar um advogado. “Quero defender os direitos indígenas, fazendo com que a sociedade não se esqueça de quem somos e do que podemos fazer pelo país”, discursa Hyral, o índio que começou a estudar Direito em 2007, influenciado por amigos e motivado pela sua liderança na tribo. “Não encontrei dificuldade na universidade porque fui muito bem recebido por todos, desde professores até alunos. Então, foi só estudar e aprender”, comemora.
Hyral é um índio atarefado, que levanta antes do sol nascer e dorme sempre depois das 23h. De manhã, ele é o coordenador da escola que funciona dentro da aldeia, repassando alguns conhecimentos aos pequenos indiozinhos. À tarde, o futuro advogado estuda por horas pra fazer a prova da OAB, mostrando confiança no resultado. “Espero passar, porque já tô estudando faz tempo. Aproveito toda a tarde pra estudar e, às vezes, quando volto da faculdade ainda dou uma lida no conteúdo de noite”, conta, dizendo que a aldeia fica a quatro quilômetros da Univali, no campus de Biguaçu.

Inspiração que veio de casa
A tribo onde vive Hyral ainda mantém costumes e o idioma guarani, e foi ali que nasceu o seu TCC, intitulado “A capacidade civil do índio no ordenamento jurídico brasileiro”. O trabalho apresenta, sob diversos aspectos jurídicos, o perfil histórico da situação do índio no ordenamento jurídico do Brasil. Através dele, Hyral pretende fazer com que as comunidades indígenas possam exercer de fato os direitos dos índios. “O índio tem seus direitos, mas eles não exercem esses direitos. A partir do que aprendi, quero aumentar a capacidade de nosso povo evoluir e crescer”, observa.
Durante a apresentação de sua monografia, Hyral fez um agradecimento especial ao seu avô, de 105 anos, Alcindo Wherá Tupã, que estava entre o público, à sua vó, Rosa Paty D’Já, e a todo povo guarani. Na conversa com a reportagem, ele revelou que seu sonho é ver o casal de filhos frequentando a universidade e passando a outra geração um pouco da história dos guaranis. “Quero ser advogado em 2012 e ver meus filhos se formando daqui uns anos”, pede Hyral.

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