Frei Betto

“Eu não vejo como é possível estar com os Jesus sem primeiro estar com os pobres”

Intelectual que escreveu mais de 50 livros. Teólogo que praticou a Teologia da Libertação. Frade dominicano que dissemina a religião como instrumento transformador do mundo. Revolucionário que sempre acreditou na força da democracia. Cristão no sentido lato da palavra.
Este é Carlos Alberto Libânio Christo que, atendendo por Frei Betto, deixou sua marca como escritor consagrado, ativista que lutou pelo fim da ditadura militar e, especialmente, como religioso que organizou movimentos sociais.
Frei Betto também apoiou o grupo que fundou o PT e participou do governo Lula para pôr em prática o sonho do programa Fome Zero. Próximo ao poder, contudo, decepcionou-se, e preferiu sair de cena. Desde então, critica o “projeto de poder do PT”, mas nem por isso deixa de reconhecer os avanços sociais promovidos pelo partido.
Contraditório? Talvez. Mas Frei Betto, como você vai conhecer nesta entrevista às jornalistas Franciele Marcon e Samara Toth Vieira, mostra que é possível aliar-se sem corromper-se, ter fé apesar da dúvida, criticar sem destruir e até se afastar sem romper os laços de admiração e respeito. As fotos são de Renato Luiz Ferreira.

DIARINHO – O senhor é autor de mais de 50 livros, é um escritor consagrado. Numa de suas obras recentes, discorreu sobre a religiosidade e a ciência, entendendo que elas não são decididamente incompatíveis. Para um religioso, isso não é paradoxal? Para qual dos dois lados o senhor penderia, se tivesse que escolher um único caminho?
Frei Betto: Bem, você se refere a um livro que assino junto com o físico teórico Marcelo Gleiser e o esotérico e astrólogo Ademar Falcão, que é intitulado “Conversa sobre a fé e a ciência”, editado pela Agir. Se eu disser que há incompatibilidade entre religião e ciência, eu teria que deixar de usar óculos, teria que deixar de me alimentar, porque existe uma ciência culinária, todo um estudo químico para produzir os ingredientes da cozinha. Eu teria que deixar de andar de automóvel porque há toda uma ciência para gerar a tecnologia de um veículo. De modo que ciência e religião, ciência e espiritualidade, são duas dimensões que se integram, que se sintetizam em nossas vidas. Ninguém prescinde de uma das duas. Mesmo uma pessoa que se declara ateia, ela tem uma experiência de fé se ela ama. Toda experiência amorosa é uma experiência de fé. Daí, a palavra confiança e a palavra fidelidade. Todas as duas palavras têm sua raiz etimológica na palavra “fé”. Não há ninguém que prescinda inteiramente. Você pode não ter fé em Deus, mas você tem uma experiência de fé ou tem uma experiência de espiritualidade, como no caso dos budistas que não têm religião, mas são espiritualistas. Eles não creem em Deus. O budismo não é uma religião, é uma filosofia de vida. A pergunta: “qual das duas vias eu escolheria?” equivale a perguntar “dos dois braços que eu tenho ou das duas pernas, com qual eu ficaria e qual excluiria?”. É absurda a pergunta! Eu ficaria com as duas pernas e com os dois braços. Não há como alguém prescindir da ciência no mundo de hoje e não tem como prescindir de alguma forma de espiritualidade. Certeza nós não teremos nunca nas coisas espirituais. A não ser depois que entrarmos na vida eterna, que eu espero que seja também terna, porque Deus é amor!

DIARINHO – O senhor sempre foi um entusiasta da Teologia da Libertação – movimento que defende a justiça social como um compromisso cristão. Esse movimento foi criticado pelo papa anterior, que inclusive escreveu dois documentos sobre o assunto. Esta semana, Clodovis Boff, irmão de Leonardo Boff, defendeu publicamente o ponto de vista de Bento 16. Boff, ratificando o ex-papa, disse que a Teologia da Libertação tem a base errada, porque “a teologia não nasce do pobre mas da fé em Cristo”. O senhor pensa em responder a Boff de alguma maneira?
Frei Betto: A Teologia da Libertação sempre haverá de incomodar quem não está radicalmente do lado dos mais pobres. Por isso, ela teve tanta repercussão. As elites ocidentais se consideravam proprietárias da fé cristã e, de repente, aparece uma visão da fé a partir da ótica dos oprimidos, dos excluídos. Isso incomodou a todos, sobretudo a Roma. Na verdade, a Teologia da Libertação jamais foi condenada por Roma, ela foi advertida. O cardeal Ratzinger fez instruções com essas advertências à Teologia da Libertação, mas não houve uma condenação. O Papa João Paulo II, numa carta que ele enviou para a CNBB [Conferência Nacional dos Bispos do Brasil], disse textualmente: a Teologia da Libertação é necessária e útil à América Latina. Então, houve até uma posição ambígua de Roma em relação à Teologia da Libertação. Isso procede e não me surpreenderei se o Papa Chico amanhã disser que a Teologia da Libertação é perigosa e depois de amanhã disser que a Teologia da Libertação é necessária para a América Latina. Eu não me surpreenderei porque tudo aquilo que está do lado dos pequenos incomoda quem não tem clareza de que lado está. [Mas a Igreja não deveria ter essa clareza?] Deveria, mas a Igreja, em relação a tantos temas, não tem clareza. Você veja, por exemplo, a questão da moral sexual. Se a igreja tivesse certeza diria definitivamente que estão condenados ao inferno todos aqueles que usam preservativos numa relação sexual. Nem disse isso e nem liberou o uso. E tem cardeais que até dizem: é um mal necessário. Quanto ao Clodovis, eu o conheço muito bem, nós somos muito amigos. Fizemos várias viagens juntos, inclusive a Cuba e União Soviética. A meu ver, a questão do Clodovis é dupla. Primeiro, Clodovis ficou muito afetado com o processo de laicização do irmão dele, Leonardo Boff. Creio que por uma reação psicológica, enquanto Leonardo se laicizava, o Clodovis, em reação, se cleriquizou. Segundo, o Clodovis sempre teve uma lógica quase fundamentalista. Se você ler os textos, que todos nós escrevemos de nossas viagens a Cuba e União Soviética, quem mais louva aqueles países e aqueles sistemas é o Clodovis. Quase que dizendo que o socialismo é o reino de Deus na terra. E, de repente, o Clodovis muda de posição. Eu respeito, é um direito dele. Ele é um excelente teólogo, um dos mais cultos e bem fundamentados que eu conheço, mas só que, a meu ver, ele tá dizendo uma coisa absurda: que nós escolhemos os pobres e não Jesus. Eu não vejo no Evangelho como é possível estar com Jesus sem primeiro estar com os pobres. A pessoa que serve ao pobre e que não tem nenhuma fé e, diria mais, que seja inclusive anticristã, que negue totalmente a existência de Deus e de Jesus, mas se ela serve ao pobre, ela está servindo a Jesus sem saber. Ela só vai saber disso no encontro com ele na vida eterna. Quando eu estava preso, cercado de comunistas-ateus por todos os lados, eu dizia para eles: “vocês fiquem tranquilos, vocês vão todos para o céu. Vocês vão se surpreender! Não vamos ficar discutindo religião aqui não, porque nós vamos ter a eternidade inteira para fazer isso [risos]. Agora nós temos que discutir como vamos acabar com a ditadura!” Enfim, eu considero simplesmente incongruente essa afirmação do Clodovis. Isso com todo o respeito e amizade que eu tenho por ele.

DIARINHO – O senhor falou há pouco da hipocrisia com que é tratada a sexualidade dentro da Igreja. O celibato não deveria ser rediscutido?
Frei Betto: Se você abre o Evangelho de Marcos, no primeiro capítulo, consta que Jesus um dia entrou na casa de Pedro em Cafarnaum e se deparou com a sogra de Pedro doente e tratou de curá-la. Se Pedro tinha sogra, qual é a conclusão?! [Ele era casado…]. E nem por isso Jesus deixou de escolhê-lo como primeiro papa. Eu não sei se Pedro, aqui entre nós, gostou que Jesus tivesse curado a sogra dele [risos]. Talvez estivesse esperando que a veia morresse logo, e Jesus vem e estraga o programa. Depois, Pedro vem e se vinga na Paixão, negando Jesus três vezes. Fechando o parêntese, durante muitos séculos, no início da história da igreja, os padres casavam ou eram ordenados sacerdotes homens casados. A partir do século 11, fica diferente. Os monges não casavam. Havia uma nítida distinção entre a vocação para o sacerdócio e a vida religiosa que implica no celibato. Os monges não casavam e, de repente, os monges começaram a assumir o poder na Igreja e a impor essa exigência, que só foi de fato, estrutura e organicamente assumida pela religião, a partir do Concílio de Trento, no século 16. Aí, vem a obrigatoriedade do celibato para todos os sacerdotes. Embora nós que estamos na Igreja saibamos que nem todos têm essa vocação e observam essa exigência. [Mas negar essa revisão não é uma forma de prolongar problemas?] Claro, pedofilia e vários outros problemas. E acho que é uma questão de tempo, já passou do tempo. A Igreja não deveria só permitir a ordenação de homens casados ou o casamento daqueles que têm vocação sacerdotal, mas não tem vocação pelo celibato, como deveria permitir a reinserção do ministério sacerdotal dos padres que já estão casados – são cerca de 100 mil no mundo e cinco mil no Brasil. Além disso, permitir a ordenação de mulheres. Não há nenhum fundamento no Evangelho para que as mulheres também não sejam sacerdotes, na medida em que no grupo de Jesus havia mulheres. A primeira apóstola não foi homem, foi uma mulher.

DIARINHO – O senhor esteve diretamente ligado a um dos episódios mais dramáticos e tristes da Ditadura Militar. Acabou envolvido numa emboscada que envolveu os freis dominicanos para prender o guerrilheiro Carlos Marighella. O episódio foi retratado no livro e filme Batismo de Sangue. Hoje esse e outros crimes estão sendo investigados e elucidados através da Comissão da Verdade. O que o senhor guarda deste episódio?
Frei Betto: Tem vários acertos a fazer na pergunta. Primeiro, eu não estava nisso. Eram outros dois frades que estavam: Frei Fernando e Frei Ivo. Foram presos no dia 1º de novembro, Marighella morreu em São Paulo dia 4 e eu fui preso no Rio Grande do Sul no dia 9 de novembro de 1969. De fato, eu descrevo como foi a morte do Marighella e o envolvimento dos frades. A tortura no Frei Ivo e no Frei Fernando não levou a revelar o esconderijo de Marighella, porque ninguém sabia onde ele estava. O fato é que o Marighella foi ao encontro deles na rua e aí sim, ele foi assassinado. O livro “Marighella”, que é a mais completa biografia do caso Marighella, da Companhia das Letras, e assinado pelo jornalista Mauro Magalhães, esclarece muito bem todo o episódio. De certo modo, o meu livro “Batismo de sangue” e o filme de mesmo nome, do diretor Helvécio Ratton, também. Os dominicanos, de fato, não tiveram responsabilidade na morte do Marighella. A repressão, através da CIA [agência de inteligência americana], do SNI [Serviço Nacional de Inteligência], enfim, até hoje isso não está muito claro, já tinha indício de como chegar a Marighella, mas usou a igreja para encobrir os seus informantes e, ao mesmo tempo, para tentar indispor, através de nós dominicanos, a Igreja com a esquerda armada. Tentaram mas não conseguiram. Na época, era o momento que a Igreja, que havia apoiado o golpe de 64, dando graças a Deus que Nossa Senhora Aparecida tinha libertado o Brasil da ameaça comunista, tira a venda dos olhos e começa a descobrir o verdadeiro, e cruel, caráter da ditadura. Vários bispos, arcebispos e até cardeais, sem falar de leigos, freiras e frades, começaram a se posicionar contra a ditadura. Então, eles aproveitaram o episódio da morte do Marighella para tentar criar um fosso entre a igreja e a esquerda armada, mas não conseguiram, felizmente. [Qual foi o papel da imprensa nesse momento?] O papel da imprensa foi noticiar, mas como havia censura e como havia uma certa subserviência de certos setores da imprensa às versões oficiais, então, muitos deram que os dominicanos eram traidores de Marighella. Hoje, alguns se penitenciam e outros realmente tinham essa cabeça afinada com a ditadura. Ou seja, era uma imprensa que estava sob censura, mas havia muitos jornalistas, infelizmente, que gostavam da ditadura. Apoiavam a ditadura e estavam convencidos que nós éramos terroristas, assassinos, comedores de criancinhas… [Mas qual foi a participação dos frades dominicanos?] Nós éramos do grupo de Marighella: a Ação Libertadora Nacional. Nós éramos o grupo de apoio, mas jamais pegamos em armas. Fazíamos apoio logístico, nós escondíamos pessoas, cuidávamos de levar pessoas de um lugar para o outro, às vezes, de um estado para o outro. Eu, no Rio Grande do Sul, ajudava aqueles que eram notoriamente perseguidos a sair do Brasil clandestinamente, via fronteira com o Uruguai e Argentina.

DIARINHO – Frei Tito foi um dos mais torturados quando preso pela polícia repressiva. Ele nunca conseguiu se recuperar do trauma e morreu anos depois, na Europa, vítima de suicídio. O senhor conseguiu se recuperar completamente? O que foi mais enlouquecedor neste episódio?
Frei Betto: De fato, dos oito dominicanos que foram presos, o mais torturado foi o Frei Tito. Em fevereiro de 70, quando nós estávamos sob os cuidados da justiça militar, ele foi levado do presídio Tiradentes para o DOI-COD e durante três dias foi cruelmente torturado com pancadas, choques elétricos, cigarros queimados no corpo. E ele não falou! Os torturadores até fizeram uma demoníaca profecia: “você jamais esquecerá o preço do seu silêncio”. De fato, a partir daí ele começou a entrar em um desequilíbrio mental. Ele foi logo retirado do presídio graças ao sequestro do embaixador suíço, em janeiro de 1971. Mesmo na França, ele via os torturadores nas ruas – o que o levou a morte em agosto de 74. Dom Paulo Evaristo Arns, cardeal de São Paulo, quando o corpo do Tito, 10 anos depois, retornou ao Brasil, fez uma grande celebração na catedral da Sé. Ele disse que o Frei Tito não se matou, ele buscou do outro lado da vida a unidade que havia perdido desse lado. De todo grupo, o único que não foi torturado fisicamente em 69 fui eu. Eu fui preso duas vezes: em 64 – quando, aí sim, fui torturado – e em 69. Mas eu acho que o que realmente me salvou de uma série de problemas que a prisão pode trazer foi a terapia da escrita. Eu escrevia ferozmente na prisão. Daí resultaram os meus livros: “Cartas da Prisão”, “Cartas das Catacumbas”, e o próprio “Batismo de Sangue” que eu comecei a elaborar dentro da prisão. [Por que a Comissão da Verdade enfrenta tanta resistência em certos segmentos da sociedade?] Porque esses segmentos estiveram envolvidos com a ditadura e têm medo que essa verdade venha à tona! Principalmente, os militares. O Brasil cometeu o grave erro de não só nomear uma Comissão da Verdade tão tardiamente, melhor agora do que nunca, claro, mas de não apurar os crimes cometidos pela ditadura e sobretudo os crimes cometidos pelas Forças Armadas – que foi a instituição que deu o golpe militar de 64. Então, a exemplo do Chile, Uruguai, Argentina, o Brasil devia ter levado ao banco dos réus, não por vingança, mas por justiça, aqueles responsáveis. É muito importante que a comissão leve à frente o seu trabalho. Se ela enfrenta resistência de alguns setores, por outro lado ela tem o apoio da imprensa, da opinião pública e do governo federal – isso é o importante.

DIARINHO – A que o senhor atribui a renúncia de Bento 16?
Frei Betto: Sucessivos escândalos: pedofilia, falcatruas no banco do Vaticano, traição do mordomo, o relatório sobre a rede de prostituição dos seminaristas em Roma. Tudo isso deu um enorme cansaço e uma desilusão. Ele, pela idade e pela saúde debilitada, decidiu se afastar. Até porque os intelectuais não gostam de administrar instituições. Agora, nós teremos uma igreja com dupla cabeça. Creio que Bento 16 comete o equívoco de morar no Vaticano, então ele fará sombra ao novo papa. Nós saberemos quem é o papa Francisco depois que o Bento morrer. [Bento 16 já não sabia o que o esperava quando foi escolhido papa? Ele era cardeal…] Sabia. A Cúria sabia e tentou encobrir, até que começaram a aparecer não apenas sacerdotes, mas também bispos e cardeais. Aí, a coisa não dava para segurar. Lamento essas atitudes coniventes das autoridades da Igreja, que deveriam desde o início ter entregue essas pessoas à justiça comum e apurado rigorosamente também internamente. [A renúncia foi um sacrifício, uma simples fuga ou cansaço mesmo?] Foi cansaço. O problema era maior que as forças. Foi um gesto de humildade muito louvável. Há quase 600 anos que um papa não renunciava. [Dias antes do papa Bento 16 renunciar, ele indicou o novo presidente do banco do Vaticano. O que isso significa?] O papa Bento 16 era refém da Cúria, e a Cúria não queria que investigasse o banco. Ele, para garantir a transparência na questão financeira, não só tirou o italiano suspeito de falcatruas, como colocou o alemão, em quem ele confia, para preparar o terreno para o novo papa. Assim ele impediu que a Cúria nomeasse alguém que não fosse a fundo na investigação.

DIARINHO – A história das escolhas dos papas e as próprias figuras controversas de alguns ligam o comando da igreja católica a tramas que já envolveram poder, vingança, dinheiro, sexo, interesses escusos. Isso mudou? Como manter o aspecto do sagrado numa disputa que pode ter aspectos tão mundanos?
Frei Betto: Primeiro a Igreja, embora seja uma instituição de origem divina, é integrada por seres humanos. Os seres humanos são todos dotados de problemas insolúveis: prazo de validade e defeito de fabricação, que a Bíblia chama de pecado original. Ou seja, todos devemos de morrer, com exceção de alguns políticos que se julgam imortais, e todos somos contraditórios. Vivemos entre sombras e luzes. Não somos seres perfeitos. E isso na Igreja é mais grave ainda, porque ela deveria ser a instituição que encarna a palavra de Jesus, mas a Igreja, infelizmente, herdou muito do império romano, e se afastou dos pobres. E pagou um preço muito alto de não ser mais o espelho no qual a humanidade vê a face de Jesus. Ela virou uma instituição onde o triunfalismo, a exuberância, o luxo, o requinte, aparecem muito mais do que aquilo que lemos nos Evangelhos. A minha esperança é que o papa Francisco, ao adotar esse nome tão simbólico, de São Francisco de Assis, e de Francisco Xavier, que era jesuíta como ele, seja um papa como João Paulo 2º – peregrino, que vá aos povos do mundo inteiro. Tomara que ele comece pela Cúria romana, que é o grande nó da Igreja hoje.

DIARINHO – O senhor conheceu o trabalho do papa Francisco em Buenos Aires? Apareceram algumas coisas na imprensa dizendo que ele teve ligação com a ditadura na Argentina…
Frei Betto: Olha, eu nunca tinha ouvido falar dele. Nunca! Fui muitas vezes a Argentina e sempre tive um pé atrás com a igreja católica na Argentina, justamente pela maneira totalmente anti-evangélica que se comportou durante a ditadura, com raras e louváveis exceções. Mas eu confio na opinião dos meus amigos. Um deles me disse que não há provas de que o cardeal Bergoglio tenha participado ou sido conivente com a ditadura. Ele até usou uma expressão interessante: “se alguma culpa ele tem não foi por transgressão, mas por omissão. Ele não fez o que poderia fazer”. Comparando: ele não foi um profeta como Dom Paulo Evaristo Arns, talvez tenha sido um negociador em benefício das vítimas como foi o Dom Eugênio Salles no Brasil, que agiu pelos bastidores e só agora se sabe a história do que ele fez pelos perseguidos políticos. Mas confio demais na opinião do Adolfo Pérez Esquivel, que é prêmio Nobel da Paz, é do serviço de Justiça e Paz da Argentina, razão pelo qual ganhou o Nobel da Paz. É ele o meu amigo. Ele disse que não há nenhum indício de que o papa possa ser responsabilizado como outros bispos, padres e cardeais argentinos que foram notoriamente favoráveis à ditadura, a ponto de nomear capelães para os quartéis de tortura e permitir que padres viajassem nos voos da morte – os aviões da aeronáutica argentina que jogavam presos políticos no mar.

DIARINHO – Muitos intelectuais e líderes políticos ligados à esquerda brasileira se afastaram ou foram afastados do grupo de apoio ao governo petista (Marina da Silva, Heloísa Helena, Cristóvão Buarque, o senhor). O poder é incompatível com o que vocês idealizavam de mudança para o Brasil?
Frei Betto: Sobre isso eu escrevi dois livros: “A Mosca Azul”, que tem um subtítulo “Reflexão Sobre o Poder”, da editora Rocco, e o outro foi o “Calendário do poder”, também da editora Rocco, que é o meu diário dos dois anos no Planalto. Ali, eu conto para o público leitor como funcionam os bastidores do Planalto, da Presidência da República, toda a crise do Fome Zero. No “Mosca Azul”, eu faço uma reflexão sobre o poder. O poder muda as pessoas. Eu posso responder por mim: eu nunca quis trabalhar nem na iniciativa privada e nem no poder público. Eu nunca fui filiado a partido político nenhum. A meu respeito há dois mitos que correm por aí, que não correspondem com a realidade. Primeiro, de que sou padre. Não sou! Sou religioso sem ser sacerdote. Segundo, que eu fui ou sou filiado ao PT. Não sou! Nunca fui filiado a partido nenhum! Mas ajudei a construir o PT através do meu trabalho no movimento social, principalmente nas comunidades eclesiais de base. Prefeitos e governadores do PT me convidaram para trabalhar e eu recusei. Assessorei, esporadicamente, mas não como funcionário. Quando o Lula foi eleito, devido a nossa amizade e proximidade, ele me convidou para a assessoria especial e aceitei, mas só porque ele me designou para algo que lidava com os mais pobres entre os pobres: os famintos. Então, fui trabalhar no programa Fome Zero. Dois anos depois, eu deixei o governo. Com muito alívio, eu sou hoje um indivíduo ING – Indivíduo Não Governamental. O que me levou a sair foram dois fatores. Primeiro, o próprio governo que criou o Fome Zero pôs fim ao Fome Zero. O Fome Zero era um programa de caráter emancipatório. As famílias que entravam no Fome Zero em dois, três anos teriam que sair se os 60 programas que convergiam no Fome Zero fossem implementados, como a Reforma Agrária – que era o principal. Por pressão dos prefeitos, o governo matou o Fome Zero e o substituiu pelo Bolsa Família. Um programa positivo, mas de caráter compensatório e não emancipatório. Briguei muito para evitar o Bolsa Família, briguei muito para que o Fome Zero continuasse, mas fui vencido. Falei com o Lula: “vou embora!”. A segunda razão é que o meu ofício é trabalhar com o movimento social e escrever. E eu sentia que com o movimento social eu até trabalhava, pois o Fome Zero me abria essa possibilidade, mas sentia muita falta da minha liberdade intelectual, para escrever os meus artigos e os meus livros. Dei por terminada a minha tarefa e voltei para a vida na qual eu me sinto muito feliz. Mas quero frisar: na história republicana do Brasil nunca houve dois governos tão favoráveis à imensa maioria da população brasileira do que o governo Lula e o governo Dilma. São os melhores governos da história republicana. [O senhor continua votando no PT?] Continuo votando no PT em alguns cargos, por exemplo, na presidência da República. Agora, quando se trata de deputados, senadores, vereadores, eu, às vezes, tenho dado votos ao PSOL também.

DIARINHO – O senhor acompanhou o caso do mensalão?
Frei Betto: Eu, até hoje, espero uma palavra do PT. Eu fui surpreendido pelo mensalão como vocês. Eu já estava fora do governo, foi em maio de 2005 e eu saí em dezembro de 2004. Eu não sabia do mensalão e até hoje eu estou esperando que o PT me diga se os condenados são inocentes ou culpados. O partido até hoje não se manifestou… Eu não posso acreditar só na palavra da Justiça, considerando que a Justiça no Brasil comete muitos erros. Então, eu temo que o mensalão seja verdade, mas não posso acusar porque não tenho essas provas convincentes. Para mim, a questão do mensalão permanece uma grande interrogação.

DIARINHO – A vinda da blogueira cubana Yoani Sánchez causou muita polêmica. Qual a sua leitura do episódio?
Frei Betto: Primeiro, é uma mulher estranha. Sai de Cuba, vai para a Suíça, casa-se com outro estrangeiro na Suíça. Tem uma filha ou um filho, não me recordo. E, de repente, larga o marido, larga a Suíça, volta para Cuba com um super equipamento de informática e a própria mãe diz: “minha filha, você foi largar o reino do chocolate e do leite para voltar pra cá, com as dificuldades que nós temos”. A ONU [Organização das Nações Unidas] tem tradução simultânea em 12 idiomas, o blog dela tem em 18, para cada texto que escreve. Tem alguma coisa que cheira mal nesse reino da Yoani Sánchez. [Algum tipo de financiamento?] Claro! Algum tipo de financiamento. Eu conheço Cuba intimamente e não conheço ninguém que tenha essa infra que essa mulher dispõe. Agora, houve um erro do setor da esquerda brasileira. Eu discordo das manifestações agressivas junto a ela. Só favoreceram a ela. E eu gostaria que ela tivesse passado pelo Brasil, como está passando por outros países: sem nenhum estardalhaço.

DIARINHO – Com a morte de Hugo Chavez, se forma um futuro de incertezas na Venezuela. Qual a importância de Chavez para a Venezuela e o que pode acontecer a partir de agora?
Frei Betto: A América Latina, nos últimos 50 anos, foi governada por três grandes ciclos políticos: primeiro pelas ditaduras militares, que fracassaram! O povo lutou, gente foi exilada, desaparecida, assassinada, torturada, presa, mas as ditaduras vieram abaixo. Segundo ciclo: os governos messiânicos neoliberais do consenso de Washington: Menem na Argentina, Collor no Brasil, Fujimori no Peru, Garcia Meza na Bolívia, Caldeira na Venezuela e por aí vai…Fracassaram… E o povo, nas urnas, nesse sistema político eleitoral burguês, começa a escolher candidatos populares e democratas. Chavez é resultado disso. O chavismo não passa por nenhuma crise, ele agora mais do que nunca está consolidado. Basta observar as manifestações pela morte de Chavez. Mas o fato é que o povo tá lá, perdeu uma figura que só fez bem a esse povo e consolidou o chavismo. O Maduro vai ganhar disparado do pobre do Capriles, que mais uma vez banca o palhaço nessa eleição. Não há sistema eleitoral mais democrático que o da Venezuela – é todo ele plebiscitário.

DIARINHO – O que o senhor acha da falada mas não colocada em prática iniciativa do governo petista de regular a mídia?
Frei Betto: Minha querida, a profissão de médico é regulada; de advogado, idem; de engenheiro, idem. Por que não a mídia?! [Por que há tanta resistência então?] Cometeu-se um erro histórico de tornar a mídia propriedade de meia dúzia de famílias poderosas do Brasil. As pessoas esquecem que todo o sistema de rádio e televisão é propriedade da União, não é propriedade dessas famílias que aparecem como donas, é concessão que deveria ser avaliada, deveria ser renovada e deveria ser reciclada. Eu, no governo, dizia ao presidente Lula e aos ministros: é um absurdo que o governo federal, para colocar anúncios na TV aberta, tenha que pagar. Porque o governo, a União é proprietária desse sistema. Tem que haver essa regulação sim, e não cair nesse embuste de que isso é censura. Isso não é censura. Isso é direito. [Por que o Lula e a Dilma não fizeram essa regulação?] Porque sabem que uma coisa é você estar no governo e outra coisa é você estar no poder. Necessariamente, quem tem poder não é quem está no governo e eles também sabem disso. Ou seja, deve-se fazer? Deve-se! É possível? É! Mas é muito difícil! É preciso ter uma estratégia muito bem pensada para se chegar lá. Porque a mídia tem muito poder a ponto de derrubar o governo. Então, não sejamos ingênuos.

DIARINHO – Quais as principais diferenças entre o PT da década de 80 e 90 e o PT que governa o Brasil na última década?
Frei Betto: Eu resumo nessa frase que eu já disse: trocou um projeto de Brasil por um projeto de poder. Não fala mais de reforma agrária, não fala mais em ética, não fala mais em desapropriar grandes heranças ou mudar o sistema tributário. Todas essas reformas estruturais estão na gaveta. O PT não fez nenhuma reforma de estrtutura. Fez vários avanços, o maior deles foi tirar 20 milhões de famílias da miséria, isso é muito, mas não alterou o perfil social do Brasil drasticamente para melhor. Falta muito para a gente ter um Brasil que não seja um dos campeões mundiais das desigualdades. [Se o PT continuar nessa linha, de fazer tudo para se manter no poder, valerá a pena continuar votando no partido?] Vai virar um grande PMDB. Vai virar a versão petista do PMDB. Um partido que se acomoda a qualquer estrutura do poder, a qualquer preço, sem nenhuma ética, sem nenhum princípio e sem nenhum projeto. [Por outro lado, se ele tivesse sido mais contundente nas reformas, o senhor acha que ainda assim ele se manteria no poder?] Por exemplo, o Lula com o poder de mobilização que tinha, nos dois primeiros anos de governo, com a força da caneta, ele faria a reforma agrária e ninguém iria chiar. Ele perdeu essa chance histórica! [Hoje não mais essa chance?] Não mais. Ainda mais agora com o Código Florestal todo deturpado. Os agronegócios, os latifúndios dando parabéns ao governo… Perdemos a chance histórica. Mas pode-se fazer todo um trabalho para recuperar isso. [E o Lula volta?] Volta, tenho certeza, em 2019. Vai ser o primeiro brasileiro a ser presidente da república durante 16 anos. [O senhor apoia?] Com todo o meu apoio. Ele tem o meu voto.

DIARINHO – O senhor é religioso, intelectual, escritor consagrado e teve um importante e corajoso engajamento político ao longo de sua vida. O que esperar da juventude em uma sociedade cada vez mais individualizada, secular e com muito menos engajamento político-partidário e ideológico?
Frei Betto: Lamentável. A minha grande preocupação está nas novas gerações, na juventude e nas crianças, elas estão sofrendo um processo acelerado de alienação, que vai desde a obesidade precoce até o fato de não participarem de grandes causas sociais. Embora haja exceções, você tem muito jovens no MST [Movimento dos Sem Terra], tem jovens se mobilizando através das redes sociais, você tem jovens no Fora Renan, mas são minoria. Uma grande parcela da juventude brasileira está sendo domesticada pelo neoliberalismo consumista, que não tem interesse em formar cidadãos, mas sim consumistas. Termino com essa frase: eu sou de uma geração que tinha 20 anos na década de 1960 e havia as drogas, mas não havia tantos drogados. Isso porque nós erramos viciados em utopia! A gente injetava utopias nas veias. Eu estou convencido: quanto mais utopia, menos drogas, e quanto menos utopia, mais drogas.

Mesmo uma pessoa que se declara ateia, tem uma experiência de fé se ela ama

A Teologia da Libertação sempre haverá de incomodar quem não está radicalmente do lado dos mais pobres

RAIO X
Nome: Carlos Alberto Libânio Christo, Frei Betto
Naturalidade: Belo Horizonte
Idade: 68 anos
Estado Civil: solteiro
Filhos: não
Formação acadêmica: Jornalismo, Antropologia, Filosofia e Teologia
Trajetória Profissional: Frade dominicano, escritor de 53 livros, esteve preso por duas vezes sob a ditadura militar: em 1964 e entre 1969. Sua experiência na prisão está relatada nos livros “Cartas da Prisão” (Agir), “Dário de Fernando – nos cárceres da ditadura militar brasileira” (Rocco) e Batismo de Sangue (Rocco). Recebeu vários prêmios por sua atuação em prol dos direitos humanos e a favor dos movimentos populares. Entre eles, em 1982, o Prêmio Jabuti, concedido pela Câmara Brasileira do Livro, por seu livro de memórias “Batismo de Sangue”. Em 1986, foi eleito Intelectual do Ano pelos escritores filiados à União Brasileira de Escritores, com o prêmio Juca Pato por sua obra “Fidel e a religião”. Também foi premiado pelos livros “A noite em que Jesus nasceu”, melhor obra infanto-juvenil, pela Associação Paulista de Críticos de Arte; e “Típicos Tipos – perfis literários”, na categoria Crônicas e Contos, pela Câmara Brasileira do Livro. Assessorou vários governos socialistas, nas relações Igreja Católica-Estado. Em 2003 e 2004, atuou como Assessor Especial do Presidente da República e coordenador de Mobilização Social do Programa Fome Zero. Desde 2007, é membro do Conselho Consultivo da Comissão Justiça e Paz de São Paulo. É sócio fundador do Programa Educação para Todos.

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