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Falta de senso do ridículo-derrotista

Na ópera “Elektra”, inspirada em Sófocles (livreto de Hugo Von Hofmannsthal) musicada por Richard Strauss, em certa cena a mãe da personagem principal pergunta (perdoem a tentativa de tradução): “Há remédio para os sonhos?” Elektra retruca: “Mas você ainda sonha, mãe?” E a resposta materna vem de pronto: “Quem envelhece, sonha”. Quem é vivo, sonha, e ainda não parece haver remédio.
Na ressaca do turno mais acirrado das eleições desde a reabertura democrática do Brasil, o show de horrores argumentativo é renitente nas redes sociais, travestido de inconformismo piegas. Pessoas com pouco compromisso teórico (democrático), metodológico ou mesmo sem uma breve leitura sobre a política recente brasileira compartilham ideias inacabadas e, sem perceber, acabam sendo hospedeiros de um ideário que não é seu.
Divisão do país por muro, auditoria, ilegitimidade, impeachment, fim de benefícios sociais, golpe civil-militar e outros impropérios que atentam contra a honestidade intelectual são parte integrante de um cardápio de motivos para se autorridicularizar que os próprios hospedeiros se alimentam e se esbaldam. Curioso é que bastou “só” pouco mais de três milhões de votos contrários ao seu candidato para a figura do pequeno-golpista retornar do fundo da lama.
Goste ou não, há que se admitir que a presidente foi eleita sem nenhum apoio de nenhum dos tantos outros candidatos do primeiro turno, que, salvo raras exceções, em grande maioria apoiaram explicitamente o oposicionista. Reeleita também, há que se reconhecer, contra os editoriais de Veja, Istoé, Folha, do Grupo Band, SBT e Rede Globo, isso para ficar nos maiores, e contra si ainda grande parte dos líderes neopentecostais (evangélicos) do país, além, é claro, das já tradicionais associações e clubes conservadores e de representantes do mercado financeiro. Institutos de pesquisa citados pelo opositor como instituto Paraná (revista Época/Globo), Veritá e Sensus (Istoé) nitidamente cometeram erros crassos em seu favor. Enfim, sabemos que o processo eleitoral 2014 foi provavelmente o mais “sujo”, e não há exclusividade para tal. Ambos os lados se utilizaram de práticas das mais execráveis.
Há pouco tempo, escrevi sobre a futebolização da política eleitoral brasileira e, ainda este ano, sobre a arte de “saber perder” (durante a copa de futebol). Peço licença para reiterar uns parágrafos que penso serem bem atuais, dedicados ao que chamo de pequeno-golpista (ou, mais “chique-piegas”: white-blocks-chicken-legs):
“Uma polaridade, uma dicotomia, uma matemática típica imediatista são nossos trejeitos: perder ou ganhar. O tudo ou nada é uma imbecilidade cultivada pela meritocracia. Todo o desafio gera risco. Ao analisar detidamente uma ‘vitória’, haverá perdas, e o inverso também é possível, quando, na derrota, grandes vitórias podem existir. Logicamente, ser derrotista não é saudável, assim como uma busca incessante por vitórias, às vezes, é doentia. No mundo capitalista ocidental moderno, as vitórias sempre estão atreladas à capacidade patrimonialista. Quem mais tem, mais bem ‘sucedido’ foi. Sucesso é patrimônio, é coisificado: quanto mais coisa, mais sucesso. Valores dos tempos em que vivemos, uma triste realidade. Se não tem, perdeu.”
A cereja do bolo é querer um golpe (civil-militar), porque o Brasil está virando uma Venezuela. Bem, quem assim pensa não se dá conta do ridículo do argumento, porque justamente foi um golpe que inaugurou toda uma fúria popular em favor de Chávez. Brasil não é nem quer ser Venezuela, mas esses pequeno-golpistas querem torná-lo, atentando contra a Constituição Federal.
Como dizem: ir pra rua na democracia pedir golpe é bem menos corajoso e covarde que ir pra rua na ditadura pedir democracia. Pequeno-golpista, volte para o seu armário, envelheça e (só) sonhe com torturas (físicas, psíquicas, sexuais), assassinatos, que o país agradece. Vá de retro, retrocesso!

Liberdade responsável
Leitor: Vi nos jornais que um grupo de pessoas manifestaram apoio à volta do regime militar, inconformados com o resultado eleitoral. Isso pode?
Ozawa
: Na democracia brasileira, desde a promulgação da Constituição Federal, a liberdade de pensamento responsável é um direito consagrado. Os limites, todos sabem, são o da ofensa pessoal ou genérica. O problema é até onde essas pessoas se levam a sério. Isso porque essa ideia pode ser a semente da existência de um grupo paramilitar; isso quer dizer, um grupo armado de apoio ao golpe. Ainda é cedo, mas certamente o Estado brasileiro deve estar atento a toda tentativa de rompimento das conquistas constitucionais com tanto sangue e luta alcançadas.

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