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…E, agora, é a vez da praça

Vão começar as obras pra esticar o museu e o estudo de revitalização do espaço, que vai voltar a ser praça, diz a prefa

Sandro Silva
sandro@diarinho.com.br

O comerciante, de cara amarrada, usa uma esmerilhadeira pra tentar resgatar a ferragem da barraquinha de camelô desativada. De cami­seta regata, sem luvas e cal­çando havaianas, sua menor preocupação parece ser com a segurança. Operários da prefeitura o observam. Para que possam continuar seu trabalho de demolição, es­peram que ele retire as bases do que era um dos cerca de 50 boxes do camelódromo da praça Arno Bauer que ontem, oficialmente, deixou de exis­tir por lá.
O som estridente da esmi­rilhadeira se soma aos estron­dos de marretadas e ao baru­lho de pás raspando o piso e colocando os entulhos sobre surrados carrinhos-de-mão. O motor de um caminhão que para sobre a calçada e de uma parede de vidro que se esti­lhaça ao escapar das mãos da peãzoada ajuda a formar o mosaico da barulheira.
Mesmo assim, ontem à tarde, havia um silêncio en­tre os corredores da estrutura metálica que durante 30 anos foi um comércio popular cra­vado no centro de Itajaí. Um silêncio de vozes. Lá dentro, até mesmo quem trabalhava no desmanche da estrutura, o pouco que se ouvia era para questionar a saída dos came­lôs e, principalmente, o desti­no da praça Arno Bauer.
Por isso, o DIARINHO procurou representantes da prefeitura pra saber se há um planejamento pra ocupa­ção da praça, depois da saí­da do camelódromo. Eles di­zem que sim e garantem que o espaço será revitalizado e que parte das obras come­çam na semana que vem. Os camelôs expulsos duvidam e fazem uma previsão nada animadora: a praça vai ficar ao deus-dará e se transfor­mar em antro de criminosos e viciados.

Vai ser chamariz para drogados e bandidos
“Isso aqui vai virar uma praça de drogados”. Pra seu Wilson Vieira, 67 anos, isso é uma certeza. “A prefeitura quer que vire uma praça de drogados”, reforça o came­lô que ontem concluía o des­monte da banquinha que du­rante 19 anos sustentou as mercadorias que vendia na praça.
Segundo ele, era justa­mente a presença do came­lódromo que impedia que viciados em drogas e até mes­mo ladrões fossem os donos do pedaço. “A praça não tava pior porque a gente mantinha vigia aqui”, reforça o colega de comércio Edson do Nasci­mento, o Zico, 49.
Caminhando pelo outro lado do camelódromo, na cal­çada da rua Gil Stein Ferrei­ra, o casal Sônia Gonçalves, 50, e Luiz Francisco, 49, ti­nha opinião bem diferente. Sônia não resistiu. Parou, ba­teu palmas e soltou em alto e bom som: “Parabéns para o seu prefeito. Dou meus para­béns. Tinha que tirar esse ca­melô da praça”.
Dono da banquinha de revistas que também foi detonada pela prefeitu­ra, Rafael Bernardes, 33, se espantou com a mani­festação. “Mas até a ban­ca a senhora acha que de­via sair?”, perguntou pra moradora do centro. “Não, não… a banca não enten­di porque tão tirando. Não tenho nada contra a banca de revistas”, respondeu a mulher, reforçando que era contra apenas a presença dos camelôs num espaço público.
Rafael é uma das pessoas que acha que a retirada dos comerciantes de lá vai criar um problema de segurança pública. “Vai acontecer o que tá acontecendo com a pra­ça Irineu Bornhausen, ali da frente da Matriz, vai ter ban­dido e morador de rua”, cri­tica.
Sônia não concorda. “Tô esperando que limpem tudo isso aqui e se faça uma pra­ça melhor, igual tem na fren­te da Matriz”, solta, emen­dando: “Qualquer coisa que a prefeitura fizer aqui vai tá de parabéns,” conclui.

Pichação pra vereadora que pediu a retirada dos camelôs
Pra vereadora Anna Carolina Martins (PRB), 33 anos, o povão tá certo em temer que a retirada dos camelôs da praça Arno Bauer seja um chamariz pra bandidagem. “As pessoas têm razão em ter medo porque estão observando as demais praças da cidade e de fato elas estão abandonadas”, alfineta.
Anna Carolina foi a autora da ação na Justiça, movida em 2013, que pedia a desocupação do espaço público, sob argumento de que estaria sendo usado pra fim privado. Ontem, num dos tapumes que a prefeitura colocou pra cercar o camelódromo, uma pichação xingava a vereadora: “Ana Carolina otária”.
A foto com a frase chegou à tarde no Whatsapp da vereadora. “Eu não pretendo fazer nada quanto a isso. Se tivessem pichado um patrimônio público, se dissessem que eu era corrupta, ladra, aí eu ia atrás”, disse ao DIARINHO, garantindo que tava desencanada com o xingamento.
Mesmo também temendo que o local fique abandonado, a vereadora diz que há projetos para ocupação da praça de forma mais favorável ao uso do povão. “É um projeto de revitalização. Inclusive já mostraram para o promotor esse projeto. Mas primeiro vai ter a obra de ampliação do museu”, informou

Semana que vem começam as obras na praça, garantem chefões da prefeitura
Os tapumes que cercam boa parte da praça Arno Bauer, no coração de Itajaí, não são apenas pra escon­der a demolição da estrutu­ra do camelódromo. Tam­bém servem pra preservar o canteiro de obras do restau­ro e ampliação do Museu His­tórico de Itajaí. “Na semana que vem as obras do anexo do museu já começam”, ga­rante Antônio Carlos Floria­no, 54 anos, superintendente da fundação Genésio Miran­da Lins, responsável tanto pelo palácio Marcos Konder, que abriga o museu, quan­to pela praça, que é tombada como patrimônio histórico da cidade.
A obra vai ocupar metade da praça. “O anexo terá 514 metros quadrados”, informa Paulo Praun, 52, secretário de Urbanismo da prefeitura. Se­gundo ele, a empresa respon­sável pela construção terá en­tre 180 e 250 dias pra concluir a construção.
Para Paulo Praun, os ta­pumes na praça vão continu­ar enquanto durar a obra do anexo do Museu e enquanto durar a demolição da estrutu­ra que abrigava o camelódro­mo. Não há previsão pro des­monte, afirma o secretário de Urbanismo. “A dificuldade é justamente aquela estrutu­ra metálica, que tem que ser retirada em boas condições para que possa ser reaprovei­tada”, explica.
No projeto de restauro e ampliação do museu tam­bém tá o desenho da praça Arno Bauer, justamente onde ficam as banquinhas dos ca­melôs. Uma via que liga o calçadão da Hercílio Luz com a rua Gil Stein Ferreira, ban­cos e algumas árvores são a proposta que tão no papel.
Mas Floriano garante que a revitalização da praça tem tudo pra ser mais do que isso. “A única coisa projetada mesmo é o prédio do anexo, que era pra suprir uma ne­cessidade administrativa, de restauro e de reserva técnica (espaço pra guardar os acer­vos que não estão em expo­sição)”, diz o chefão da fun­dação.
Na semana que vem, adianta Floriano, os arqui­tetos da secretaria de Plane­jamento vão avaliar o que pode ser feito. “A gente não vislumbra a praça agora por­que tem essa estrutura do camelô, que é grande, mas a ideia é fazer uma alame­da”, diz o superintendente da fundação Genésio Miran­da Lins. “Defendo a ideia de que seja um espaço aberto”, completa.
Não há data certa pra re­vitalização da praça. “Creio que deve ser feito de forma rápida. Particularmente acho que se deve urbanizá-la rapi­damente, deixá-la iluminada, clara, segura e com acessibi­lidade”, conclui.

Praça pode ser usada pra atividades culturais
A foto antiga que o administrador de empresas Marcelo Reiser, 51 anos, mandou pro DIARINHO, dá uma ideia de como a praça Arno Bauer era usada no passado. O espaço virou exposição de artes ao ar livre. O ano era 1985.
A imagem chamou a atenção de Marcelo. “Acho que deveria se fomentar isso com a retirada do camelódromo. Que atividades como essa da foto voltassem a ser feitas. Acho que vai dar mais sentido para a praça se essa parte toda for explorada pela Casa da Cultura”, sugere.
Talvez Marcelo não saiba, mas o que ele está propondo é uma sacada que os especialistas chamam de “urbanismo de eventos”. “O urbanismo de eventos ou de animação é cada vez mais importante nas cidades, desde que haja uma sequência de ofertas de uso ideais para aquele espaço”, avalia o arquiteto e urbanista Dalmo Vieira Filho, 61 anos.
Outra observação de Dalminho é que se instalem nas praças equipamentos que possam reter o povo que passa. “É muito interessante prever as maneiras de um espaço público ser usado como área de permanência e não só de passagem”, diz. Bancos, mesas, aparelhos de ginástica, parquinhos, quadras estariam entre esses equipamentos. “Uma coisa é passar pela praça. Outra é sentar, conversar, ler um jornal, ver uma apresentação. Isso faz com que as áreas se tornem pontos de permanência”, explica.
Ainda segundo o arquiteto, qualquer intervenção na praça deve ser pensada de forma integrada com a região da cidade onde ela está. “A grande questão de urbanismo é que as coisas estão encadeadas. Tem que ver a paisagem, o que tem de comércio próprio e o que se amarra com outras praças”, exemplifica. 

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