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Crime ambiental no paraíso

Vereadores se juntaram a moradores para tentar barrar a obra; prefeitura permitiu esgoto em área de restinga. Caso chegou ao MPF

A derrubada de árvores nativas e o aterro de uma área de brejo da morraria da praia de Quatro Ilhas provocaram uma reação em cadeia em defesa daquela região de Bombinhas. Ontem, depois que o povão encheu a câmara exigindo providências, os vereadores decidiram também entrar na briga. Além de meter pressão na prefeita Ana Paula da Silva (PDT), os edis também vão apresentar uma denúncia de crime ambiental ao ministério Público Estadual.
As decisões foram todas por unanimidade, informou ontem à noitinha Lourdes Matias, presidenta da câmara. De acordo com a vereadora, dois requerimentos aprovados serão dirigidos à prefeitura. “Primeiro estamos pedindo todas as informações sobre a obra que está sendo executada, todas as documentações, licenças ambientais, alvarás de construção e cópia do projeto de arrumamento de Quatro Ilhas”, contou.
O outro requerimento é para que a prefeita determine estudos com o objetivo de transformar Quatro Ilhas numa área de proteção ambiental intocável. “Queremos restringir ao máximo as intervenções lá e preservar totalmente aquela área”, afirmou Lourdes.
A denúncia ao MP será feita na quarta-feira, disse ainda a presidenta da câmara. “O que aconteceu ali é grave demais”, aponta a vereadora, referindo-se não apenas ao desmatamento, como também ao fato do proprietário do terreno fazer obras para o prolongamento de uma rua. “Fazer rua cabe ao município e há muitos anos o município resolveu não mexer”, conclui.
Alberto João da Silva, o Beto, 45 anos, presidente da associação Bombinhas de Surf (ABS), informou ao DIARINHO que hoje cedinho a prefeita Ana Paula aceitou receber representantes de entidades e vereadores para avaliar a situação.
A assessoria da prefeita disse à reportagem que a obra está embargada desde sexta-feira passada. O empresário Fernando Antônio Luiz da Silva, responsável pelo desmatamento, mora numa cobertura em Quatro Ilhas. Ele foi procurado pelo DIARINHO ontem à tarde. Um funcionário informou que o empresário havia saído de casa. Fernando teria intenção de fazer prédios residenciais de luxo na área desvastada.

Entenda o crime
O desmatamento começou na quinta-feira passada. No dia seguinte, como houve reação dos moradores, os peões e as retroescavadeiras trabalharam durante a madrugada para derrubar as árvores e fazer parte da terraplanagem do prolongamento da rua Jaú, também tratada como Ilha do Arvoredo. “Máquina trabalhando de madrugada boa coisa não é, né!?”, provoca a jovem Patrícia Pinheiro, 21, filha e neta de nativos, que integra o movimento em defesa de Quatro Ilhas.
E não era boa coisa mesmo. Um trecho de quase 400 metros de extensão por 10 de largura foi aberto em meio à mata atlântica, chegando até à base de um morro.
Durante a manifestação que realizaram no domingo, moradores de Quatro Ilhas e de outros bairros de Bombinhas fizeram pequenas barricadas na estrada, usando troncos e galhos de árvores nativas que foram cortados e jogados à beira do caminho.
Tão pior quanto à depredação da mata, foi o aterro de parte de um brejo para fazer a estrada. “Tem muitos mananciais de água que descem do morro e abastecem esse brejo”, explica o surfista Frederico Jorgensen, 36, morador da Quatro Ilhas.
O brejo, além de formar pequenas lagoas, também abastece o pequeno mangue que se forma na restinga do canto sul da praia. Beto, 45, presidente da associação Bombinhas de Surf (ABS), diz ainda que um córrego foi tubulado e que o brejo que existe naquele trecho foi drenado com grandes tubos de cimento.
Basta caminhar alguns passos para ver as tubulações sobre a estrada, feita com macadame e entulhos. Pedaços de tijolos, de concreto e arames de construção são encontrados por toda a parte do piso irregular.
O prolongamento da rua Jaú e as fossas sobre a restinga (veja texto ao lado) motivaram a manifestação de domingo, quando cerca de 100 pessoas, entre moradores e frequentadores da praia, fizeram um “abraço coletivo” pra simbolizar a defesa das áreas naturais de Quatro Ilhas.

FOSSAS NA RESTINGA
Os ataques ao meio ambiente de Quatro Ilhas não ficam restritos ao prolongamento da rua Jaú. Na semana passada, sob as vistas grossas da fiscalização da fundação Municipal de Amparo ao Meio Ambiente (Famab), foram instaladas fossas sépticas em plena restinga, que é aquela vegetação das dunas da praia.
Segundo moradores da praia de Quatro Ilhas, as enormes fossas foram instaladas para receber os dejetos de grandes quiosques que serão instalados pertinho da faixa da areia da praia.
A ambientalista Ana Paula Ferreira, ex-secretaria de Meio Ambiente da prefeitura de Bombinhas, lembra que a restinga é uma área de preservação permanente protegida por lei federal e qualquer construção sobre ela é criminosa.

Procurador federal começou a investigar
As CAGADA, CONFUSÃO – “>lambanças na praia de Quatro Ilhas chegaram à mesa do procurador da República, Rafael Brum Miron. Segundo a assessoria do procurador informou via e-mail, foi aberto um procedimento para investigar o caso. Tanto o Ibama quanto a polícia Militar Ambiental foram acionados pelo ministério Público Federal para fazer uma fiscalização. O procurador também enviou ofício à Fatma e à Famab pedindo informações sobre o caso.
E a coisa já começou a andar. Ontem, policiais militares ambientais estiveram em Quatro Ilhas averiguando tanto o prolongamento da rua Jaú quanto as fossas em área de restinga.

Alejo Muniz e ambientalistas também na briga
Para a ambientalista Ana Paula Ferreira e para o advogado Vinícius Gasparin Rossa, do movimento Unidos por Bombinhas, o desmatamento da base da morraria de Quatro Ilhas e o aterro de um dos alagados são crimes ambientais. “Veja, aqui foram retiradas bromélias, samambaias, pitangueiras, ingás, gramíneas, trepadeiras, aroeiras”, lista Ana Paula, mostrando à reportagem o tamanho do prejuízo ambiental.
A quantidade de bichos também é grande, observa Ana. “A área é farta de borboletas, lagartos, aranhas, pequenos roedores, gaviões, gambás, ouriços, cobras e muitos outros”, afirma a ex-secretária de Meio Ambiente da prefeitura de Bombinhas, que foi até o local fazer uma avaliação do estrago a pedido do DIARINHO.
Além de também apontar as ilegalidades da abertura da rua, o advogado Vinícius Rossa levanta um debate mais amplo. “A gente sabe que Bombinhas chegou no limite da sua capacidade de suporte”, diz, referindo-se à quantidade de construções e aos problemas de abastecimento de água e de saneamento básico.
Por isso, pra ele, o ideal seria transformar a cidade numa grande unidade de conservação, parando imediatamente a construção de prédios e só permitindo que se façam casas. Além disso, garantir que todas as áreas de morrarias permaneçam intocadas.
Ontem à tardinha, do Rio de Janeiro, o surfista profissional Alejo Muniz, que se criou em Quatro Ilhas, mandou uma mensagem de vídeo dando apoio à luta pela preservação da praia. “Tô aqui dando meu apoio total a Unidos Por Bombinhas , à ABS e a qualquer organização que esteja ajudando a continuar preservando a nossa praia que é tão linda”, disse o surfista, num dos trechos do depoimento, que você vê por completo no site do DIARINHO.

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