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Conheça as histórias de separações de mães e suas crias

São até nove meses no ventre, mais alguns com atenção integral na licença maternidade até chegar o primeiro desafio: a separação na hora de deixar o filho na creche ou aos cuidados de alguém. E não para por aí. Estudos, trabalho, vida pessoal… São inúmeras as situações em que as mães colocam o amor à prova com a distância ao que têm de mais precioso, os filhos. Não importa a idade ou o tamanho, para elas, eles sempre serão motivo de preocupação e amor, alegria e tristeza.
Aos 81 anos, Maria Izabel Inácio, mais conhecida como dona Bela, ainda puxa a orelha do filho quando ele passa dias no mar pescando; a cozinheira Izabel Morais, 59, está há quase três anos sem ver o filho, preso na penitenciária da Canhanduba; a auxiliar administrativa Rose Bortolli, 50, apela pra tecnologia para matar a saudade do filho que está estudando na Europa; e a técnica de enfermagem Maria Lisboa, 47, se recusa a ver os telejornais quando o assunto é polícia, com medo de ver o filho, policial militar, na tela; e ainda tem a Daisy Cordeiro, 33, que trabalha pertinho da creche onde ficam os dois filhos pequenos, e instintivamente olha pela janela quando ouve o primeiro choro.
No dia delas, o DIARINHO conta histórias de mulheres que superam a distância e outras dificuldades para continuar fazendo algo simples e grandioso: ser mãe.

Uma prova de confiança
A aflição de ficar longe dos filhos é ainda maior quando eles têm apenas poucos meses de vida. A veterinária Daisy Cordeiro, 33, já é experiente nesse assunto. Primeiro foi com o Guilherme, que tem quatro anos, e agora com o Vinícius, de apenas um ano. Mas o coração continua apertado. “Com o Vinícius eu sofri um pouco menos porque já tinha passado por isso com o Guilherme, uns anos atrás. Mas eles são o que tenho de mais precioso, então a preocupação sempre existe”, diz.
Os dois filhos entraram na creche com menos de cinco meses, pois Daisy tinha que voltar ao trabalho. Ela ainda revela que a maior dificuldade é a separação inicial. “Durante a licença maternidade, cria-se uma relação muito forte entre mãe e bebê, então a gente nunca quer se separar. Ainda mais no meu caso, pois passo o dia no trabalho e só vejo eles de manhã e de noite”, explica.
Com mais de 30 anos à frente da creche Pingo de Gente, de Itajaí, onde estudam Guilherme e Vinícius, a diretora Raquel Staack Alves, 47, está acostumada com a reação dos pais quando deixam a gurizada pela primeira vez. “Muitas vezes o bebê nem chora, ao contrário da mãe. Por isso, fazemos uma adaptação com os pais. No primeiro dia eles deixam 30 minutos, depois uma hora, e assim por diante. Os pais até dão comida para os filhos aqui durante a adaptação”, conta.
A saída para Daisy foi conseguir uma creche na frente do trabalho. E o que deveria ser uma vantagem resultou em mais uma preocupação para a mamãe. “É só ouvir qualquer barulho de criança chorando que eu dou uma olhada na janela pra saber se é meu filho”, revela.

O corpo em terra e o coração no mar
Seis filhos, 19 netos e 12 bisnetos. Neste Dia das Mães, não vai faltar presente pra dona Bela, 81. No entanto, o que ela mais quer é ver o filho José Carlos Inácio, 60, o Pico, aposentar o barco de pesca. Filha, viúva, mãe e avó de pescadores, mesmo já estando acostumada com a espera de quem está no mar, ela admite que ainda fica com o coração apertado quando ele embarca. “Sei que meu filho gosta do mar, mas a cada dia a preocupação aumenta, pois ele não é mais garoto pra pescar. Cada saída é uma aflição. Teve uma vez que trovoou bastante e eu fiquei com medo, porque a gente só pode imaginar que eles estão passando por alguma dificuldade”, conta.
José Carlos é presidente da Colônia de Pescadores de Navegantes e um dos oito filhos que a dona Bela teve – dois já faleceram. Ele tem 48 anos de experiência no mar, mas ainda liga pra acalmar a mãe quando está trabalhando. “Sou pescador desde os 12 anos e já cheguei a ficar até 31 dias no mar. Antes era mais difícil, pois a gente só mandava notícias por rádio pro porto. Hoje temos celular pra avisar a família. Sempre que posso, ligo pra minha mãe ficar tranquila”, diz Pico.
“Alguém ia até o trapiche pra saber pelo rádio se o barco tinha chegado no destino e depois me avisava”, lembra dona Bela. Com saúde e muito bom humor, ela caminha pelo trapiche à margem do rio Itajaí-açu e conta que perdeu a conta do número de broncas que já deu no filho por causa da pesca. “Meu pai era pescador, meu marido era pescador, meu filho é pescador e meu neto também. Passei a vida ligada na pesca. Sempre fico preocupada. Hoje ele nem avisa quando sai pro mar. Só me liga quando já tá pescando. Mas a minha vida foi sempre assim, esperando o peixe do mar para fazer a comida pra nossa família”, diz.
Além dos desafios do mar, Pico ainda arrumou mais uma preocupação para a mãe no início deste ano. “O maior susto que dei nela foi em fevereiro, quando fiz mais uma operação no coração. Tive que ficar 23 dias internado, mas me recuperei bem”, conta o filho.
Decidida e com bastante saúde, dona Bela garante que o presente dela vem todos os dias, com o carinho dos filhos, netos e bisnetos. “O melhor presente é receber amor da família e saber que eles estão bem”, diz.
Dona Bela jamais deixa de se preocupar com o filho José Carlos, pescador assim como os outros homens da família

“É um pedaço meu que está lá com ele”
Não é de hoje que a técnica de enfermagem Maria Lisboa, 47, se preocupa com o filho Diórges Lisboa Martins, 28, soldado do 1º Batalhão da Polícia Militar de Itajaí. No início do mês, ele quebrou um dedo numa ação da polícia. “O principal é ele chegar inteiro em casa. Mas já tá com o dedo quebrado. Desde criança é assim, vive aprontando e se quebrando”, ralha a mãe, que não esquece de cuidar do curativo no dedo do filho.
Antes de entrar para a PM, Diórges foi bombeiro civil e também passou pelo Exército. Por causa das profissões de risco, a mãe prefere nem saber muitos detalhes do que o filho faz, contanto que ele chegue inteiro em casa. “Quando começa a passar notícia de ação da polícia, eu desligo a TV. O risco que ele passa na rua é grande, pois os policiais ficam muito expostos. Quando ele disse que ia fazer a prova da PM, eu não gostei, mas a escolha é dele”, se conforma.
Maria ainda lembra quando ficou mais ansiosa pelo retorno do filho. “Fiquei bem preocupada quando ele era bombeiro civil e ajudou no resgate de pessoas na enchente de 2011, em Tijucas. Mas a gente não cria filho pra gente, e sim para o mundo. Mesmo assim, é um pedaço meu que está lá com ele”, diz Maria, que criou Diórges sozinha.
O filho tenta tranquilizar a mãe e ainda promete uma surpresa para o dia dela. “É normal porque toda mãe se preocupa com o filho, mas nós somos treinados para o nosso trabalho. Ela às vezes liga quando estou trabalhando. Eu gosto, pois é sempre bom ter uma palavra de conforto. E ela pode esperar porque vai ter presente dobrado, pois ela é pai e mãe”, afirma.

Tecnologia a favor do amor materno
Há três meses, os jantares e idas ao cinema de Rose Bortolli, 50, com o filho Maurício Bortolli Lattmann, 22, foram trocados por longas conversas no celular ou através do Skype e Facebook. Essa foi a saída depois que o estudante do curso de administração da Univali começou um intercâmbio de seis meses em Portugal. “Somos muito próximos e fiquei com o coração apertado quando ele me falou da viagem, mas seria egoísmo da minha parte tentar impedir. E ele ainda me proibiu de chorar no dia da partida”, diz a mãe.
Rose é auxiliar administrativo numa empresa em Balneário Camboriú, e aproveita o horário de almoço pra falar com o único filho. Muito unidos, os dois moravam juntos desde sempre. Quando o filho tinha seis meses, Rose se separou do pai de Maurício. “Nós fazíamos muitos programas juntos, como ir ao cinema ou comer sushi em algum restaurante. A distância é difícil, mas com a internet fica mais fácil matar um pouquinho da saudade. E eu vejo que ele está bem pelas fotos”, afirma.
Além das fotos, Rose também procura saber como o filho está falando com alguns amigos dele, que também estão em Portugal. Mas o “controle” ainda vira brincadeira nas conversas com o filho. “Mesmo distante, ela me vigia totalmente. Só coloco fotos do que quero que ela saiba”, brinca o estudante.
Maurício sabe quando sente mais falta da mãe-amiga. “A parte mais difícil é a saudade, claro. Mas também sinto falta na hora de fazer as coisas que você está acostumado que a sua mãe faça, como lavar a roupa e cozinhar”, conta.
Para a mãe, um alento pro coração apertado é a imagem do filho na tela do computador. “A saudade fica menor quando vejo a alegria no rosto dele no Skype. Acabo viajando junto com ele”, diz Rose, que, se depender do filho, já pode fazer as malas. “Meu plano agora é guardar dinheiro para trazê-la pra Europa um dia”, promete o filho.
A distância não existe quando Maurício conversa via computador com a mãezona Rose, ele em Portugal e ela em Balneário Camboriú

A dor da separação forçada
Uma foto desbotada e algumas cartas. Essas são as únicas lembranças que a cozinheira Isabel de Morais, 59, tem do filho R.A., 22, preso em dezembro de 2010 por envolvimento com o tráfico de drogas. No início deste mês, a reportagem encontrou Isabel esperando em frente ao complexo penitenciário da Canhanduba para retirar a carteira de visitante. Por causa da distância e de um problema de saúde, que a impedia de ir até a penitenciária, ela já está há quase três anos sem ver o filho mais novo.
“Eu tinha um problema na coluna e fiz uma operação muito séria. Como não tenho carro, fica difícil vir da Penha, onde moro, para a Canhanduba. Só consegui hoje porque peguei carona com uma conhecida”, conta a mãe, com a foto do filho em mãos.
R.A. é o mais novo dos cinco filhos da Isabel, e também o que mais gera preocupação. “Fico mais angustiada com ele porque sempre foi o que me deu mais trabalho. Infelizmente, ele se meteu com as drogas e foi parar na prisão”, lamenta.
Ansiosa para rever o filho, ela conta que dificilmente vai conseguir isso até o domingo de Dia das Mães, mas que não faz diferença. “Nesse período, ele sempre me escreveu. E também tenho uma foto que guardo como se fosse ouro. Nesses três anos, só nos comunicamos por carta. Ele me escreve para dizer que está bem e pergunta como estou. Se não conseguirmos nos ver até o Dia das Mães, não importa. Contanto que eu o veja, qualquer dia vai ser bom”, avalia.

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