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Coluna de Luiz Fernando Ozawa

A copa e o “cocô”

Perdoem-me a escatológica temática, mas me causa revolta e preciso compartilhar. “Cocô” com acento circunflexo ortograficamente escrito errado de propósito: para ninguém pensar que se trata de suco de fruta do coqueiral, e sim, o resultado da digestão humana mesmo, detestável, altamente poluente e causador de doenças.

A revista Carta Capital (nº 740), de 20/03/2013, publicou alguns resultados de estudo sobre saneamento básico no Brasil. Os dados mais alarmantes é que somente 46,2% do esgoto (leia-se “cocô” nesta crônica) brasileiro são coletados, e 37,9% são tratados. Ou seja, o país “(re)colhe” menos da metade do cocô que os brasileiros produzem e trata pouco mais de um terço dele, para depois despejá-lo nas águas (rios, mares e lagoas).

O Brasil é o país reconhecidamente banhado por muitos rios. É um país onde a água é abundante. Onde se lava calçada e automóveis com água potável. Aqui no sul, costumo desafiar meus alunos: é difícil encontrar uma cidade que não seja banhada por um rio, ribeirão ou algo assim. É por essa razão – pela falta do flagelo da falta de água – que nós brasileiros somos mal acostumados com a água e não a tratamos como deveríamos.

É comum, faz parte do princípio do capital, do mercado, do qual aprendemos desde crianças: oferta e demanda. Há muita oferta de água, portanto, seu “valor” é baixo. Tem demais, pra quê cuidar?

O estudo revela ainda um brilhante cruzamento de dados: a relação entre falta de coleta e tratamento de esgoto e o gasto com doenças “básicas”, inclusive infantis. Estamos não só matando peixes nos rios, mas nossas crianças com essa barbárie medieval! Pelo visto, a escuridão da Idade Média não acabou.

A Copa do Mundo de futebol vem aí. Turismo internacional e etc. Hotéis e serviços ligados ao turismo comemoram. Nosso “nacionalismo” alimentado. Quando anunciada a sede, os mais exaltados diziam: vai ser bom, atrairá investimentos e localmente teremos obras de infraestrutura. Infraestrutura? Portos, aeroportos, hidrovias, ferrovias? Convenhamos! Nem nosso cocô recolhemos!

Nos aeroportos cartazes com as imagens mais belas de nossos pontos turísticos, mas, imaginem a seguinte frase no desembarque: “Bem-vindo ao Brasil, o maravilhoso país que colhe menos da metade do seu cocô. As chances do seu cocô, sr(a). turista, ir para o mar ou rio desta foto, são de 53,8%”.

Enquanto na maioria dos países da europa ocidental se reutiliza água tratada (antes esgoto) e a água potável alimenta tão somente as pias, os automóveis entram em programas internacionais de consumo e poluem menos, aqui, onde a natureza ainda é vibrante, presente, sequer colhemos o cocô que produzimos.

No Brasil sempre soubemos que obras de saneamento básico, porque “embaixo da terra”, invisível, não são prioridade dos políticos. Alfabetizados, presumem-se, devem entender os políticos a epistemologia da expressão saneamento básico, ou seja, higiene primeira, água potável, esgoto, saúde pública.

Que tal aqui um movimento diferente, pela “Política do Invisível”? Coleta de cocô, tratamento dele, crianças abandonadas (por todos), sistema carcerário, e outras “políticas invisíveis”. Sobre os “males” diretos da Copa ao país, deixo pra outro texto. Por ora, só o cocô mesmo.

(*) O autor é bacharel em direito, mestre em gestão de políticas públicas, doutorando em ciências jurídicas e em ciências jurídicas e sociais, advogado e professor universitário

LEITOR (A): Pode o poder público ou empresa terceirizada cortar a distribuição de água e coleta de esgoto por falta de pagamento?
OZAWA: Eis uma questão que já foi mais polêmica. Logo com a efetivação dos direitos fundamentais, do indivíduo, da pessoa humana na Constituição da República de 1988, houve um entendimento de que água (e esgoto) não poderiam ser cortados por atentar contra à dignidade da pessoa humana. Ninguém sobrevive sem água potável, por isso um serviço essencial da República para acesso de todos, democraticamente. Porém, o neoliberalismo é uma ideologia política que também se faz presente não só no Poder Executivo e Legislativo (políticos), mas no Judiciário (jurídico) idem. Hoje, a corrente majoritária é de que salvo se comprovada a penúria, a miséria do “cidadão”, é legítimo o corte. O problema é que o miserável raramente acessa a Justiça (por diversas razões), portanto, é lamentável tal entendimento porque o Estado (ou concessionária ou terceirizado) tem meios de cobrança de valores para além do “sequestro” de direitos essenciais.

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