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Chuvarada aumenta o risco dos deslizamentos

Fazenda é o bairro que tem mais casas em áreas de risco e onde mais ocorreram deslizamentos

Sandro Silva
sandro@diarinho.com.br

Levantamento da defesa Civil de Itajaí aponta um número que dá pra assustar. Nada menos que 1225 casas tão instaladas em áreas que os técnicos chamam de “risco geológico”: penduradas ou construídas em sopés de morros. Na prática, isso significa dizer que aquelas moradias correm risco de virem abaixo ou de serem soterradas.
E não é só isso. “O período de chuvas aumenta o risco”, alerta o geólogo Jannio Aguilar, gerente de prevenção da defesa Civil peixeira. “Nesse momento é preciso estar mais alerta em relação às encostas do que ao nível dos rios”, aponta.
Não pense que a coisa é exagero. De 2007 pra cá já foram registrados 197 casos em que deslizamentos de terra ou desbarrancamentos em encostas derrubaram ou colocaram casas no fio da navalha, fazendo com que os locais fossem interditados.
Ainda pelo levantamento da defesa Civil, a situação de 668 moradias é considerada de risco ‘alto’ ou ‘muito alto’. As demais – 557 – tão na categoria risco ‘médio’. “Nesse tipo de ocupação de encostas não existe risco zero,” observa Jannio. Atualmente, 28 residências estão interditadas oficialmente.
Os problemas, avalia o geólogo da defesa Civil, ocorrem principalmente pela forma como são cortados os morros para a instalação das casas. “Em 98% das situações é uma intervenção nas encostas sem uma orientação profissional”, afirma.
Mas também há um outro problema. “A vulnerabilidade das casas também influi no escorregamento,” diz Jannio. Traduzindo: casebres pendurados em qualquer lugar, sem uma base eficiente, são quase um convite pra casa acabar rolando morro abaixo.
Foi o que aconteceu em 2008 com duas casinhas de madeira do morro do Padre Jacó, no bairro Fazenda. A mais alta caiu, atingiu a outra e as duas despencaram.
O estudo da defesa Civil se chama “Avaliação de risco das áreas de encostas”. Começou em 2012 e faz parte das atividades constantes de monitoramento para prevenção de desastres do órgão. Além do geólogo, um engenheiro civil e um ambiental também participaram do levantamento e dos monitoramentos, que incluem, inclusive, vistorias e até mapeamento aéreo.

Como saber se o morro vai despencar
O geólogo Jannio Aguilar diz que há sinais que indicam a possibilidade de um deslizamento e que podem ajudar o povão a evitar o pior. “O solo fala contigo, basta ficar atento”, diz.
Para Everlei Pereira, coordenador da defesa Civil de Itajaí, os desmoronamentos são mais perigosos do que a subida das águas dos rios. “A enchente te dá tempo de defesa, ela é gradual. Já os deslizamentos, se não perceber os sinais a tempo, o morro vem abaixo”, alerta.
Então lá vão as dicas pra saber se a situação no morro tá perigosa:
• Troncos de árvores ou postes inclinados;
• Muros embarrigados;
• Fendas no solo;
• Barulho de madeira quebrando (principalmente na zona rural, pois podem ser raízes de árvore rachando).

Fazenda é o bairro com maior número de casas em risco
O Fazenda é de longe o bairro com o maior número de casas em situação de ‘risco geológico’, aponta o levantamento da defesa Civil de Itajaí. Tem 544 residências listadas, do universo de 1225 moradias. Isso dá 44,4% das casas.
É nessa região da cidade onde também tá a maioria das casas em situação de risco ‘alto’ ou ‘muito alto’: 305. Isso é quase metade de todas as residências de Itajaí consideradas na mesma categoria de perigo.
O geólogo Jannio Aguilar, da defesa Civil de Itajaí, lista cinco comunidades no bairro que tão instaladas em encostas e fazem parte do estudo: Bem-te-vi (atrás do cemitério), Azeite (nos fundos do conjunto do BNH da rua Uruguai), Padré Jacó (ao final da rua João Cunha), Morro da Baleia (no alto da ladeira da rua Neoflides Vieira Wendhausen) e morro da Atalaia 1 e 2 (tanto a parte do final da rua Gumercindo Rocha quanto a da rua Venezuela, perto do morro Cortado).
Pra deixar o Fazenda ainda na frente das estatísticas, aí vai mais uma: dos 197 deslizamentos ou quedas de barreiras que aconteceram nos últimos sete anos em Itajaí, 81 deles foram em alguma das comunidades de risco daquele bairro.

O prazer de morar no morro supera o medo de deslizamentos
O DIARINHO subiu ontem o morro do Azeite, um dos pontos listados pelo estudo da defesa Civil de Itajaí como área de risco de deslizamentos e desmoronamentos. Não faltam por lá histórias sobre casas rachadas ou muros de contenção construídos. Apesar disso, mais do que temer uma tragédia, os moradores fazem questão de falar sobre outro sentimento: o orgulho e o prazer de morar numa área que consideram privilegiada.
Pra chegar lá entre na rua João Matias Heill (a da praça da Pipa, na rua Uruguai), ande 150 metros e olhe pra direita. Pronto, vai ver o começo da ladeira Oscar Praun Neto. Ali se inicia o tradicional morro do Azeite. “Os meus pais casaram e já vieram pra cá. Foram os primeiros moradores”, diz a servidora pública Edlamar Aparecida Silva, a Nega, 49 anos, mostrando a certidão de casamento dos pais, de 2 de abril 1959. Isso mesmo, o morro do Azeite tem 56 anos. “Nasci aqui”, solta em seguida, transbordando em orgulho.
O nome Azeite, na versão de Nega, foi dado porque há mais de 20 anos as ladeiras não tinham pavimentação nem as escadarias. Como era muito liso e escorregadio, até parecia que alguém derramou azeite por lá. Uma história que dona Vilma Araújo, 77, também reforça. “Era muito escorregamento, né!?”, diz a velhinha, que segundo a vizinhança seria a terceira ou quarta moradora da comunidade, que hoje tem 16 casas. Ela garante que foi a sexta.
Vista privilegiada
A vista privilegiada do alto do morro continua seduzindo dona Vilma, que passa boa parte do dia sentadinha numa cadeira na varanda de sua antiga e cheia de cupins casa de madeira. “Eu gosto daqui por causa dessa vista mesmo que tinha. E aqui não tem perturbação de ninguém”, afirma.
Mas os prédios que nascem pela Beira Rio, pelo restante da Fazenda e até pelo centro agora enfeiam o cenário. Hoje em dia os moradores mal espiam o Saco da Fazenda. “Antes até dava pra ver avião descendo e subindo no aeroporto (de Navegantes). Era a coisa mais linda. Quer ver à noite”, lembra. “Mas aquele avião da Havan (ela fala do helicóptero do empresário Luciano Hang) passa sempre aqui pertinho. Outro dia o moço fez assim pra mim”, emenda, encenando um tchauzinho..

Ainda tem muito susto
Dona Vilma, que criou cinco filhos no morro do Azeite, confessa que não tá tranquila. E não é nem pela velha casa de madeira equilibrada na parte da frente por três pilastas e grudada num corte de morro, cujo soalho cede quando se pisa nele. “Eu tenho medo. Tem esse pé de árvore torto aí atrás. Se cair vai quebrar o banheiro da minha neta. Tem noite de chuva que a gente nem consegue dormir de preocupação”, diz.
Nega e o músico Kauê Felipe Bento, 31, também já passaram medo. Na chuvarada de 2008, a casa de um vizinho, que fica entre a morada dos dois, ameaçou cair. “A sapata virou e a casa virou junto”, conta a servidora pública, que mora na parte debaixo do morro. O vizinho teve que construir outra morada e só no ano passado, depois de juntar dinheiro, Nega pode fazer uma obra que a deixou mais tranquila. “Gastei R$ 5 mil, mas fiz uma contenção com concreto usinado”, conta, levando a reportagem até os fundos da casa pra mostrar o muro que impede o deslizamento do barro.
Pra Kauê hoje não há mais tantos riscos por lá. Inclusive em relação ao tráfico de drogas. Segundo outros moradores, com a saída do traficante Beto Frajola da comunidade, a situação ficou mais tranquila. Por isso, o músico não abre mão de morar na comunidade. Há sete anos retornou pro morro do Azeite, pra viver na casa que era da mãe e do padastro. Pra ele, além das boas relações com os vizinhos, o que o seduz a ficar por lá é justamente o visual. “Tem uns dias de sol nascente, laranja, laranja, que ilumina toda a casa”, narra, num tom poético.
Isso, sem falar da praticidade. “A gente tá a 10 minutos do centro. Se quer ir pra Balneário Camboriú, só pegar aí a Osvaldo Reis. É tudo na mão”, aponta.

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