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Camboriú é a campeã de casos de abusos contra crianças

Cidade confirmou, ano passado, 43 das quase 100 denúncias de violência contra os pequenos

Sandro Silva
sandro@diarinho.com.br

A pré-adolescente entra na internet e pensando que conversa com uma menina da mesma idade, mostra fotos sensuais que se transformam em moeda de chantagem para um tarado. A estudante de 10 anos é aliciada no meio da rua e levada por um maníaco para o mato. O pai, aproveitando que fica sozinho com as filhas, as obriga a assistir filmes de sexo e depois as transforma em “atrizes pornôs” na vida real. O exibicionista vai para a frente dos colégios e seu prazer é masturbar-se na frente de crianças com idade aproximada de sete anos.
As sandices são muitas e mantêm Camboriú como cidade com o maior número de registros confirmados de abusos sexuais contra crianças e adolescentes. Só no ano passado, foram nada menos que 43 vítimas de ataques que as autoridades concluiram que realmente ocorreram. Se contar o total de denúncias que chegaram ao conselho Tutelar, ao núcleo de Prevenção ao Uso de Drogas e Combate à Pedofilia ou ao centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas) da prefeitura, o número de registros chega perto de 100, entre suspeitas e confirmações.
Se comparar com Itajaí, por exemplo, os números de Camboriú são mesmo de assustar. Na city peixeira, que pelas estimativas do instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) tinha no ano passado 201,6 mil habitantes, recebeu cerca de 30 denúncias em 2014 e nem todas foram confirmadas. Proporcionalmente isso significa que Camboriú, com aproximadamente 72 mil moradores, teve no mínimo quatro vezes mais abusos sexuais a crianças e adolescentes do que a vizinha Itajaí.
Pelas estatísticas do núcleo de Combate à Pedofilia e do Conselho Tutelar, a grande maioria das vítimas foram meninas. Apenas três garotinhos caíram nas garras dos tarados. A criança mais nova tinha cinco aninhos e 11 outras tinham idade entre seis e 10 anos, informa Manoal Mafra, 44 anos, coordenador do núcleo de Combate à Pedofilia.

Como é o perfil dos tarados em Camboriú
Pelo menos 30 homens foram acusados formalmente pelos ataques às 40 meninas e três meninos em Camboriú no ano passado. Esqueça o esteriótipo de que o estuprador é geralmente um homem de idade avançada, um vozinho, que fica bolinando a meninada. “Com idades acima de 60 anos são raros os casos”, informa Manoal Mafra, do núcleo de Combate à Pedofilia.
Em Camboriú, o risco está entre os marmanjos. “A gente tem percebido que geralmente os abusadores têm idade entre 25 e 40 anos. Eles representam 40% dos casos”, comenta Manoel. “Na maioria são pessoas que não tinham, até então, históricos de abuso sexual”, completa. Isso, segundo ele, deixa o problema mais grave, pois é justamente de quem não se desconfia que parte a ação criminosa.
Uma outra característica típica dos abusadores adultos, observa a conselheira Tutelar Janaína Gervásio, é que eles costumam atrair as vítimas e as famílias através da conversa. “Eles são bons de lábia”, afirma. “E no crime de abuso, geralmente a pessoa nega, não assume o crime”, completa Manoel. E não só porque o criminoso tem poder de convencimento e acha que pode sair ileso. “A pessoa não assume por todas as consequências que poderá sofrer, principalmente dentro dos presídios”, conclui o coordenador do núcleo de Combate à Pedofilia.
Falando em pedofilia, é bom conceituá-la. “Todo pedófilo é um abusador sexual, mas nem todo o abusador é um pedófilo”, explica Manoel. “O pedófilo é aquele que abusa de várias crianças, que tem dentro dele esse desejo pelos pequenos. Ele sente atração em tocar em crianças, em vê-las sem roupas”, continua. Ou seja, há casos em que rolam abusos contra criança mas o criminoso necessariamente não tem tara somente pelos pequerruchos. É o caso de dois adolescentes – de 14 e 17 anos – que se aproveitaram sexualmente dos irmãozinhos de cinco e oito anos.

O perigo mora dentro de casa
Vsto assim, através das estatísticas, os números revoltam. Mas não chegam a dar noção da tragédia que provocam nas famílias onde os abusos aconteceram. “Se tivéssemos um balde com água e fôssemos colocar as lágrimas das pessoas que já passaram por aqui, de pais e vítimas de violência sexual, não haveria espaço suficiente. É algo terrível”, solta Manoel Mafra, que mesmo lidando com casos do gênero há 12 anos ainda se emociona e mareia os olhos ao falar do assunto.
Se quem trabalha no combate a esse tipo de crime se abala, imagine, então, o estrago feito na cabecinha das meninas que eram obrigadas pelo pai a repetirem na prática o que viam nos filmes pornôs (veja ao lado como acontecia a barbaridade). “Você lida com seres humanos que são vítimas do pior crime. As consequências, nas vítimas, às vezes ficam pra vida toda e acaba com o futuro delas se não forem tratadas”, continua Manoel.
No ano passado, felizmente nenhuma menina ou menino foram contaminados com alguma doença sexualmente transmissível. Mas duas garotas – uma de 14 e outra de 15 anos – ficaram grávidas. Uma do padrastro e outra do marido da avó.
O que contribui pra revoltar os especialistas que lidam diariamente com o problema, é que ele ocorre principalmente dentro de casa e com pessoas conhecidas. “Em todo levantamento até hoje, aqui no Creas, os casos se dão intrafamiliar. Sempre acontece que o agressor está na família”, afirma a assistente social Rose Neide Pagliosa, 56, coordenadora do centro. “É aquele que a gente julga que jamais pode acontecer. Mas é justamente dentro de casa que acontece”, alerta. É para os assistentes sociais e psicólogos do Creas que são encaminhadas as crianças, os adolescentes e as famílias que tiveram casos praticamente confirmados.
Manoel Mafra reforça: “Mais de 90% dos casos que chegam ao núcleo de Combate à Pedofilia são de conhecidos da vítima.”

Trabalho de prevenção ajuda a trazer os casos à tona
Mas o que faz Camboriú ter tantos casos registrados de abusos sexuais contra crianças e adolescentes? A resposta é informação. “Porque aqui nós trabalhamos muito com a prevenção e incentivamos a denúncia”, ressalta Manoel Mafra. Como o assunto é tratado de forma ampla em todas as regiões da cidade, aumenta o número de pessoas que se dispõem a fazer as denúncias ou a revelar que foram vítimas.
Toda semana, em período escolar, um grupo de educadores, agentes de saúde e até mesmo a alunada recebe algum tipo de capacitação ou de ações de alerta sobre o assunto. “Acredito que temos poucos casos velados”, arrisca dizer o coordenador do Núcleo de Prevenção às Drogas e à Pedofilia.
É por isso que, pra psicóloca Daniela de Mello, 28 anos, do Creas de Camboriú, o fundamental é ter sempre com os adolescentes e a criançada uma conversa franca e aberta. Em especial, quanto ao uso da internet, campo fértil pros tarados agirem. “Tem que conversar sinceramente, alertar que não se pode conversar com estranhos”, ensina Daniela, que há uma semana encara o difícil trabalho de visitar famílias e conversar com crianças e adolescentes para tentar identificar se foram mesmo vítimas de abusos.
Assim que os pais perceberem algo diferente, devem começar a ficar atentos, sugere Daniela. “São sintomas como mudanças no padrão de comportamento, como no sono, na alimentação, no relacionamento com outras pessoas, sinais de medo, ansiedade, vergonha”, lista a psicóloga. Nesses casos, além da conversa com o filho ou filha, vale também procurar os profissionais do Creas, do conselho Tutelar ou do núcleo de Combate à pedofilia.
Ah! E quanto à internet, não tem jeito: é fiscalizar o uso. “Busque programas que possam estar bloqueando acessos a sites pornográficos, peça para seu filho abrir um por um o perfil dos amigos que têm nas redes sociais e pergunte se o conhece, se sabe onde mora e, aconselhamos, faça mesmo uma faxina na internet e só deixe nas redes sociais quem seu filho conhece”, sugere Manoel Mafra, completando: “Mas o diálogo é sempre o melhor caminho”.

Os casos mais graves
Entre todos os casos de estupros, abusos sexuais a crianças e adolescentes ou ações de tarados que aconteceram ano passado em Camboriú, três delas chamaram a atenção das autoridades. Uma pela trama montada pelo tarado, que se fazia passar por menina pra iniciar o contato com as vítimas, outra pela violência praticada pelo próprio pai das crianças e, a terceira, pela cara de pau do maníaco, que acabou até sendo fotografado se masturbando perto de uma escola.

Do Facebook à chantagem
Foram 20 dias tensos de investigações que mobilizaram agentes da divisão de Investigações Criminais (DIC) do Balneário Camboriú, integrantes do núcleo de Combate às Drogas e à Pedofilia, garotas que foram aliciadas e chantagedas e suas respectivas mães. O esforço valeu. Em 23 de abril do ano passado, o brusquense Marcos Alexandre Lima, 34 anos, foi finalmente preso depois de passar um ano atacando garotas entre 12 e 13 anos de Camboriú. Abordou centenas delas e estrupou cinco, três delas de Camboriú.
Para se aproximar das vítimas, Marcos usava o Facebook. Se fazia passar por meninas novas. Tinha pelo menos três contas falsas no feice, com direito a foto e tudo mais. Nas conversas, convencia as meninas a lhe enviarem fotos nuas ou em poses sensuais. Passado um tempo, o maníaco revelava que não era uma mulher e se identificava como hacker. A partir daí, passava a chantagear as garotinhas. As meninas eram então forçadas a fazer vídeos sensuais e eróticos, nuas, senão teriam suas fotos expostas nas redes sociais.
A maldade não parava por aí. Com medo da exposição e da reação das famílias e amigos, as vítimas faziam os vídeos o que aumentava ainda mais a dependência delas ao maníaco. Com os vídeos, Marcos começava a segunda onda de chantagem e construía o caminho para seu objetivo: estuprar as crianças e adolescentes. Caso elas não se encontrassem com ele, iria colocar os vídeos no Youtube e também nas redes sociais.

Filhas eram obrigadas a repetir cenas de filmes pornôs
Nem sempre o perigo vem de fora ou pela internet. Em muitos dos casos, o tarado está dentro da própria casa. E pior: é o pai das crianças. É o caso do pedreiro Nelson Barbosa, 42 anos, acusado de violentar sexualmente três das seis filhas menores de 18 anos. O caso estourou no final de julho e o pai maníaco somente foi preso em setembro, no meio Oeste catarinense.
Nelson morava no bairro Monte Alegre com a mulher e sete filhos. Seis eram meninas. A mãe é catadora de material reciclável e saía cedinho pra ralar no trampo. Com ela, iam os filhos menores e as mais grandinhas ficavam em casa. Era nesse momento que o monstro entrava em ação. Ele mandava as outras filhas irem ao mercado e chamava uma das crianças para assistir TV. O pedreiro obrigava a garota a assistir um filme pornô e ordenava que a menina repetisse o que via nas cenas.
Pelo que apuraram os conselheiros tutelares de Camboriú, o tarado estuprava as meninas quando elas completavam 11 anos. A filha mais velha, de 16 anos, era abusada há pelo menos cinco anos. O pai pedófilo também era alcoólatra e violento com a família. Batia na mulher e ameaçava as crianças.

Se masturbava na frente da escola
Um tarado costumava se postar num matagal na frente de uma escola pública no bairro Tabuleiro pra se exibir masturbando pra criançada. O maníaco chegou a passar a mão numa estudante. Pelo que o pessoal do núcleo de Combate às Drogas e à Pedofilia de Camboriú apurou, o maníaco costumava aparecer por lá numa moto e ficar no mato fazendo a safadeza pra criançada assistir. Chegou até mesmo a ser fotogrado pelo povão. O dono da motoca usada pelo tarado foi identificado e é o principal suspeito. Ele já tem 16 boletins de ocorrência por casos parecidos. O rapaz está sendo processado.

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