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A produção de cristais na região

Raffael do Prado
rafael@diarinho.com.br

O engenheiro americano Frederick W. Taylor (1856-1915) acreditava que se uma empresa aplicasse um método científico de organização, os trabalhadores renderiam mais, haveria economia de mão de obra, corte de gastos desnecessários com energia e racionalização da produção. Em 1911, ele publicou o artigo “Os princípios da administração” e expôs ao mundo seu método: o trabalho industrial teria que ser fragmentado e cada trabalhador exerceria uma atividade específica em um sistema hierarquizado.
A ideia fascinou o empresário Henry Ford, que tratou de aplicá-la em sua indústria, a Ford Motor. Uma unidade do modelo Ford T, o principal produto da empresa, levava 728 minutos (poucos mais de 12 horas) para ficar pronta. Os trabalhadores tinham que ir atrás das peças e organizá-las até que o carro ganhasse forma. Henry não só aplicou o método taylorista, como também aperfeiçoou a técnica. Ele criou a linha de montagem com esteiras rolantes que se movimentavam enquanto cada operário ficava praticamente parado, incluindo peças à carcaça do veículo. De 12 horas para um carro ficar pronto, Ford derrubou a produção do modelo T para 93 minutos. Na década de 20, a empresa produziu dois milhões de unidade por ano.
Durante uma visita à fábrica Cristal Blumenau, a reportagem do DIARINHO observou, na prática, como o método de Taylor ainda funciona, 100 após sua divulgação. De mão em mão, os funcionários transformam bolas de fogo ardente em peças de cristal delicadas e únicas. Cada tema produzido na empresa, como taças, tulipas e jarras, pacientemente ganham vida graças às técnicas de boladores, sopradores, passadores, gambistas, colhedores e auxiliares.
O gambista Bernardino de Borba, 46 anos, trabalha com cristais há 32 anos. Começou como auxiliar e hoje ocupa o topo na hierarquia da produção artesanal do cristal dentro da empresa. Ele fica sentado e recebe a peça pré-moldada da mão de um passador. Em seguida, adiciona alguns contornos e aguarda a chegada de mais uma fatia de cristal. Borba faz jarras e o trabalho dele é dividido em duas partes: após a concepção do recipiente, ele precisa anexar à peça uma alça. É o colhedor quem busca no forno essa última porção. O gambista usa uma tesoura para cortar um tanto de cristal líquido e gruda na jarra. Depois de alguns movimentos circulares a peça está pronta, pelo menos nessa primeira etapa. “É um material gostoso de trabalhar. Tenho algumas peças em casa, onde também produzo”, conta o gambista Borba.
Do bolador ao auxiliar, uma peça leva em torno de cinco minutos para ficar pronta. Depois, segue para um forno, onde as tensões térmicas são eliminadas. Daqui pra frente, o cristal entra na fase acabamento. A primeira etapa é eliminar os excessos da peça. Em seguida, passar pelo teste de qualidade no olho.
Duas funcionárias erguem os modelos até encontrar a luz da lâmpada. Com o reflexo, as imperfeições são identificadas e ganham uma categoria. Se a transparência não acusar bolhas, ou imperfeições na borda e base do cristal, a peça é nível ouro: será vendida pelo preço máximo da tabela. Em caso de deformidades aparentes, mas que não comprometam a qualidade, o modelo ainda pode ser comercializado, mas com nível de segunda linha, destacado pela cor azul. Mas se os defeitos são aparentes, de longe, aí não tem jeito: o material é descartado e volta para a mistura do forno. Segundo a empresa, 10% do material produzido vai para o lixo. O restante é reaproveitado na mistura original. Até chegar ao setor de empacotamento, as peças passam pelas mãos de 20 funcionários. Começa na mistura dos ingredientes, passando pelo teste de qualidade até o setor de limpeza, onde cada exemplar é cuidadosamente polido.

Peças de uma vida inteira
O apartamento da dona de casa Maria Edelwais Simas, 85 anos, lembra uma galeria. Há lembranças de vários cantos do mundo, a maioria presentes que ganhou de netos, filhos e sobrinhos. O local ainda abriga uma biblioteca com coleções dos grandes pensadores, clássicos da literatura e um canto reservado aos livros espíritas.
Entre a sala de estar e a cozinha fica a copa. O espaço é preenchido com uma mesa daquelas que aumentam de tamanho quando a família chega, puxando as extremidades. Entre a mobília, que foi da mãe de Maria, há um carrinho de chá e uma cristaleira. São de imbuía. “Dos móveis que tenho aqui em casa, o maios novo tem 50 anos”, revela. “Gosto de móvel antigo, que dura, que fica na família por bastante tempo. Eu fiz muitas mudanças na minha vida e sempre carreguei esses móveis comigo”, revela.
Maria conta sobre o cuidado que tem com os móveis, em especial o que guarda taças, tulipas e copos. “Eu tenho uma diarista que está comigo há muitos anos. Ela tem 70 anos e nós dividimos a limpeza das peças. Ela sabe que da cristaleira cuido eu. Gosto de tirar o pó do móvel e das peças”, conta.
Sem muita dificuldade, Maria acessa memórias de 60 anos atrás e relembra em detalhes como tem dividido o mesmo espaço com a cristaleira da copa. “Era da minha mãe depois passou para a minha irmã, de quem comprei os móveis quando estava noiva. Isso foi antes dos anos 50,” narra.
Maria diz que as peças têm grande valor sentimental. “Não tenho nenhuma peça aqui digna de uma reportagem jornalística; a maioria eu ganhei e hoje restaram esses copos e taças. Tinha muito mais, mas acabei dando de presente para meus netos e netas. As peças estão espalhadas na família”, explica.
A também aposentada Francelina Serpa de Oliveira, 75, recorda com emoção da cristaleira que tinha em sua casa. “Cada peça carregava uma história. Ganhei coisas do meu falecido marido e das minhas filhas. Eram copos, taças, tulipas e até cristais de decoração, em formato de animais e velas. Fizeram parte da minha vida. Depois que fiquei viúva, acabei dando para minhas filhas e presenteando os amigos”, diz.

A concorrência com os produtos chineses
A Cristal Blumenau começou em 1969 e alcançou o auge nos anos 1980. Com a abertura do país aos produtos importados, pelas mãos do ex-presidente Fernando Collor de Mello, no início de 1990, as empresas foram assoladas pelo advento do produto chinês, um vidro vendido como se fosse cristal. A Cristais Hering, empresa que alçou Blumenau no país como referência na produção de cristais, sucumbiu ao preço mais barato do importado e faliu em 2009 com uma dúvida de R$ 300 milhões, com fornecedores, funcionários e o fisco. Os trabalhadores, de acordo com o sindicato dos Trabalhadores de Vidros, Cristais, Papel e Papelão (Sindcrip), foram distribuídos entre outras fábricas da companhia, mas a maioria ficou sem emprego.
O gerente comercial da Cristal Blumenau, Ednaldo Machado, 43, explica que o grande desafio das empresas ainda é a concorrência com os produtos chineses. “Nem sempre há um reconhecimento por parte do consumidor de um produto artesanal, com um acabamento mais delicado, mais fino, com alto brilho e transparência, em relação a um produto feito à máquina, vindo da China. O que entra aqui no Brasil é vidro. Então, nosso discurso na hora de fechar uma venda é de que temos um produto com uma fineza maior e com acabamento delicado, feito a mão”, diz.
A produção da Cristal Blumenau, 3800 peças diárias, fica toda no Brasil. “Estamos em todos os estados, com uma concentração maior em São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul”, revela Ednaldo.
A diferença entre o cristal e o vidro reside na composição. Segundo Alfredo Eduardo Costa, 43, do controle de qualidade da Cristal Blumenau, o primeiro leva chumbo na mistura que vai ao forno. O segundo, não. É o chumbo o responsável pela alta transparência do cristal. É o que dá o brilho. Contudo, os níveis de chumbo na composição diminuíram muito nos últimos anos. “O chumbo é tóxico para o manuseio. Depois que passa pelo forno, ele perde a toxicidade e não faz mal ao ser humano”.

O passo a passo da produção
Bolador

Retira uma porção de cristal líquido de um forno com temperatura a 1200ºC

Soprador
Responsável por, literalmente, soprar o produto em um bastão de ferro, a cana. Depois de inflar o cristal, o soprador o coloca em uma forma de madeira mergulhada em água gelada. O produto sofre um choque térmico e endurece. Se preciso, volta ao forno para buscar outra porção da mistura

Passador
Leva a cana até o gambista. Lá o bastão é resfriado para que o gambista tenha firmeza para moldar a peça

Gambista
Dá vida à peça. Ele inclui bases, no caso de taças, e hastes em jarras

Auxiliares
Dão uma leve batida na cana usada pelos gambistas e desgrudam as eças, que vão para um forno a 460ºC para eliminar as tensões térmicas

Colhedor
Auxiliar do gambista. Sempre que necessário, vai ao forno buscar um pouco de cristal para os acabamentos

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