Home Notícias Quentinhas A marcha da vergonha alheia, do passado, do velho

A marcha da vergonha alheia, do passado, do velho

A tentativa de reeditar a “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, uma passeata que ocorreu em março de 1964, há 50 anos, na véspera do golpe que culminou em mais de 20 anos de ditadura militar, em governo autocrático e totalitário, fracassou. Sequer passou do cômico, do patético, para o trágico.
Alvos, camuflados, grisalhos, envoltos em bandeiras brasileiras, engasgados e afogados em axiomas (valores morais) dos mais conservadores, do século passado, lançavam palavras de ordem das mais variadas, inclusive, pela “atual” “necessária” intervenção militar nos poderes – muito embora o objetivo primordial evidentemente fosse o poder executivo federal.
Pensionistas – aquelas senhoras “solteiras” que dividem bilhões de reais – e senhores da reserva, seus filhos e netos, atuais praças mais exaltados e mais alguns membros da ultra direita, alguns nitidamente fascistas e neonazistas, compuseram a massa de menos de mil pessoas que se juntaram em São Paulo e em outras cidades, com menor número, para expressar seu ódio e descompasso com a trajetória histórica progressista que o país vive. Chegou-se a pedir Bolsonaro como presidente, o que só não me fez rir mais porque é de se lamentar tamanho equívoco – para não se dizer analfabetismo político – de alguns.
Entre outros pretextos para a volta do regime autocrático, estava o discurso da corrupção da democracia, como se durante a ditadura militar não tivessem ocorrido os mais variados desvios à República, contados em inúmeros livros, dentre os quais recomendo os de Elio Gaspari. Outro é o “medo” de Cuba (como se fosse capaz de expressar algum perigo pós-embargo econômico e derrocada soviética), reeditando o velho discurso da guerra fria pós-1945, que nos anos 60 foi elemento “empírico” (falso) para a operação Condor da CIA, na América do Sul.
Não é possível apagar da história os horrores da ditadura militar, como tentam alguns revisionistas. Infelizmente, o Supremo tem entendido que a “anistia” haveria de ser de ambos os lados, ditadores e revolucionários. Não sopesou a clássica teoria dos direitos humanos pós-Guerra, em que se defende o elo mais fraco da sociedade. Entre torturadores e torturados, sabemos quem são os mais “fortes”; em especial, aqueles que em nome de um Estado de governo autocrático exerceram a tortura.
A ladainha de desonestidade intelectual mais evidente é a questão da “Liberdade”. Obviamente, quem defende a volta do regime ditatorial não deve entender muito sobre “liberdade” (talvez sobre “liberalismo” – outro tema), mas, quem sabe, tenham saudades das torturas, das prisões ilegais, dos assassinatos cometidos em nome da “manutenção da ordem”, seja lá qual seja essa ordem, desvirtuada. E a cereja do bolo, como se não faltassem todos os elementos lúdicos do circo instaurado pela marcha, que aqui alcunho de Marcha da Vergonha Alheia, é a exaltação de “Deus”, como se algo divino existisse nos crimes de lesa pátria, de lesa humanidade cometidos por fardados no poder. Deus ainda não achou os corpos que o Regime sumiu.
Você pode ser neoliberal sem ser reacionário. Você pode se manter solteira e receber grana vitalícia (bolsa-solteirona?) sem ser reacionária. Você pode até ser militar, frequentar clubes de reservistas, sem ser reacionário. Basta pensar.

“Marchas são autofracassadas”
LEITOR(A): Essas passeatas que fazem apologia ao fim da democracia não contrariam a constituição da República? Eles não deveriam ser presos e autuados devido a algum crime?

OZAWA: Não. As marchas saudosistas têm suas próprias punições: são autofracassadas. Em uma delas, expulsaram um senhor por usar calça e tênis vermelho, acusado de “comunista”. Em outra, confundiram fãs usando preto do Metallica (banda de heavy metal) na fila do show com Black Blocs. E a sociedade também se organiza em marcha contra o neofascismo. Portanto, há liberdade de manifestações do pensamento, com o limite, que já respondi aqui na coluna, de neonazismos e neofascismos, que são ilegais.

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