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A farsa do “só no Brasil!”

Por Cesar Valente

Nas tais “redes sociais” é comum encontrar gente indignada com alguma coisa que, depois de relatar o caso, termina com uma sentença grave e genérica, pra acentuar o fato de que este país é mesmo uma esculhambação: “só no Brasil acontece uma coisa dessas!” ou “só no Brasil que a gente vê isso”.
Algumas variações desse tipo de raciocínio podem incluir o nome de outros países onde o autor acha que não ocorrem coisas ruins: “isso não aconteceria nos EUA [ou no Japão, ou na Suécia, ou na Inglaterra]”.
Não sou o cara mais viajado, mais culto ou esperto, mas tenho algumas milhas acumuladas, olhos para ver, ouvidos para ouvir e procuro não engolir gato por lebre. Por isso, a cada ano que passa acho mais esquisita essa gente que acha que “só no Brasil” acontecem coisas ruins.
A copa do mundo trouxe bastante gente de outros países que nunca tinha vindo ao Brasil. E alguns que nunca tinham convivido com brasileiros. E eles acharam tudo muito legal. Foi a melhor copa do mundo, não só porque teve bons jogos, mas porque foi realizada no Brasil, esse país fascinante.
“Mas e a corrupção?” Ora, tem corrupção no mundo todo. “Mas e a violência?” Ora, tem furto, assalto e assassinato em todo lugar. “Mas e a mortalidade no trânsito?” Bom, de fato, tem lugares em que se morre menos, mas não é ruim só no Brasil.
Quando a gente viaja pelaí e frequenta lugares que não sejam apenas “resorts” protegidos, vê que a vida no Brasil não é completamente horrorosa. Claro, ir a Orlando, ficar num hotel da Disney, frequentar os parques e voltar, não conta como viagem ao exterior: foi uma visita a um cenário de filme, um ambiente artificial e protegido, onde tudo deve funcionar conforme o preço pago.
Mas, fora isso, sempre se nota um lixo fora de lugar, um sujeito querendo te enganar, alguém que teve a mala roubada, ou a bolsa furtada, alguém que foi extorquido pelo taxista ou que encontrou um hotel de última categoria que cobra preço de cinco estrelas.
O fato é que, por mais pessimistas que sejamos, não vivemos no pior país do mundo. O bafafá da máfia dos ingressos VIP para a copa mostra que os figurões internacionais, credenciados pela Fifa, atuam há muito tempo, em vários países. Foram incomodados justamente aqui, no Brasil, o país que muitos brasileiros acham “o mais corrupto do mundo”. Certamente quem pensa assim não sabe direito o que anda por aí. Nem por aqui.
Então, meus caros e minhas caras, virem o disco. O Brasil tem problemas, muitos problemas, tem maus políticos, tem feito, aqui e ali, más escolhas, mas não detém a exclusividade mundial de nada, muito menos dos malfeitos. Claro que tudo aqui é mais complicado, pelo simples fato de sermos tão grandes (em extensão). E talvez nosso complexo de inferioridade (que o Nelson Rodrigues chamou de “complexo de vira-lata”) atrapalhe na hora de avaliar as coisas.
Fora isso, sempre que estiverem meio desanimados, conversem com algum estrangeiro acabado de chegar ao país. Ou, se no exterior, contem que são do Brasil, puxem conversa para saber o que eles acham do nosso país por lá. Verão que muitos deles encontram muito mais motivos para gostar do Brasil, do que nós mesmos. E vêem, nos países deles, problemas sérios que nós nem sonhávamos que eles teriam.
Crédito da foto: © Ministerio do Turismo, Beto Garavello

E teve Copa!
Este texto, que o premiado publicitário Cau Saccol publicou no facebook ontem, é o que resume com maior competência (a meu ver), o que vivemos nessa Copa.

“Teve Copa sim. Teve uma babel incrível no país inteiro, gente que levou e deixou a melhor impressão. Teve um clima pacífico, festivo e cordial de norte a sul. Teve holandês beijando gaúcha e mineiro falando inglês pra pegar carioca. Teve goleada, muita prorrogação e decisão sofrida no pênalti. Teve zebra correndo solta no gramado e bolão que embolou no meio de campo. Teve mordida e vértebra quebrada. Teve vaia, choro e hino à capela. Teve fiasco na abertura e vitória bonita no encerramento. Teve estádio monumental, atrasado e superfaturado. Teve técnico humilhado e juiz desmoralizado. Teve ingresso falsificado e cambista desempregado. Teve torcedor limpando o estádio e cadeirante que levantou na hora do gol. Teve seleção favorita que voltou cedo pra casa e equipe que chegou onde ninguém apostava. Teve alemão que se sentiu brasileiro e brasileiro querendo jogar na Alemanha. Teve gente misturando política com futebol. Teve uma inflada no ego do brasileiro desiludido. Teve Copa sim. A Copa onde os mais incrédulos viraram os mais fervorosos. A Copa onde mostramos que sabemos receber e perder. O #naovaitercopa virou #foibomtercopa. E ficou a grande lição: não é a gente quem decide se vai ter. Mas somos nós quem fazemos acontecer.”

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