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10 dias respirando cinema na beira-mar

A sexta edição do CineramaBC bateu recorde de filmes inscritos. Festival ainda ganhou mais charme ao acontecer na praia do Estaleiro e com sessões ao ar livre

Maycon Cosmer
Especial para o DIARINHO

O maior festival de cinema de Santa Catarina aportou na paradisíaca praia do Estaleiro entre os dias 2 a 12 de novembro. O CineramaBC apresentou filmes exclusivos e inéditos de curtas, médias e longas-metragens, divididos em cinco mostras e alcançou recorde de inscritos: 3500 títulos de diferentes países do mundo.
Em sessões ao ar livre e também na sala escura, 42 filmes selecionados foram exibidos e julgados na 6ª edição do evento. Este ano a curadoria recebeu ainda dois documentários e obras de arte audiovisuais.
Em uma tela de 4m X 7m, estrategicamente montada entre a mata Atlântica e a praia, na pousada Estaleiro Village, cinéfilos se distribuíram em cadeiras, espreguiçadeiras e colchas na grama nos 10 dias de festival. Desde 1998, ano da última sessão exibida no extinto Auto Cine da cidade – onde o público via os filmes de dentro do carro ou fora dele, ao ar livre – os astros terrestres não viam uma maratona tão extensa e intensa de filmes sob as estrelas.
Nas seis edições do festival, a competição internacional se coloca como a principal janela do evento, onde são exibidos filmes que fazem sua estreia nacional ou internacional. Como nos outros anos, a curadoria apresentou filmes de diretores estreantes ou já consolidados, porém, o estímulo a diferentes tipos de sensibilidade foi premissa para as escolhas.
Para a Mostra Competitiva, a curadoria separou produções com temáticas atuais que trazem à tona assuntos como corrupção, ética e moral, violência contra mulher, machismo, iniciação sexual, transição da infância à adolescência, adolescência e o final da vida. O intuito foi fazer o telespectador pensar sobre “para onde caminhamos”.
O juri composto por Bola Teixeira, Pedro Bughay e Rodrigo Ramos avaliou os filmes selecionados pela curadoria do festival, que abordou temáticas bastante femininas e universais, desafiando o olhar da comissão formada por homens. “Nossa maior dificuldade foi encontrar um melhor ator em filmes que eram quase que extintos de homens. O mais legal é que as produções tinham, em sua maioria, abordagens femininas e juvenis dirigidos por homens”, diz Bola.

Valeu o cenário
Com o objetivo de reconhecer os novos meios de produção e suporte de exibição, o CineramaBC Vivo abriu espaço aos diferentes formatos de produção audiovisual, como exibições ao vivo em diferentes suportes de filmagens e gravação que ultrapassam a sala escura, porém, não a excluem. Na Mostra Catarina, filmes catarinenses ou que tenham alguma ligação com o estado ganharam espaço.
Nas Sessões Noturnas (outra categoria de mostra do festival), filmes de terror ao ar livre davam uma dimensão ainda maior ao que estava sendo exposto na tela. Produtor e idealizador do CineramaBC, André Gevaerd diz que a sensação chega a ser desconfortável. “Às vezes passa uma pessoa atrás de você, em outras era o vento que batia de forma estranha na nuca. O barulho de um galhinho quebrando ou o da onda na praia já era motivo de desconfiança. Essa é uma experiência que poucas pessoas no mundo têm de assistir um suspense sob a luz da lua, ao ar livre,” completa.
Para a próxima edição, André tem planos de fazer com que o evento volte a crescer na região das praias agrestes de Balneário. “Festivais de cinema acontecem pelo mundo inteiro, mas eles não têm a estrutura que temos. A experiência com os títulos de terror me deram ideia de continuar o filme junto com os espectadores. Se é um filme sobre uma festa, vamos fazer uma festa parecida e levar as pessoas para dentro da tela”, exemplifica. Voltar a oferecer oficinas, debates e trazer a produção para perto da plateia também são intenções para o 7º festival. “Mas isso vai depender do poder público e dos apoiadores,” diz.

“Lar doce lar” e “O Apartamento” principais premiados
Segundo André Gevard, o evento continuará levando cinema de todos os cantos do mundo para o público catarinense e contribuindo para a formação de cinéfilos, profissionais e pensamento crítico. Mesmo sem qualquer tipo de patrocínio ou apoio da Fundação Cultural de Balneário Camboriú, a direção do CineramaBC continua acreditando que o apoio será realidade no futuro próximo, já que o evento está em sua 6ª edição de maneira consolidada.
Melhor filme: Lar doce Lar. (Suíça)
Melhor Diretor: Jean-Paul Cardinaux e Xavier Ruiz. Lar doce Lar. (Suíça)
Melhor Curta-metragem: Coração pela boca. (Brasil)
Melhor direção de arte: Erica Brieen, Sonho de Greta. (Austrália)
Melhor Montagem: Tudo Popesco, O Caminho mais longo. (Romênia)
Melhor Fotografia: Andrew Commis, Sonho de Greta (Austrália)
Melhor Ator: ShaHab Hosseini, O Apartamento (Irã)
Melhor Atriz: Flore Babled, Marie Petiot, Lar doce La. (Suíça)
Prêmio da crítica: O Apartamento. (Irã)
Menção honrosa: Jaqueline Mississipi. (Brasil)
• Lar Doce Lar
Elodie e Marie lutam para encontrar um apartamento para morarem juntas, e ao mesmo tempo chegaram a uma solução extrema para resolver a crise imobiliária. O filme é uma fábula contemporânea divertida, um retrato agridoce da nossa sociedade através dos olhos de duas adolescentes, que pensam que podem resolver os problemas do mundo com seu olhar romântico e ingênuo da vida.
• O Caminho Mais Curto
Durante o turno da noite, uma ambulância de emergência com uma equipe de três, um médico, um paramédico e um motorista, é chamada para o apartamento de um homem velho. O evento irá mudar as vidas dos três. Um drama com conotações sociais, suspense e humor negro.
• O Apartamento
Devido a riscos de desabamento do prédio onde moram, um jovem casal é forçado a mudar para um novo apartamento no centro de Teerã. Mas um grave incidente ligado à inquilina anterior vai transformar drasticamente a vida do casal.
• Coração pela Boca
Estômago. Pele. Pulmão. Fígado. Boca. Coração pela boca. Projeções. Uma montanha russa. Amores líquidos. Passageiros. Quase alcançar o céu. Adoecer.
• Jaqueline, Mississipi
Ter 16 anos é fácil, o difícil é ter 16 anos e ser obrigada a ir à escola todo dia. Mais difícil ainda é ter 16, ser obrigada a frequentar a escola e acabar se apaixonando por Fernando, o menino da sala ao lado. Ser Jaqueline é fácil, o difícil é ser a Jaqueline e saber que Fernando não está nem aí.
• O Sonho de Greta
Prestes a completar 15 anos, Greta está numa situação difícil: deslocada em sua nova escola, ela vive num mundo particular. Contra a sua vontade, seus pais organizam uma festa de aniversário para ela. Apavorada com a perspectiva, surge uma situação inesperada que a coloca num mundo paralelo, num sonho erótico, um pouco violento e absurdo. E é nesse lugar que ela tentará, enfim, encontrar a si mesma.

800 pequenos na sessão corujinha
A tradicional Sessão Corujinha levou mais de 800 crianças para dentro da sala escura do CINERAMABC. A iniciativa é fruto da coordenação do festival e da mobilização dos professores interessados em levar os estudantes para fazer parte do festival. “Estamos muito contentes porque a grande maioria dessas crianças, por morar longe do centro da cidade, não tinha a oportunidade de ir a uma sessão de cinema” comenta a professora Adriana de Freitas.
Todos os anos, a Sessão Corujinha traz programação para todas as idades, formando jovens cinéfilos e contribuindo para o enriquecimento cultural dos pequenos. Nesta 6ª edição, Pinóquio, Eles Te Escolhem e Fantasia estiveram em cartaz durante os dias do evento. Para o pequeno Enrique Faustino, de oito anos, a parte mais legal do filme é quando o boneco de maneira ganha vida. “Gosto quando ele vira uma criança de verdade e o pai dele pode ter um filho”, comentou o aluno depois de assistir Pinóquio.

André Gevard fala sobre sucesso do festival
Como surgiu a ideia de trazer um festival de cinema para Balneário Camboriú?
André: Em 2010 tive um filme selecionado na competição do Festival de Cannes, na França. Entre quatro mil curtas metragens inscritos, foram selecionados 12, dos quais um deles eu era produtor. Chama-se “Estação”, com direção de Márcia Faria. De lá, eu voltei com a ideia de fazer um festival de cinema aqui e que é isso que vai mudar Balneário Camboriú na questão audiovisual. Então, a ideia foi criar o CineramaBC para que o festival fosse o centro gravitacional de uma movimentação, uma agitação cultural ao redor da produção audiovisual.

Neste ano, o CineramaBC está financeiramente quase independente. Por quê?
André: O festival já chegou a receber financiamento do governo do Estado e até da prefeitura, mas começamos a enfrentar anos políticos difíceis. A crise econômica brasileira afetou o financiamento nacional, para onde o festival estava caminhando. Isto está diretamente ligado aos recursos despendidos pela Petrobras que, até então, era a maior incentivadora de festivais e do cinema brasileiro.

Qual a importância do CineramaBC para o Estado?
André: Em Santa Catarina não há outro evento deste segmento que seja internacional. Balneário Camboriú é o berço do maior festival de cinema internacional do Estado. Em alguns casos, os filmes exibidos no CineramaBC são inéditos no mundo. Desta forma, o festival já se consolida como importante incentivador do turismo cultural em uma agenda nacional e internacional. O que vemos entre o público são pessoas se mobilizando para vir assistir as mostras.

Como é feita a curadoria do festival?
André: Em seis edições, o número de inscritos se amplia ano a ano. Para esta 6ª edição foram mais de 3500 filmes inscritos e assistidos um a um. Chegamos a criar um sistema para não nos perdemos. A vontade é passar todos, mas nosso tempo de festival é curto. Mesmo assim, a cada edição mais filmes são projetados.

Qual a sua perspectiva e planos para o próximo ano do festival?
André: Devido a falta de patrocínio, tivemos que praticamente recomeçar o festival aqui no Estaleiro e, para isso, tinha que abrir mão de alguma coisa, né?! Foi então que lembrei como é que eu comecei: com a exibição dos filmes, a participação de alguns diretores, e é isso que eu preciso. A base dos festivais são os filmes e o público tendo contato com as produções, com pontos de vistas que eles não veem na TV e no cinema comercial. Nós precisávamos reconhecer o espaço para depois começarmos a projetar o festival para o espaço no qual queremos trazê-lo.

Empoderaento feminino na curadoria
Propositalmente, a curadoria da Mostra Competitiva do 6ª CineramaBC procurou abordar questões de cunho social, político e um olhar cultural sobre o que está acontecendo no mundo, mas o empoderamento feminino foi o tema principal abordado nos sete longas-metragens de sete países diferentes avaliados pelo júri.
Barbara Sturm, curadora do evento, comenta que neste ano, antes de começar a analisar os filmes, colocou como meta o teste de Bechdel. Este teste foi criado nos anos 70 e aborda três perguntas simples a uma obra de ficção: possui pelo menos duas mulheres que conversam entre si? Falam sobre outras coisas, se não sobre homens? Elas falam além de responder aos personagens masculinos? “Se o filme passasse por esse primeiro crivo, teria chances de entrar para a mostra competitiva”, explica. Outro cuidado da curadoria foi o de que os sete selecionados fossem de sete países diferentes, para que o júri e a plateia pudessem ter pontos de vistas diferentes do gênero feminino ao redor do mundo.
O curriculum da curadora do festival é extenso. A jovem de 27 anos escreveu e dirigiu o curta-metragem “O Sussurro”, selecionado para a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em 2010. Também foi seis vezes a trabalho ao Festival de Cinema de Berlim, na Alemanha, e participou do Talent Campus, programa de jovens talentos do cinema na capital alemã, onde dos cinco mil inscritos, apenas 300 são escolhidos. À frente do CineramaBC pelo terceiro ano consecutivo, Bárbara defende a questão do feminismo não só no festival de cinema de Balneário Camboriú, como ao redor do mundo. “Caso aplicássemos esse teste nos filmes que concorrem ao Oscar, apenas 20% deles passariam. Se trazermos isso à realidade dos filmes exibidos no Brasil, 30% passam neste teste”, diz Bárbara. A jovem considera pouco em se tratando de assuntos tão sérios. 

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