Home Notícias Quentinhas “Uma mãe que pensa no bebê, e tem conhecimento, não faz cesariana eletiva”

“Uma mãe que pensa no bebê, e tem conhecimento, não faz cesariana eletiva”

Ele defende algo assim: quando o assunto é o nascimento de crianças, a modernidade está justamente em voltar ao passado. Ou seja, os partos devem ser normais e deve-se eliminar, ao máximo, as cirurgias de cesarianas. Um dos líderes do movimento que propõe o chamado ‘parto humanizado’ na região, o médico Antônio Clarindo, nesta entrevista ao DIARINHO, argumenta porque a dor da mulher durante o nascimento de um filho é saudável tanto para ela quanto para o bebê. E mais: hospital não é lugar para se ter um neném, já que se expõe a criança a riscos de contaminação. Temas como o SUS e o interesse de médicos em trabalhar com a saúde pública no Brasil também fazem parte da conversa do médico Antônio Clarindo com o jornalista Sandro Silva. O registro fotográfico é de Bruna Costa.

“Esse é o principal problema do hospital: misturar crianças que estão nascendo com bactérias de pessoas doentes”

Raio X
Nome: Antônio Carlos Clarindo
Idade: 50
Naturalidade: Santa Rosa de Viterbo/SP
Estado civil: Casado
Filhos: Uma menina
Formação: Medicina e especializações em ginecologia, obstetrícia e anestesiologia
Experiência profissional: Sorveteiro e garçom no comércio do pai, balconista de farmácia, vendedor de planos funerários, atividades que exerceu enquanto era estudante de medicina, médico ginecologista, médico do Instituto de Saúde e Educação Vida [Instituição que arrendou o antigo hospital Santa Inês] e integrante do movimento que defende a chamada ‘humanização do parto’.

DIARINHO – Por quê se diz que o Brasil é o campeão de cesarianas? Há alguma estatística que comprove isso? E no que isso deprecia a saúde no país? Qual o problema com as cirurgias de cesáreas?
Antônio Clarindo – Vou começar a responder a pergunta de trás para a frente. Qual é o problema? Primeiro é uma cirurgia, não é um parto, né? Quando a gente fala em nascimento, a gente tá esperando justamente isso, um nascimento, um parto e não uma cirurgia. A cirurgia se estabeleceu a partir de determinado momento na história do homem. Aqui no Brasil, por volta de 1935, houve um processo de hospitalização do parto no país. Antes disso, a maioria das mulheres dava à luz dentro de casa mesmo, assistida por parteiras. Parteiras que faziam assistência a mulheres de toda as classes sociais. Desde as mais ricas às mais pobres davam a luz em casa mesmo, né? Então, quando a gente fala de cirurgia, a gente fala de hospital, de lugar frio, lugar desumano. Chama a atenção. Muitas vezes o ambiente hospitalar é frio. É com ar condicionado ligado, com trânsito de pessoas e com uma série de rotinas, de protocolos a serem seguidos. Isso afasta, às vezes, as pessoas. As pessoas, hoje, querem alguma coisa mais humana. Por isso que eu me envolvi nesse processo de humanização. Porque eu me sinto melhor nesse sistema.

DIARINHO – Mas há alguma estatística que indique que o Brasil é o campeão de cesarianas?
Antônio Clarindo – Olha, as estatísticas são várias, são várias e são diárias. Se você chegar no hospital Azambuja, em Brusque, ou em qualquer hospital você vai perceber que no Brasil nós temos, no sistema Único de Saúde (SUS), uma média de 30% a 40% de cesarianas. No sistema privado nós temos uma média, ali, que gira de 80% pra cima. É muito, né? Há países da Europa que é uma inversão total disso. É bem ao contrário. A prioridade é dada ao parto natural, que é o de menor risco. Tanto pra mulher quanto pro bebê. [Então a cesariana apresenta mais riscos à vida que o parto normal?] Pra mulher, cerca de três vezes mais. Aproximadamente. Depende das condições do sistema que tá organizado. O Brasil é muito diferente. Você tem no nordeste, muitas vezes, setores bem desassistidos da saúde e tem no sudeste algumas pequenas cidades privilegiadas. Então, de forma geral, o sistema é diferente. Mas diferente no sentido assim: de estar diferentemente estruturado. Em alguns lugares o SUS está desenvolvido. O índice de pré-natal, o número de consultas e a qualidade de vida da população é boa. Já em setores mais pobres, acontece bem ao contrário. É um sistema que, pela falta de verba que se tem, ainda se faz muito. Eu já trabalhei no sistema Único de Saúde, sei do que tô falando. A falta de verba pro sistema – e agora, ainda mais com essa crise – vai se aprofundar de forma importante. Isso é muito preocupante. O corte de verbas pra hospitais, isso é uma coisa crônica que, infelizmente, muito provavelmente vai acontecer agora. Nós temos que procurar humanizar o sistema, mas também devemos ter condições para que os profissionais que estão lá, trabalhando, consigam desenvolver o seu trabalho. Por exemplo, do que adianta nós termos uma lei das doulas no papel? Não vai servir de nada. O que adianta nós termos, no papel, a lei do direito ao acompanhante nos hospitais? É uma lei desde a década de 90. Desde a década de 90, no Brasil, já é direito da mulher ter um acompanhante, certo? Entretanto, isso avançou muito pouco.

DIARINHO – Foi sancionada recentemente, em Santa Catarina, a lei que obriga os hospitais a aceitarem as doulas nas salas de parto, que são as profissionais que dão apoio às gestantes. Por que isso não acontecia antes? Que ameaças as doulas podem oferecer aos profissionais de saúde na interpretação de alguns deles?
Antônio Clarindo – Não sei. Não conheço muito as restrições dos colegas. O problema não é o colega [o médico], o problema é às vezes não existir no hospital uma forma já preestabelecida de como cada um vai se portar diante de cada estrutura. Por exemplo, agora, com a doula podendo ter acesso de forma mais legal, mais livre, vão ter que necessariamente os hospitais, todos eles, se organizar do ponto de vista interno. [Criar procedimentos próprios para isso?] Criar procedimentos internos. A doula vai entrar no centro cirúrgico? Se ela precisar entrar, qual a roupa que ela vai usar? Que calçado? Como é que tudo isso vai funcionar? Do jeito que funciona tá certo? É assim que tá bom? Eu acho que não. No sistema brasileiro eu acho que não tá bom e nós temos que melhorar muito. Nós temos que diminuir muito a incidência de cesarianas. Independente se é o sistema particular ou público. Quando a mulher vai para o hospital, o hospital é uma entidade que tem um ritmo. É um ritmo de um médico que vai ser substituído por outro, por um enfermeiro que vai ser substituído por outro, pela moça da limpeza… por uma série de agentes que atuam naquele ambiente que, de uma forma ou de outra, interagem com essa pessoa. [Mas, muitas vezes, a própria paciente já vem com a intenção de fazer cesárea, não é isso?] Às vezes sim. Isso está mudando aos poucos, à medida que a gente vai falando da importância da naturalidade do processo e das evidências científicas dizerem que quanto mais intervenção maior o risco, tanto para mamãe quanto pro bebê. Essa é a máxima que tem que ser perseguida, a de minimizar as intervenções. E a natureza esteve milhares e milhares e milhares de anos permitindo que o homem estivesse aqui hoje, em sociedade desenvolvida, organizada, pensante, estruturada, não é verdade? O homem não morreu porque não tinha cesárea. A cesárea foi um corpo estranho que foi colocado na saúde da mulher! E a concepção de tratar o parto, ou melhor, o nascimento como evento cirúrgico e não como um evento natural, é uma deformação. Eu acredito que foi a hospitalização que fez incutir isso, das pessoas, de forma geral na sociedade, acharem que por estar dentro de um hospital é mais seguro.

DIARINHO – É mais lucrativo fazer cesárea do que um parto normal? Dá mais dinheiro pra quem opera a saúde?
Antônio Clarindo – Para quem opera a saúde, talvez. Porque nós vivemos num país extremamente corrupto. Quem opera hoje a política, quem opera hoje o fluxo de caixa, de certa forma, tem envolvimento com o sistema. Ou é conivente ou tá envolvido. Tenho essa impressão. [Então é mais lucrativo fazer cesárea do que parto normal?] É mais prático. E a partir do momento que é mais prático, você tem uma linha de produção, uma linha de produção garantida. O capitalismo exige que o fluxo de capital seja garantido. [Ou seja, mais lucro?] Mais lucro! Talvez até ganhe menos numa cesárea. Eu não poderia afirmar com certeza […], mas acredito que um hospital gasta mais numa cesariana. Principalmente o SUS. Por isso que é fundamental que o estado brasileiro diminua a incidência de cesarianas. [Vai baratear o sistema?] Com certeza. Só que nós temos que investir não só em hospitais mas em centros de parto.

DIARINHO – O que diferencia uma sala de parto de um centro de parto?
Antônio Clarindo – O centro de parto não é uma estrutura fria como essa que a gente tava descrevendo. É uma estrutura preparada para a mulher, para receber a mulher e ali ela vai ter uma série de profissionais, multiprofissionais, que vai dar um suporte para ela durante o período do pré-natal, durante o período do trabalho de parto, o tempo que antecede ao trabalho de parto, no parto e no pós-parto. [Aqui na região nós já temos algum centro de parto?] Nós temos um que acabamos de montar, agora, no antigo hospital Santa Inês [Atualmente se chama Instituto de Saúde e Educação Vida], que abriu as portas há cerca de dois anos e nós temos, hoje, um centro de parto normal ali e tem uma equipe multiprofissional trabalhando. [Essa equipe é composta por quais profissionais?] Nós temos obstetrizes, nós temos obstetras, nós temos pediatras e nós temos doulas. Essas doulas, a maioria delas, têm preparo na área da psicologia. Sendo que a nossa chefe, a Sarah Dadam, é mestre em educação perinatal.

DIARINHO – Falando em doula, a legislação sancionada recentemente ajuda a fazer essa atividade profissional mais popular. Agora, os médicos e hospitais são obrigados a aceitá-las. Isso é um avanço, não é?
Antônio Clarindo – Com certeza, com certeza. É uma pena que a lei vem sem um amadurecimento maior de todos os setores envolvidos, tanto na área da gestão hospitalar quanto dos médicos, né? É importante que as coisas no Brasil comecem a brotar de baixo pra cima e não sejam assim, atiradas dessa forma. Mas é uma lei importante porque, às vezes, uma lei força um processo. Um processo que já deveria ter acontecido no nosso país há muito tempo. Existem países em que as doulas são um pilar fundamental na assistência ao parto. Nesses países as taxas de cesarianas são bem menores, porque as doulas ajudam a diminuir a intensidade do sofrimento das mulheres.

DIARINHO – Muitas pessoas que optam pelo parto humanizado vão pra Brusque ou Florianópolis. Os hospitais, aqui, têm alguma resistência em trabalhar com o parto humanizado ou é simplesmente falta de estrutura mesmo?
Antônio Clarindo – Acredito que hoje já se tem uma visão da necessidade do avanço em todas as maternidades. Se não abrirem espaço para esse tipo de assistência para o parto, vão, com certeza, a curta prazo fazê-lo. Porque realmente as mulheres estão exigentes, hoje. Elas pensam, elas refletem, elas buscam, elas querem conhecer os locais onde elas vão parir. Elas querem ir lá conhecer, saber quem é que vai acompanhar o parto delas, de preferência. [Então tem mudado, a cliente está ficando mesmo exigente?] E vai exigir, inclusive, no sistema Único de Saúde. O SUS não é um sistema que foi montado e tá pronto e acabado. Ele é um processo dialético de construção. Por isso é que tem todas as etapas de organização do sistema, desde a unidade básica de saúde até os grandes conselhos, onde se tem as reuniões de todos os entes envolvidos, né? É muito bonito o sistema Único de Saúde, o SUS. Mas é preciso aplicar, no nosso país, de verdade e ter dinheiro, ter verba para ele.

DIARINHO – O que difere o parto humanizado da cesariana? É somente por ser um parto normal e não por cirurgia ou tem outras características que vão conceituá-lo como parto humanizado?
Antônio Clarindo – Pra mim, parto humanizado é o resgate da natureza que existe no “animal” da mulher. É deixar a natureza fazer o papel dela e a mulher se beneficiar disso. O que eu quero dizer? Muitos dizem “tadinha, fez parto natural humanizado…. Ui, sofreu de dor, coitada!”. Vá conversar com essa mulher! Pergunte o que o trabalho de parto fez com ela. A maioria vai dizer “eu fui transformada”. O fato é que o parto é um evento tão importante e as dores fazem parte dele. E as dores têm mostrado que têm uma função importante na fisiologia da mulher. O parto, as dores, o ocitocina [hormônio produzido durante o nascimento do bebê que ajuda nas contrações uterinas, reduz a dor do parto, estimula a produção do leite materno e atua no surgimento de apego entre mãe e criança] e vários outros hormônios, tudo isso faz parte da natureza humana. E ainda tem a passagem da criança no canal do parto. Na cesárea não, né? O que é que você faz na cesárea? O médico simplesmente tira a criança. E o pior é quando a cesárea é eletiva [com data pré-definida para o nascimento]. Se a mulher marca uma cesariana porque acha que a cesariana, por uma série de motivos, é o que ela deseja, pode fazer a cesariana. Mas, preferencialmente, após desencadear o trabalho de parto. Com a cesariana eletiva você aumenta muito o risco para o bebê. Uma mãe que pensa no bebê, de verdade, e tem conhecimento, não faz cesariana eletiva. As evidências científicas mostram que quando você desencadeia o trabalho de parto tem um papel importantíssimo numa série de dimensões a bebê que tá nascendo. Principalmente respiratórias, hemodinâmicas e agora até tão descobrindo coisas relacionadas à parte imunológica. Esses são os benefícios do parto.

DIARINHO – O SUS tá preparado para receber o parto humanizado ou a parte mais carente da população ficará sem essa opção na hora do nascimento do bebê?
Antônio Clarindo – Não existem, nem nos hospitais que atendem o sistema Único de Saúde e nem na maioria dos hospitais particulares, condições estruturais para se fazer a assistência humanizada. [O que é que difere, estruturalmente, um centro de parto humanizado para um centro de parto cirúrgico?] Primeiro, a mulher precisa ter espaço para perambular. Se você vai nos hospitais, nos hospitais que não estão preparados para esse tipo de assistência humanizada, a mulher fica muitas vezes restrita ao leito, tem um pequeno corredor apenas para caminhar ou fica junto ao leito e muitas vezes fica dependurada ao soro. O que é que acontece? Infelizmente, muitas mulheres acham que depois que as contrações começaram elas têm que procurar os hospitais e, muitas vezes, ela chega no hospital e o médico pode examinar e dizer “é, pois é, não está na hora”. E, como resposta, receber da mulher “é, mas eu moro tão longe, doutor, como é que eu vou lá agora? O senhor não me interna?”. E fica no hospital. A internação precoce é um fator importante no aumento da incidência de cesarianas, inclusive no sistema Único de Saúde. O hospital exige isso, né? Ele precisa ter ‘entrada’ e ‘saída’, ele tem consumo, ele tem recursos humanos, enfim, ele tem que ter uma produtividade. Por isso da importância de se ter um centro de parto humanizado em que as mulheres vão chegar lá, independente da hora, vão entrar e vão sair sem entrar em contato com pessoas acidentadas, com pessoas com infecção, entendeu? Esse é o principal problema do hospital: misturar crianças que estão nascendo com bactérias de pessoas doentes.

DIARINHO – Há quem diga que os médicos, apesar de muitos conseguirem a formação através de universidades públicas, depois que se especializam se negam a atender pelo SUS e passam a atender somente planos de saúde ou particulares. É um problema na formação da Medicina ou a forma como culturalmente o brasileiro vê a saúde?
Antônio Clarindo – Trabalhei no sistema Único de Saúde, trabalho no SUS, trabalho em maternidade, trabalhei em posto de saúde e tenho uma certa experiência para te dizer o seguinte: o SUS tem tudo pra dar certo, ele funciona muito bem. Muito é preconceito mesmo, tá!? E também por falta de dinheiro, falta de verbas. Há hospitais, hoje, que fazem 120, 130, 140 partos por mês com um médico obstetra de plantão. A mestra estrutura funcionava já há 10, 15 anos. Há 10, 15 anos, se fazia naquele hospital 60 partos, com aquele mesmo número de médicos, com aquele mesmo número de enfermeiros. Entendeu? Os recursos humanos não aumentaram, mas a demanda aumentou muito. Há a necessidade de investimentos. Mas nós estamos passando por um processo recessivo e o Estado está fazendo justamente o contrário. [Mas as verbas constitucionais para a saúde continuam as mesmas…] Não quero entrar em detalhes de quanto é repassado aos municípios, mas o fato é que desde o médico que trabalha lá no postinho, que vê os recursos que são escassos, que quando ele manda os pacientes para os hospitais, os hospitais estão superlotados, realmente percebe-se que o sistema está numa crise, uma crise crônica e agudizada. E, infelizmente, vai agudizar porque a violência tá aumentando, o desemprego tá aumentando, o consumo de drogas tá aumentando, a mídia estimulando cada vez mais a violência.

DIARINHO – Mas, em geral, se defende que o SUS é o maior sistema de saúde pública, o mais democrático e, idealmente, o mais eficiente. Se na teoria é isso tudo, onde está o problema real no SUS, então?
Antônio Clarindo – O problema não é só no sistema de saúde. O problema tá em todo o Brasil. O problema é nós não sabermos quanto do nosso imposto vai ser gasto na saúde, quanto vai ser na educação, no transporte público de qualidade. Nós não temos ideia alguma. Nós não temos ideia de quanto pagamos de juros da dívida, seja interna, seja externa. [O problema, então, é o da falta de informação da população?] O problema é que é um sistema econômico muito desigual se estabeleceu no Brasil e no mundo todo, né?

DIARINHO – Existe desinteresse dos médicos em trabalhar na saúde pública no Brasil?
Antônio Clarindo – Da forma como a saúde pública tá organizada hoje, é difícil não só pro médico. É difícil pro enfermeiro. É difícil pra quem gerencia o hospital, que vive em crise. Realmente é contar migalhas pra gerir a saúde. Porque o problema da saúde é um problema muito sério no nosso país.

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