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“Tudo que eu trouxe da alta costura na Europa, vou transferir para meus alunos”

Daniela Colzani certamente tem orgulho de ser a “sobrinha do Robson” e a “neta do prefeito Isvaldo Colzani”, de Balneário Piçarras. Mas a jovem estilista de 31 anos de idade foi além. Graduou-se em moda pela Univali, arriscou tudo para ir ampliar sua formação em Milão (Itália), trabalhou como garçonete quando sequer dominava a língua dos nonos ou o inglês.
Chegando lá, mostrou não apenas o talento, mas que sabia inovar: conjugando peças de lingerie a vestidos, chamou a atenção de uma das mais tradicionais escolas de moda europeias; foi a largada para ter sua especialização custeada pela própria escola, e ganhar, entre outros prêmios, a “Agulha de Ouro”, principal prêmio da alta costura europeia.
Anos mais tarde, ainda jovem mas consagrada, volta ao Brasil e a Santa Catarina, com um grande desafio: montar aqui o curso do instituto de moda que apostou nela. Confira essa trajetória no Entrevistão do jornalista Juvan Neto, com fotos e vídeo de Elton Damásio.

“Tudo que eu trouxe da alta costura na Europa, vou transferir para meus alunos”

“Quem quer se profissionalizar vai investir em si próprio, daqui vai para Milão, por exemplo, para onde tem qualidade e onde pode ter o retorno do seu investimento”

Raio X
Nome: Daniela Colzani
Natural de Itajaí, criada em Balneário Piçarras
Idade: 31 anos
Estado civil: solteira
Filhos: não
Formação em Design de Moda pela Univali, especializada em estilismo e cursando MBA em “Branding”, que envolve posicionamento de mercado e imagem de marcas.

DIARINHO – Você oficializou no início do último mês de julho o contrato entre o Instituto de Moda Burgo e o Brasil, a fim da instalação do instituto em Brusque. Poderia nos dizer o que representa essa parceria para a moda catarinense e porque o instituto, sediado em Milão, é uma das mais conceituadas escolas de moda do mundo?
Daniela Colzani – O ‘Istituto di Moda Burgo’ existe há 54 anos no mercado italiano; o senhor Burgo o fundou. Por ser uma escola que nasceu junto com outras escolas de moda da Europa, começou a criar essa credibilidade. Tem um diferencial muito grande porque a história dos Burgo é interessante. O senhor Burgo sempre conta que quando era jovem, não gostava muito de estudar. Gostava da parte prática. [O que não deixa de ser um aprendizado, a prática desenvolve o conhecimento… Talvez ele se referisse ao ensino teórico, formal…] Exatamente. Foi quando ele criou esse método de costura que é extremamente diferenciado no mundo inteiro; tanto que nosso curso tem 80% de prática e só 20% de teoria. Uma escola prática para o mercado de trabalho, já colocando o aluno dentro das empresas. Aí se torna referência. Essa escola, sendo tão importante e com tantos anos, começou a apostar no meu trabalho. Começamos a criar um certo laço. No começo, ele me custeou para eu estar dentro do instituto. Eu não pagava mais mensalidade. Isso porque eu fui para lá e foi muito difícil o começo, porque a gente vai para se especializar… e o euro custando cada vez mais caro dificultava.

DIARINHO – Nesse contexto, ir para Milão, buscar a corseteria, a alta costura, sempre foi o teu foco?
Daniela Colzani – É, no começo eu tinha que ter um objetivo, um foco bem definido, tinha que correr atrás. Então eu participei de um concurso na França, de lingerie, e venci em primeiro lugar, em 2010. Foi quando Burgo viu algo diferente em mim; digamos que eu trabalhei o dobro para fazer a coisa acontecer. Eu queria de alguma forma buscar o diferencial na Europa. [Foi aí você saltou do teu complemento de formação para a consultoria?] Não, eu era aluna, só não precisava pagar a mensalidade. O senhor Burgo começou a pagar para eu trabalhar e fiz duas especializações no instituto. Aí começamos a desenvolver um trabalho, comecei a prestar consultoria e montar o meu ateliê de moda. É essa experiência que vem para Santa Catarina. Quando eu voltei para Santa Catarina, comecei a montar meu ateliê. Mas não tínhamos a mão-de-obra qualificada. Isso porque nosso método ainda é aquele trabalho feito à mão, totalmente diferente de uma linha de produção. E o senhor Burgo já fazia alguns anos que me incentivava a voltar ao Brasil. Eu estava bem lá, vestindo gente famosa, e aí a gente não quer mais largar mão daquilo que é o glamour na Europa. Estava tudo muito bem. Eu insisti para ficar lá mais tempo e foi bom porque recebi o “Agulha de Ouro”; foi a primeira vez que o prêmio veio para o Brasil, foi importante. Mas a gente sabe que é difícil ficar em Milão, não por ser Milão, pode ser qualquer canto do mundo. Está longe da família, é uma distância muito grande. Bem, então ele viu a falta no mercado brasileiro dessa especialização, e me propôs vir para o Brasil e montarmos uma sociedade.

DIARINHO – Como foi a sua graduação na Univali, Daniela? Fale um pouco do seu período universitário e como uma egressa da Univali em Balneário Camboriú chega ao mundo da moda em Milão?
Daniela Colzani – Bem, eu não ia estudar moda. Ia fazer direito, como meu pai. Não deu certo. Resolvi fazer moda, e o curso tínhamos aqui em Balneário Camboriú e em Florianópolis. O mais perto de casa foi Balneário. A minha turma acho que foi a terceira ou quarta da Univali. E foi meu tio Robson que me incentivou ainda em Balneário Piçarras. Ele tinha talento para tudo que fosse manual, artesanal. E sempre me incentivou a trabalhar com isso. E aí me descobri nesse mercado. Passei a correr atrás, queria me destacar, ser uma pessoa competitiva, fazer a coisa sempre bem feita. Eu acho que se for para fazer, você tem que fazer bem feito. Trabalhei dentro da própria Univali, fui estagiária, prestei consultoria para empresas dentro da universidade. E recebi o “Mérito Acadêmico” na Univali. Foi meu primeiro prêmio na moda.

DIARINHO – Quando tempo você ficou na Europa e quais os prêmios recebidos no período?
Daniela Colzani – Aqui no Brasil eu tive esse “Mérito Acadêmico”, em 2006 eu me formei. E depois fui para a Europa, em 2010 ganhei o concurso da corseteria na França, e depois em 2013 recebi o prêmio “Agulha de Ouro” da alta costura de Milão. Foram esses três. E em 2012, dentro do instituto, recebi o prêmio do Burgo como uma das duas melhores alunas na ocasião.

DIARINHO – Não se vê frequentemente estilistas de sucesso nascidos aqui na região ou mesmo no Estado com tanta projeção como você. É um meio muito difícil de progressão? Qual o diferencial da Daniela Colzani que a fez chegar à Europa?
Daniela Colzani – Aqui na região deve ter gente de muito talento. Já lá fora, no exterior, não sei dizer como é. Tem muita gente de São Paulo na Europa. [Pois é, por isso perguntamos, pois parece que de Santa Catarina não há expoentes na moda ou alta costura; não com tradição, pelo menos]. Claro, claro. Sobre o diferencial, eu acho que ele vem quando você quer alguma coisa, e você tem que correr atrás. Tem que abrir mão da sua vida pessoal por muitos e muitos anos. Tive que fazer uma escolha; larguei mão de tudo: de festas, de amigos, de relacionamentos, para viver o universo que eu queria, que eu sonhava, que acreditava muito. É uma semeadura, todo dia. Tem que semear certo e saber o que está semeando. Antigamente eu queria semear na minha área para ter sucesso como estilista de moda; hoje quero isso, mas é um atendimento personalizado, de alta costura. Não tenho mais tempo para os desfiles. [Não que futuramente você não retome os desfiles…] Futuramente sim, pois eu amo os desfiles. Mas estou muito feliz por estar hoje semeando uma coisa que vou deixar para que meus alunos sonhem junto o que sonhei lá atrás. [Você então planeja ter aqui em Brusque alunos catarinenses e brasileiros?] Sim. A gente inicia agora dia 1º de outubro com os cursos de design de moda, estilismo, alfaiataria, tudo que desenvolve no exterior. Então, o curso de moda Burgo está vindo para o Brasil. Estou profissionalizando pessoas que vão trabalhar comigo. Como sou especializada em estilismo, design de moda e modelagem, estou conseguindo formar essas pessoas para trabalhar. Mas todas terão que ir a Milão, no instituto, para sem aprovadas pelo próprio Burgo, para a gente poder trazer aqui para o Brasil.

DIARINHO – Lá no Instituto di Moda Burgo, você inicialmente se especializou, e em seguida, passou a dar consultoria ao mesmo instituto. É comum alunas ou alunos seguirem esse caminho e culminar na consultoria? Ou você foi exceção?
Daniela Colzani – Cada caso é um caso. Depende do desempenho, do objetivo de cada um. Tem gente que vai estudar para em seguida ter a própria marca, é focado nisso. [Você tem sua própria marca, mas ela vai ficar em stand by durante a instalação do instituto?] Ela está parada. O desfile que eu fazia em Milão como Daniela Colzani será agora o desfile do ‘Istituto di Moda Burgo’. É ele que vai desfilar. Mas tudo que eu trouxe da alta costura na Europa vou transferir para nossos alunos.

DIARINHO – Você iniciou sua incursão no mundo da moda com a chamada “corseteria”, e em seguida, vê-se suas criações em outras peças do vestuário, em especial, vestidos. Você prefere a lingerie, os corsets ou peças maiores?
Daniela Colzani – Eu trabalho com o mercado do luxo. As minhas lingeries iniciaram nesse segmento, nesse mercado. Então digamos que lá no exterior eu tinha que me diferenciar. Não poderia entrar lá e disputar alta costura com estilistas europeus, até porque eles nascem nesse meio, nesse berço. Uma das coisas que eu poderia me destacar era na questão da lingerie. Eu incrementei, juntamente com a corseteria, era uma coisa que eu gostava desde pequena. Eu era enlouquecida por isso! Via essas cintas da minha mãe desde pequena e tinha essa paixão. E lá fui me especializar nessa área. Aí eu conjuguei as peças. O corset de lingerie, que chegava a custar 1500 euros a peça, eles tanto eram usados como lingerie quanto para vestidos; as pessoas incrementavam, faziam saia, depois faziam outras partes de baixo para usar o mesmo corset. Esse foi o meu diferencial. Conjuguei e isso não tinha lá. Os grandes nomes até fazem o corset, mas são peças ou para lingerie ou para produto mesmo de venda. [Conjugar com o vestido não faziam?] Não, não. Daí eu comecei a colocar a corseteria por dentro, interna. E as pessoas gostam do corset, mas a europeia não gosta de se sentir apertada. Então tive de me adaptar ao mercado. Foi suado, mas eu descobri um mercado.

DIARINHO – A opção por Brusque aconteceu justamente pela cidade ser um polo têxtil catarinense? Porque não Florianópolis ou Balneário Camboriú?
Daniela Colzani – Quando eu vim para cá, com a proposta de montar o instituto, Burgo estava crente de que seria Florianópolis. Lá no exterior, se você falar em Florianópolis, as pessoas conhecem. Então comecei a estudar o mercado, ver números, mas tive de ver não somente o número para o turismo, mas o mercado, tive que ver meu consumidor, o cliente. Então constatamos que Brusque é um polo têxtil. Fui contratada pelo Sebrae para dar consultoria aqui. Estando aqui dentro, começo a entender a mentalidade das pessoas, pesquisar mais e mais, vi que Brusque é o local ideal; e perto tem São João Batista, polo de calçados, Ilhota com a lingerie. O senhor Burgo quer que Brusque seja sempre a matriz. Sempre a casa onde os profissionais vão sair, onde eu vou ficar a maior parte do tempo. Mas não descarta a possibilidade de irmos para Florianópolis, Curitiba, São Paulo…

DIARINHO – Como será a estrutura do instituto em Brusque?
Daniela Colzani – Temos aqui o hotel Innovare, que é um hotel de luxo, e ao lado há as salas comerciais, separadas. Pegamos duas salas, juntamos, deu 100m², não é grande, mas é o suficiente. Temos máquinas de costura, manequins. E pensamos no Innovare porque é um hotel de alto padrão, porque as pessoas procuram aqui a qualidade, aqui querem estar. Os profissionais que vão vir da Itália, que virão do exterior, ficarão no hotel. Tudo foi pensado de maneira a deixar todo mundo bem. Cursos que vamos fazer com profissionais do exterior já vamos oferecer em parceria com o hotel. [O Burgo já esteve aqui?] Ele vai vir. Conhece a cidade e o Estado pelo histórico que apresentamos, pois é um empresário. Vamos abrir dia 1º de outubro, e no final de outubro, começo de novembro, ele estará aqui no Brasil. A vinda dele será uma novidade para o Brasil. Serão cinco dias que ele vai ficar.

DIARINHO – As sedes de grifes nacionalmente famosas como Colcci, Coca Cola Clothing e Fórum são em nossa região. A Colcci, inclusive, nasceu em Brusque. A que você credita esse DNA de sucesso dessas marcas?
Daniela Colzani – É pra você ver que a coisa pode acontecer a partir de Brusque. Florianópolis ou Balneário são cidades extremamente turísticas, e o que queremos é profissionalizar, é mão-de-obra. E quem quer se profissionalizar vai investir em si próprio, daqui vai para Milão, por exemplo, para onde tem qualidade. Onde você pode ter o retorno do investimento. Principalmente em si próprio, que é o melhor investimento da vida. Creio que os interessados virão para cá.

DIARINHO – Gisele Bundchen foi garota propaganda da Colcci durante muitos anos. O fato da modelo mais famosa do mundo ter emprestado seu rosto à grife explica a potência que hoje é a Colcci?
Daniela Colzani – Acho que é mais pela qualidade. Essas marcas são mais famosas aqui dentro do Brasil. Até tem certo sucesso lá fora, mas o italiano que vive no quadrilátero da moda conhece grandes marcas, Dolce & Gabbana, Armani, é um mercado de alta costura, digamos assim. Mas o senhor Burgo acha que aqui pode haver retorno financeiro pelo o que a cidade oferece.

DIARINHO – Quando você vê sua trajetória profissional agora, Daniela, ainda jovem, e olha para a menina criada lá em Balneário Piçarras, o que você sente e o que você diria a outras moças que gostam de moda e pensam numa graduação do gênero aqui no litoral?
Daniela Colzani – Meu nome de família é Colzani, família conhecida por ser italiana. Meu pai é dos Santos, mas cheguei na Itália e as pessoas falavam “Daniela dos Santos”, era estranho; tive de usar o sobrenome da minha mãe. É um nome que soa bem, é forte. A minha descendência é do norte da Itália. Mas fui pra lá, da noite para o dia, não sabia falar inglês, não sabia falar italiano, e me joguei. Em um mês decidi ir embora daqui. Meu pai comprou a passagem, e eu fui. Fiz um mês de italiano lá, mas era a mesma mensalidade do Burgo, e tive de fazer uma escolha. Fui trabalhar de garçonete para aprender o italiano. Só aprende a falar falando. Em três meses mais ou menos, já estava falando italiano, já estava pelo menos me virando. Gosto muito da língua. Sobre a origem, meu Deus… eu cresci numa família muito simples; fui criada na praia, uma cidade de 30 mil habitantes. Sempre acreditei muito em mim. Eu cresci sendo a neta do seu Isvaldo Colzani, que foi prefeito de Piçarras; depois eu era a sobrinha do Robson; depois fui a namorada do Flávio… gente, eu nunca era ninguém! Que é isso? [risos]. Fui correr atrás dos meus sonhos. Na época eu namorava, e larguei tudo. Tive de fazer uma escolha, “vou para Milão para estudar”. Fui atrás. Tudo é possível quando você tem o sonho e acredita nele. Mas precisa abrir mão da vida pessoal. Mas o que tenho a dizer é sonhe, corra atrás, que é possível. 

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