Home Notícias Quentinhas “Somos mulheres do Paraguai, as genéricas”

“Somos mulheres do Paraguai, as genéricas”

Ela é uma espécie de paladino. Sai na defesa dos seus e chega a penalizar quem provoca confusões que vão respingar nas outras integrantes da categoria. Nasceu menino, mas se sente mulher. Ou melhor, é praticamente uma mulher, se não fosse por um detalhe que, por ironia, é justamente seu instrumento de trabalho. Ana Paula Barreto (o “nome social”, como ela diz), comanda com mão de ferro a associação dos Travestis de Balneário Camboriú. Neste Entrevistão, concedido aos jornalistas Dayane Bazzo e Sandro Silva, Ana Paula bota o dedo na ferida e fala sobre a polêmica da prostituição de adolescentes que se travestem de mulher. Conta como tem combatido o problema no maior polo turístico do sul do Brasil e explica as razões de ter denunciado a prática de travestis com menos de 18 anos atuando como profissionais do sexo na vizinha Itajaí. E não para por aí. Preconceitos, hipocrisias (sim, os homens casados são o maior número de clientes dos travestis, garante) e cobranças também são temperos da conversa agradável mas firme com a travesti que divide seu tempo entre o trabalho como profissional de sexo e a difícil tarefa de representar um grupo que, em pleno século 21, ainda vive às margens da sociedade. Os cliques são de Lucas Correia.

Raio X
Nome:
Ana Paula Barreto (“Nome social”)
Idade: 36 anos
Naturalidade: Londrina/PR
Estado civil: Solteira
Filho: Não os tem
Formação: primeiro ano do Ensino Médio.
Experiência profissional: o primeiro e único trabalho, desde os 15 anos, foi como profissional do sexo.

DIARINHO – Existem pessoas que se travestem pros mais diferentes fins. Pra começo de conversa, você poderia explicar para nós qual a diferença entre travestis, drag quens, transformistas, transex, transsexuais e crossdresseres?
Ana Paula Barreto –
Travesti, se tu olhares no dicionário, vais ver que é uma pessoa que pode se travestir de qualquer coisa. Um menino que pode se travestir de mulher, um cara que pode se travestir de palhaço para animar uma festa de criança e assim vai. Este é travesti. Transex é o meu caso e de várias outras que têm a identidade gênero-feminina 24 horas por dia. Se deita e se levanta mulher. Transforma todo o corpo com cirurgias plásticas, hormônios femininos. Essas são as transex. As transexuais são aquelas que se operam, mudam de sexo, fazem a readequação sexual. Essas são as transexuais. Se transformam em verdadeiras mulheres, mudam de sexo e tal. [As drag queens que costumam se travestir para fazer performances artísticas são também travestis, então?] É, na verdade, se tu olhares bem, for analisar bem a palavra, são denominadas como se fossem travestis, porque geralmente as drag quens têm identidade gênero-masculina, são hominhos, e quando elas vão fazer os shows artísticos na noite, em boates, animar festas, eventos e tudo mais, aí elas se transformam em drag quens com perucas, cílios, aquelas maquiagens um pouco mais extravagantes, saltos enormes no pé, roupas e tal. [E as crossdresseres?] Então, pra mim te dizer bem a verdade, são nomes que são agregados, porque o crossdresser, também é um cara, um homem de identidade gênero-masculina que se veste de mulher, como se fosse aquele tal de nome que colocaram agora de CDzinha, CD [Abreviações para a palavra crossdresser]. Se tu fores analisar bem, é um travesti, que tá se travestindo, tá se transformando, se montando de mulher pra realizar seu desejo ou pra sair com outro homem, sei lá o que, se é homossexual ou também pra ir numa festa. Se tu fores analisar bem é um travesti.

DIARINHO – Se nem todos os homens que se travestem de mulher são profissionais do sexo, então porque tantos travestis entram na prostituição?
Ana Paula –
Como eu vou te dizer?… Porque assim, nós, as transex, que transformamos todo o corpo, que nem eu te falei, que têm identidade gênero-feminina 24 horas, a maioria das vezes o que nos resta é a prostituição, porque ninguém dá emprego. Tu não vês uma transex trabalhando numa loja, dentro do shopping, na avenida Brasil ou trabalhando dentro de um supermercado. [Tem um quê de preconceito?] Tem um quê de preconceito, exatamente. Na verdade, tu vês que os homossexuais em si, os gays de identidade gênero-masculina, têm mais facilidade de conseguir emprego do que nós, que somos transex. Eu vejo muitos amigos meus que são gays, de identidade gênero-masculina, que parecem hominho, trabalhando em várias áreas. Então, eles têm muito mais facilidade de conseguir emprego, de serem bem aceitos nos locais de trabalho do que a gente, que é transex. [E essa coisa de o mercado de trabalho não assimilar o transex como profissional de outras áreas é uma coisa do Brasil ou isso acontece em outros lugares do mundo?] Eu acho que é uma característica mais do Brasil. Eu vejo muitas transexs brasileiras em outros países se prostituindo. Eu acho que isso é uma coisa mais geral, mas acho que no Brasil, o preconceito é bem maior.

DIARINHO – Numa entrevista recente ao DIARINHO, você disse que não existem mais jovens travestis com menos de 18 anos trabalhando como profissionais do sexo em Balneário Camboriú. Como você pode ter certeza disso e que tipo de ações têm sido feitas para combater a exploração sexual comercial desses adolescentes na cidade que é considerada o maior polo turístico do sul do país?
Ana Paula –
Eu cadastro todas as travestis que chegam em Balneário Camboriú para trabalhar. Cadastro elas com xérox da identidade frente e verso. As próprias gurias que são cadastradas comigo e que trabalham à noite na rua sempre tão de olho. Chega uma travesti nova na cidade, elas já pedem pra ela me procurar e se cadastrar. E se tem alguma [suspeita de ter menos de 18 anos], elas falam “olha, Ana, tem uma travesti trabalhando aqui, eu conversei, pedi pra que ela te procurasse pra se cadastrar, parece que ela é menor, você tem que vir até aqui pra dar uma analisada e tal”. Eu vou até o local, lá na rua, peço o documento dela. Caso tenha alguma reação que não queira me dar o documento, eu solicito uma viatura, alguém pra poder me acompanhar, porque menor lá na rua trabalhando, jamais. Então, por mais que eu não trabalhe mais à noite na rua – eu trabalho só de dia – mas têm as gurias que ficam lá trabalhando, as outras gurias trans que são cadastradas comigo, que tão sempre de olho, e elas me ligam e me avisam. E eu sempre tô ligando no batalhão e ligo na delegacia e peço pra fazer rondas na rua, olhar as bolsas dessas travestis e tal. Inclusive, eu tenho que comparecer no batalhão agora, porque foi feito um ofício pelo meu advogado e até agora não recebi uma resposta [O que vocês pediram nesse ofício?] Então, esse ofício pede que sejam feitas rondas frequentes lá na rua, que olhem a bolsa das travestis, revistem, vejam quem são as travestis que são cadastradas comigo ou não, porque, na verdade, já tá sendo feita uma carteirinha, como se fosse um RG, com o nome da associação, o nome social da trans, pra facilitar o trabalho da polícia, pra eles saberem quem são as travestis que são cadastradas ou não. Porque se pedir e elas mostrarem essa identificação, é porque é cadastrada comigo. Aquela que não mostrar, é porque não é. [Cadastrada com você, você diz na associação dos Travestis de Balneário Camboriú?] Na associação, exatamente. Porque fica mais fácil pra ter um controle, que além desse controle, pra eu saber se realmente essa identidade dela não é falsa, se esse RG é verdadeiro, se não é menor de idade.

DIARINHO – O DIARINHO denunciou, recentemente, que travestis adolescentes estariam trabalhando como profissionais do sexo em Itajaí e que uma travesti estaria, inclusive, cobrando pedágio do ponto. Parte dessas denúncias veio das próprias travestis. Inclusive, você procurou o conselho Tutelar para também falar sobre o caso. As travestis mais velhas têm medo da concorrência das mais jovens ou parte da categoria é mesmo contra adolescentes estarem na prostituição?
Ana Paula –
Na verdade, não é medo das mais jovens. É que, realmente, elas não querem as travestis menores trabalhando ali perto delas porque, querendo ou não, foi que nem eu disse na reportagem que saiu sobre as menores trabalhando ali na Adolfo Konder, próximo da rodoviária, se uma hora a polícia der uma batida ali na rua, fizer uma revista geral e tal, às vezes pode até levá-las junto, porque aquelas menores estão próximas. Vão achar que elas estão explorando aquelas menores também ou que elas tão vendo aquelas menores se prostituindo e não denunciam, não falam nada. Então, foi por isso que elas me procuraram e me pediram ajuda, porque aqui, em Itajaí, não tem nenhuma ONG, não tem uma presidente de uma ONG, uma líder do grupo pra tomar a frente, uma representante pra lutar pelos direitos delas e fazer essas denúncias. Então, como elas sabem que o meu trabalho já vem de muitos anos em Balneário Camboriú, que eu sou uma pessoa muito forte no meio, que todo mundo me conhece, respeita, sabe do meu trabalho, então elas começaram a me pedir muita ajuda. Falaram: “Ana, eu sei que tu não tens nada a ver com Itajaí, que o teu trabalho é só em Balneário Camboriú, mas por favor, ajuda a gente, porque os menores estão cada dia aumentando aqui, no meio da gente, se prostituindo e não tem mais condições dessas menores ficarem aqui, porque a gente não quer arrumar dor de cabeça”. Então, foi quando eu procurei o conselho Tutelar, falei, inclusive, com a Anadir [Anadir Schneider, presidente do conselho Tutelar de Itajaí], que trabalha lá, e ela me prometeu que ia olhar o caso direitinho. [Você estima que quantos adolescentes, jovens travestis com menos de 18 anos, estariam trabalhando hoje em Itajaí?] Então, quando elas começaram a denunciar pra mim, já vai fazer mais ou menos um mês, começaram com duas menores, depois foi pra três, depois dessas três foi pra quatro, depois de quatro já vieram cinco, seis e assim foi. Então, antes que esse número chegasse a 10, 15, várias menores ali na rua, elas já começaram a denunciar pra mim, pra cortar o mal pela raiz.

DIARINHO – A quem cabe combater esse problema?
Ana Paula –
Cabe às autoridades policiais e ao conselho Tutelar. Eu acho que não tem necessidade de a gente ficar soltando matéria no jornal, procurando a imprensa. Este é um problema social e está ali, todo mundo tá vendo. Acho que não custa as pessoas fazerem isso com frequência, passar na rua, fazer rondas rotineiras, fazer várias batidas ali, no local, pedir o RG desses travestis pra ver quem é menor e quem não é, verificar pra ver se essas identidades, RGs, não são falsos, onde está morando, de onde veio. Porque, querendo ou não, é um cidadão. Querendo ou não, é um cidadão que paga imposto como todo mundo, então, merece respeito, merece a atenção das autoridades. [A presença da polícia nos locais onde os travestis fazem ponto, dando batidas na bolsas ou pedindo documento, não é uma situação opressiva?] Eu acho que não é uma situação opressiva. É uma situação que tem que ser rotineira, que tem que ser feita pra evitar que travestis, que nem eu disse, estejam com documento falso, que sejam menores, que estejam com armas na bolsa, que às vezes vai se passar por profissional do sexo e não é, vai lá só pra roubar cliente, usar droga, tá com droga na bolsa… Então, é pra evitar esse tipo de coisa, igual eu faço em Balneário Camboriú.

DIARINHO – Somente depois de uma semana da publicação da denúncia de adolescentes se prostituindo é que as autoridades anunciaram a intenção de investigar o caso. Em relação a casos envolvendo transexuais, há sempre essa demora dos agentes públicos em agir? Pode haver um preconceito em relação ao fato de os envolvidos serem homens travestidos de mulher?
Ana Paula –
Às vezes, pode até ser um pouco de preconceito. Às vezes, não querem olhar muito pra esse lado. Mas que nem eu te disse, não deixa de ser um problema social; estão nas ruas se prostituindo, está todo mundo vendo, a sociedade, tá todo mundo vendo, entendeu? Então, às vezes eles deixam de ir lá verificar e ver isso aí, porque não tem uma associação, não tem uma ONG, uma líder do grupo, uma representante que luta pelos direitos delas e que verifique esse tipo de problema, como eu faço em Balneário Camboriú.

DIARINHO – Como e por que nasceu a associação dos Travestis de Balneário Camboriú? Qual a principal luta da categoria?
Ana Paula –
Eu venho trabalhando já vai fazer 10 anos. Eu comecei desde a época da Aprosvi, que era a associação dos Profissionais do Sexo do Vale do Itajaí. Na época, eu trabalhei junto com a finada Mirna [Travesti, liderança do movimento que criou a Aprosvi e associação dos Travestis de Balneário Camboriú], que agora morreu. Na época, ela era viva, era presidente da ONG. Eu comecei fazendo trabalhos voluntários e também a Andreia Wolf [Psicóloga com atuação social junto a profissionais do sexo] trabalhava dentro da associação. Foram elas, inclusive, Andreia Wolf e a finada Mirna, que me ensinaram muita coisa. Então, eu sou muito grata a elas. Eu agradeço de coração tudo o que elas me ensinaram. Eu comecei fazendo trabalhos voluntários. Depois de um bom tempo, eu virei secretária. Depois, com meu trabalho, meu bom exemplo, eu virei a vice da Mirna, e logo que a Mirna veio a falecer, a presidência ficou pra mim. [Qual é o principal trabalho hoje da ATBC?] O principal trabalho é ensinar as travestis, para que elas saibam que têm os direitos delas, mas também têm os deveres. É lutar pelos direitos, é organizar a rua. Porque, querendo ou não, é na rua onde há a prostituição, onde elas estão ali fazendo programa, se prostituindo, onde tá o maior problema. Todo mundo sabe disso, que é onde tem as profissionais do sexo, onde têm aquelas outras que às vezes se infiltram e que só vão lá pra fazer escândalo, incomodar vizinho, andar sem roupa, roubar cliente, quebrar carro dentro do motel, fazer todo esse fiasco. Então, onde eu atuo mais em cima delas é na rua, no meio da prostituição. […].

DIARINHO – Quantas travestis estariam hoje trabalhando em Balneário Camboriú, sendo ou não ligadas à associação?
Ana Paula –
Cadastradas comigo, trabalhando na rua, tem mais ou menos umas 10, porque as outras que são cadastradas moram em outras cidades e vêm trabalhar aqui, principalmente no verão, na época do turismo. Começa o inverno, e elas viajam. Tem umas que moram em Minas Gerais, outras moram em Fortaleza, outras em Cuiabá. [Quantas?] Ah, no verão vêm várias, muitas. [Chega a 30?] Chega a 30, mais ou menos. Às vezes, até mais, às vezes 40. [E hoje, não cadastradas, têm quantas trabalhando?] Eu acho que no verão tinha mais, porém agora, no inverno, deve ter umas três, quatro, que não vão frequentemente na rua, mas às vezes aparecem por lá, mas não é sempre. [Essas que vêm de fora também se cadastram com você?] Se cadastram. Tem as transex que vêm de fora trabalhar e que já são amigas minhas, que já são cadastradas. Porque assim, existem aquelas que já vieram trabalhar, que frequentam Balneário há muitos anos, principalmente no verão, na época do turismo, e que eu cadastro e deixo esse cadastro guardado. [São quantas?] Várias. Eu tenho 30 cadastros ou mais. Chega a 40 cadastros dessas transex que vêm na época do verão trabalhar aqui, que eu tenho guardado comigo. Quando elas voltam, eu tenho o cadastro ali. Eu não jogo nada fora. Todos os cadastros delas, que eu faço de documento, ficam lá guardados.

DIAIRNHO – A associação reúne apenas travestis que são profissionais do sexo? Drag quens ou outros transformistas, por exemplo, podem se filiar à entidade? Quais benefícios teriam?
Ana Paula –
Na associação, só são cadastradas as transex que são profissionais do sexo, que atuam na avenida do Estado, próximo aos bombeiros, na rua 200, só ali naquele pedaço.

DIAIRNHO – Recentemente, um morador do centro de Balneário Camboriú xingou uma travesti profissional do sexo e levou um tapa no rosto. A travesti foi detida, levada pra delegacia e solta logo em seguida, porque o morador não quis registrar queixa. É comum pessoas que se envolvem em confusões com travestis não levarem o caso para frente? Há um certo medo por parte dessas pessoas?
Ana Paula –
Eu acho que deve ser comum. Na verdade, aquela briga começou assim: foram duas travestis, duas transex que brigaram na frente do motel [Da rua 200?] Isso, na rua 200. Elas brigaram ali na frente do motel, discutiram não sei por quê. Inclusive, elas são as duas cadastradas comigo, na ONG. Eu imediatamente chamei a atenção delas. Vou até falar da história pra vocês direitinho, até dessa que deu um tapa no rosto do morador. Eu chamei a atenção das duas, que são cadastradas comigo na ONG. Inclusive, o meu castigo com elas foi cada uma pagar cinco cestas básicas pra uma família carente. [E elas pagaram?] Pagam, claro que pagam. Elas sabem que fizeram errado e elas vão ter que pagar. Este é o meu castigo. Elas têm que saber, elas são orientadas, elas sabem que esse tipo de coisa não pode acontecer ali, na frente da casa dos vizinhos, numa área central onde tem vários moradores. Então, já chamei a atenção delas. Aí, o que acontece? Essas duas brigaram feio na rua, discutiram, a briga foi muito alta. Os vizinhos escutaram. Não tiro a razão deles. Saíram pra fora e solicitaram uma viatura, chamaram a polícia. Quando a polícia chegou no local, essas duas que brigaram já não estavam mais, já tinham saído do locall. A que deu o tapa no rosto do morador não sabia de nada. Ela estava dentro do motel com um cliente. Quando o cliente foi embora, ela saiu do motel da rua 200, viu toda aquela muvuca. Aí, lógico, os moradores começaram a ofender, a xingar e, até então, ela não sabia de nada do que tinha acontecido. A polícia já estava lá e começaram a ofender. Ela não tem sangue de barata, não aguentou o morador dando de dedo no rosto dela e deu um tapa no rosto dele. Claro que fez errado, isso jamais poderia ser feito. Na hora, a polícia algemou, levou pra delegacia. O que acontece? As outras gurias, que são cadastradas comigo, me ligaram e falaram. Ela me ligou de dentro da delegacia me pedindo os documentos dela e tal. Passei na casa onde mora, peguei os documentos dela com uma outra amiga que também tinha me ligado e fui levar na delegacia. Falei que eu estava chegando lá com um advogado e que já tinha ligado pro DIARINHO. E que ela estava errada e ia pagar pelo o que fez, ter dado um tapa no rosto do morador, mas que eu também iria entrar com uma ação contra os moradores ou morador que estava agredindo ela verbalmente. Eu não ia aceitar também essa discriminação. Aí, eu não sei se chegaram a comentar isso lá na delegacia e eles também ficaram sabendo, ou não quiseram levar a ação pra frente. [Morreu o assunto ali, então?] Morreu por ali, porque, querendo ou não, eu não passo a mão na cabeça. Mas eu estava ali, já tinha ligado pro meu advogado. Com certeza, se ele representasse contra ela, iria sim pagar pelo o que ela fez, mas eu também iria entrar com uma ação, porque eu não ia aceitar as agressões verbais por discriminação e preconceito.

DIARINHO – Já ocorreram muitos conflitos entre travestis e moradores das áreas que servem como pontos para profissionais do sexo em Balneário Camboriú. Como essas rusgas têm sido gerenciadas entre travestis e moradores? A associação intervém nesses casos?
Ana Paula –
Já ocorreram vários conflitos. [A associação intervém nesses casos?] É sempre orientado a chamar a polícia, a entrar em contato comigo. As próprias trans que são cadastradas comigo entram em contato, falam: “Olha, Ana, tá acontecendo uma discussão aqui, com o vizinho e uma transex que eu nunca vi, acho que é nova na cidade, acho que não é cadastrada na ONG contigo, como a gente é”. Aí, eu já procuro imediatamente olhar, aciono a polícia pra ir até o local e tal. Porque, às vezes, existem outras travestis que chegam, vão lá trabalhar e ficam hospedadas em hotel, alugam quitinete por dia no verão, apartamento. Eu te confesso que é um pouco difícil controlar tudo isso no verão, porque vêm muitas pra cá e se misturam ali no meio. Tem muitas que não trabalham só ali, na avenida do Estado e na rua 200; muitas que se evadiam e trabalham próximo às Casas Bahia, na avenida do Estado, ali para aqueles lados, outras aqui em cima, próximo do Santa Inês, no antigo hospital Santa Inês, no bairro dos Pioneiros.

DIARINHO – Os profissionais do sexo, principalmente os que trabalham na rua, estão sujeitos a todo o tipo de clientela. A violência contra travestis faz parte do cotidiano?
Ana Paula –
Não tem muita ocorrência. Não tem muita reclamação de travestis que são cadastradas falando que sofreram, que apanharam na rua ou que sofreram agressões. Às vezes, tem uns que se passam, falam uma besteira ou outra, que xingam. Principalmente gurizada que anda de moto junto ou aquele grupinho que tá no carro em quatro ou cinco e que às vezes passa e fala uma besteira. Mas dizer que travestis são agredidas ali, na rua, com frequência, não. Se eu falar que é, é mentira, entendeu? Geralmente, elas saem lá com os clientes direitinho e não tem nenhum problema. Às vezes, acontece de uma travesti ou outra, que não é cadastrada na ATBC e que aparece por ali – que nem eu disse, que se infiltra no meio -, e vai lá pra fazer bagunça, incomodar o vizinho, andar pelada, querer roubar o cliente. Mas as meninas que são cadastradas comigo já me ligam, já falam a roupa que ela tá, como ela é e tudo direitinho e eu já vou procurar saber.

DIARINHO – Em 2003, o então deputado Fernando Gabeira, do PV, entrou com um projeto para regularizar a prostituição no Brasil. O projeto foi arquivado. Agora, o deputado Jean Wyllys, do PSOL do Rio de Janeiro, trouxe o tema à tona com um novo projeto. A sociedade brasileira está pronta para reconhecer a profissão do sexo como um trabalho?
Ana Paula –
Eu acho que a sociedade brasileira ainda não está pronta pra reconhecer a prostituição como trabalho. Se eu disser que sim, é mentira. Acho que ainda não está. A sociedade vê as transexs, as garotas que estão na rua se prostituindo como um nada, como um lixo. Eles acham que a gente tá ali porque a gente gosta, porque a gente quer. Eles esquecem que esse é também um problema social, que a gente não tem emprego. Como é que eu vou sobreviver se eu não for lá “me vender”? O preconceito é muito grande, entendeu? Pras mulheres que fazem programa, pras garotas de programa, às vezes é até mais fácil conseguir um emprego. Mas pras transex, não. Que nem eu disse anteriormente, agora há pouco, é difícil, é difícil… Por isso é que tu vês muitas transex se prostituindo na rua, fazendo programa. E, querendo ou não, a prostituição também se torna um vício, né? Eu não vou te dizer que a gente ganha um dinheiro fácil, mas é um dinheiro rápido, que a gente tem todo dia. E, querendo ou não, somos nós que fazemos o nosso horário, somos nós que vamos trabalhar o dia que a gente quer… Então, tem tudo isso, e a prostituição também se torna um vício… Se eu quiser passar uma semana dentro de casa, eu fico. Enquanto que uma pessoa que trabalha num emprego fichado, direitinho, já não tem esse privilégio. [Essas são as vantagens da profissão. E as desvantagens e riscos?] As desvantagens e riscos existem, porque a gente se expõe muito, às vezes podem aparecer clientes conhecidos, mas às vezes aparece um estranho, e então tu não sabes de onde ele veio, quem ele é, os antecedentes, o que ele fez, se a pessoa que vai sair contigo tem boa intenção ou não. É um risco que a gente corre. Tu entras no carro pra fazer um programa e, de repente, tu vais e não voltas mais. Principalmente nas noites e nas madrugadas, quando é mais arriscado ainda. Eu trabalhei muitos anos na noite. Hoje, vai fazer o quê? Vai fazer dois anos que só trabalho de dia. Mas eu trabalhei, nossa, trabalhei acho que uns 15 anos na noite. [Você já sofreu alguma violência por parte de cliente?] Não. Graças a Deus, eu nunca sofri nenhuma violência por parte de cliente. Mas conheço várias outras trans que já, que já apanharam, que já foram assaltadas com revólver na cabeça, que foram jogadas no porta-malas, que já apanharam na rua pra levar a bolsa dela embora, com faca no pescoço e várias coisas assim.

DIARINHO – Não é raro haver denúncias de travestis que furtaram ou assaltaram clientes. Você mesma denunciou, recentemente, um grupo que veio de fora da cidade supostamente com esse propósito. Até que ponto notícias como essas atrapalham quem oferece o serviço de profissional de sexo?
Ana Paula –
Ah! Atrapalha bastante! Atrapalha bastante porque, querendo ou não, é aquela coisa: o cliente que tá passando na rua, às vezes, não conhece e ele olha, tem até vontade de sair, procurar o serviço daquela trans, mas ele fica com medo, porque ele saiu com outra trans e já foi assaltado e enfrentou esse tipo de problema. Aí, ele olha e fica com medo de sair porque, de repente, ela vai fazer o mesmo. Então, esse tipo de coisa atrapalha muito as outras trans, que são cadastradas e que trabalham direitinho. A gente nunca sabe, não conhece a pessoa, ele [cliente] não conhece e geralmente a maioria dos homens que sai são casados. Então, ele não quer criar nenhum tipo de problema de ter que parar na delegacia e tal. Então, se uma transex abordar ele, quiser assaltar, ele dá tudo, dá o dinheiro, se ela quiser levar outras coisas – que eu já ouvi histórias assim –, leva relógio, leva corrente do pescoço, pega celular, pega óculos, leva tudo. Ele acaba dando tudo, porque não quer criar problema. Não quer ir parar na delegacia com medo de virem os jornais, de vir a TV, de ele se expor, porque é um cara casado, tem emprego, tem família. [Então, quando dizem que a maioria que sai com os travestis são homens casados não é mito, é verdade?] Não é mito! É verdade. A maioria dos clientes que saem com a gente, os transex, são casados. A maioria. [Quantos, numa proporção?] São milhares. Tem solteiros, também, mas a maioria é casado. E se não é casado, tem namorada, é noivo. Porque a procura com transex, com as gurias trans, é muita, é mais do que com as mulheres na rua. Elas mesmas falam isso pra gente. Enquanto elas pegam um, dois clientes, a gente já pegou cinco, seis nas frente delas. É impressionante. E é em todo lugar.

DIARINHO – O mercado é melhor para as travestis, para as transex, do que para as mulheres?
Ana Paula –
É melhor. Tu podes perceber. Se vocês não pararam pra prestar atenção nisso, vocês podem prestar atenção. Na rua em que tem prostituição e que tem 10 mulheres, tu vês 30 transex. Em qualquer lugar, a procura é bem maior.

DIARINHO – O que leva um travesti a tomar a decisão de mudar de sexo? É uma decisão puramente profissional ou é a vontade de sentir-se realmente uma mulher?
Ana Paula –
Então, na verdade, é a vontade mesmo de se sentir mulher. Aquelas que realmente não usam seu órgão masculino pra nada. Têm nojo de se olhar no espelho e ver aquele pênis. Nojo! Eu tenho várias amigas minhas que já fizeram cirurgia, que já mudaram de sexo por causa disso, entendeu? Nojo de olhar o pênis até pra fazer xixi, pra urinar. Aquelas que realmente querem se sentir mulheres, mesmo! Conheço várias trans que são assim.

DIARINHO – Num olhar de mercado, os clientes que procuram os travestis seriam os mesmos que procuram os transexuais? Ou a presença do órgão masculino é um diferencial para os travestis?
Ana Paula –
O órgão masculino é um diferencial para as transex. Porque o homem que sai com a gente sabe que tem um órgão masculino, que nós somos transex, que parecemos mulher mas não somos. Eu até brinco com as gurias e digo “somos mulheres do Paraguai, as genéricas” [risos]. A gente brinca muito, conversa muito entre as meninas que são cadastradas na associação. O homem que procura a gente, o fetiche dele é assim: o corpo totalmente feminino, que parece mulher, mas com órgão masculino. Acho que esse é o fetiche, é o tesão deles. Saber que são dois, que é um homem e uma mulher num corpo só. Esse é o fetiche. [Então, não seria produtivo pro travesti profissional do sexo mudar de sexo…] Não seria. Pra transex que é profissional do sexo não seria produtivo fazer uma mudança para se transformar em uma transexual. Só para aquela que realmente gostaria de ser mulher, que não usa o pênis pra nada, que não gosta dele, que não gosta de se olhar no espelho. Isso sim. Agora, pra nós, que já somos transex, é totalmente diferente. Pra nós, que vivemos da prostituição, que saímos com homens que têm esse fetiche, pra nós não seria produtivo fazer uma operação de mudança de sexo.

DIARINHO – Estamos vivendo um tempo em que há transformação de valores e de concepções morais e certa tolerância quanto às diferenças mas, ao mesmo tempo, também há, ainda, muita intolerância e preconceitos. Qual o recado que você dá para a sociedade na hora do tratamento com um travesti, um transex ou um transexual?
Ana Paula –
A única coisa que tenho pra te dizer é: todo ser humano merece respeito. Até um cachorro tem que ser tratado com carinho. Todo ser humano merece respeito, independente da orientação sexual. A sociedade, as pessoas, têm que ver e julgar os homossexuais em geral, eu digo assim, em geral, englobando todo mundo, travestis, transex, transexuais, lésbicas, gays de identidade gênero-masculino, todo mundo, pela competência profissional, pelo caráter, e não pela orientação sexual. A sociedade tem que entender que o que interessa é o que eu faço em pé, e não deitada.

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