Home Notícias Quentinhas “O festival modifica o metabolismo da cidade, o metabolismo dos artistas”

“O festival modifica o metabolismo da cidade, o metabolismo dos artistas”

O objetivo era entrevistar o bateirista e jazzeiro Pascoal Meirelles, que, ao completar 70 anos de idade durante o festival de Música de Itajaí, na primeira quinzena deste mês, também comemorava 50 anos de carreira com o lançamento do seu 17º disco. “Bota aí o Arthur Maia pra conversar também”, propôs Pascoal, naquela típica irreverência criativa dos gênios. E que jornalista, em são consciência, rejeitaria a participação numa entrevista de um dos maiores baixistas da atualidade, com reconhecimento internacional? E não demorou muito para chegar mais dois outros grandes instrumentistas, o pianista Rique Pantoja, parceiro de lendas como o guitarrista Carlos Santana, e o saxofonista Marcelo Martins. Pronto, tínhamos ali quase a formação do icônico grupo instrumental Cama de Gato e praticamente um jam session – mas que, em vez de melodias de jazz, era um diálogo entre as feras sobre a importância da formação musical, a experiência de tocar na noite e o significado de um festival como o de Itajaí, num improviso digno de quem sabe o que fala e tem experiências em palcos do mundo inteiro. A entrevista foi feita pelos jornalistas Adriano Assis e Sandro Silva durante a passagem de som, antes do show da noite de 10 de setembro, no Teatro Municipal de Itajaí. O bate-papo, que começou no camarim dos músicos, terminou numa van a caminho do hotel onde estavam hospedados. Ah! Vale comentar: os caras têm um pique que deixaria muito músico em início de carreira com inveja. Os cliques são de Elton Damásio.

“O festival, em 17 anos, modifica o metabolismo da cidade, o metabolismo dos artistas”
Arthur Maia

“Começou a aparecer muita gente interessada em aprender e estudar no festival. Então, eles foram obrigados a crescer junto com a demanda do público. E isso foi maravilhoso”
Pascoal Meirelles

“O Rio de Janeiro viveu muitos anos no mercado fonográfico, mas isso mudou muito. Hoje em dia – e cada vez mais -, a gente tem oportunidade de ter nichos musicais vivendo por conta própria”
Marcelo Martins

Raio X
Nome: Paschoal de Souza Meirelles
Idade: 70 anos
Naturalidade: Belo Horizonte/MG
Estado Civil: casado
Filhos: dois
Formação: gradução em música, formação pela Berklee College of Music (nos Estados Unidos), iniciando um doutorado também em música na universidade do Rio de Janeiro
Experiência profissional: músico (baterista), compositor, professor universitário, produtor musical e oficineiro. Tocou e gravou com músicos de renome como Edu Lobo, Tom Jobim, Wilson Simonal, Gonzaguinha, Wagner Tiso, Chico Buarque e Luiz Melodia. Integrou o grupo instrumental Cama de Gato e é figura obrigatória nos mais importantes festivais internacionais de jazz.

Raio X
Nome: Arthur Vieira da Costa Maia Filho
Idade: 51 anos
Naturalidade: Rio de Janeiro
Estado civil: “complicado”
Filhos: quatro
Formação: segundo grau completo, algumas cadeiras na escola Nacional de Música
Experiência profissional: Músico desde os 15 anos (baixista), compositor, arranjador, produtor e atualmente secretário de Cultura da prefeitura de Niterói. Também ministra workshops de música. Tocou e gravou com músicos do calibre de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Roberto Carlos, Seu Jorge, Marisa Monte, Djavan e Ivan. Tem participação nos mais importantes festivais internacionais de jazz, como o Montreux Jazz Festival, o Festival de Paris, o New York Festival e Free Jaz Festival. Integrou o grupo instrumental brasileiro Cama de Cama, que alçou fama mundial.

Raio X
Nome: Marcelo Martins
Idade: 45 anos
Naturalidade: Niterói
Estado civil: casado
Filhos: um
Formação: teoria musical no conservatório do Estado do Rio de Janeiro
Experiência profissional: Saxofonista e arranjador. No Brasil, acompanha grandes nomes da MPB, como Djavan, Gilberto Gil, Ivan Lins e João Bosco

Raio X
Nome: Paulo Henrique Pantoja Leite
Idade: 58 anos
Naturalidade: Rio de Janeiro
Estado Civil: casado
Filhos: três
Formação: Curso de arranjo e composição pela Berklee College of Music (Boston/EUA), três anos de estudo com o lendário Charles Banacos, o pianista de jazz norte-americano que criou mais de 100 campos de estudo para improvisação e composição
Experiência profissional: Compositor, arranjador, produtor musical e pianista de jazz, professor da Biola University (Califórnia/EUA) e oficineiro. No Brasil, acompanhou os grandes nomes da MPB, como Djavan, Ivan Lins, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Gal Costa, Chico Buarque, Tim Maia, Gonzaguinha, Paulinho da Viola. Já tocou com lendas como o guitarrista mexicano Carlos Santana e o japonês Sadao Watanabe, já acompanhou o espanhol Alejandro Sanz e tem sua assinatura na trilha sonora de um dos filmes da Disney. Integrou o grupo instrumental Cama de Gato.

DIARINHO – Por muito pouco, o festival de música de Itajaí deixou de existir. Se realmente acontecesse, o que se perderia com isso? Qual seria o tamanho do estrago?
Arthur Maia – Acho que o festival, em 17 anos, plantou algo mais. Ele modifica o metabolismo da cidade, o metabolismo dos artistas da cidade. Quando ele deixa de existir, é como se você tivesse parado de regar uma planta. Ela murcha. Toda vez que você deixa de regar uma coisa, que é fluente, que é pungente como é esse festival, isso acaba dando uma desanimada no todo. O meio e o todo perde com isso, não só a classe artística, mas a classe que quer formar as pessoas para a arte. Senão, se você não der opção, você só tem a televisão. Esse festival traz uma possibilidade muito maior do que ser uma atração de divertimento pra ser também uma atração cultural, uma possibilidade de você trocar conhecimento, mostrar uma outra parte da música que existe, que é importante no Brasil, que é a música instrumental. E a gente tá falando aí desde Pixinguinha, Ernesto Nazaré, Chiquinha Gonzaga, Paulo Moura, Hermeto Paschoal… Se você deixa de plantar isso, você deixa de investir numa coisa muito importante, que é o instrumentista, que também dá o desenho da nossa música popular brasileira.

DIARINHO – Você esteve no festival de Música de Itajaí desde as primeiras edições, Pascoal. O que melhorou de lá pra cá, o que piorou e o que poderia mudar?
Pascoal Meirelles – Olha, eu só acho que melhorou. Porque quando comecei, naquela época o festival era lá na casa Dide Brandão, a casa da Cultura, né!? E era tudo lá. As pessoas usavam todas as salas. Lá é um palco no meio [Ele se refere ao átrio central da antiga escola Victor Meirelles, onde hoje funciona a casa da Cultura, e que na época do festival recebeu um tablado para apresentações] e as salas ao redor. Então, quer dizer, não tinha muitos professores. A partir desse núcleo, ele foi a cada ano aumentando um pouco. Eles colocaram depois lá na fundação Cultural… Foi abrindo o festival. Por que foi abrindo? Porque começou a aparecer muita gente interessada em aprender e estudar no festival. Então, eles foram obrigados a crescer com a demanda do público. Achei que foi maravilhoso. O crescimento do festival foi em função da demanda de quem realmente gosta de música e quer se aperfeiçoar. E, por exemplo, no meu caso, que vim oito anos seguidos, eu tive uma legião de seguidores. Foi genial. Porque virou como se fosse algo assim: vamos ficar uma semana aqui, e no ano que vem mais uma semana. É como se fosse um seriado. Eu parei em 2006 e voltei em 2013, ano passado. Até 2006, o meu curso era um seriado. Eu fazia a sequência. Nesse curso, eu dei, vamos supor, teoricamente, dei até paradiddles [Um tipo de exercício de bateria] e leitura de caixa, bateiristicamente falando. No outro, eu já sigo adiante. E foi assim até 2006. Eu parei porque fui convidado para lecionar no Equador, durante quatro meses. Fui pra lá achando que ia voltar; que nada. Fui convidado pra mais um ano. Aí, foi um ano e mais quatro meses fora do Brasil, lecionando na universidade de Quito. E aí pensei: “Nunca mais vou voltar aqui.” [Refere-se ao festival de Música de Itajaí]. E não é que, ano passado, se lembraram de mim aqui e me convidaram? Pra mim, foi ótimo.

DIARINHO – Quais são as oficinas que você está ministrando?
Pascoal – Eu dou a oficina de ‘Prática de conjunto’. [Qual o objetivo desta oficina?] A coisa mais importante em um músico é saber tocar em conjunto. Porque essa vivência do músico em tocar com outros, do baixista tocar com bateirista, tocar com piano, acompanhar um saxofonista… Nosso quarteto é assim: baixista, pianista, bateria e saxofone. Esse tipo de formação é um quarteto. Você aprende essas regras naturalmente, deixando as pessoas tocarem, e eu tento passar pra eles essa experiência que eu tive de tocar. Tô fazendo 50 anos de carreira, então eu já passei por “n” formações: big bands, clube pequeno, sexteto, quinteto, quarteto, trio. E vim colecionando diversas vertentes. Inclusive, agora, eu adicionei algo diferente. Nunca fiz um workshop com cantor; agora, tenho três cantores. Um homem e duas meninas. A oficina de grupo, este ano, que estou fazendo aqui, ela tem um pianista, tem dois sopros, cinco guitarristas e dois baixistas. Então, eu tô colocando as pessoas dentro dessas formações. Formei quatro grupos diferentes. Dentro desse grupo, eu formei quatro grupos, com cada um tocando um repertório. E adicionei os cantores. Nesses quatro grupos, três são cantores. Num é um rapaz, e as duas meninas tão nos outros dois. Sendo que a menina do grupo dois canta e vocaliza também. A do outro grupo só vocaliza, e o homem também é só vocalização, cantando a melodia e improvisando. Eu nunca fiz isso. É uma experiência. Eu tenho experiência em fazer isso fora do Brasil. Fiz no Equador.
Arthur – Também é difícil para o cantor fazer isso. São raros os que têm essa condição de improviso.
Pascoal – É muito difícil, é muito difícil.

DIARINHO – Nós temos quem no Brasil improvisa com a voz?
Arthur – Temos Ed Mota, Milton Nascimento, João Bosco, Gilberto Gil, Ivan Lins. Todo mundo que é um pouco músico consegue. Porque tem uma diferença. O cantor é um músico, claro, mas a improvisação é um desafio extra pela função. Mas é uma coisa que faz bem pra música. Acho que as matérias da música são comuns para todos, desde o percussionista até o vocalista. Tem que estudar harmonia, melodia e também na questão da improvisação, né, que faz bem pra música de um modo geral. O cara que sabe, que consegue improvisar, ele consegue se arranjar em várias situações diferentes, né, Pascoal?
Pascoal – Até improvisar na vida, inclusive.

DIARINHO – O improviso cria um problema para o conjunto?
Pascoal – Não. Pelo contrário. Eu já entendi o que você entendeu por improviso. É mais ou menos isso, mas, na verdade, no improviso musical… Por exemplo, na música do Arthur, que nós vamos tocar aqui hoje, tem uma melodia e tem uma harmonia acompanhando a melodia. Na hora da improvisação, a harmonia fica. Você vai viajar em cima dessa harmonia.
Arthur – É um improviso organizado. Por exemplo, esse negócio de mudança de acorde, ainda que no tipo de música que a gente toca, não é uma coisa muito simples. Por isso que essa evolução do estudo, a evolução da performance, permite que a gente tenha essa viagem. Porque é difícil sincronizar e contar compasso e contar o acorde, entendeu? Então, é vida que a gente tem, né? A gente sobe no palco, mesmo tocando com outras pessoas ou não, a possibilidade e o conhecimento, principalmente, ajudam. [O dito popular que ‘só improvisa quem sabe tocar’ tem um tanto de verdade, então?] Tem, mas o improviso também tem o lado negativo, e ele desorganiza. Mas se for assim como a gente tá falando, dentro de uma forma e dentro de um processo que é o jazz mesmo, na música instrumental, é uma coisa inteligível.

DIARINHO – O Brasil é o berço de grandes percussionistas. Naná Vasconcelos e tantos outros estão aí para provar isso. Mas poderia também ser o berço de um número maior de bateiristas e baixistas de destaque internacional? Se poderia, porque ainda não é?
Pascoal – Tem vários. Hoje, com esse advento da internet e do youtube, as pessoas tão podendo ver o que o Brasil tem pra oferecer. E isso acontece assim – aconteceu comigo e aconteceu com os outros também: a gente é convidado pra fazer workshop no mundo inteiro. Já fiz workshop na Inglaterra, na Suécia, nos Estados Unidos, Indonésia, Tunísia… Vários lugares. E isso é em função do trabalho que a gente faz por aqui e tem visibilidade no exterior. Aumentou muito isso. Por exemplo, se eu vou com o meu trabalho como quando eu fui pra Indonésia tocar no Java Jazz [O Jakarta Internacional Java Jazz Festival, realizado desde 2005 e considerado hoje um dos maiores festivais do gênero do mundo] e fui fazer um workshop no festival. Aí, o cara lá da Malásia me chamou porque me viu fazendo lá. Entendeu? Uma coisa puxa a outra. Por quê? Existe uma carência grande de conhecimento dos ritmos brasileiros. Então, é “como é que toca um samba?”, “como é que toca um baião?”, “como é que toca um maracatu, que onda é essa?” Então, pra eles, tá sendo uma forma de enriquecer essa linguagem. Porque a música é universal. Não vai acreditar que é só aqui que toca samba. Hoje em dia, não é essa história, não. Hoje em dia, você vai encontrar gente no mundo inteiro tocando bem.
Arthur – Já vi muito japonês tocando batera e tocando samba bem. Eu tenho um amigo, músico, tecladista, que foi diretor musical da Whitney Houston [cantora, atriz e modelo norteamericana, falecida em 2012], um outro que tocava com o Prince, o Rique [Se refere ao colega Rique Pantoja, que acabara de se integrar à entrevista junto com o saxofonista Marcelo Martins] mora nos Estados Unidos e toca com várias pessoas conhecidas. Então, na verdade, o nível de informação e esse gabarito, independente de ideologia, a gente pode falar a língua que for, mas o nosso passaporte musical tem que ser brasileiro.

DIARINHO – A música instrumental brasileira é um jazz com tempero próprio. Qual a grande influência? Latina ou africana? Ou as duas coisas?
Pascoal – A influência é o Brasil mesmo. É o passado dos compositores, é a influência da nossa vida como instrumentistas que forjou esse tipo de mentalidade brasileira de tocar. Só que a gente que rodou o mundo, como eu, que estudei lá fora, vivi nos Estados Unidos, tenho cursos lá fora, eu coloquei dentro do meu vocabulário essa leitura universal da música. Então, a minha música tem muito disso. Eu componho também, e essas composições que eu faço têm muita coisa do jazz, porque eu vivi o jazz, tocando com os caras lá nos Estados Unidos. E isso vai enriquecendo, você vai mudando um pouco a cara do que você faz. Porque música é vivência. Se eu fosse ficar quietinho, em Belo Horizonte, onde eu nasci, eu ia tocar muita coisa mineira, legal, mas eu ia ficar preso ali. Apesar de ouvir muito disco, muita coisa.
Arthur – É biografia, música é biografia. Já tive e tenho experiências na África muito interessantes. Tenho contato com músicos africanos e pra mim foi uma linha dos melhores músicos do planeta também. Assim como o indiano, assim como os americanos, ingleses, canadenses, brasileiros e argentinos. Então, acho que a possibilidade hoje tá muito mais exposta. Os talentos, aqueles que conseguem se organizar, acabam vivendo. Todo ano viajo, há 22 anos faço turnê. Há 22 anos pros Estados Unidos, pra Europa, Japão, o mundo todo e, rapaz, a quantidade de músico brasileiro bom que a gente encontra lá fora é capaz que a gente nem imaginaria, supunha que o cara pudesse estar lá, entendeu!? E assim em várias vertentes, em vários segmentos musicais.

DIARINHO – O trio Ribeirão da Caetana, um grupo local, está fazendo a abertura do show de vocês aqui, em Itajaí. São músicos que tocam na noite, assim como vocês já tocaram e outros grandes nomes da música brasileira também. Bares, boates e bailes ainda são as grandes escolas de bons músicos? Ou o caminho é mesmo o estudo em conservatórios e escolas de música?
Pascoal – É em tudo, é em tudo.
Arthur – Num você estuda, e no outro você pratica. A noite é o lugar onde a gente tem o vestibular da música. É necessário. Por isso que o festival desenvolve paralelamente essa consciência, principalmente a possibilidade de ver o pessoal praticando, o pessoal trabalhando. O festival é também desenvolvimento econômico, é desenvolvimento artístico; tem muita coisa junto disso. O processo todo que envolve a música desenvolve a cultura. Então, é uma cadeia. Porque parar o festival acaba brecando uma reação de um todo. Entendeu!?

DIARINHO – Numa oficina, como as que vocês ministram no festival de Música de Itajaí, é possível detectar um talento raro? Como?
Rique Pantoja – Com certeza é possível avaliar o conhecimento e o talento dos alunos que estão aparecendo. Sempre tem um ou outro que se destaca. Não sei se a palavra seria talento raro. Existem talentos e, às vezes, você diz que essa pessoa é mais talentosa, tem mais jeito pra coisa. Mas o talento em si chega a um ponto que não ultrapassa aquilo. A pessoa pode ser talentosa, mas tem que trabalhar. É como um diamante. Você pega ele lá na água e é uma pedra bonita. Mas se você polir, aparar as arestas, vai refletir todas as cores do arco-íris. Assim é com o talento também. Com certeza, vi entre os meus alunos alguns que, de fato, são muito talentosos, e tem essa escola de tocar na noite, tocar em bares. É uma escola incrível, mas também é limitada. Com ela, por si só, você vai chegar só até um ponto. Vai chegar uma hora em que você vai pensar: “tenho que buscar mais informações”. Daí, essa oportunidade de estar com professores e pessoas que possam impactar a vida deles, trazer informações novas, diferentes, que os façam pensar uma forma diferente de estudar a música. Isso é muito legal, a gente vê isso e fica contente, porque vê que tem alunos apaixonados.

DIARINHO – Perguntaram ao músico gaúcho Victor Ramil sobre produções marginais, fora dos grandes centros. E ele respondeu: “Eu não estou à margem de um centro. Estou no centro de outra história”. Para um músico brasileiro acessar o mercado fonográfico, ainda precisa gastar sola de sapato no eixo Rio – São Paulo?
Marcelo Martins – Que mercado fonográfico? Qual mercado? [Hoje não tem mais esse eixo Rio – São Paulo?] Acho que não tem. Na minha opinião, não tem, não. Na verdade, era muito mais Rio. O Rio de Janeiro viveu muitos anos no mercado fonográfico, mas isso mudou muito. Hoje em dia – e cada vez mais – a gente tem oportunidade de ter nichos musicais vivendo por conta própria.

DIARINHO – Isso é possível?
Rique Pantoja – Não é nem possível, isso já é uma realidade. Eu tô falando bem de fora. O Marcelinho tem mais conhecimento de causa, porque tá aqui. Eu tô morando há 23 anos na Califórnia. Mas eu tô em contato e vejo a música. A música da Bahia se mantém por si só. Fabrica-se muito axé lá e se consome muito axé. Vendem-se milhões de cópias e não interessa se o Rio vai comprar, se São Paulo vai comprar.
Pascoal Meirelles – Eles viajam o mundo inteiro.
Rique Pantoja – A música tem vários segmentos. A música é uma só, mas existem vários estilos. A música que a gente faz, que é também um estudo maior, não para apreciação do leigo, isso diminui o acesso. Não é uma música de massa, que você toca e todo mundo sai cantando, embora tenha melodias lindas e essas coisas. Mas começa a atrair um público mais refinado. Não tô falando que uma coisa é melhor que a outra, estou falando que esse tipo de música que a gente faz, naturalmente, tem um mercado muito menor.
Arthur Maia – Mas, ao mesmo tempo, amplo. Por exemplo, a gente pode tocar em qualquer lugar do mundo.
Rique Pantoja – Internacionalmente, tem muito mais força.
Arthur Maia – No caso do Victor Ramil, que é um cantor gaúcho, a influência do trabalho dele tem muito mais força no sul do Brasil. Isso é curioso. A RBS promove os artistas do sul e reforça isso, que é bacana. Como a cultura lá de Pernambuco e Bahia, eles reforçam. Assim como Rio de Janeiro e São Paulo também. Eu acho bacana esse tipo de movimento, porque primeiro reforça a tendência do lugar. Infelizmente, o Rio de Janeiro está mandando muito funk por aí, demais da conta, mas é uma característica daquele lugar. Agora, é o que eu falo, o mercado da gente, do músico, é o mundo. Não tem quem diga que exista uma fronteira pra isso. Não é provado, não existe isso. Mas, agora, a concorrência que é justamente de ter a máquina, o acesso a todas as coisas, é o que torna aquilo que você colocou como ‘mercado fonográfico’. Isso mudou muito. O desenho comercial mudou muito, o desenho industrial mudou muito. Não se vendem mais CDs como se vendia antes. Hoje, os ganhos, os parâmetros de análise são outros. São visitas em sites e isso tudo conta como venda. Hoje você vende as faixas muito mais pela internet do que no físico.
Marcelo Martins – Mudou o cenário discográfico.
Arthur Maia – O que é uma pena. Eu me amarro em comprar CD e ler, saber a história, viver um pouco aquela coisa do artista.

DIARINHO – Tem nicho ainda pra esse tipo de produto?
Arthur Maia – Claro que tem.
Pascoal Meireles – A gente precisa do CD hoje em dia pra vender nos shows, como o de hoje, e pra passar pros contratantes. Mesmo assim, os contratantes podem receber isso via e-mail ou link no computador. O nosso contato é direto com o público, e aí se vende o CD. Se eu chego aqui, por acaso, numa pessoa que é um empresário importante, ele assiste ao show e diz que tá a fim de levar o grupo pros Estados Unidos. “Você tem algum material?” e aí eu puxo o CD. É pra isso. No nosso caso, instrumentistas, você tem que ter o CD pra divulgar em lugares que você nunca foi ou em teatros.
Arthur Maia – É um cartão de visita prático. E também uma informação nova. Por exemplo, quantos discos você já gravou, Pascoal?
Pascoal Meireles – Dezessete.
Arthur Maia – Cada trabalho desse é uma informação atualizada sobre o trabalho que cada artista está fazendo no momento. Então, é importante o CD. Ele marca a carreira. Nós aqui, do Cama de Gato, vendemos em nosso primeiro disco 70 mil cópias no Brasil, meu irmão. Sabe o que isso representa? Pega um cantor de MPB que tenha vendido isso.
Pascoal Meireles – Cinco mil, 10 mil cópias…
Arthur Maia – Você tá entendendo? Tem umas leituras de época que você revê o significado dela.

DIARINHO – Há quem critique gêneros como funk, sertanejo universitário e até o axé, acusando-os de empobrecer a música brasileira. O problema está no gênero ou na confecção e execução das músicas que chegam ao grande público?
Rique Pantoja – É uma boa pergunta, mas tem algumas ramificações. A música tem o lado dela, que é um lado de entretenimento. Você entra num supermercado e tem uma música tocando ao fundo. Tem música pra dançar, tem um lugar pra essa música. Eu não concordo que isso seja um empobrecimento. Eu acho que o que falta é mais espaço, e a mídia, que tem força de promover arte de qualidade, precisa encontrar um equilíbrio nisso aí. O que acho que não acontece. O axé e esses outros estilos têm um lugar. As pessoas dançam, gostam, e isso é muito legal. Mas a música não é só isso. Temos uma riqueza enorme aqui, que precisa ser promovida. Isso é que não está equilibrado.

DIARINHO – Pascoal, você tocou com ícones da música popular brasileira como Elis Regina, Ivan Lins, Maísa, Chico Buarque e tantos outros. Mas foi com o grande Gonzaguinha que permaneceu mais tempo, 12 anos ao todo. Como foi essa experiência?
Pascoal Meireles – Foi maravilhosa, porque Gonzaguinha sempre foi um grande compositor e uma pessoa que sabia do povo. Ele tinha a mensagem do povo, mas ao mesmo tempo em que ele fazia a sua mensagem para o povo, ele tinha uma qualidade musical muito grande. Ele conseguiu isso; coisa difícil. Poucos compositores populares, como ele, conseguiram juntar música de classe e ser popular. Lembro bem, porque viramos muito amigos, que ele falava sempre pra mim: “Pascoal, existe a música popular, que é feita para o povo enxergar, e tem essa música que dizem que é elitista. Mas é mentira, não existe música elitista. O que existe são pessoas querendo fazer um trabalho de classe e estão procurando uma melodia um pouco mais rebuscada, uma harmonia um pouco mais complexa. Essa é a música de qualidade, mas não é elitista. Quem faz essa categoria de elitista não é nem o povo, é a mídia”. Eu adorava o ser humano Gonzaguinha fora da música; o que ele me ensinou durante os 12 anos em que eu trabalhei com ele é que se você se colocar pra música de uma forma total, vai dar certo. “Eu só consegui fazer sucesso quando comecei a sentir o que o povo gostaria de ouvir”, dizia. O Gonzaguinha vem da época da ditadura; ele fazia música de protesto. Ele foi várias vezes censurado, preso, cortaram várias músicas dele. Aí, ele começou a aprender a fazer música que escapasse da censura e, ao mesmo tempo, continuava colocando a mensagem dele para as pessoas que gostavam do trabalho. Ele descobriu, depois de um certo tempo, falar da virtude das pessoas, principalmente das mulheres. Ele descobriu como chegar no coração das mulheres. Aí, foi a chave do grande sucesso dele. Ele chegou perto dessa história do sentimento da mulher com a vida, com o trabalho, com o homem. Acho que a grande sacada popular dele foi esta. Mas ele sempre dizia que nós, instrumentistas, estávamos na trilha certa. “Não fiquem pensando que se vocês fizeram uma música pra ser tocada no rádio ou pra ser aceita vai ser uma coisa interessante. Não se preocupem com isso. Façam o seu trabalho da forma mais consciente possível e de coração”. Se você tem coração na música que você faz, você consegue atingir, pelo menos, mais pessoas do que você atinge normalmente. Esta foi a lição que ele me deu.
[Nesse momento, a entrevista passou a ser feita apenas com Pascoal Meirelles e Rique Pantojá dentro de uma van, a caminho do hotel onde estavam hospedados. Arthur Maia e Marcelo Martins tiveram que partir para uma oficina de música, antes de voltar ao teatro para o show daquela noite]

DIARINHO – Rique, você, o Pascoal e o Arthur Maia faziam as composições do Cama de Gato?
Pascoal – Não, tem mais o Mauro Senise [Saxofonista e flautista].
Rique – Esse foi o grupo inicial.
Pascoal – A grande mudança do Cama de Gato, no meu ponto de vista, foi a saída do Rique. Ele tinha as maiores músicas. O repertório era dividido entre músicas dele, minhas e do Arthur. O Mauro não compunha. Mas a maioria das músicas eram do Rique. Ele também desenhou a postura musical do Cama de Gato. Foi um dos alicerces dessa história de vender pras pessoas o tipo de música que a gente fez. Então, durante esse tempo todo em que ele esteve no grupo, a gente fez um sucesso estrondoso, como música instrumental, mais ainda. Depois que ele foi pros Estados Unidos, a gente conseguia continuar o trabalho, mas ele continuou a ser um alicerce. Porque toda a vez que a gente ia gravar um disco, ele mandava uma música. Nós, eu e o Cama, tínhamos a sensibilidade de colocarmos a música do Rique num ponto estratégico pras pessoas ouvirem e identificarem que era o Cama de Gato. Porque era a nossa assinatura. Esse tipo de coisa a gente mantém até hoje, já que o grupo está vivo. Vamos fazer uma turnê agora, no Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, Canoas e região. [O Cama de Gato produz ainda?] Claro! Estamos esperando a volta do Rique [risos].
Rique – Deixa só eu dar um adendo. O Pascoal, pra mim, é o coração do Cama de Gato. O conjunto teve, na verdade, um outro começo antes com Romero Lubambo, que é um grande guitarrista, o Nilson da Matta, que mora em Nova Iorque. Era o grupo inicial, junto com o Senise. Depois, eles saíram e convidamos o Arthurzinho e virou aquela sonoridade que só cresceu. Mas o Pascoal foi o catalizador dessas coisas todas. Embora cada um tivesse um jeito, uma personalidade musical e uma personalidade humana, o Pascoal era o coração do Cama de Gato, era quem fazia essas arestas. O nome, aliás, não é só uma cama onde o gato se deita. Cama de Gato é aquela brincadeira em que você põe o barbante nos dedos e outra pessoa tem que pegar e dar outra forma. Essa era a ideia. Cada um trazer uma coisa. Os três primeiros discos nós produzimos juntos. Agradeço o Pascoal me encher a bola, mas trabalhávamos juntos. Eu e o Pascoal éramos os produtores musicais, então a gente acabava tendo um envolvimento maior que o Arthurzinho e o Mauro. Sem querer comparar. Era o nosso papel.

DIARINHO – Durante esse processo criativo, tinha algum conflito ou desentendimento de um achar uma música legal, outro preferir uma outra?
Pascoal – Isso não é conflito. A forma de a gente escolher o repertório é ver se essa música tem a ver com a roupagem, a vestimenta que o Cama de Gato deu para aquele repertório. Se passasse pelo crivo de nós quatro, ela ia.
Rique – A dinâmica era muito boa. A gente combinava, sugeria e conversava. Era algo muito democrático, respeitando, é claro, a ideia do compositor. Nunca teve divergência nesse sentido.

DIARINHO – Pascoal, durante sua estada em Itajaí, você completa 70 anos de vida e 50 anos de carreira. O homem Pascoal Meirelles atingiu o que queria e o músico Pascoal Meirelles se sente realizado?
Pascoal – Não! Eu tô começando a querer plantar mais ainda na minha vida, porque eu não vejo por esse lado. Eu vejo pelo lado de crescimento. A realização pode até vir, sei lá, quando eu chegar aos 110 anos e dizer que estou realizado [risos]. [Tem processo criativo ainda?] Lógico. Lancei um disco ano passado, vindo de uma turnê que fiz com meu grupo. Você deve ter sacado que tenho, também, um trabalho solo. Fiz uma turnê na Ásia, passamos por Dubai, Malásia e outros países e, na volta, fiz um CD, em 2013, com esse repertório um pouco asiático. Eu fui e voltei duas vezes da Ásia pra fazer esse trabalho e incorporei um pouco da cultura deles nesse disco. Tem uma faixa que tem um guitarrista de Dubai, que eu conheci no Java Jazz Festival. Eu mandei uma música pra ele, ele colocou sua guitarra lá de Dubai, no seu home studio, e me mandou. Isso foi uma das assinaturas desse trabalho. Agora, nesse festival [de Itajaí], já estou com um CD pra vender, no qual fiz uma compilação desses 50 anos. Acho que o mais representativo que existe, no caso de uma pessoa com bastante rodagem como eu, é mostrar as várias fases da carreira. Nesta compilação, que se chama “Cinquenta”, vai ser lançado no show de hoje à noite, ela faz esse retrato, inclusive cronológico. Abre com três faixas do primeiro disco, e daí fui pincelando e viajando até aqui. Coloquei alguma coisa do Cama de Gato também, porque é meu grupo, faz parte do meu trabalho autoral. Eu estou programando outro trabalho pra 2015. Este autoral deve sair no segundo semestre.

Compartilhe:

Deixe uma resposta

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com