Home Notícias Quentinhas “Nós temos que ter a inteligência de aliar desenvolvimento, sustentabilidade e inclusão social”

“Nós temos que ter a inteligência de aliar desenvolvimento, sustentabilidade e inclusão social”

Eduardo Campos, que disputa a presidência da República pelo PSB, esteve em Itajaí na última quarta-feira. Ele chegou a Navegantes num voo fretado, na primeira visita a Santa Catarina como candidato. Do aeroporto até o clube Tiradentes, em Itajaí, o presidenciável conversou com exclusividade com a equipe do DIARINHO. A entrevista foi em uma van fretada e durou 40 minutos. Campos, antigo aliado do PT, deixou o governo Dilma em 2013 sob a justificativa de que a presidenta “se entregou às negociações com os setores mais atrasados da política”. Na van, acompanharam a entrevista assessores, o deputado estadual Joares Ponticelli (PP), candidato a vice-governador do estado, e os maiores aliados de Campos em SC: Jorge e Paulo Bornhausen, este último candidato ao senado também pelo PSB. Questionado se não seria uma incoerência o fato de ele, Eduardo Campos, um socialista, se aliar aos nomes mais tradicionais da direita brasileira, ele foi genérico: “A união com a família Bornhausen representa o respeito pelo Brasil e o desejo de mudar”. O Entrevistão foi feito pelos jornalistas Raffael do Prado e Victor Miranda. As fotos são de Elton Damasio.

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“O tempo de consertar o telhado não é quando chove, é quando não está chovendo”

Raio X
Nome:
Eduardo Henrique Accioly Campos
Naturalidade: Recife/PE
Idade: 49 anos
Estado Civil: casado
Filhos: cinco
Formação escolar: formado em economia na Universidade Federal de Pernambuco
Trajetória política: chefe de gabinete no governo Miguel Arraes (1988-1990), deputado estadual (1993-1994), deputado federal (2003), ministro da Ciência e Tecnologia do governo Lula (2004-2005), governador de Pernambuco (2009 até abril deste ano).

DIARINHO – Quem são os eleitores de Eduardo Campos?
Eduardo Campos –
Os brasileiros que querem uma mudança de verdade. Não é só trocar o nome ou o partido político que vai comandar o país. É trocar a forma de governar, inverter as prioridades. Para possibilitar o Brasil se unir em torno de uma agenda de desenvolvimento sustentável que possa elevar a produtividade da economia brasileira, que possa unir às pessoas sérias, competentes e capazes. Uma nova agenda muito clara e autoral: agenda de melhoria da educação, agenda da saúde pública, que está um caos, agenda da segurança pública, agenda da mobilidade. Essa agenda não será colocada de pé se o Brasil continuar com essa governança que tem hoje, esse padrão de governança, que é um padrão fisiológico, patrimonialista e atrasado. Um padrão que tira completamente a possibilidade de termos inovação na gestão pública. Isso aconteceu no segundo governo Fernando Henrique [Cardoso (PSDB), 1999/2002] e isso agora acontece com grande intensidade sob a liderança da presidenta Dilma [Rousseff (PT)]. O Brasil foi tomado, sobretudo, pelos partidos mais atrasados, e o povo só está tendo o direito de pagar impostos. A federação está desequilibrada. Um dos casos mais notáveis de desequilíbrio é o que acontece com Santa Catarina, que paga R$ 100 milhões de impostos, ao passo que o governo federal “empresta” a Santa Catarina recursos para fazer obras.

DIARINHO – No velório do escritor Ariano Suassuna, a presidente Dilma foi vaiada. Como ex-aliado, de que forma o senhor encara essa situação constrangedora? Apoia esses que vaiaram a presidente?
Campos –
Eu acho que a presidenta Dilma, na verdade, frustrou o país depois que foi eleita. Até os que não votaram nela torceram para que desse certo. Eu, que votei nela, torci para que desse certo, esperava que ela pudesse corrigir os erros que vinham do governo Lula [Luiz Inácio Lula da Silva, também PT, que governou o país entre 2003 e 2010], e pudesse levar um outro nível de governança para o Brasil e que pudesse tocar a agenda que tinha que ser tocada, que era a agenda de fazer reformas para que o Brasil pudesse retomar um crescimento com consistência. Mas, infelizmente, ela se entregou ao eleitoralismo, se entregou às negociações políticas com os setores mais atrasados da política brasileira. E o fato é que ela será a primeira presidente da história da democracia brasileira recente a entregar o país pior do que recebeu. O Itamar [Franco, governou o país de dezembro de 1992 a janeiro de 1995] entregou o Brasil ao Fernando Henrique melhor do que recebeu do Sarney [José Sarney governou o país de março de 1985 a março de 1990]; Fernando Henrique entregou ao Lula melhor do que recebeu do Itamar, o Lula entregou a Dilma um país melhor do que recebeu do Fernando Henrique, mas ela vai entregar um país pior. E para tirar o Brasil desse caminho, não dá pra mudar pela metade, tem que mudar de verdade. E mudar de verdade é, efetivamente, a possibilidade de uma força nova que tem diálogo com o que está vivo na sociedade. Há muita indignação e desejo de mudança. Precisamos vencer a polarização dos 20 anos que passaram, com todo o respeito ao que eles fizeram, mas sobretudo com respeito ao Brasil que quer uma oportunidade. O Brasil está ficando para trás.

DIARINHO – Por falar no escritor, dramaturgo e poeta Suassuna, que ficou conhecido por sua obra “Auto da Compadecida”, como o senhor avalia a obra dele. Ele era amigo da sua família, não é mesmo?
Campos –
Ariano era uma pessoa especial, um homem que produziu uma obra que marcou a literatura brasileira, um homem que soube fazer o encontro do popular com o erudito, um homem que teve uma vida tão bela quanto a própria obra. E que teve para mim um papel muito importante, porque ele foi um tio, um pai, um avô, um conselheiro, um amigo, uma pessoa presente em todas as fases da minha vida. Uma perda irreparável [Ariano Suassuna morreu no último dia 23 de julho, vítima de um acidente Vascular Cerebral (AVC)]. O que fica dele é o exemplo, um homem sério, de bem, apaixonado pelo Brasil, apaixonado pela cultura brasileira, pelo seu povo. Alguém que conseguiu viver 87 anos de forma digna. A dignidade de Ariano nos inspira para, neste momento, oferecer ao Brasil uma saída política digna para os que não querem ficar na opção de escolher entre dois. O Brasil vai fazer uma nova escolha, porque vai descobrir um outro caminho, diferente da polarização entre o vermelho e o azul.

DIARINHO – Nesta segunda-feira (dia 28), Marina Silva também passou por uma situação constrangedora na cidade de Osasco-SP, quando o proprietário de uma casa que foi cedida como “comitê voluntário” disse que queria ganhar “unzinho” pelo uso do espaço. Como avalia este episódio? No processo eleitoral de hoje, ainda é possível fazer campanha com voluntários?
Campos –
É possível. Nós estamos fazendo. Tem centenas de pessoas que já montaram comitês em suas casas de forma voluntária. Ontem [30 de julho], eu estava em um município da serra do Espírito Santo, nesse horário [19h40], e estava na casa de uma pessoa que nos cedeu a casa para fazer um ponto de apoio Eduardo e Marina [Silva, candidata a vice-presidente]. Nós agimos com total transparência, até porque quem fez a entrevista com a pessoa [que pediu um dinheiro pela casa] foi da nossa equipe, não foi nem da mídia. E nós deixamos claro de que não fazemos assim, desta forma. Vocês sabem que quem tem dinheiro para fazer campanha rica não somos nós. Quem tiver achando que na nossa campanha vai ter esse tipo de envolvimento, pode procurar outro, porque aqui não vai ter.

DIARINHO – Chama a atenção o fato de os planos de governo dos três principais candidatos à presidência se assemelharem em vários pontos. Programas que em diversos momentos foram contestados pela oposição no governo do PT acabaram mantidos nessas propostas, como por exemplo, o “Bolsa Família”, o “Minha Casa Minha Vida” e o “Mais Médicos”. A sua candidatura apresenta de fato alguma mudança?
Campos –
Sim, nós estamos propondo, do ponto de vista da macroeconomia, uma independência do banco Central e a construção do conselho nacional de responsabilidade fiscal. Quase 20 anos depois da aprovação da lei de Responsabilidade Fiscal [criada em maio de 2000], o Brasil não tem um conselho nacional que dê transparência à despesa pública, que possa traduzir à sociedade as escolhas que o governo faz. O governo toma decisões que têm impacto fiscal, e a gente não fica sabendo… Quero aqui falar que a primeira opção do nosso governo será pela educação de qualidade. Santa Catarina, que tem uma educação diferenciada, se comparada com escolas públicas do Brasil inteiro… Nós sabemos que o caminho para este país ser mais equilibrado socialmente, ser mais justo e ter mais produtividade, é educação de qualidade na escola pública. Temos que acabar com a vergonha que é o apartheid [separação] entre a qualidade da escola pública e a escola particular. Nós entendemos que é preciso preservar as conquistas que tivemos nos últimos ciclos: a conquista da democracia, da estabilidade econômica, de programas sociais. Devem ser preservados, mas há uma agenda nova, que é estabilidade econômica, crescimento com distribuição de renda e um grande esforço em educação em tempo integral. Eu fiz, como governador de Pernambuco [entre janeiro de 2007 e abril de 2014], a maior rede de ensino em tempo integral que se tem no Brasil em ensino médio. Deixando no estado do nordeste mais alunos em tempo integral do que em São Paulo, Minas [Gerais] e Rio de Janeiro juntos. Se foi possível em um estado pobre do nordeste fazer isso, eu posso afirmar com toda a segurança que farei nos quatro anos como presidente: ensino integral para a juventude brasileira, porque se teve dinheiro quando precisamos arrumar os bancos com o Proer, no governo de Fernando Henrique [o programa de Estabilização do Sistema Financeiro, criado em 1995, tinha como objetivo auxiliar bancos que, então acostumados aos ganhos proporcionados pela inflação alta, passaram a ter dificuldades de operar no cenário de preços estáveis proporcionado pelo Plano Real, implantado em julho de 1994], e agora teve dinheiro para o setor elétrico das empresas privadas, dinheiro de impostos, tem que ter dinheiro para salvar a juventude brasileira do vício da droga, da violência. Quero usar a educação como grande caminho transformador para a vida do brasileiro.

DIARINHO – Que reformas econômicas o senhor acredita serem urgentes e fundamentais para o país?
Campos –
Eu acho que a gente precisa descomplicar o Brasil. O nosso país é um país caro. Caro por conta da burocracia, caro por conta do sistema tributário atrasado, caro porque falta infraestrutura. Nós temos uma agenda: a agenda da produtividade será comandada diretamente pelo presidente da República. Um dos pontos que a gente vê com toda a clareza como necessário é a gente pegar exemplos daqui, de Santa Catarina. As pessoas do oeste de Santa Catarina que criaram aqui, de maneira extraordinária, um polo de produção de proteína animal, seja na suinocultura, na avicultura. Quando o milho sai a R$ 11 a saca no Mato Grosso, chega aqui, no oeste de Santa Catarina a R$ 24, exatamente porque se promete ferrovia e não se cumpre. Tiraram de Santa Catarina, no governo atual, as políticas de incentivo ao desenvolvimento, como tiraram do Espírito Santo e de Goiás, e não se deu nada em troca. Um povo que fez pelo Brasil, que construiu um estado com equilíbrio social diferenciado com relação a outros pares do país. Então, eu vim hoje a Santa Catarina para assumir compromissos. Eu serei o presidente da República que vai trazer os recursos e as obras que Santa Catarina merece.

DIARINHO – A atual política do salário mínimo leva em conta o crescimento dos anos anteriores, faz uma média matemática e joga para frente. O senhor pretende manter essa política?
Campos –
A regra vai valer até 2015 [a previsão do governo Dilma é de que o salário mínimo no ano que vem ultrapasse os 800 reais]. Então, nós teremos o ano de 2015 todo para fazer o debate. Deve ter uma regra, para não ficar a cada ano fazendo um debate circunstancial. É fundamental para a correção do salário mínimo que essa regra possa repor a capacidade de compra do salário mínimo e dar a possibilidade de, num processo, haver ganho real. Tudo isso, é claro, tem que acompanhar a produtividade da economia, que garantirá os empregos, porque se uma economia perde a produtividade, ela perde a capacidade de competir. Em uma economia cada vez mais globalizada, com blocos econômicos muito fortes em crise, buscando mercado… Se a gente não proteger a produtividade econômica como um objetivo central do país, como a produtividade no próprio setor público e na iniciativa privada, nós estaremos matando os empregos, sobretudo no setor industrial brasileiro.

DIARINHO – O governo Dilma tem 39 ministros. Para o senhor, qual seria o número ideal?
Campos –
Acho que algo em torno de 20. Mas nós não podemos discutir o que um novo organograma vai ter no governo antes de terminar o debate sobre esse programa. E a campanha serve para a gente apresentar o programa para a sociedade fazer crítica, daí a gente vai atualizando esse programa. Na transição, nós vamos apresentar o novo organograma do serviço público federal.

DIARINHO – O governo atual, na visão de opositores, vem desindustrializando o país. O senhor enxerga dessa maneira?
Campos –
Para falar a verdade, não é só o governo atual. Nós vivemos um processo de desindustrialização desde depois do milagre econômico nos anos 70 [nome dado ao vertiginoso crescimento econômico durante o regime militar (1964-1985), entre 1968 e 1973, também conhecido como “anos de chumbo”. Nessa época, a taxa de crescimento do PIB (produto Interno Bruto) saltou de 9,8% ao ano, em 1968, para 14% em 1973. Paralelamente, houve o aumento da concentração de renda e da pobreza]. Nas décadas perdidas da crise da dívida [anos 70 e 80], nós perdermos espaço industrial. Depois, no primeiro momento do real, não foi fácil para a indústria brasileira com a paridade entre dólar e real, um a um. Isso fez com que a indústria recebesse uma forte concorrência de produtos estrangeiros. Nós tivemos também um período muito desafiador para a indústria brasileira, que foi a abertura feita no governo Collor [Fernando Collor de Mello governou o Brasil de 1990 a 1992. No início do mandato, ele institui o plano Collor, que congelou preços e salários, aumentou o preço de serviços públicos, como gás e energia, e promoveu, de forma gradual, a abertura na economia brasileira para a concorrência externa]. Tivemos agora, desde 2010, outro momento duro para a indústria pós-crise de 2009 [segundo dados da pesquisa Anual da Indústria (PIA), divulgados pelo IBGE em 2012, 10 mil fábricas foram extintas no Brasil em 2009, pior ano da crise mundial, que começou nos Estados Unidos e se espalhou pelo mundo, encolhendo a economia brasileira em 0,3%]. O fato é que a desindustrialização no Brasil vem de longe, e nos trouxe até 2013, no ponto mais baixo de participação da indústria de transformação no PIB. Para vocês terem uma ideia, nós chegamos ao mesmo estágio em que estávamos no primeiro ano do governo de Juscelino Kubitschek [1956-1961], presidente que cuidou do desenvolvimento industrial brasileiro, como todos sabem. Agora, a nossa tarefa é compreender como tirar a indústria dessa situação. O mundo está cada vez mais valorizando a indústria. Os próprios Estados Unidos, que nds anos 70 em diante exportaram as suas indústrias para lugares onde tinha mão de obra barata, estão indo buscar essas indústrias de volta para gerar os empregos que estão faltando. Nós precisamos ter uma política industrial, e ela só vai surtir efeito se tivermos uma governança macroeconômica coerente, competente e com narrativa de longo prazo. Por que eu digo isso? Porque se a gente tiver uma política macroeconômica que só entende que os juros vão resolver o problema da inflação, que os juros altos trazem dólares de fora… Essa valorização dá uma taxa de câmbio que mata completamente a possibilidade da disputa do produto industrial brasileiro. Tanto é que, hoje, um quarto do que se consome de produto industrial no Brasil vem do estrangeiro. E hoje também estamos com as exportações de bens industrializados, manufaturados, abaixo do que era em 2009. Ou seja, nós estamos no momento de acelerar a produtividade, fazer muita inovação, procurar mercados a partir de uma atualização da política externa brasileira e da política comercial brasileira, para que a gente possa ter um desenvolvimento industrial. Não há nenhum país maduro, nenhuma nação desenvolvida que renuncie à possibilidade de ter indústria. O Brasil não pode renunciar a sua indústria. Nós não podemos ser só um país exportador de bens primários. Nós temos que proteger a nossa indústria. Ela é capaz de disseminar procedimentos inovadores e proporcionar uma alavancagem da produtividade de forma sistêmica.

DIARINHO – Em entrevista à revista Época, em 2012, o senhor afirmou que estaria com Dilma este ano. Sabemos que as coisas mudam muito rapidamente no mundo político, mas como acompanhar estas mudanças sem se tornar incoerente com o que falou?
Campos –
Exatamente por coerência. Nós disputamos 12 eleições junto com o PT. Em oito segundos turnos que o PT foi, esteve conosco. Nós ganhamos, dos oito, sete. E naquele momento, eu procurei a presidenta Dilma e disse que ela tinha a oportunidade de ganhar novamente. Se ela ganhasse 2013, ela iria ganhar em 2014. E ela tinha que dar conta da agenda que a sociedade colocava diante dela: que era melhorar a política no Brasil. E a presidente, que viu um voto de mudança varrer o território brasileiro, leu exatamente a eleição ao contrário. Talvez porque tenha ganho em São Paulo a eleição municipal, eles não conseguiram interpretar o verdadeiro recado que veio das urnas. E fez uma aliança ao contrário. Já em janeiro, se dispôs a apoiar o Renan Calheiros para presidência do senado e o PMDB para presidência da câmara. E o PSB, já ali, marcou posição quando não votamos no Renan e não votamos no PMDB na câmara, mostrando claramente que o caminho era outro. Fui a um debate no Valor Econômico [jornal impresso focado em economia] ainda em 2012, e disse que ao governo estava faltando uma visão estratégica, de planejamento. E afirmei isso à presidente da República. E o que nós vimos foi a presidente entrar no eleitoralismo, começar a botar para dentro aqueles que tinham sido colocados para fora, para fazer os acordos políticos em função da eleição. O Brasil começou a sentir a conta disso, que foi a volta da inflação, a paralisia da economia, o abandono de uma política para a saúde pública, não se meter com a questão da segurança, que acho que é um problema complicado. E aí vem eleição, e é melhor não mexer com isso, jogar o problema no colo dos prefeitos e governadores. O governo passou a pensar midiaticamente em função de eleição. Não cabia mais a gente lá. E o PSB fez o que não é comum ser feito na política brasileira hoje. Hoje, é uma fila de partido político querendo ser governo. Nós saímos pela porta da frente, entregamos os cargos e fomos pra rua exercer a nossa cidadania e dizer que a presidente Dilma teve a chance e não soube usar, ou não quis usar, ou não teve a capacidade de liderar o processo. Agora, é hora de pensar no Brasil e fazer a mudança. Se ela tivesse acertado, ela poderia ser a nossa presidente da República. Como ela não acertou, é hora de botar quem sabe efetivamente fazer acontecer.

DIARINHO – Sua vice, Marina Silva, era mais bem cotada para a disputa da presidência do que o senhor. Lançar seu nome ao invés do de Marina não foi algo estranho dentro de um projeto político que tenha a vitória nas urnas como objetivo?
Eduardo –
O debate político tem uma outra leitura. Tanto a pré-candidatura da Marina quanto a nossa foram fortemente combatidas. A da Marina inviabilizando o partido que ela estava criando, a Rede Sustentabilidade. O nosso, tentando cooptar o nosso partido. E nós nos encontramos quando a Marina, na véspera do último dia para a filiação partidária, decidiu que não ia ter a legalização da Rede para esta eleição. Daí, ela nos procurou para nos apoiar em torno de um programa que assumimos. E mais adiante, feito esse programa, ela admitiu compor a chapa na condição de vice-presidente para que essa união representasse ao Brasil a possibilidade de mudar de verdade. Mudar o tipo da governança. A gente poder assumir o Brasil com uma nova agenda, que é a verdadeira agenda do século 21: alavancar a economia brasileira, dar ao Brasil um ambiente tranquilo e seguro pra empreender e desenvolver o país. Poder melhorar a prestação de serviço público em áreas estratégicas. Fazer política com um conjunto de programas, por ideal, com sinergia, com o que há de mais renovador na política brasileira, que é o desejo de mudança.

DIARINHO – Marina vem de uma linha que, por vezes, se aproxima do radical quando o assunto é meio ambiente. Como garantir o desenvolvimento econômico sem, com isso, trair seus novos aliados: os ambientalistas?
Campos –
Já não existe essa contradição no mundo. Se você for à Inglaterra, se você for à Alemanha, à França, em qualquer país, nos Estados Unidos, no Japão, ninguém discute mais essa visão excludente de desenvolvimento e sustentabilidade. Hoje, só há um caminho: desenvolvimento com sustentabilidade. A sociedade quer as duas coisas, porque a natureza está dando sinais de esgotamento. As enchentes que temos por aqui, os avanços do mar em outros pontos, as secas que se avolumam no nordeste, que agora secam os mananciais de São Paulo, são os pequenos sinais que a natureza vai dando. Nós temos que ter a inteligência de aliar uma visão de desenvolvimento com sustentabilidade. E com inclusão social. Este é o desafio do século 21. É ver que é possível, numa equação só, responder a necessidade de desenvolvimento, a inclusão social e a sustentabilidade.

DIARINHO – Setores da classe média e alta criticam muito o investimento do governo federal nos programas sociais, entre eles o Bolsa Família. Mas esses programas visam distribuir renda entre os mais pobres e também diminuir a miséria. Há como governar sem esses programas?
Campos –
Para nós, o Bolsa Família é um ponto de partida, não é um ponto de chegada. A chegada, pra nós, é a educação de qualidade. Mas hoje o Brasil tem, como fruto de um processo de desenvolvimento econômico que não foi perfeito, que foi desequilibrado, legiões de brasileiros que têm como única renda, renda de muitas famílias, esses 140 reais, 200 reais, que recebem pra comprar seus mantimentos. Quem conhece essa realidade de perto como eu, que vem de uma região pobre como é o nordeste brasileiro, sabe que esses programas não podem efetivamente ser ignorados no Brasil, de forma nenhuma. Agora, nós precisamos garantir outras políticas públicas que cheguem a essas vidas, como direito à habitação, saúde, saneamento, segurança, sobretudo, em primeiro lugar, a educação. Para quê? Pra garantir que as filhas hoje do Bolsa Família não sejam amanhã as mães do Bolsa Família. O Brasil precisa, efetivamente, fazer um grande esforço para promover a educação de qualidade.

DIARINHO – Há acusações na CPI dos Precatórios, que investigou o esquema de fraudes com títulos públicos, que indicam que o senhor teria lesado os cofres públicos na época em que era secretário da Fazenda de Pernambuco e o governador era seu avô, Miguel Arraes (PSB). Que negócios foram estes e qual o seu papel nesse caso?
Campos –
Você disse bem mesmo: foi uma acusação. Quem vive na vida pública está sujeito a uma acusação. Em regra, as pessoas acusam, quando se trata de político, sem provas. Essas acusações viraram um processo que foi até o Supremo Tribunal Federal, onde eu fui absolvido por unanimidade de votos no Supremo. Ficou completamente esclarecido que as operações feitas em Pernambuco foram rentáveis. Foram tão rentáveis que houve perícias feitas pela própria Justiça, que mostravam que o estado obteve recursos lançando esses títulos mais baratos do que o governo federal tava emprestado pela Caixa Econômica. Então, avalie: se alguém tivesse que ser condenado tinha que ser quem emprestou dinheiro pela Caixa Econômica, dinheiro mais caro do que o estado conseguiu alavancar com a emissão de títulos públicos.

DIARINHO – Havia um temor em relação ao Brasil sediar a copa do Mundo. Os aeroportos não iriam funcionar, os estádios não estariam prontos, haveria violência, o Brasil faria um fiasco. A copa veio, tudo transcorreu normalmente e o mundial já deixou saudades. Qual o legado que esse evento deixa para o nosso país?
Campos –
Se você for investigar e dar um Google, pesquisar na imprensa, eu fui o único pré-candidato que não mudou o discurso sobre a copa do Mundo. A presidente Dilma chegou a dizer que o governo dela era “padrão Felipão”. Hoje, ela não diz mais isso [risos]. Então, eu sempre mantive a minha mesma posição sobre a copa, torcendo para que o Brasil se saísse bem dentro e fora do campo. Infelizmente, dentro do campo não foi tão bem quanto foi a melhor parte da copa, que foi a receptividade do brasileiro. Quem teve a melhor performance na copa foi o povo brasileiro, que soube receber milhares de turistas que levaram daqui a imagem de um povo afetuoso, respeitoso. Se Deus quiser, essa imagem vai poder fazer com que o Brasil alavanque o turismo. E Santa Catarina sabe da importância do turismo para o desenvolvimento econômico. Somos um país que não conseguimos passar dos seis milhões de turistas. Eu olho para a Espanha, com 60 milhões de turistas por ano, e imagino o quanto a gente tem pra avançar, pra poder gerar oportunidade de trabalho, renda, no cluster do turismo do Brasil inteiro.

DIARINHO – Na época em que o senhor era governador de Pernambuco, enfrentou um problema que já virou comum aqui, em Santa Catarina: as enchentes. A maior enchente do estado de Pernambuco ocorreu na época em que o senhor era governador. Houve denúncias de que o senhor recebeu 50 milhões para socorrer 41 cidades atingidas pelas cheias, mas no final eram apenas quatro cidades em situação de calamidade pública. O dinheiro não usado foi devolvido ao governo federal?
Campos –
Na verdade, nós investimos muito mais recursos nossos do que do governo federal. Nós tivemos 82 mil pessoas desabrigadas em mais de 60 municípios. Oito deles foram mais fortemente afetados. Tivemos que refazer 15 mil casas, centenas de escolas, dezenas de pontes. Centenas de quilômetros de estrada, cinco hospitais, refazer comunicação em todo o setor elétrico nessas cidades. Foi algo que está documentado. Nós inovamos muito. Parte do que nós fizemos na ação de emergência foi incorporado num seminário. Eu fui chamado ao tribunal de Contas da União pra falar da nossa experiência para que os órgãos de controle pudessem disseminar como boas práticas em ações de emergência. Fizemos chamadas públicas para contratar as empresas que fizeram limpeza, que fizeram cadastramento do pessoal que ficou desabrigado. Tomamos conta de 320 abrigos e não morreu uma só pessoa. Fizemos o maior resgate aéreo da história da Defesa Civil brasileira. Foram 1200 pessoas resgatadas em cima de casas por helicópteros. Foi uma operação de guerra e, ao mesmo tempo, de paz. E tudo isso tem um julgamento dessas pessoas que vivem nessas cidades. Quando veio a eleição de 2010 [Eduardo Campos foi reeleito para o governo de Pernambuco], em nenhuma dessas cidades eu tive menos que 90% dos votos. Se eu não tivesse agido de forma correta, capaz e solidária, eu não teria o reconhecimento de pessoas que ainda hoje vivem as marcas desse desastre.

DIARINHO – Praticamente todo ano, Santa Catarina registra uma cheia. Como o senhor pretende, como presidente, ajudar a resolver esse problemão? E se as enchentes são enfrentadas desde 1980, porque há dificuldades em buscar uma solução para evitar esse problema que assola a nossa região?
Campos –
O que nós precisamos aprender a fazer é Defesa Civil quando não tem enchente nem chuva, quando não tem desastre. A gente tem que aprender uma lição muito singela, com aquele ditado que o povo brasileiro diz, em todas as regiões do Brasil: o tempo de consertar o telhado não é quando chove, é quando não está chovendo. E o Brasil insiste em pegar o dinheiro da Defesa Civil e só efetivamente liberar, quando há um desastre. Daí, vemos aquele famoso passeio do presidente no helicóptero, o povo lá no alagamento, as escolas sem aula, porque efetivamente se interrompe as aulas pra fazer das escolas abrigos, e as obras não são feitas quando passa a cheia. E não é só obra. É também conceito de desenvolvimento. É a mata ciliar nos rios, que ficam assoreados e não comportam mais a mesma quantidade de água, a macrodrenagem de cidades que tiveram aterros ilegais, é todo um conjunto de coisas. É retirar um contingente de pessoas que moram em lugares que não há como serem habitado, como você vê em regiões serranas pelo Brasil afora. Então, há uma necessidade de um sistema de defesa Civil que atue na prevenção. E é isso que eu fiz como governador. Nós estamos com, no mínimo, seis barragens que vão evitar problemas. Fizemos a dragagem dos rios, a recomposição da mata ciliar, a retirada de pessoas das áreas de risco, pra que essa região nunca mais viva isso. Hoje, eu posso lhe dizer que onde houve essas enchentes em Pernambuco, em junho de 2010, não haverá mais esse cheias. Nós não só cuidamos de recuperar a casa das pessoas, os hospitais e as escolas, como também fizemos obras de prevenção.

DIARINHO – Qual seria a postura do presidente Eduardo Campos em relação à Petrobras, que vem sendo alvo de investigações aqui e até fora do país?
Campos –
Respeito a Petrobras. A Petrobras é algo muito sério. É a construção de muitas gerações, de gente muito capaz, de muita ciência brasileira, que desenvolveu muita tecnologia. A Petrobras precisa, primeiro, de respeito. E esse respeito deve se traduzir em uma equipe capaz e competente, que vai seguir um planejamento estratégico da companhia, coerente com o planejamento energético do Brasil e, ao mesmo tempo, que a gente vai ter regras muito claras pra Petrobras no que diz respeito à sua receita. A Petrobras perdeu a sua blindagem, passou a ser objeto da barganha política de partidos. O seu planejamento foi desrespeitado, e as fontes de receita da Petrobras perderam regras. O governo contendo a inflação da mão pra boca, como diz o ditado, reteve o preço da gasolina artificialmente até a eleição e isso terminou por levar prejuízos à Petrobras. Prejuízos fortíssimos. Ela é a única petroleira que, quanto mais vende combustível, mais perde dinheiro. Era pré-sal, pré-sal, pré-sal! Hoje, são navios chegando com derivados de petróleo e bilhões indo embora e, ao mesmo tempo, estamos matando o programa do álcool brasileiro, desempregando mais de 60 mil pessoas no campo. Fechamos 44 usinas. O setor da indústria que fornece às usinas máquinas e equipamentos está fechando fábricas. É só ir em Sertãozinho, no interior de São Paulo, que você vai ver. E isso tudo acontece exatamente por essa visão de curto prazo, uma visão desrespeitosa com a Petrobras. Isso será estancado no dia 1º de janeiro de 2015, quando eu chegar ao governo.

DIARINHO – Candidato, a gente está quase encerrando o nosso Entrevistão, o primeiro da história do DIARINHO feito dentro de uma van [risos]. Aqui, em Santa Catarina, o PSB está junto com a família Bornhausen. Até é bem interessante a gente fazer essa pergunta neste momento, pois aqui, na van, estão presentes o ex-senador Jorge Bornhausen e o deputado Paulinho Bornhausen, que foram UDN, Arena, PFL, DEM, PSD e PSB… Ambos são considerados nomes tradicionais da direita brasileira [silêncio]. O senhor não vê incoerência no fato de o partido Socialista Brasileiro e a família Bornhausen serem aliados nesta eleição?
Campos –
Absolutamente não. Eu lembro aqui a você uma figura que também esteve no senado federal e que teve um papel muito importante no cenário nacional, na vida pública brasileira, e que teve uma origem em outro campo político. O senador Teotônio Vilela [alagoano, fundador do PMDB, falecido em 1983 e considerado um dos principais representantes da luta pela redemocratização do país]. O senador foi um homem importante para a transição democrática no Brasil, para a anistia que trouxe de volta ao Brasil o meu avô, o governador Miguel Arraes. E ele convenceu-se de que, naquele momento, naquela etapa da vida pública, ele tinha que dar uma contribuição para o Brasil ser melhor. O importante é que nós tenhamos muita convicção do que fizemos na vida pública, tanto eu fiz como o doutor Jorge [Bornhausen] fez, o Paulinho [filho de Jorge Bornhausen] fez… Nós não fizemos a nossa vida pública com interesses escusos, menores, sem ter a coragem de colocar as nossas opiniões sobre os assuntos. O que nos une hoje é o respeito pelo Brasil e o desejo de mudar. Defender os interesses de Santa Catarina que, neste governo da presidente Dilma, perdeu muito, infelizmente perdeu. Infelizmente, o governador Colombo não teve a força política de se indignar e de expressar essa indignação diante de uma presidente que tirou de Santa Catarina dinheiro e devolveu como se fosse empréstimo. É algo impossível você tirar o que lhe é de direito e lhe emprestar depois. Como se alguém lhe surrupiasse um dinheiro que é seu e no outro dia fosse à sua casa lhe emprestar o seu próprio dinheiro. Ou seja, uma coisa inaceitável. Esta unidade, efetivamente, está calcada numa visão de programa e de desenvolvimento do país. Eu estou seguro de que isso é algo que vai fazer bem a Santa Catarina e vai fazer bem ao Brasil.

DIARINHO – Nessa sua passagem inicial pelo estado, o que o senhor tem a dizer para o eleitor catarinense, faltando dois meses para as eleições?
Campos –
Nesse processo que está começando, é muito importante que todos participem do debate. Nós precisamos que a sociedade se aproxime da política. A política tá muito feia, e quando a política fica feia desse jeito, as pessoas ficam longe dela. E nós precisamos que as pessoas se aproximem pra compreenderem que o Brasil tem alternativas. Tem um caminho novo que pode mudar o Brasil de verdade. Mas pra isso, é preciso coragem, e essa coragem eu tenho, a Marina tem, muitos brasileiros têm. Então, vamos fazer o debate respeitoso com os outros concorrentes, mas um debate que vai falar a verdade. O Brasil precisa retomar o seu curso, o desenvolvimento econômico. Nós precisamos vencer o tempo do marketing e da maquiagem, para um tempo em que a unidade do Brasil possa ser a força transformadora da realidade que bate à nossa porta todo dia. Estamos atolados nas dificuldades, mas precisamos sair dessa dificuldade com uma visão renovadora da política e da gestão pública.

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