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“Nada da internet conspira pra privacidade”

É possível ter privacidade usando computadores? Existe hacker do bem? A internet aproxima ou promove uma relação fria e distante entre as pessoas? Até que ponto a legislação pode se tornar um instrumento de controle social sobre quem acessa a rede mundial de computadores? Certamente você já se fez algumas dessas perguntas e é bem provável que ainda queime neurônios pensando nelas. Pois fique tranquilo, você não é único a refletir sobre isso. Para o professor e pesquisador Fabrício Bortoluzzi, do centro de Ciência da Computação da Univali, essas e muitas outras questões são mais simples de entender do que se imagina, já que a internet, para ele, nada mais é do que a imitação virtual do que acontece na vida real. Quer entender essa lógica? Então navegue pela entrevista concedida aos jornalistas Sandro Silva e Taciana Campos. Os cliques são do fotógrafo Felipe Schürmann.

“Se pensarmos em algum filtro que venha antes da postagem, isso pode ser entendido de formas muito perigosas. Por exemplo: censura, controle de ideias, controle de disseminação de informação”

“Beiraria a uma ditadura se pensássemos em formas de antever ou formas de bloquear conteúdos antes que eles venham a público”

“A questão da internet é que ela imita demais as coisas que já acontecem e que não precisariam de uma lei específica”

RAIO X
Nome completo: Fabrício Bortoluzzi
Naturalidade: Rio Negro/PR
Idade: 34
Estado Civil: Solteiro
Filhos: Nenhum
Formação: Graduado em Ciência da Computação pela Universidade do Vale doItajaí (Univali) e mestre pela universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
Trajetória profissional: Produção e desenvolvimento de sites e sistemas, pesquisador do laboratório de Computação Aplicada da Univali e professor da mesma universidade desde 2006.

DIARINHO – Recentemente, um esquema de venda de crianças, através da internet, trouxe à tona a discussão da falta de fiscalização do conteúdo do mundo virtual. O que fazer para regular o uso da internet sem interferir na privacidade e liberdade do usuário?
Fabrício – Esse caso foi notório porque houve veiculação de anúncios de crianças que podiam ser adotadas. Havia o encaminhamento e a pessoa que postou parece não ter nenhuma noção das infrações que cometia, ao formar esse grupo em rede social. O que acontece é que as redes sociais são todas livres para qualquer criação de conteúdo à priori. E, daí, as pessoas que veem esses anúncios, como foi o caso veiculado, elas têm a opção de denunciar o anúncio feito em rede social. Então, todas as redes sociais, pra quem vê, têm uma opção de denúncia. Basta que eu veja o anúncio desse esquema, por exemplo, do que foi veiculado, e lá eu tenho o poder de denunciar. Quanto mais pessoas que estão assistindo aquela postagem clicam no botão de denúncia, dizendo que aquilo é um abuso, que aquilo é uma infração à lei, mais técnicos da rede social irão ver ou mais rapidamente aquilo chegará aos olhos de um técnico que cuida dos bloqueios das redes sociais. Mas o bloqueio sempre acontece depois da infração cometida.

DIARINHO – O que deve prevalecer, o direito à privacidade do usuário ou a fiscalização de conteúdos e de usuários? Em tese, com maior fiscalização haveria mais segurança de que a internet não seria facilitadora de crimes?
Fabrício – Se pensarmos em algum filtro que venha antes da postagem, isso pode ser entendido de formas muito perigosas. Por exemplo: censura, controle de ideias, controle de disseminação de informação. Estaríamos assinando, dando direito a governo, a quem auditaria o acesso à internet, pra dizer que o conteúdo pode ser pré-filtrado. Isso seria, na minha visão, mais negativo do que aceitar conteúdo de qualquer espécie, que leva horas ou dias pra ser detectado como conteúdo abusivo, e que daí então é bloqueado pelos donos das redes sociais, por quem as mantêm. [Nós temos um problema ético-social aqui, é isso?] Eu acho que seria, beiraria a uma ditadura se pensássemos em formas de antever ou formas de bloquear conteúdos antes que eles venham a público. Então a solução não é perfeita, ela depende de artifício técnico, que são as pessoas apertando o botão “denunciar”, geralmente. Em rede social é botão de denúncia. Em site, como blogs, ou outro tipo de website mais simples, mais antigo, aí não existe botão “denunciar” automático, mas existem caminhos, nem que seja por meio de Ministério Público. É a visão que eu tenho. Sou muito mais a favor da permissão com o bloqueio posterior.

DIARINHO – Ano passado, a presidente Dilma Rousseff sancionou a popularmente conhecida “Lei Carolina Dieckmann”, que tipifica crimes cometidos através da internet, incluindo invasão de dispositivos alheios com a intenção de obter e divulgar dados sem a autorização do dono. Quem infringir a lei 12.737/2012 poderá pagar multa e cumprir pena de três meses a um ano de prisão. O senhor conhece alguém que já tenha sido enquadrado por esta lei?
Fabrício – Só conheço o infrator que foi veiculado, o técnico de manutenção do computador dela, que teve acesso a essas fotografias. Não foi exatamente uma invasão, com todo aquele charme que se fala que aconteceu. Foi somente uma cópia por oportunidade de ter o computador dela nas mãos. E isso acabou servindo de pretexto pra acelerar leis que havia já em trânsito, em projeto, no Congresso e que no calor do momento foi aprovado com essa conotação. De lá pra cá, que eu tenha conhecimento, nenhuma outra prisão aconteceu nesses moldes ou por meio dessa lei.

DIARINHO- Onde essa nova legislação avança, onde ela peca e onde ela ainda precisa evoluir?
Fabrício – Vejo que ela é uma penalização pequena de um restrito conjunto de más ações que pessoas podem cometer, imitando, por exemplo, roubo de fotografias, imitando roubo que poderia acontecer já no universo físico, material. E ela então formaliza pra Justiça isso. Formaliza que existe agora o roubo de dados igual existe o roubo de outros materiais concretos. É nesse aspecto que ela dá um passo à frente. A questão da internet é que ela imita demais as coisas que já acontecem e que não precisariam de uma lei específica. Por exemplo, eu roubar cartas por oportunidade que são direcionadas a você, já é crime há muitos anos. E essas cartas, de forma análoga, são roubadas quando se cometem crimes de roubo de dados por meio de redes e tudo o mais. Então, a minha visão é que a justiça funciona muito bem por analogias e na maioria das vezes que a gente aprova leis que especificam problemas de informática, estamos herdando um passo pra permitir controle, permitir controle antecipatório de informações. Agora, como consequência da lei da Carolina Dieckmann, fica sensato, fica possível, viável permitir, por exemplo, que as empresas guardem rastros de tudo que os funcionários fazem no dia a dia, pra que caso aconteça algum crime diagnosticado hoje, se possa voltar três meses no passado e olhar o que foi feito, por determinada pessoa, em determinado tempo. Um provedor de acesso hoje pode guardar dados dos seus usuários, pra evitar que a Justiça culpe o provedor e não o usuário de ações cometidas de agora em diante, da aprovação dessa lei em diante. Esse é o caminho que eu acho que a gente acaba caindo quando aprovamos leis específicas pra informática no calor do momento, como foi o caso. [Pro senhor, esses instrumento poderiam estar previstos em leis mais genéricas?] Já são previstos por leis mais gerais. Ninguém poderia acessar o computador dela antes dessa lei existir e agora continua não podendo e tem a tipificação penal. Mas pode-se abrir margem para controles nos provedores, nas empresas, nas lan houses.

DIARINHO – Como se dá quando um abuso acontece através de espaços na internet? É fácil punir textos difamatórios, apócrifos ou mentirosos que circulam na internet? De que forma a vítima deve agir para punir o agressor?
Fabrício – As difamações são possíveis, são relativamente possíveis de ser contidas. Mas elas acontecem. Difamação na internet, quando uma pessoa fala mal da outra, por exemplo, aí se mobiliza Ministério Público, polícia Civil às vezes polícia Federal, pra que se vá em busca do provedor que hospeda essas informações da difamação e junto a ele consiga se remover, mesmo contra a vontade de quem postou. [Então é possível rastrear o caminho?] É possível. É muito mais fácil quando a difamação acontece e é hospedada no Brasil. É mais difícil quando ela é hospedada fora. Mas geralmente o que acontece, quando são as redes sociais que têm sede no Brasil, são as empresas que têm sede no Brasil, consegue-se, sim, algum contorno da situação. Agora, todos serão livres pra copiar aquela difamação e postar em outro lugar. As cenas de uma violência, de uma criança batendo em outra, você até inibe o original, você até inibe a pessoa que postou aquilo, rastreia, levanta, chega numa conta. Mas não inibe a capacidade do usuário de disseminar aquilo com múltiplas cópias. Então, o processo funciona no caso de difamação? Funciona razoavelmente muito bem. Mas não é perfeito, porque a internet permite que se faça cópia da cópia e aí fique. Quanto mais notoriedade ganhar, mais difícil ficará.

DIARINHO – É possível registrar uma queixa neste sentido, por exemplo, numa delegacia de polícia? É preciso contratar um advogado para representar meus interesses ou basta fazer a queixa à polícia?
Fabrício – Com certeza a queixa na polícia Civil. Esse é o primeiro passo. Existem estados que possuem delegacias específicas em crimes contra a internet. Que eu tenha certeza, o Rio de Janeiro tem uma delegacia dessas. E aí você consegue fazer esse registro numa delegacia de polícia específica, com policiais já especializados nessa área. Não havendo essa possibilidade, você vai pra uma delegacia civil comum, faz o boletim de ocorrência e provavelmente vai, sim, se apoiar junto a um advogado pra que ele mais rapidamente ou facilmente mobilize, abra processo ou acione o que precisa ser acionado pra parar com a veiculação original dessa difamação, fazer a pesquisa pra descobrir o infrator, a pessoa que fez a difamação, o autor.. [Santa Catarina tem alguma delegacia especializada em crimes de internet?] De meu conhecimento, não. O que acontece é que a polícia Federal sempre pode atuar na investigação de crimes por internet. [Mesmo que seja um crime que atente o privado, pessoal, por exemplo?] Ao menos recai sobre a polícia Federal o poder de mandados pra que se quebre sigilo, por exemplo, do dono da linha telefônica que estava usando determinado endereço IP, em determinada hora, que é a hora do fato, do crime, e aí ela tenha essa autoridade. Agora, uma delegacia civil, com profissionais que conheçam, já estejam articulados juntos às redes sociais, aos principais veículos que são usados pra difamação, seria muito melhor pra tornar mais rápido o processo. [Essa é uma demanda necessária, na sua avaliação?] Na minha opinião, depende em que nível de criticidade se colocam hoje os crimes por internet. Por um lado, o Brasil tem piores mazelas pra resolver antes exatamente dos crimes que acontecem pela internet. Mas já há muito estelionato por internet, já há muito bullying, difamação, que justificam pelo menos um setor, uma departamento aí de uma polícia Civil que pudesse investigar esses crimes e que tivesse com conhecimento do meio, meio internet.
DIARINHO – Em casos de pedofilia, quando circulam imagens e vídeos através da internet, a punição é distinta para quem produz o conteúdo e para quem “apenas” o visualiza? Isso também pode ser investigado através do uso do equipamento do usuário de internet?
Fabrício – A pedofilia, na minha visão, acho o pior dos crimes que se comete por meio da internet, os mais questionáveis, mais problemáticos. Certamente a polícia Federal, que investiga esses crimes, ela tá principalmente preocupada e vai atrás de quem veicula, das pessoas que disseminam em quantidades, daquelas que inclusive são as produtoras, as pessoas que têm a índole, intenção de capturar, fazer o crime propriamente dito. Mas também configura como crime aquele que ostenta, aquele que vê, aquele que recebe o material de origem de pedofilia. [Mas a punição é a mesma para quem produz o material?] Acredito que recai sobre aquele que produz uma pena maior ou ao menos um agravante em cima se comparado com aquele que consome.

DIARINHO – Até que ponto é possível ter privacidade na internet? Ou isso não existe?
Fabrício – Até antes das revelações do Eduardo Snowden, a respeito de como a agência de Segurança e Inteligência dos Estados Unidos (CIA) tratam a informação, até antes a gente acreditava que sim, por causa da criptografia, por causa dos mecanismos que poucas pessoas sabem usar. Assim, nenhuma solução era pro grande público. As soluções eram muito mais para aqueles que entendiam a criptografia, da privacidade, sabiam fazer uso. Nada da internet conspira pra privacidade. Ou seja, uma pessoa que não toma nenhuma ação, como um jornalista, por exemplo, que pode ser mais alvo de pesquisas do que outros profissionais, que não sabe usar a criptografia, tem muito mais probabilidade de ser invadido em sua privacidade do que outros. O cidadão comum certamente não tem nenhuma chance de privacidade, à medida em que se revela que as agências de espionagem conseguem sim capturar dados criptografados. Elas conseguem por meio de falhas que estão no sistema operacional da pessoa, no seu computador em casa, acessar o seu computador remotamente, e ainda agora muito mais com a presença dos celulares que têm GPS embutido, e que têm acionamento pleno remoto, então é possível de acontecer. Esses aparelhos celulares de última geração, smartphones, configuram a última barreira a qualquer controle de privacidade, porque eles podem revelar posição da pessoa, a hora, podem revelar as fotografias que estão armazenadas dentro do aparelho. Tudo isso antes era dado muito como improvável, não impossível, mas muito improvável. Agora não, agora a gente já vê que, havendo interesse, há sim a possibilidade da espionagem com facilidade, com apoio da fabricante do celular, com apoio da empresa que produz mapas. Todas as possibilidades são verdadeiras a partir de agora. Desde, por exemplo, o que está acontecendo em nível de segurança nacional, com a presidente sendo vítima de espionagem. Então, a privacidade, num nível muito teórico, ela pode acontecer, mas não é verdade, não é realidade pro dia a dia das pessoas comuns.

DIARINHO – Muita gente compra antivírus no camelô acreditando que vai estar tomando o cuidado necessário contra invasões. Isso realmente funciona ou é um mito?
Fabrício – É um mito. A segurança no computador doméstico, pra ela ficar num nível aceitável, um nível que ajude bastante a pessoa a não ser vítima, não só de espionagem, mas de vírus, todo tipo de mal que um computador pode atrair, depende dela usar um sistema operacional que seja legítimo, não pode ser pirata. Tem que receber atualizações de segurança e isso os sistemas operacionais piratas não recebem. Ela precisa comprar o antivírus, porque a compra vai vir com um serviço de assinatura, que vai alimentar esse antivírus por um prazo mínimo de um ano. Então, por aquele tempo, aquela compra vai surtir efeito e então a pessoa em casa tem que adotar essas duas posturas: o computador licenciado corretamente e o antivírus atualizado como pago, muito provavelmente pago. E também ainda usar do bom senso quando ler e-mail, quando vai abrir um anexo, quando vai visitar um site, pra não ser vítima de estelionato, mesmo que tome todos os cuidados necessários. Ou ainda usar um sistema operacional livre, Linux, por exemplo. O sistema operacional livre, apesar de pra muitas pessoas ser mais difícil, porque falta conhecimento, ele já vem com a maioria dos problemas resolvidos e não há uma relação de compra. Não é a licença do produto que está em jogo ali. Então ele pode gratuitamente ficar livre de ameaça. Mas nem todo mundo acaba se dando bem, usufruindo desses sistemas. Acaba funcionando muito bem, por exemplo, pra aluno de graduação, que tem uma disposição pra aprender, como acontece aqui na Univali.

DIARINHO – De onde vêm os hackers? Quem são eles? Há um perfil dessas pessoas?
Fabrício – O hacker… Poxa, o hacker é um estudante, é um curioso, é aquela pessoa que se interessou pelo computador como sendo objeto de estudo dela, e não uma ferramenta mera de trabalho, mas o objeto de estudo. Então ele aprende não só como usar o computador, que é o que a maioria faz, mas como o computador funciona. Bons hackers são aqueles que estudam uma carreira de ciência da computação, sistemas para internet, e aí eles aprendem como as coisas funcionam e acabam aprendendo essa tecnologia pra proteger empresas, proteger governo, proteger corporações. Os maus hackers, eles podem ter qualquer origem, mas eles usam esse mesmo conhecimento, esse mesmo interesse em conhecer tecnicamente como o computador funciona, pra descobrir falhas que levem a alguma vantagem financeira. Então, por exemplo, existe muito hacker bom em criar páginas falsas, que imitam banco, página falsa que imita site de compra para, aí, atrair as pessoas para comprar nesse site falso, e então a pessoa paga mas não recebe.

DIARINHO – A palavra hacker costuma estar associada a pessoas do mal? Não existe hacker do bem?
Fabrício – O hacker, lá na origem da palavra, da época do Kevin Mitnick [um dos hackers mais famosos dos Estados Unidos, que começou alterando notas nos computadores da escola onde estudava, na década de 1970, e que se especializou em lograr companhias telefônicas. Hoje é consultor gerente de uma empresa de segurança na Web], das investigações do FBI [a polícia federal norte-americana], ela sempre esteve ligada ao técnico que sabe usar… estar ligada ao bem ou ao mal isso veio com a conotação jornalística, não é uma origem técnica. O hacker é um fuçador e você não pode dizer que um fuçador está sempre fuçando em alguma coisa por mal. Está fuçando pro bem, geralmente. E aí, só aqueles que têm a índole, a inclinação pro crime, que acabam se aproveitando desse conhecimento pro mal. E a esses se dá o nome de crackers. Cracker é aquele que quebra sistema, que quebra segurança. O hacker, ele tá ali disposto a ajudar, pra proteger e fazer uso da tecnologia pro bem.

DIARINHO – As escolas de informática e até mesmo os cursos de nível superior não seriam formadores de invasores de rede? Não seriam incentivadores de harckers, já que dão o instrumento para isso aos seus alunos?
Fabrício – Aí podemos comparar a escola que ensina como os computadores funcionam do mesmo modo que um projetista. O cara vai aprender projeto industrial e acaba projetando armas. Fazer um curso técnico vai, sim, revelar pro aluno como a rede funciona, como o computador funciona. Agora, se isso vai ser usado pra algum mal, isso tá completamente fora do alcance da universidade. Com a diferença de que o aluno que passa pela universidade ainda tem aprendizado sobre ética, sobre cidadania, e que aqui, na universidade, qualquer informação repassada a ele vem acompanha de um peso moral da sociedade que o leva pro bem. Muito pior é aquele que não passa por uma educação superior, de qualidade, e que possa transformá-lo em alguém que vá tirar bom proveito de tudo isso, proveito positivo.

DIARINHO – Hoje é comum se falar em perfis fakes. Há como formar uma consciência ética na rede?
Fabrício – Eu vejo que os perfis falsos, os fakes, eles são formas de expressão que a rede de computadores, as redes sociais dão. Ou seja, até então, ninguém veicularia num jornal tradicional uma matéria de caráter estereotipado, cartunizado, se passando pelo presidente da República. Não se faz isso num jornal. Numa rede social alguém está disposto a se fingir de outra pessoa, geralmente com uma clara conotação de cartum, de que aquilo é um estereótipo, de que aquilo não se trata de um perfil verdadeiro, e isso na maioria dos perfis falsos acaba fazendo um sucesso. Então, existe um perfil falso de toda estrela, de toda a pessoa para quem existe apelo ou emoção ou admiração. No começo ou em alguns perfis falsos existe maldade. Poucos, alguns, minoria. Mas estão sujeitos a denúncia, igual à matéria que nós tratamos no começo dessa entrevista. Mas numa grande maioria o perfil falso é rapidamente identificado. Ele não faz nem questão de ser reconhecido como verdadeiro. E as redes sociais também têm um último controle. Em cada perfil que é de uma estrela, de alguém genuinamente reconhecido, a rede social confirma junto a essa pessoa e aí dá um selo de verificação pra ela. Isso acontece no Twitter, no Facebook, acontece em vários. Então, o perfil falso está ganhando uma conotação muito menos preocupada com o forjar um personagem e muito mais em dar um caráter brincalhão, estereotipado de uma figura pública. [Como se fosse um Pasquim dos anos 2000?]. Sim, algo assim.

DIARINHO – Muita gente usa as salas de bate-papo para relacionamentos. Tem alguma dica para que as pessoas possam usar os chats e não acabem em maus lençóis?
Fabrício – Os chats, que nasceram com a internet, ainda perduram frente a tantas outras coisas que vão e voltam. O chat, o bate-papo, ele persiste, perdura enquanto ferramenta de relacionamento. As dicas que valem para esse mecanismo, para essa ferramenta específica são as mesmas que a gente já usava anos atrás. Ou seja, nunca revelar em nenhuma hipótese informações verídicas e pessoais a seu respeito. Verídicas no sentido de que não revelem nome completo, seu endereço, sua cidade ou outra qualquer informação que possa ser usada para que seja cometido algum crime, alguma coisa assim. Mas já que é relacionamento, isso não é muito eficaz. As pessoas acabam revelando seu nome, suas preferências, onde vai e o que gosta de fazer. As dicas são as mesmas que se você tivesse que se comunicar com uma pessoa fisicamente, sem conhecê-la antes. Você não sai revelando dados antes de ter um mínimo de conhecimento de quem está conversando com você. [O que vale numa conversa numa balada, por exemplo, vale para uma conversa num chat?] Exato, exato. Talvez até com um pouco mais de cautela, mas é bem isso, é um progresso de revelação. Provavelmente você vai trocar informações mínimas com a pessoa, que pareçam verdadeiras pra, aí então, revelar seu nome, o que faz ou marcar um encontro.

DIARINHO – Até que ponto as exposições nas redes sociais, como o Facebook, por exemplo, podem gerar insegurança para o usuário? O que se deve fazer e o que não fazer para impedir invasões de privacidade e mesmo furto de informações?
Fabrício – O que não fazer no Facebook seria, como em qualquer rede social, nunca revelar nada e nenhuma informação que você não gostaria que fosse usada contra você no futuro. Isso afeta várias esferas. Na esfera profissional a pessoa pode ser prejudicada porque tem determinados hábitos no seu mundo particular e ela exibe esses hábitos, e numa entrevista de emprego isso recebe uma conotação negativa. Por exemplo, porque toma bebida alcoólica em festas e tem fotografia com isso. Nunca revelar problemas de relacionamento que no futuro podem ser constrangedores para ela, frente a outros relacionamentos. São questões principalmente ligadas à esfera pessoal e profissional que podem fazer mal para essa pessoa no futuro. Mas, quanto a isso, não há regra e não adianta fazer muita campanha. As pessoas agem por emoção, por impulso, pela vontade de serem reconhecidas no seu meio social, e aí acabam agindo de forma que se arrependem depois.

DIARINHO – Há quem diga que muitos programas invasores são instalados por técnicos de manutenção. Você já ouviu algo sobre isso? Se isso realmente acontece, como evitar?
Fabrício – Bom, técnicos podem, pelo acesso privilegiado que têm a um computador, instalar softwares que dão acesso remoto a essas máquinas. Geralmente pra facilitar uma manutenção remota, um apoio. E junto a esse apoio vem, sim, a possibilidade de se especular, investigar qualquer coisa, acessar qualquer conteúdo nesse computador. Isso existe. Agora, a possibilidade de um técnico fazer isso estará atrelada à ética da empresa onde esse técnico circula. Uma boa empresa não vai usar mecanismos desses pelo menos sem o consentimento do usuário, explicando pra ele que aquela ferramenta é pra acesso remoto, para manutenção, e que a empresa se compromete a não fazer nenhum outro acesso além disso. O usuário que depende de manutenção tá numa posição privilegiada, pois ele tem que confiar seu computador inteiro a um técnico e um técnico tem total capacidade de ter tal privilégio pra fazer esse acesso. Inclusive o técnico leva fisicamente a máquina, vai remover o sistema operacional, vai instalar outro de novo. Então, não existe nada que impeça, exceto o profissionalismo, a ética e a responsabilidade.

DIARINHO – E como o usuário pode detectar uma empresa honesta, um técnico honesto?
Fabrício – Acredito que aí a gente precise avaliar uma empresa de tecnologia como avaliamos, por exemplo, uma concessionária de automóveis versus mecânicos autônomos, que também podem ser bons. Ou como avaliamos instituições de qualquer natureza. É pela reputação, é pela história, é pela quantidade de vezes que alguém se queixa por descobrir alguma má ação dessa empresa. Então, não existe nada mais formal que isso. Mas uma empresa que tem uma história, uma tradição, e que provavelmente terá seu preço mais elevado, esse seria um caminho seguro para dizermos assim: “a empresa não tem pretensão nenhuma além de me prestar um serviço, logo acredito que ela não vá fazer nenhum mal, não vai instalar nenhum software de espionagem”. Só nesse nível é que a gente tem algum tipo de garantia. Os computadores, em si, não vêm defendidos, não vêm prontos para saber quando é o usuário final que está usando ou quando é o técnico, por exemplo.

DIARINHO – Algumas poucas pessoas fazem a crítica de que o uso excessivo da internet tem afastado os seres humanos de um contato pessoal, da boa e velha conversa, no olho a olho, e que isso mudaria a percepção da comunicação e do diálogo. Um bom exemplo disso é vermos pessoas em bares ou restaurantes mais preocupadas em acessar o smartphone do que conversando entre si. Qual sua opinião?
Fabrício – A minha opinião é que a internet imita os mesmos hábitos que nós temos sem ela, ou seja, de conversar com as pessoas, de trocar informações, de namorar, porém, com o atrativo de tornar a distância física uma barreira possível de transpor. Então, o que as pessoas fazem quando usam o computador ou o celular é uma imitação do que fazem na vida comum. E não digo nem real, porque a vida no computador também é real. E ela acontece daí com esse prolongamento. Aí essa pessoa, essa criança, conversa com os colegas que não estão fisicamente próximos, jogam jogos on-line com equipes, com divisão de tarefas, com atribuição de regras e cooperação entre si, produzindo ou lendo informação útil e inútil, como fariam se estivessem fazendo um bate-papo numa mesa de bar. Vão discutir política… Só que é verdade que a internet é um canal mais frio. Que, às vezes, pela oportunidade de estar perto de seus amigos que estão fisicamente longe, se distanciam do pai, dos irmãos, deixam de brincar, deixam de fazer uma atividade mais concreta, que dependa mais do corpo, da atividade física. E isso, sim, traz problemas sérios. Mas, ao meu ver, não problemas sociais, porque o computador é muito social pelo que a internet permite. Mas sim pelo prejuízo de contato humano, prejuízo de contato com os próximos, com aqueles que estão fisicamente próximos. E aí a cena das famílias conectadas e totalmente separadas do diálogo entre si. Então, eu tenho uma visão relativamente positiva, mas confesso que também me espanto com a frieza com que nós somos capazes de desenvolver com a internet.

DIARINHO – O que é que o mercado vai trazer em breve de novidade e que ainda não tá de domínio da informação pública?
Fabrício – Eu vejo a onipresença do acesso [através da internet]. Aquele acesso que acontece em todo o lugar, que já é relativamente vivido através das redes de telefonia. Mas o acesso que está não acoplado apenas ao aparelho celular ou dependendo de um teclado. E sim computadores embarcados no veículo, computadores embarcados na geladeira, no vidro. Nessa nova onda de tecnologias que permite o contato com o computador por meio de outros aparelhos que já fazem parte da nossa vida, como óculos ou outros dispositivos usáveis no corpo. Isso deve acontecer por interesse tanto das pessoas, do consumidor, quanto do interesse de quem produz conteúdo acelerado como também pelo e-commerce, pelo comércio eletrônico. Então, pelo duplo apelo, acredito que isso está iminente. [Essas tecnologias já existem, mas ainda não foram acessadas ao mercado, é isso?] Elas ainda não foram usadas desse jeito. Estão começando a ser usadas desse jeito, pela banalização da presença do computador, seja no vidro, seja nos eletrodomésticos. Então, isso é realista. A automação dos ambientes domésticos, comerciais, de forma a haver um computador que calcule a luminosidade, a temperatura, a segurança, monitoramento remoto. Tudo isso é pouco realidade, mas cada vez se torna mais comum. [Isso tudo pras próximas décadas ou pra alguns poucos anos?] Aqui na Univali a gente já pesquisa inteligência artificial para dar vida a esses mecanismos. Pesquisamos a automação, desde a parte de hards [parte física do computador], softwares [programas], a interação com o ser humano e as redes de computadores e acreditamos que seja então para um futuro bem próximo, na onda dos cinco anos.

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