Home Notícias Quentinhas “Hoje o surfe, na elite mesmo, só tem atleta”

“Hoje o surfe, na elite mesmo, só tem atleta”

Surfista profissional, 24 anos, jeitão de moleque. Quem não o conhece, pode imaginar que Alejo Muniz faça parte daquele velho estereótipo de surfista, o cara marrento, baladeiro, que não tá nem aí pra nada e pra ninguém. Mas só quem não o conhece. Ele surfa desde os cinco anos de idade, mas o esporte que há nove anos escolheu pra ser sua profissão vem em segundo lugar na vida dele. Em primeiro, vem a família.
Tanto que dois dos seus melhores resultados na carreira vieram logo após dramas familiares. Em 2009, o brou perdeu a avó durante uma etapa do mundial Pro Junior na praia da Ferrugem, em Garopaba. Ele arrancou forças de onde nem sabia que tinha pra conquistar o primeiro título na categoria. A história de superação se repetiu ano passado, quando o avô faleceu dias antes do US Open de surfe. Com a cabeça na família, Alejo foi lá e não deu chance pra ninguém.
Argentino de nascimento, mas brasileiro de coração, Alejo Muniz passou três dias na casa dos pais, na praia de Quatro Ilhas, em Bombinhas, entre uma etapa e outra do circuito mundial de surfe. Nessa rápida passagem por seu paraíso particular, ele reservou um tempinho pra receber os jornalistas Henrique Risse e Adriano Assis em sua pousada, também em Quatro Ilhas. Inaugurada ano passado, a pousada é mais uma homenagem do surfista para seus avós. Ela se chama pousada dos Abuelos, que significa ‘avós’ em espanhol. Esta e muitas outras histórias você confere no Entrevistão. As fotos são de Lucas Correia.

“Quando a tua diversão começa a virar trabalho e cobrança, é difícil você só se divertir. Porque você sabe que tem muita coisa em jogo ali. Mas se eu não me divertisse, eu não estaria fazendo; é o que eu mais gosto de fazer. E se é em Quatro Ilhas e o mar tá bom, pode ser a primeira ou a última onda, que vai ter a mesma sensação”

“Eu lembro que eu ganhei e foi a primeira vez que eu peguei um tubo, de olho fechado, mas eu peguei. Lembro que fui assim pro tubo, acho que eu tinha uns oito anos, fechei o olho, ouvi o barulho e quando saí, olhei pra praia e tava todo mundo comemorando, e disse “cara, peguei um tubo”

“Antes eu entrava com muita vontade de vencer e esquecia que, às vezes, só precisa surfar, pegar aquela onda. Não precisa fazer tanta coisa ao mesmo tempo”

“Eu falei no ano passado que eu achava que nos próximos três anos o Brasil teria um campeão. Eu não duvido nada. Foi este ano com o Gabriel [Medina]. Ele tá muito perto”

Raio X
Nome: Alejo Rubens Muniz
Naturalidade: Mar del Plata, Argentina
Idade: 24 anos
Estado Civil: solteiro
Filhos: não
Formação: parou no 3º ano do Ensino Médio
Trajetória profissional: Campeão catarinense amador invicto, campeão brasileiro e sul-americano Pró-Júnior, campeão mundial Júnior (15 a 18 anos), vencedor de três etapas do circuito mundial.

DIARINHO: Quando sua família decidiu vir morar no Brasil e por quê? A família mantém hábitos argentinos ou já são todos 100% brasileiros?
Alejo Muniz:
Quando eu tinha dois anos e meu irmão Santiago tinha acabado de nascer, a gente estava no inverno em Mar del Plata e morava na beira da praia. Meu pai queria me levar à praia, mas era muito frio pra uma criança. E o meu pai ia muito ao Brasil pra surfar, ia muito pra Saquarema, tudo ali no Rio de Janeiro, e um dia ele conheceu Bombinhas. Então, quando ele teve essa vontade de me levar à praia e não podia porque era muito frio, ele largou o trabalho e falou pra minha mãe: “Vamos pra Santa Catarina, pra Bombinhas. Eu conheço um lugar, e a gente vai morar lá porque eu quero que eles passem a vida na praia”. E aí eles vieram. Não tinham terreno, não tinham nada. Venderam as coisas que tinham e vieram pra cá. Chegando aqui, ele comprou o terreno que é o lugar que a gente mora até hoje. Quanto aos hábitos, eles têm mais hábitos argentinos do que eu. Eu e meu irmão falamos em português um com o outro, mas em casa é uma mistura das duas línguas que não dá nem pra entender [risos]. Se a pessoa é só argentina, ela não vai entender, e se ela é só brasileira, também não vai entender. Tem que ser os dois pra poder entender o que a gente tá falando. Mas são poucos hábitos. Mate eles já quase não tomam. A gente fazia bastante churrasco, mas hoje em dia é mais tranquilo – porque na Argentina todo mundo gosta muito de churrasco. Tem alguns hábitos, mas nossa casa virou bem brasileira.

DIARINHO: Quando você começou a surfar?
Alejo:
Comecei aqui, em Quatro Ilhas, que é a praia aqui atrás, com cinco anos de idade. Meu pai era surfista, e um dia a gente tava voltando da praia e tinha uma prancha na lixeira. Velha, toda quebrada. E eu queria uma prancha, porque meu pai tinha uma. Falei que queria levar, e ele disse: “não, isso aí tá quebrado” e eu “não, leva, leva”. Ele trouxe a prancha pra mim e, no mesmo dia, um amigo dele, o Eric, que faz prancha até hoje, tava em casa dizendo que queria começar a fazer prancha. Ele levou essa prancha velha, descascou ela e fez uma mini pranchinha pra mim. E aí eu comecei a surfar com essa prancha; eu tenho ela em casa até hoje. Eu comecei a surfar com cinco anos, aqui mesmo, em Quatro Ilhas.

DIARINHO: Você se lembra da primeira onda que surfou e da sensação que sentiu? E hoje? É a mesma sensação?
Alejo:
Cara, eu me lembro da minha primeira onda. E é uma das lembranças mais antigas que eu tenho. Porque é difícil se lembrar de algo com cinco anos, mas eu lembro certinho. Tava um dia de sol, era o primeiro dia que eu tava usando a prancha. Meu pai me levou à praia com a minha mãe, e ela ficou na areia, assistindo. Não tinha ninguém na praia. Acho que era bem no finalzinho da tainha, porque aqui não pode surfar na época da tainha. Eu lembro que meu pai me empurrou na espuma e eu consegui ficar em pé na primeira vez, com uma mão segurando a borda e a outra pra cima, e fui indo assim. Fui até a areia. Essa minha prancha, as quilhas estão pela metade, de tanto que eu parava na areia, porque eu só parava quando chegava na areia. Eu lembro que saí correndo e disse “mãe tu viste a minha onda? Eu fiquei em pé” e ela “eu vi, muito bom, mas acho que o surfista tira as duas mãos da prancha”. Aí eu me lembro só disso. Não me lembro da minha segunda onda. Mas essa primeira onda eu lembro certinho. [Qual a sensação que tens hoje, ao pegar uma onda boa?] Cara, acho que é a mesma sensação de quando eu tinha cinco anos. Com certeza, tem muito mais cobrança. Hoje em dia, se eu não surfo como queria surfar, se o mar tá bom e as coisas não funcionam direito, você começa a ficar frustrado, e às vezes você esquece um pouquinho da diversão. Mas isso é assim em qualquer esporte. Quando a tua diversão começa a virar trabalho e cobrança, é difícil você só se divertir. Porque você sabe que tem muita coisa em jogo ali. Mas se eu não me divertisse, eu não estaria fazendo; é o que eu mais gosto de fazer. E se é em Quatro Ilhas e o mar tá bom, pode ser a primeira ou a última onda, que vai ter a mesma sensação.

DIARINHO: Você lembra do seu primeiro campeonato?
Alejo:
Lembro, foi aqui em Quatro Ilhas também, na escolinha do Lobão, que é um ex-surfista de Balneário Camboriú, que mora há muitos anos em Bombinhas. Eu lembro que eu ganhei e foi a primeira vez que eu peguei um tubo, de olho fechado, mas eu peguei. Lembro que fui assim no tubo, acho que eu tinha uns oito anos, fechei o olho, ouvi o barulho e quando saí, olhei pra praia e tava todo mundo comemorando, e disse “cara, peguei um tubo” [risos]. E eu nem vi meu tubo, na verdade. E esse campeonatinho foi o primeiro que eu ganhei. Depois, ainda demorei um pouquinho pra ganhar outros, mas o primeiro campeonato foi aqui e foi quando eu peguei meu primeiro tubo. [Ninguém filmou?] Não, cara. Queria muito o registro desse tubo pra saber como foi, porque eu não sei, não vi [risos].

DIARINHO: Qual foi o momento que você decidiu que faria disso a sua profissão?
Alejo:
Quando eu tinha 14 anos, recebi uma proposta de patrocínio da Quicksilver e nessa época, na verdade até hoje, o Paulo Kid trabalha na Quicksilver, que é um ex-surfista profissional brasileiro, acho que é um dos melhores técnicos que tem no Brasil hoje em dia, ele morava no Guarujá-SP. Na verdade, eu tinha acabado de fazer 15 anos e eles fizeram a proposta de eu ir morar no Guarujá. Acabei indo pra lá, morei três ou quatro anos na casa do meu preparador físico, eu e ele. Na verdade, eu morava sozinho, né. Ele e a mãe dele me ajudaram muito quando eu estava lá, porque imagina com 15 anos sair dessa cidadezinha de Bombinhas e ir pra São Paulo, que é totalmente diferente, mas eles me ajudaram muito. Se não fosse por eles, eu teria voltado pra cá com certeza. E aí, com 15 pra 16 anos, e eu já tava há um ano no Guarujá, comecei a perceber que eu pagava as minhas contas. Falei “tenho meu telefone, eu que pago, pago o aluguel aqui da casa, ajudo na comida”. Aí eu percebi que era o meu trabalho, surfar era o meu trabalho. Até então, eu não tinha pensado nisso. Então, acho que com 15 pra 16 anos eu percebi que eu vivia do surfe e aí passei a me concentrar mais pra chegar mais longe. [Tinha alguém em quem você se espelhava?] Sempre me espelhei muito nos surfistas aqui de Bombinhas no começo de carreira, que são meus amigos até hoje e são as pessoas que mais torcem por mim, junto com a minha família. E tive muita sorte, porque o Guarujá é um lugar que tem muito surfista bom. Tem Júnior Faria, Heitor Pereira, Jessé Mendes, Caio Faria. Então, eu surfava com esses caras todos os dias e eu era o mais novo deles. Então, eu aprendia muito com eles. Eu viajava pro Havaí, nas primeiras vezes que eu fui, e os caras são surfistas de onda grande. Eu ficava com medo, mas aprendi a surfar onda grande por causa deles. Acho que a minha ida pro Guarujá foi fundamental na minha carreira.

DIARINHO: Hoje, você é atleta do Santos Futebol Clube. Como começou essa parceria? Você sempre torceu pelo clube?
Alejo:
Quando eu fui morar no Guarujá, eu não tinha time de futebol ainda, porque aqui em Santa Catarina não é tão forte quanto é em São Paulo. Ainda mais aqui, em Bombinhas. Eu só surfava, moro na frente da praia. Então, eu só surfava e vinha pra casa, só fazia isso, não entendia muito de futebol. E por incrível que pareça, a minha família na Argentina é muito do futebol. Meu avô foi auxiliar técnico do San Lorenzo, meu pai jogou bola a vida inteira, mas eu nunca fui muito ligado ao futebol. E quando eu fui pra Santos, fui no meu primeiro jogo torcendo pra alguém, e o Santos acabou ganhando, acabei abraçando um cara que eu nem sabia quem era e acabei virando santista. Saí do estádio, comprei minha camiseta e virei santista. Quem trabalhava no Santos eram as mesmas pessoas que faziam alguns campeonatos de surfe e sabiam que eu torcia pro Santos, sabiam dessa minha ligação. E eles acabaram pensando em juntar o surfe com o futebol. Pelo estádio do Santos ser perto da praia, por Santos ser uma cidade que tem muito surfista, sendo que alguns dos surfistas mais antigos são de Santos. Então, a gente acabou fazendo essa parceria. Foi quando eu fui lá no Santos e assinei meu contrato com eles. Conheci todos os jogadores e acabei virando amigo de alguns deles. E foi uma parceria legal, porque hoje tem outros atletas em outros times de futebol. E acho que pro surfe é importante estar junto com outros esportes, porque o surfe sempre foi um esporte diferenciado. Por ser muito um estilo de vida, não ser só um esporte, ele sempre ficou fora de tudo, da mídia, de outros esportes. Então, fazer essa junção foi muito bom pro esporte. [E hoje você consegue assistir às partidas?] Eu assisto bastante nos canais on-line clandestinos [risos]. Sempre que posso, quando estou viajando, escuto na rádio pelos aplicativos, mas quando estou em São Paulo, sempre tento ir lá fazer uma visita, mesmo que não tenha jogo. Eu gosto, sou um torcedor fanático. Além de ter o patrocínio, de competir pra eles, eu sou um torcedor do time.

DIARINHO: Qual seu título inesquecível?
Alejo:
Acho que o título do US Open (2013) me marcou mais. Na verdade, foram dois títulos que me marcaram muito. O primeiro foi quando ganhei minha primeira etapa de pro-júnior, que foi na Ferrugem, e eu já tava há um mês sem surfar. A minha avó estava no hospital na Argentina, e eu fiquei um mês lá com a minha família, ajudando. E tinha o pro-júnior, e meu pai dizia “tu tens que voltar, não tem muito o que fazer aqui”. E já fazia um mês que eu não surfava. E eu voltei pra Santa Catarina e fui direto pro campeonato. No meio do campeonato, minha avó acabou falecendo. No final, eu acabei vencendo o campeonato e pude dedicar pra ela, que era o que eu mais queria. E ano passado, quando tava voltando de Bali, tive a notícia de que meu avô tinha falecido também. De Bali eu tinha que vir pro Brasil, mas fui direto pra Argentina. Fiquei dois dias com meu pai e depois ia vir o US Open, mas eu não queria ir, queria ficar ajudando meus pais: “não quero ir, vão ter milhões de US Opens pra ir”. Mas ele disse “não, tens que ir, eu estou bem com a tua mãe aqui. Vai”. E eu cheguei no US Open também na verdade, na verdade, sem vontade de competir. Porque eu não conseguia tirar o negócio do meu avô da cabeça, ficava pensando nos meus pais o tempo inteiro. E acho que isso foi muito importante pra minha evolução como competidor, porque antes eu entrava com muita vontade de vencer e esquecia que às vezes só precisa surfar, pegar aquela onda. Não precisa fazer tanta coisa ao mesmo tempo. Então eu falei “cara, eu vou entrar e vou só surfar, vou fazer o que eu mais gosto, não vou competir, vou entrar pra surfar”. O US Open é o campeonato que mais tem gente na praia, e no dia em que eu competi a final, falaram que havia 40 e poucas mil pessoas assistindo na praia, como se fosse um estádio de futebol. E foi engraçado, porque em nenhuma das baterias eu prestava atenção nas notas que o cara ia falando. Eu fui surfando, surfando, e só me dei conta disso na final. Eu falei “caramba, meu, eu tô na final do campeonato e posso dedicar essa pro meu avô também”. E foi especial, porque eu abri a bateria com duas ondas boas e não veio mais onda; 15 minutos sem entrar nenhuma onda, o cara nem teve a chance de virar em mim. Não veio onda. Eu ficava parado, olhando pra ele, e não tinha o que fazer. E, cara, tocou a buzina, eu cumprimentei ele, no que virei pra comemorar, entraram as melhores ondas do dia. Alguém me ajudou, não sei quem, mas alguém me ajudou. E foi especial pra mim, porque eu pude dedicar pro meu avô. A primeira pessoa pra quem eu liguei foi o meu pai, e ele tava emocionado, me agradeceu por eu ter dedicado o título pro meu avô. Então, essas duas vitórias foram as mais especiais pra mim. [Você se lembra de detalhes desse campeonato, as notas, de quem ganhou?] Eu lembro. A final, foi a bateria mais difícil, porque era contra Kolohe Andino, surfista local, americano. Então, tava a torcida toda a favor do cara. Eu lembro que quando ele pegou a primeira onda, eu nem assisti, e quando terminou, a onda fez um barulho de gente berrando que eu achei que ele tinha feito uma 10, que é a maior nota que se pode tirar. Na hora, eu pensei “o que eu vou fazer pra ganhar agora?” A nota saiu quatro e pouco, e eu falei “não, cara, a torcida quer que ele ganhe”, a nota saiu o que realmente era. Aí eu parei de prestar atenção na torcida, no surfe dele, e fui fazer o meu. Mas o que mais me marcou no campeonato foi entrar pra surfar. Não tinha tática. Eu mal aquecia pra entrar na água, eu só passava parafina, pegava a minha prancha e saía andando pro mar. Como eu fazia aqui no comecinho, sem tática, só surfe. E foi meu melhor campeonato de todos.

DIARINHO: Das etapas estrangeiras do WT (World Tour), tem alguma que você se sente mais em casa, mais confortável?
Alejo:
Eu gosto bastante da primeira etapa do ano, que é na Austrália, Snapper Rocks, que é uma direita. Não que seja parecida com Quatro Ilhas, mas aqui, quando está quebrando bem, é um direita e é uma onda rápida, e lá em Snapper é uma direita onda rápida. A de lá é muito mais longa, muito mais perfeita, mas acho que por ser mais ou menos o mesmo estilo de onda me favorece e eu me sinto bem lá. E a etapa que eu mais gosto de ir é a que eu vou agora, no Taiti, que eu já vou há muitos anos e sempre fica na casa do meu amigo Michel (Bourez), que também é competidor do WT. Ele tá até disputando o título mundial, já ganhou duas etapas este ano. Nunca tive ótimos resultados lá, mas é uma das ondas que eu mais gosto e talvez o lugar que eu mais me sinta à vontade.

DIARINHO: Dos grandes nomes do surfe que você já enfrentou, qual te impressionou mais? Qual a a vitória inesquecível?
Alejo:
Acho que é o mesmo cara pras duas respostas, acho que é o Kelly [Slater]. É difícil explicar, porque parece que ele entra na água e a melhor onda do dia vem pro cara e ele faz o melhor surfe que dá pra fazer naquela onda. Ele sempre tira a melhor nota que dá pra tirar naquela onda. Então é um cara muito difícil de vencer. E ele é muito inteligente como competidor; quando tu vês, ele já tem duas notas altas, ou tem duas médias e do jeito que ele te deixa nervoso e faz tudo acontecer, parece que não tem como ganhar do cara. Pra mim, ele é o mais impressionante também por ser bom em todos os tipos de onda. E a minha vitória que eu mais gostei foi contra ele em Sunset [no Havaí], em novembro do ano passado. Meu irmão tava no canal. Consegui fazer um dos melhores surfes da minha vida, acabei deixando ele em combinação (precisando de duas notas pra virar a bateria), não tinha como ele virar a bateria. Olhei pro canal e tava o meu irmão berrando com a mão na cabeça “caramba, meu, não tô acreditando”. E acho que foi o cara mais difícil que eu já venci e foi a vitória que mais me marcou.

DIARINHO: Desde que você chegou na elite do surfe mundial, qual foi o momento mais difícil pelo qual você passou?
Alejo:
Acho que foi no finalzinho do meu primeiro ano, porque meu primeiro ano foi o meu melhor no circuito, terminei entre os 10 primeiros e nunca na história um brasileiro terminou entre os 10 no primeiro ano. Eu tava pra competir a última etapa em Pipeline (Havaí) pra ser o rookie of the year, que é o novato do ano, tava disputando com o Julian Wilson. E um mês antes do campeonato, eu gosto – gostava, né – de jogar tênis. Fui jogar tênis, torci meu tornozelo e estourei os ligamentos. Acabei não competindo a última etapa, acabei perdendo esse título por 90 pontos, eu acho. Ele ficou em nono, e eu em 10º. E o ano inteiro seguinte eu surfei com dor. E todo mundo sabia que eu tinha machucado, mas poucos sabiam que eu segui competindo com dor. Eu acabei conseguindo me classificar na batalha mesmo, porque eu tava com muita dor. E aí fiquei escutando aquelas coisas “pô, não tá surfando a mesma coisa, a base tá não sei o quê, o estilo tá não sei o quê, como o cara piora de um ano pro outro assim”. Mas eu sabia o que tava acontecendo e procurava fazer o meu melhor. Acho que 2012 foi o ano mais difícil pra mim.

DIARINHO: Com que frequência você consegue vir a Bombinhas? Tem alguma outra praia da região que você curte surfar?
Alejo:
Cara, eu venho bem pouco pra cá, bem pouco mesmo. Dos 365 dias do ano, contando com o verão, que são minhas férias, eu venho uns 30 dias por ano pra cá, só. E tento nem sair muito, nem vou pro centro, vou da casa pra praia e da praia pra casa. É o que eu mais gosto de fazer quando estou aqui. Das praias da região, eu gosto da Joaquina [Floripa], que tem onda. Gosto bastante daquela onda que tem ali, no meio dela. Gosto bastante também da praia da Vila, em Imbituba. São as duas ondas que eu mais gosto de surfar fora de Bombinhas.

DIARINHO: Além de você, que está na elite, a região conta com o Tomas Hermes e o Willian Cardoso na briga pra chegar ao WCT. É possível ter os três juntos já no ano que vem?
Alejo:
É bem possível. O Willian acabou de fazer final no US Open, resultado que vai ajudar ele bastante. E o Tomas tá vindo muito constante, fazendo bons resultados em todos os campeonatos. Acho até que, hoje, eles estão mais perto de se classificar do que eu de me reclassificar. Eu tive um ótimo resultado agora, uma quarta de final na África do Sul, mas ainda preciso de alguns resultados, e eles já estão com resultados bons. Têm grandes, grandes chances de ser os três ano que vem.

DIARINHO: Você acompanha o surfe local? Tem algum nome daqui, da região, que você acha que pode estourar nos próximos anos?
Alejo:
Acho que tem vários surfistas. Meu irmãozinho [Danilo Muniz] tem 11 anos e compete um campeonato que se chama Surfuturo [da Aspi de Itajaí], e o último que teve [na verdade foi a segunda etapa, de 2013], eu fui assistir ele. Eu fiquei bem impressionado com a quantidade de criancinhas surfando num nível muito bom. Mas tiveram dois nomes que me impressionaram muito: a Tainá Hinckel, filha do [Carlos] Kxote, da Guarda do Embaú, e o surfe feminino no Brasil vai passar por uma renovação. Têm vindo muitas minas boas. E o Matheus Herdy [Floripa], pra mim, é hoje um dos melhores surfistas da idade dele no mundo. Se ele conseguir manter o foco, continuar evoluindo como ele tá, pode chegar longe.

DIARINHO: Seus irmãos têm seguido seus passos. Quais os principais conselhos que você transmite a eles?
Alejo –
Eu viajo bastante com meu irmão [Santiago]. Ele até ganhou as triagens do US Open e entrou no evento principal e passou algumas baterias. Pelo que eu vejo, ele tem surfe para chegar onde quiser. Única coisa que eu aconselho ele é trabalhar bastante o mental. Muita gente acha que é ali, na performance, que se tira o máximo, mas a cabeça manda muito. E ele, por ser novo, tem aprendido bastante, aprendido rápido. Quando a gente está junto, eu sempre passo pra ele que não pode desistir, tem que ir pra cima e com calma, que as coisas vão acontecer.

DIARINHO: Você escolheu representar o Brasil, e ele escolheu a Argentina. O que os influenciou a tomarem caminhos distintos? Há algum tipo de rivalidade entre vocês, mesmo que de brincadeira?
Alejo:
Rivalidade nenhuma. Não existe. Todo mundo sabe que nós nascemos na Argentina. Eu me naturalizei brasileiro quando me classifiquei pro Mundial ISA [associação Internacional de Surfe] por países e não sei como meu pai deu um jeito de a gente parar em Brasília e eu me naturalizar em um dia. De um dia pro outro, eu era brasileiro, com passaporte, carteira de identidade e CPF. É até a naturalização mais rápida feita no Brasil por um atleta. Não sei como meu pai conseguiu fazer isso. Quando meu irmão se classificou para ir junto com o Brasil também, meus pais tentaram fazer a mesma coisa, só que o pessoal que trabalhava lá na minha época não estava mais. Teve muita burocracia e meu irmão acabou não indo pro campeonato. Ele tinha 15 anos e ficou muito triste por não ter conseguido ir. É muito difícil ficar entre os quatro primeiros do país para ser convocado. E no ano seguinte, a Argentina convidou ele pra ir, ele foi, acabou gostando e representa a Argentina no circuito mundial. Ele acabou indo de novo pro ISA pela Argentina no ano seguinte e foi campeão mundial. Foi o primeiro argentino campeão mundial. Os caras tratam ele super bem lá. Grande parte da minha família é de lá também. Acho que ele se sente orgulhoso de estar representando a Argentina e, no fundo, acho que meu pai também. [E rivalidade no futebol não tem também? Torcem pros dois?] A gente torce para os dois. Eu, por exemplo, se jogar Argentina e Brasil, eu torço para o Brasil, mas se jogar a Argentina contra qualquer outra seleção e o Brasil contra qualquer outra seleção, eu torço para os dois.

DIARINHO: Ano passado, você foi campeão no US Open que, este ano, teve o Willian Cardoso em segundo. Você ainda tá sentindo a lesão no tornozelo ou há outra razão para o resultado não ter sido parecido?
Alejo:
Meu tornozelo está bem. Acho que eu não consegui repetir o resultado por justamente querer repetir o resultado. Ficava pensando “eu quero ganhar de novo”. Uma vez que tu sentes o gosto da vitória, tu queres mais. E acho que pensei muito na final e me esqueci das etapas anteriores. Mas mesmo assim, eu surfei bem. Teria passado várias outras baterias com a nota que eu fiz, mas o cara acabou virando a bateria faltando 15 segundos. Acho que dependi muito da sorte e, desta vez, ela não estava do meu lado.

DIARINHO: A próxima etapa do WT acontece no Taiti, dia 15 de agosto, e as ondas são para a esquerda, do lado contrário do que você está acostumado a surfar. É uma adversidade ou acaba sendo algo natural?
Alejo:
É uma adversidade. Se bem que hoje, no circuito mundial, os 32 surfistas que estão lá surfam qualquer tipo de onda. Pode ser para a direita, para a esquerda, tubo ou manobra. São só os 32 melhores do mundo, então o cara tem que estar preparado para aquilo. Eu já fui muitas vezes ao Taiti. Até a melhor nota que eu já tirei foi lá, um 9,93 num mar que estava gigante; foi um dos maiores mares que todo mundo já competiu lá. Então, eu me sinto à vontade, acho que só não tive ainda o resultado que eu espero. Estou torcendo que seja este ano.

DIARINHO: Qual a estratégia que você está montando para permanecer na elite? As apostas serão para as etapas no Havaí, onde tens bons resultados?
Alejo:
O Havaí é um lugar que eu sempre posso contar. Muita gente acha que é um lugar difícil. É um lugar difícil por causa do localismo e tudo, mas as ondas são perfeitas. Tanto em Haleiwa quanto em Sunset eu sempre vou bem. Já fiz final em Haleiwa e, nos quatro anos que competi em Sunset, nenhum eu perdi antes das quartas. Meu pior resultado lá foi uma quarta de final. Então, é um lugar que sei que posso contar. Mas o surfe é isso: ano passado, eu ganhei o US Open e este ano eu perdi na primeira fase. Então, eu espero não precisar depender do Havaí, porque é um lugar difícil. Mas a estratégia é a mesma. Estou treinando bastante, sei que estou surfando bem e se der tudo certo, eu não vou precisar do Havaí. Chegarei lá podendo brigar por bons resultados, mas sem depender de pontos. [A definição das baterias influencia bastante? Tem alguma regra para definir os confrontos?] Há muitos anos acho que era sorteio. Hoje, eles pegam o ranking e as baterias são formadas por ele. O número um nunca vai poder cruzar com o número dois antes da final. Então, o número um pega o último, o dois pega o penúltimo e vai assim. Por isso que todo mundo diz que as baterias mais difíceis são as do meio, porque são sempre os caras que estão entre o 15 e o 8, são caras muito bons. Quando tu estás ali, no meio, dificulta mais.

DIARINHO: Como você vê os critérios de julgamento dos árbitros da ASP? Uma hora supervalorizam os aéreos, outra hora o surfe de linha. Como fica a cabeça dos surfistas?
Alejo:
Sei que deve ser muito difícil julgar surfe, porque cada um tem uma opinião, até mesmo a gente, atleta, quando está lá na área dos competidores, a gente vê uma manobra e cada um fala uma nota. “Tu tá maluco, vai sair isso” e às vezes sai uma nota que ninguém tinha falado. Sei que é muito difícil ali. Pelo que eu ouço da galera antiga, tinha muito preconceito com o pessoal do Brasil, que pra tirar uma nota boa tinha que ir muito bem, mas isso tem melhorado bastante. Eles estão ali fazendo o trabalho deles. Sei que tem muitas baterias que o competidor vai achar a nota injusta, eu mesmo já reclamei milhares de vezes. Agora, estou até tentando reclamar um pouco menos, mas é que todo mundo quer vencer. Às vezes, tu achas que vai sair uma nota e ela não sai, tem a prioridade que tu achas que chegou primeiro que o cara, e eles acham que não. E cada bateria é muito importante. Tu nunca sabes o que vai acontecer na próxima e na próxima. O Bernardo Pigmeu, num ano, ficou fora do WT porque na bateria que ele perdeu, se ele ficasse em terceiro, faria 100 pontos a mais do que se ficasse em quarto. Ele ficou em quarto e não entrou por 80 pontos. É difícil, só o atleta sabe o quanto cada bateria e cada ponto são importantes. É muito difícil dizer se os caras estão julgando bem ou não. Ser juiz não é uma profissão fácil, isso eu tenho certeza. [Mas dá de entender o critério? Que tipo de manobra eles estão valorizando?] Dá para entender. Dependendo da onda, a gente já sabe qual é a nota boa. Em Jeffreys Bay [África do Sul], não adiantava sair acelerando, dar um aéreo e depois outro aéreo. Eles gostam daquele rasgadão, a manobra mais tranquila, pegar o tubo no meio da onda. Agora, tu vais em Huntington [Califórnia, EUA], o Filipinho [Filipe Toledo] ganhou só dando aéreo. É um lugar onde o aéreo prevalece, muito difícil alguém ganhar lá sem dar aéreos. O Willian me impressionou muito. Ele foi até a final sem dar aéreo, quebrando muito, levando muitas notas altas. Cada lugar tem o seu jeito de surfar.

DIARINHO: Você falou sobre preconceito com os brasileiros. Está chegando a hora de o Brasil ter um campeão mundial? Está perto disso?
Alejo:
Tá perto. Eu falei numa entrevista no ano passado que eu achava que nos próximos três anos, o Brasil teria um campeão. Eu não duvido nada ser este ano com o Gabriel [Medina]. Ele tá muito perto. Sei que ainda falta metade do ano, e os atletas que estão competindo contra ele lá em cima já foram todos campeões mundiais e sabem o caminho e a pressão que é, mas ele é um cara que tá surfando de igual pra igual com todos eles. É um cara abençoado, tem bastante sorte nas baterias e isso é fundamental. Não me surpreenderia em nada se ele fosse campeão este ano.

DIARINHO: O circuito mundial foi comprado por uma empresa, correto?
Alejo:
Foi comprado por uma empresa que se chama ZoSea. Eles tinham antigamente os direitos de transmissão da NBA e da NFL [futebol americano], os maiores esportes dos Estados Unidos. Agora, eles estão com a ASP. Eles transformaram a associação num negócio muito mais profissional. Tanto que eles trouxeram de volta a etapa de J-Bay, a etapa tinha sido cancelada e eles que pagaram. A imagem do surfista está melhorando muito com os comerciais que eles estão fazendo, trouxeram a Samsung [patrocinadora máster do WCT], que é uma marca que não tinha nada a ver com o surfe. Acho que ela veio pra melhorar e vai melhorar muita coisa. [Mudou alguma coisa para os surfistas?] Acho que na parte de competição, não muda tanto, mas na parte de mídia, mudou bastante. Todo mundo tá fazendo mais comerciais, entrevistas, está sendo muito mais chamado pela mídia do que antes. Tanto que agora eles levaram alguns surfistas lá pra Nova Iorque, a Vogue fez uma festa de apresentação da ASP, eles foram naqueles talk shows famosos que tem nos Estados Unidos de manhã cedo. Todos os surfistas lá com as pranchas, milhares de pessoas do lado de fora esperando. Eles estão tentando transformar os surfistas em ídolos de verdade. Acho que o Kelly Slater foi o único ídolo mesmo do surfe, que atingiu todos os tipos de pessoas. O Mick Fanning é o ídolo da nova geração dos surfistas, mas se tu parares pra perguntar pras pessoas, mesmo aqui em Bombinhas, se tu fores aqui do lado e perguntar quem é Mick Fanning, a pessoa não vai saber falar. Mas o Kelly, a pessoa vai dizer “aquele cara que surfa, né?”. Acho que eles estão querendo fazer isso com o resto dos atletas. [Fazer como os jogadores de futebol ou da NBA, que onde vão todo mundo conhece?] Eu acho que a ideia deles é mais ou menos essa.

DIARINHO: Rola muita festa nas etapas do WCT. O surfista se perde na noite ou o surfe de rendimento obriga a galera a se comportar?
Alejo:
Hoje o surfe, na elite mesmo, só tem atleta. Não tem um ali que vai sair na noite, no meio de uma janela de campeonato. Todo mundo quer ganhar e todo mundo sabe o quanto é difícil. Hoje tem os vídeos de preparação que o atleta faz, e dá pra ver que tá todo mundo concentrado. Mas realmente tem muita festa em torno do surfe. Acho que isso faz parte da cultura do surfe. Festa na praia, um monte de mulher, porque todo campeonato de surfe que tu vais tem um monte de mulher. Antigamente, por não ser tão profissional o esporte, a galera acabava saindo muito mais. Acaba atraindo; é difícil você ficar concentrado com tantas coisas ao redor, mas acho que hoje em dia, apesar de ter mais público, mais festa e mais tudo, o atleta está muito mais concentrado e muito mais preparado. [Faz muita diferença na água sair pra noitada?] Faz. O mar não é uma pista ou um campo que vai estar ali. Às vezes, tu vais sair e não vais nem beber e tu vais conseguir correr e tal, tá tudo parado. No mar, tu nunca sabes de onde vai vir a onda, exige muito do físico, porque vai, volta, rema, fica em pé, não pode cair da prancha. Se o mar estiver grande, é perigoso se você estiver cansado. Então, acho que pro surfe, influencia muito o cara conseguir dormir cedo e acordar cedo pra surfar do que sair e ficar acordado até tarde.

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