Home Notícias Quentinhas “A situação das escolas públicas no estado inteiro é deplorável”

“A situação das escolas públicas no estado inteiro é deplorável”

Violência dentro da sala de aula, baixos salários, descaso do governo. O resultado? Profissionais insatisfeitos e até doentes. A vida do professor catarinense não está fácil. A categoria vem negociando, desde 2.011, a adequação das carreiras e o nivelamento dos salários de acordo com a formação dos professores. Hoje, por exemplo, um profissional formado no ensino médio que vai dar aulas e um professor formado a nível de magistério recebem o mesmo salário. O DIARINHO entrevistou Maria Goretti da Silva Pahl, representante do sindicato dos Trabalhadores em Educação de Santa Catarina (Sinte-SC) na região. Ela fala das batalhas sindicais em prol dos trabalhadores e o que pode ser feito para melhorar a vida dos professores. A entrevista foi feita por Raffael do Prado e Tassiana Campos. As fotos são de Felipe Schürmann.

“O Sinte pediu um levantamento junto ao corpo de Bombeiros aqui na nossa região. Eles visitaram cada unidade escolar. Das 44 registradas, nenhuma está regularizada com eles”

“A imagem do professor está ruim. A apresentação pessoal dele é péssima. Não tem nem mais condição pra se cuidar, para se arrumar, porque o salário não dá mesmo”

“A gente percebe, nos nossos alunos, uma falta grande de vontade de estudar, há uma desmotivação muito
grande”

RAIO X
Nome: Maria Goretti da Silva Pahl
Idade: 49 anos
Naturalidade: Itajaí
Estado civil: Casada
Filhos: Dois
Formação: Pós-graduada em psicopedagogia da educação
Trajetória profissional: Professora efetiva dos governos estadual e municipal. Hoje afastada por problemas de saúde

DIARINHO – Por que as negociações entre os sindicatos da categoria e os governantes são tão longas e tensas?
Maria Goretti da Silva Pahl –
Existem governos e governos. Eu penso que o governo de Raimundo Colombo tem sido um dos mais difíceis para nós. Tudo que o governo fizer a gente vai estar alerta, vai observar. A gente luta pela nossa categoria, pelos nossos valores, pela nossa valorização. Mas eu te diria que, neste governo, a gente está tendo dificuldade pelo descaso que ele tem com a educação. Pela maneira como ele trata o sindicato, como ele tem tratado os professores. A gente sabe que ele iniciou o governo quase com uma greve, aquela greve que teve em 2011 [de maio a julho, durou 62 dias] e talvez isso tenha gerado desconforto entre o sindicato, a educação e o governo. E o que acontece hoje: ele chama o sindicato para fazer propostas, para negociar. As audiências são marcadas, e quando aquela equipe dos sindicatos chega, simplesmente ele não apresenta a proposta. E isso desde a greve de 2.011. Nós entramos em greve porque foi estipulado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) que todo professor deveria ganhar, no mínimo, um piso nacional, que na época era R$ 1.287, se não me falha a memória. Hoje, esse piso está em R$ 1.567, porque anualmente ele é reajustado. [Do magistério, né?] É. Nenhum professor iniciando a carreira ganha menos do que isso. O governo paga. Acontece que ele [Colombo] interpretou essa lei de uma maneira equivocada e prejudicou toda a categoria. Por quê? Porque o profissional que está 20, 22, 25 anos em sala de aula, não ganha mais do que R$ 1.567. Nós tínhamos um plano de carreira até então. Elas eram divididas em níveis. Então, dependendo da sua graduação, você vai sendo valorizado financeiramente. Professor graduado, professor pós-graduado, professor com mestrado, doutorado. E essa diferença entre um nível e outro era marcante; o professor tinha vontade de aprender, estudar, se capacitar, porque havia uma diferença grande entre salários de um nível para o outro. Aí, com a greve de 2011, pra que ele pudesse dar conta de pagar esse piso nacional pra todos, ele mexeu com o nosso plano de carreira, nosso piso salarial, alterando a diferença de percentual entre os níveis. Hoje, na prática, um professor iniciante, que se formou no ensino médio, ano passado, vamos dar um exemplo assim, está quase ganhando um valor de salário de um pós-graduado. O Colombo destruiu nosso plano de carreira. Esta é nossa grande briga com o governo. Nós tínhamos que ter ganhado essa diferença de ajuste do piso em cima da carreira que tínhamos, dentro daqueles níveis. Em todos os anos, o percentual do piso nacional ele aumenta. Mas como? É o INPC [índice Nacional de Preços ao Consumidor], que seria a inflação e também o índice de custo aluno do Fundeb [fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação]. Inclusive, existem projetos para que essa maneira de calcular o reajuste do piso seja alterada, que acabe com esse índice do Fundeb, que é o que eleva um pouco os percentuais de aumento. E a tendência é que os governos acabem com esse reajuste, deixando só o INPC. Isto deixaria o reajuste em torno de cinco por cento ao ano.

DIARINHO – Qual sua avaliação das escolas públicas de Itajaí? Elas oferecem uma estrutura eficiente para o trabalho dos professores e para o aprendizado dos alunos?
Maria Goretti –
A situação das escolas públicas no estado inteiro é deplorável. A gente trabalha em más condições. Em abril, o Sinte pediu um levantamento junto ao corpo de Bombeiros aqui na nossa região. Os bombeiros visitaram cada unidade escolar. Das 44 registradas, nenhuma está regularizada, inclusive aquelas que haviam sido reformadas recentemente. Tem muita coisa errada. As escolas não têm verba para fazer manutenção, porque a escola é como a nossa casa: todos os anos tem que dar uma ajeitadinha, pintadinha, arrumar uma porta, uma torneira. Agora, imagine uma escola com três turnos usando banheiro, torneira, carteira. Ainda há os problemas causados pelo vandalismo, o que acaba prejudicando muito. E as escolas têm que se virar. As diretoras fazem rifinha, bingo, para coisas mínimas, como comprar uma janela, reformar um fio que arrebentou, uma coisa que estragou. Eu vou falar da escola onde eu trabalho. Quando eu chego em casa, a primeira coisa que faço é ir ao banheiro, porque não consigo ir àquele banheiro da escola. [Qual que é a escola?] Elisabeth Konder Reis, no bairro Cordeiros. É um trauma ir àquele banheiro, horrível. Não há papel, não há sequer uma tolha para secar as mãos. Os encanamentos são velhos, entopem. Às vezes, eu digo: tinha que detonar tudo, construir escolas novas, porque elas são construções antigas e sem manutenção. Já aconteceu de eu estar dando aula e cair fio derretido em cima da cabeça de aluno. É perigoso, nós não temos uma saída de emergência. [Os professores estão correndo perigo, então?] Todos correm perigo. Se houver um incêndio numa escola dessas… Quando ocorreu aquele caso da boate [Kiss], no Rio Grande do Sul, o pessoal ficou meio assustado. Nenhuma escola tem preparo para isso, em caso de incêndio. As escolas estão muito sujeitas a tais situações, porque as instalações elétricas estão detonadas.

DIARINHO – Recentemente, o IBGE divulgou pesquisa mostrando que o índice de analfabetos no país parou de cair, estagnou na casa de 8,5% da população. Porque não saímos deste patamar? O que fazer para zerar esse índice?
Maria Goretti – 
Essa questão não compete ao sindicato, mas aos governos, que deveriam investir nos lugares mais pobres. Nós temos áreas no Brasil que não têm escolas. Lá pelo nordeste tem lugar sem escola. E aqui mesmo, no Sul, está faltando. Agora começa a briga por vaga, nesse período de novembro. As pessoas ficam acampando dentro da escola para conseguir uma vaga para o filho. Não há vagas disponíveis, é uma novela para conseguir vaga numa creche. Então, isso é um problema sério de governo. Eles têm que priorizar essa questão da educação, eles não estão olhando como deveriam. É preciso construir mais escolas aqui, na nossa cidade de Itajaí. Vocês podem dar uma volta por aí no dia de matrícula. O pessoal vai para dormir no domingo se a matrícula é na segunda. Alguns já vão sábado à noite. Em Cordeiros, no Afonso Niehues, eles vão pra lá levando cadeira de praia, barraquinha, garrafa de café.

DIARINHO – Qual o piso salarial buscado pelo Sinte para professores do magistério? É aquele valor que você falou antes?
Maria Goretti –
O piso nacional é R$ 1.567. [Ele é praticado hoje aqui no estado?] É pago para os iniciantes, como eu falei. [Mas o iniciante é o magistério, é isso?] É, o iniciante é aquela pessoa que começou a trabalhar, se formou, vamos dizer assim, no ensino médio e vai dar uma aulinha. Ou aquele que se formou na faculdade e vai começar a trabalhar como ACT [admitido em Caráter Temporário]. [Ganha igual?] Sim, é o iniciante, aquele que nunca trabalhou e vai trabalhar. E os demais, como no meu caso, que já sou pós-graduada, nós já passamos desse limite de R$ 1.567. Na verdade eu não, porque tenho menos horas. [E qual é o valor assim magistério, pós-graduado, mestrado, doutorado, que vocês estão buscando?] Nós temos uma tabela, mas existem várias tabelas que o governo fez, que são absurdas. Mas o Sinte, em uma assembleia geral em Joinville, criou uma tabela. [magistério: R$ 1567; superior: R$ 2554,21; pós-graduação: R$ 3.055,65; mestrado: R$ 3.823, 48 e doutorado: R$ 4.967,69] E essa é a nossa sugestão ao governo. Na última reunião, dia 10 de outubro, com o secretário Eduardo Deschamps, o Sinte esclareceu que o que nós queremos é esta tabela. Trata-se de uma negociação antiga. Acontece que, para ele cumprir essa tabela, como eu falei, que dá uma diferença entre os níveis entre graduado, pós-graduado, ele vai mexer no nosso dinheiro novamente. Ele vai trocar seis por meia dúzia. O que ele quer fazer? Nós temos o nosso vencimento e também um adicional chamado regência de classe, que é um percentual que vem em cima do salário. Professor de ginásio ganha 25% e professor de primário 40%. E o que ele quer fazer? Ele quer pegar esse 25% e incorporar no nosso piso. Isso é descompactar a tabela. Esse achatamento que houve, deixando o graduado e o iniciante no mesmo nível de salário, isso a gente chama de descompactação. Para acontecer essa descompactação, ele vai ter que jogar novamente esses percentuais e dar a diferença que nós tínhamos. E ele quer fazer dessa maneira: tirar nossa regência de classe e colocar no vencimento. [E aí justifica?] Ele vai usar nosso próprio dinheiro para dizer que está descompactando a tabela. É uma enganação! É isso que o governo tem feito com a educação. Tirando de nós para dar para nós. Regência de classe na greve ele tirou fora, ninguém recebeu mais. Aí, a gente brigou no sindicato, ele começou a pagar de novo, pagou parcelado, devolveu o parcelado. Agora, ele quer tirar novamente. E tem mais uma coisa que o governo ainda está prometendo fazer, que acredito que talvez comece em 2014; é mais uma bomba. Ele quer fazer uma forma de avaliação individual para o professor ganhar aumento. O que se chama isso? É a meritocracia. A meritocracia é usada em empresas privadas. Contudo existe um lado mais negativo do que positivo. Por quê? Ela vai avaliar o professor individualmente. E essa avaliação vai ter alguns critérios, que deverão ser cumpridos pra que o professor seja valorizado e receba o aumento. Vou te dar um exemplo: eu estava indo trabalhar e caí de bicicleta e me machuquei. Aí, eu vou ter que pegar uma licença saúde, ficar uns dias afastada. Um dos critérios da meritocracia é a presença do professor. Então, eu não vou ganhar aumento naquele ano porque eu caí de moto, fiquei doente, fui operada, fiz uma cirurgia, coisa assim. É uma maneira de o governo economizar. Porque, em qualquer instituição, é impossível 100% de presença. A escola possui uma grande rotatividade, por isso sempre vai haver problema. Claro, há aqueles professores que faltam porque realmente foi necessário. Então, não se pode generalizar a coisa. E a própria escola também tem metas a cumprir, para que os funcionários daquela determinada escola ganhem aumento. A escola tem que ter um índice de aprovação de alunos. O que vai acontecer com esse índice de aprovação? A qualidade da educação vai cair mais ainda. Professor vai aprovar todo mundo, porque vai querer ganhar aumento, portanto não vai reprovar mais ninguém. E aí, o que vai acontecer? Não que o professor trabalhe para reprovar, a gente ajuda o aluno da melhor maneira, mas vai criar diante da escola um grande conflito entre os próprios professores. Por que olha, a professora Maria Goretti reprovou aquele aluno. Não vamos estragar nossas metas aqui, nós temos que aprovar tantos por cento, por causa daquele aumento, caso contrário não vamos alcançar nossa meta. É uma coisa horrível…

DIARINHO – Desde julho, o país vem convivendo com inúmeras manifestações públicas. Os professores estão participando em busca de melhores condições de trabalho e salários. Houve algum avanço desde o início dos protestos?
Maria Goretti –
O professor sempre esteve na rua. É uma das poucas categorias que sempre brigou, foi às ruas e protestou. Então, se alguém fez isso no Brasil até hoje, foi o professor. Com muita união, o pessoal vai à rua. E, desde junho, a coisa não parou. Foi algo bonito, que envolveu não só o professor, mas também crianças, adultos, o marido da professora, o brasileiro em geral. Depois disso, fizemos ainda outras manifestações. Houve uma no dia 30 de agosto, em que todas as centrais sindicais se uniram. Não sei se vocês chegaram a fazer a cobertura, mas nós fechamos a BR aqui ,em Itajaí.

DIARINHO – A senhora é a favor da eleição direta para a direção das escolas, acabando com a indicação político-partidária? Quem é contra, diz que isso poderia causar problemas aos prefeitos e governadores, visto que as escolas poderiam ser geridas por diretores não alinhados com a estratégia de governo para a Educação. O que a senhora acha disso?
Maria Goretti – O sindicato é muito a favor da eleição direta para diretores. Mas o que está sendo mostrado na mídia pelo governo não é o que a gente gostaria, porque o que ele [Colombo] está propondo é a mesma coisa que já está acontecendo. O que o governo propõe é que o diretor precisa ter capacidade, não pode chegar lá e pedir para ser eleito. Tem que ter competência, ter que ser um cara bom, diretor de escola não é fácil não. Ele tem que ter uma capacitação. E existe um curso chamado pró-gestão, que capacita diretores; inclusive, eu já fiz este curso. O problema não é o curso, qualquer um pode fazer. O que vai acontecer é que o governo vai oferecer esse curso de pró-gestão para quem já é cargo comissionado. Então, por exemplo, eu aqui, Maria Goretti, a sindicalista, a que incomoda o governo, a administração… Vão deixar que eu me candidate? Será? Não vão! Eles vão querer colocar ali quem já é cargo comissionado, quem já trabalha para o governo. Desta maneira, não serve para nada. E isso que ele está jogando aí na mídia, que vai abrir eleição pra diretor, está mesmo querendo é fazer campanha para 2014, tentando passar imagem de bonzinho, mostrando trabalho. Mas é uma enganação pura, porque não é como a gente quer, não é da maneira que deveria ser.

DIARINHO – Os cursos de licenciatura estão perdendo espaço para os cursos na área de tecnologia, engenharias e até sociais aplicadas em função da baixa procura. Por que o desprestígio do professor no mercado de trabalho?
Maria Goretti –
É verdade. Foi-se o tempo em que o professor era valorizado. Há 40 anos, ser professor era uma coisa muito bonita, o professor era muito respeitado na sociedade. E isso foi se acabando. Hoje, o professor, começando lá de cima, não é respeitado pelo governo. Ele não tem condições adequadas de trabalho, não tem um salário adequado nem para se vestir. Se o professor ficou doente, teve que fazer um eletro, um exame médico, aquele dinheiro que ele pagou no outro mês já faz falta, porque a gente está ganhando muito mal mesmo. É isso que precisa ser visto. A imagem do professor está ruim. A apresentação pessoal dele é péssima, ele não tem nem mais condição de se cuidar, de se arrumar, porque o salário não dá mesmo. O salário que nós ganhamos é só para manter o básico.

DIARINHO – Você, enquanto professora, o que diria para uma pessoa que tem vontade de encarar a profissão diante dos baixos salários e das condições oferecidas pela rede pública de ensino? Qual a principal dificuldade?
Maria Goretti –
É justamente essa questão de trabalho, de salário. Portanto, a gente está na educação por amor. E, também, a gente tem que admitir que existe um lado gratificante de ser educador: encontrar-se ex-alunos formados sendo advogados, médicos. É muito legal isso. E é mais legal ainda um aluno falar: ‘poxa, tu foste a melhor professora de inglês que eu tive, tudo o que eu aprendi sobre o inglês foi contigo’. Não existe o que pague isso para um professor. São essas coisas que levam a gente a continuar na Educação e não deixar de lutar. Porque é uma coisa de amor mesmo. Reclama, reclama, e não sai da carreira. Mas, por outro lado, nós temos uma grande parte de professores que vão trabalhar desmotivados, sem vontade. Mas assim, alguns já estão no final de carreira, não querem perder, pois faltam três, quatro anos para se aposentar. Alguns vão ‘empurrando com a barriga’. No geral, são mais desmotivados do que motivados. [O que você diria para uma pessoa que está querendo entrar nessa área hoje?] Está difícil o pessoal querer entrar. Eles preferem trabalhar pela rede municipal que tem uma valorização melhor. A procura pelo estado é baixa, tanto que nós temos uma grande falta de professor. Quando o ano letivo se inicia, nós ficamos, às vezes um mês, dois meses sem professor. [Aí entram os ACTs, né…] E mesmo assim existem dificuldades. Algumas disciplinas, como química e física, têm pouquíssimos profissores formados na área.

DIARINHO – A própria formação do professor não foi prejudicada? É comum hoje ver professores com dificuldades para práticas elementares, com deficiência até em língua portuguesa. Por que o professor está sendo mal formado?
Maria Goretti –
Eu penso que esses índices que o governo tenta mostrar de analfabetismo, de pessoas que estão sendo alfabetizadas, são o reflexo disso. Porque o governo se preocupa em mostrar índices, mas na prática não se preocupa com qualidade. Então, ele faz esses cursos que você faz pela internet, faculdade, faz tudo pela internet, aula uma vez por semana a… Isso para mim não serve. Claro, ajuda a pessoa que quis estudar um dia, que quer um diploma. Eu lembro que quando fiz o ensino médio, aprendi tudo que eu precisava saber no magistério melhor do que na faculdade, porque na faculdade me especializei em português e inglês, e não tive aquela parte de didática, de psicologia. Tudo isso eu aprendi naqueles três anos de ensino médio. E esse pessoal que faz aulas assim, semipresenciais, que algumas faculdades oferecem, infelizmente não possui conhecimento suficiente. Aquelas pessoas que já passaram da idade, ou que não estudaram por uma razão ou outra que querem voltar, devem continuar nos cursos a distância. As pessoas que frequentam estes cursos são aquelas que não tiveram a oportunidade de ter um ensino regular, todo dia. Para mim, a aula presencial diária é onde se aprende. Aula uma vez por semana, não funciona, mesmo que tu leias, estudes, porque tem que ter um professor ali, do teu lado, para te orientar. E não é só questão de conteúdo, é a questão para vida da pessoa, vida pessoal. Porque os valores que a gente adquiriu na escola são muitos. Eu, particularmente, adquiri muitos valores, aprendi muito, não aprendi só a ler e escrever. Eu lembro muito da fala, dos ensinamentos dos meus professores.

DIARINHO – Estão corriqueiros os casos de agressões e ameaças aos professores em sala de aula, seja por alunos ou pelos pais. O que há de errado?
Maria Goretti –
Principalmente no ensino médio, nos períodos noturnos… Eu penso que essa desvalorização do professor é uma coisa geral. Esse comportamento do aluno com o professor é um reflexo disso porque o aluno já não respeita o professor. Ele está tão desvalorizado que o aluno não liga mais se ele é professor ou não, não tem respeito nenhum. A gente percebe, nos nossos alunos, uma falta grande de vontade de estudar; há uma desmotivação muito grande. Entra, também, a questão da família: os pais têm que orientar os filhos, não podem responsabilizar só a escola de ensinar e de educar. A escola transmite conhecimento, mas o aluno tem que vir maduro e educado de casa. Infelizmente, ainda há muitos pais que não pensam desta maneira, e ainda jogam a responsabilidade na escola. Às vezes, o professor não consegue, o aluno só incomoda, só atrapalha. Eles não querem aprender, não têm vontade.

DIARINHO – Houve pouca evolução na forma de ensinar. As salas de aula continuam sendo um espaço onde o professor fala e os alunos ouvem em silêncio até que seja permitido o momento de falar ou de tirar dúvidas. Esse método não está ultrapassado?
Maria Goretti –
Eu também acho que está bem ultrapassado. Nós ainda temos quadro e giz, né. Algumas escolas estão no pincel, que é uma opção melhor, porque pó dá muito problema de saúde. O governo até tentou colocar alguma parte tecnológica dentro das escolas, mas na prática não funciona. Temos computadores, mas não temos internet. É tudo muito mal estruturado. Eles mandam computadores, mas as escolas não possuem nem instalação elétrica adequada para as máquinas. Ano passado, mandaram para a nossa escola 15 aparelhos de ar condicionado, aqueles de 30 mil BTUs. Ficaram lá não sei quanto tempo, porque as escolas estão velhas, a parte elétrica não comporta. A impressão que dá é que o pessoal que manda [os computadores e os aparelhos de ar condicionado] nunca entrou numa escola, porque é como eu te falo: querem mostrar na mídia que estão trabalhando, mas na prática nada disso funciona. Por isso que a educação pública não vai pra frente. Tem que começar de baixo pra cima: é preciso dar uma condição melhor para as escolas, dar uma mesa decente ao professor, verba para a diretora comprar lâmpada, porque existem salas de aula com uma lâmpada só. Tu imaginas, dar aula com uma lâmpada apenas. Aí, dizem que investem, jogam na mídia e o povo acredita. Só que, dentro da escola, não funciona. Nós temos em quase todas as escolas do estado uma sala de informática, mas poucas estão funcionando. Poucas têm profissional adequado para trabalhar nesta área. Existe profissional que está lá, contratado, mas nem o computador sabe ligar.

DIARINHO – Referente ao professor, o que ele poderia sugerir ou até mesmo mudar nas práticas de ensino?
Maria Goretti –
O professor, como se diz, se vira nos trinta. Se mata, tem que ser artista para chegar na sala, com os poucos recursos que a gente tem, e desenvolver a aula dele. Nós temos muitos professores que fazem isso, principalmente no ensino noturno, no qual os alunos já vêm cansados, pois trabalharam o dia inteiro. O professor faz isso o tempo todo, sempre busca fazer algo de diferente para chamar a atenção. Com o pouco que o estado oferece, eu acho que a gente até faz muito.

DIARINHO – Há diferenças no modelo de ensino, se compararmos escolas públicas e privadas? Ou o modelo se iguala de uma maneira geral?
Maria Goretti –
Existem grandes diferenças. Eu comparo muito com o meu filho, que está na rede particular. O ensino privado se volta muito para vestibular, encaminha o aluno para o mercado de trabalho. O ensino público é mais para a vida. Possui conteúdo também. Tanto que, se você fizer uma comparação, a nível de ensino médio entre os terceiros anos de escolas particulares e terceiros anos de escolas públicas, você vai perceber a diferença: se houver 30 alunos no particular, esses 30 já sabem o que querem ser. Na escola pública, dois ou três alunos vão fazer o Enem ou o vestibular. Os demais não sabem o que querem. É a questão de nível? De nível econômico? De vida? Talvez. Quem está num nível melhor, queira ou não, está seguindo a carreira do pai, do tio, quer ser médico, dentista, advogado. O pessoal de escola pública é mais pobre: a mãe trabalha no comércio, na GDC (Gomes da Costa), não tem expectativa de vida. Então nós, professores, temos que estar sempre estimulando esse aluno para que ele faça o Enem. Porque esse aluno não pode pagar uma faculdade.

DIARINHO – Está acontecendo com mais frequência agressões a professores. Por que isso vem ocorrendo e qual a orientação dada aos professores para não virarem alvo de violência?
Maria Goretti –
Por um lado, temos esses delinquentes na escola, essas pessoas não podem ficar sem escola. O ensino é obrigatório. Então, quando acontecem esses problemas dentro da escola, a gente tenta remediar. Não podemos dizer para o aluno que ninguém mais o quer ali. Nós tivemos um caso na minha escola, assim que vieram os computadores de informática. Ele, o aluno, tinha uma gangue, roubaram 10 computadores. O que a gente vai fazer? O aluno era menor de idade, mas nós tiramos ele da nossa escola. Mas não poderíamos deixá-lo sem escola. O que a gente fez: arrumamos uma outra escola para ele. Claro que a diretora para onde ele foi sabia do histórico e tinha que ter um pouco mais de cuidado. Não existe uma punição, já que é menor de idade. Então, estamos sempre tendo este tipo de problema.

DIARINHO – A senhora perdeu parte da audição por conta de uma bomba caseira que explodiu dentro de uma escola. Como ocorreu isso?
Maria Goretti –
Eu trabalhava no período noturno no Afonso Niehues [escola de Educação Básica Dom Afonso Niehues], foi em 2001. Antigamente, a escola atendia desde o pré até o ensino médio. Depois, ficou só o ensino médio nos três turnos: manhã, tarde e noite. Eu trabalhava 40 horas. À noite, houve uma época em que esses vândalos soltavam bombinhas. E, num dia, fizeram uma bomba muito grande. Montaram uma de fabricação caseira, colocaram dentro de uma lata de tinta fechada, dentro de um banheiro. A minha sala era ao lado do banheiro. Deu um estouro muito forte. A 50 metros deu para escutar. Aí, na hora, eu senti quando deu o estouro e eu fiquei surda, como quando a gente vai numa boate com som muito alto, aquela sensação. E a perda auditiva não dói, você não sente nada. Simplesmente vai perdendo. Depois da bomba, eu comecei a ter algumas dificuldades dentro da sala. O aluno me perguntava uma coisa e eu respondia outra. Eu comecei a pagar mico, como dizem. Aí, em 2001, abriu o concurso para o estado e eu passei, me efetivei. E quando você passa no concurso, tem que fazer uma série de exames: de voz, audição. Ali descobri que eu tinha uma perda auditiva. Mas fui aprovada pela perícia, ainda escutava, entendia bem. Ainda ouço, pois a minha perda é só com interferência de ruído. [Atingiu os dois ouvidos?] Sim, a perda foi altíssima. Na época, seria a perda equivalente a de uma pessoa de 70 anos. Bem forte. E aí eu continuei, mas a cada ano eu tinha que fazer um exame. E a cada ano minha perda aumentava. Eu fiquei alguns anos ainda trabalhando. E chegou um período em que fiquei muito incomodada no barulho. Dentro de uma sala de aula, raramente você consegue silêncio absoluto. Vai ter sempre um ou outro falando. O meu médico diagnosticou que minha perda era irreversível e ele me aconselhou a sair de sala de aula. Meu único remédio era o silêncio. Houve um processo de readaptação, fui para outra função. Desde 2006 estou na biblioteca da escola, e meu problema estacionou. Eu gostava de dar aula, era uma professora ativa, fazia coisas diferentes. E pra mim foi chocante. Você ter gás, disposição e vontade mas não poder fazer. Foi uma estupidez o que fizeram comigo. [E você sabe quem foi o autor da bomba?] Não. Essas coisas eles fazem escondidinho, e talvez nem imaginassem o mal que poderiam causar. Eu sempre passo isso para os alunos: às vezes, você faz as coisas sem pensar nos reflexos. Ele [autor da bomba] acabou com a minha carreira. Eu tinha intenção de viajar para o exterior, me aperfeiçoar no inglês. Eu desanimei de tudo, não quis mais. Por isso eu comecei a me voltar para outras coisas, como o sindicato.

DIARINHO – Cerca de 10% dos professores da rede municipal de Itajaí estão afastados das suas funções por doenças; as mais frequentes são estresse, síndrome do pânico e síndrome de Bornout. Por que os professores estão ficando doentes?
Maria Goretti –
Começa pela questão da valorização. O professor tem que se virar, dar muitas aulas para conseguir um salariozinho razoável. Tem que trabalhar 60 horas. O que é isso? Trabalhar de manhã, à tarde e à noite. Ele começa a trabalhar às 7h30 e só para às 22h30. Aí, no sábado ele corrige provas e faz planejamento de classes. Domingo também. Ele não tem vida, não tem lazer. E ainda tem a família. Fica doente, tem que comprar remédio. Começa pelo salário… É difícil trabalhar direto sem ter um conforto, passear, ir a um restaurante. O professor não pode fazer isso, gente! Ele vai, mas esse dinheiro faz falta. Às vezes, eu até fico revoltada com isso. A gente trabalha tanto e ouve: ‘tu deves ganhar muito bem, porque tu não paras de trabalhar’. É por amor à categoria que estou aqui, no sindicato. E as condições de trabalho que o professor tem: salas muito lotadas. Isso também desgasta. Isso tudo faz com que ele se desgaste, fique doente. O maior número de afastamentos é por causa da depressão. E daí parte para a síndrome de Bornout, do pânico. De 2011 para cá, esses índices aumentaram. Depois da greve geral de 62 dias, nós passamos a ter muita dificuldade dentro das escolas com os diretores. Até hoje, estamos sendo muito massacrados pelos diretores, a mando do governo. Nós fizemos a reposição da greve, trabalhando até o dia 5 de janeiro [de 2012], mas temos muita dificuldade com a negociação com diretores. É uma opressão grande. Aquele clima de cortesia e amizade não tem acontecido dentro da escola. O professor está insatisfeito, e o diretor, que é funcionário do governo, defende o governo.

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