Não se animem nem se assustem: é foto antiga, do tempo em que o Valdir Raupp era presidente do PMDB. Mas achei interessante porque mostra os dois “adversários” numa das muitas ocasiões em que “fizeram as pazes”. Mauro Mariani à esquerda, Dr. Moreira à direita

Neste final de semana fiz uma brincadeira, nas tais “redes sociais”. Publiquei lá essa provocação:

“A experiência histórica comprova que se Lula, de fato, mostrar-se competitivo para 2018, com chances reais, poderá ter, como aliado fiel e base de apoio confiável, o PMDB. Ou melhor: quem quer que tenha chances de chegar ao poder, de qualquer partido, terá sempre a seus pés, pronto para fazer parte da “base” e assumir ministérios e estatais, o PMDB.”

É claro que há, dentro do PMDB, como em boa parte dos partidos políticos, gente direita, que talvez abomine o fisiologismo, a negociata e o jogo do poder pelo poder. Mas a imagem pública do PMDB é essa e antes que eu tivesse tempo de me arrepender de ser tão “injusto” com o partido, leio sobre os “preparativos” do PMDB catarinense para 2018 e lá está, novamente, a piada pronta.
Como vocês sabem, o PMDB-SC está atuando em duas frentes. Alguns dizem que há uma disputa interna, outros que é estratégia de ocupação de espaços e o certo é que, no fim, estarão todos juntos. Isso de ficar de mal, discutir nas redes sociais, xingar em mesa de bar, é para a militância, para os ingênuos. Na cúpula, eles sempre dão um jeito para bater a porta sem trancar e sacudir a ponte sem derrubá-la.
Pois bem: a ala do vice-governador, Dr. Moreira, se prepara para assumir o governo, porque o João Raimundo planeja renunciar para concorrer ao Senado. A grande dúvida é se assume ainda este ano ou só no começo do próximo. E, discute-se se, depois da interinidade, comporão com o candidato do PSD ou não. Teoricamente há uma aliança bipolar: o eterno vice continua vice e apoia o candidato beneficiado pelos muitos recursos e bons préstimos da Assembleia Legislativa.
Já na ala do Mauro Mariani, presidente do partido no estado, a turma não quer saber de vice perpétuo e postula uma candidatura própria. Não por acaso, o famoso “quem?” Mariani. Que, segundo informa o colunista Roberto Azevedo, “com 20 anos de mandato (como prefeito e deputado) está pronto para governar e não tem processos contra ele”.
Portanto, o PMDB-SC está pronto para participar do próximo governo, qualquer que seja ele. Se o queridinho do PSD do João Raimundo estiver bem nas pesquisas e tiver chances reais, já tem uma aliança costurada. Se a candidatura governista fizer água, o partido lança uma candidatura “de oposição”. Ainda que tenha estado no governo por mais de uma década.
Então, caros amigos e caras amigas, a brincadeira que fiz, sugerindo que o Pacional vive agarrado ao poder e que, seja quem for o presidente ou a presidente ele sempre estará lá, poderia ser feita também aqui em Santa Catarina.
Não deixa de ser um bom sinal: em tempos de instabilidade, de insegurança, de suspeita de golpe e de ânimos exaltados (petralhas contra coxinhas), sai governo, entra governo, o PMDB é um partido que mantém-se firme, continua onde sempre esteve e, até onde a vista alcança, continuará: no poder.

Não se animem nem se assustem: é foto antiga, do tempo em que o Valdir Raupp era presidente do PMDB. Mas achei interessante porque mostra os dois “adversários” numa das muitas ocasiões em que “fizeram as pazes”. Mauro Mariani à esquerda, Dr. Moreira à direita

A nuvem tá carregada e separar o falso do verdadeiro não é fácil!

Estudo e trabalho com jornalismo e comunicação desde o século passado, por uns 47 anos. E, durante todo esse tempo, um tema ressurge sempre que se fala ou pesquisa, a sério, sobre os meios de comunicação: não basta saber ler, ou ter uma compreensão razoável do que está sendo dito. É preciso ser “alfabetizado” na leitura de notícias. Mesmo que sejam notícias de TV ou rádio, em que basta ouvir ou ver, é preciso saber decifrar essa maçaroca de informações.
Agora, que “todo mundo” produz conteúdo e coloca, nas redes, todo tipo de coisa (às vezes tentando dar uma aparência de “notícia séria” e outras vezes pregando mentiras na caradura), a coisa fica ainda mais complicada. Como posso ter certeza que não estou fazendo papel de otário?
Os jornalistas tinham uma legislação que, bem ou mal, regulava o exercício profissional. Mas, a partir de 2009, o Supremo Tribunal Federal considerou inconstitucional “a exigência do diploma de jornalismo e registro profissional no Ministério do Trabalho como condição para o exercício da profissão de jornalista”.
De lá pra cá qualquer pessoa pode exercer profissionalmente o jornalismo, mesmo sem ter qualquer diploma ou escolaridade. Não que isso faça grande diferença. Afinal, os jornalistas nunca tiveram um órgão de classe, como a OAB (dos advogados) ou os CRM (dos médicos), que pudesse fiscalizar a qualidade do ensino e da prática e punir eventuais desvios.
O “mundo” das notícias, então, é uma área em que tudo é possível. E, se olharmos com atenção veremos que, de fato, acontece de um tudo. Do mais absurdo ao mais idiota, da mentira mais deslavada ao relato fidedigno e bem apresentado.
Nessa selva, como saber se não estamos sendo feitos de tolos? Como separar o joio do trigo? Como saber que diabos é esse tal de joio?
Essas dúvidas eram frequentes na época da ditadura, com parte da imprensa sob censura prévia e o governo mandando recados, para os veículos de comunicação, sobre o que podia e o que não podia ser publicado.
Agora não há censura explícita, mas há pressões comerciais e políticas que sempre tentam fazer com que os jornalistas se auto-censurem. E embora a internet permita a circulação mesmo de informações que a mídia tradicional não quis publicar, ficamos num dilema atroz: em quem confiar? Nos veículos tradicionais, cujos inimigos dizem que estão “vendidos”, nos sites “independentes” que em geral defendem uma causa (e de independentes não têm nada), nos jornalistas desempregados que publicam seu material na internet?
Não tem resposta fácil para isso. No século passado, ainda durante a ditadura, participei de alguns seminários em que se discutia, com espectadores de TV e leitores de jornais, como “ler” as notícias. Como que uma notícia vira notícia? Como saber o que é opinião e o que é informação? Qual o papel dos repórteres, dos editores, dos donos dos meios de comunicação? Enfim, uma espécie de feijão com arroz da produção de notícias, para que o leitor ou espectador fique mais atento e não seja enganado com tanta facilidade.
Talvez esse seja um serviço público que os jornalistas e os cursos de jornalismo poderiam prestar, para mostrar que se importam com seu cliente, o consumidor de notícias.

Ontem eram parceiros em um projeto comum de poder, hoje querem fazer-nos crer que um deles era um santo, que não sabia nem participava de nada

Durante os governos Lula e Dilma, a militância e os fãs recebiam muito mal as críticas. E agora, no novo regime, teoricamente oposto ao anterior, as críticas são igualmente mal recebidas.
Enquanto antes todos os que ousavam dizer que o rei estava nu eram qualificados de esbirros da direita, viúvas do FHS ou coisa parecida, agora quem quer que insinue que o rei tem pés de barro é chamado de esquerdista petralha (mesmo que nunca tenha sido nem simpatizante do PT), viúva do Lula e quetais.
É impressionante, para quem não tem foto nem do Lula nem do Bolsonaro na parede do quarto, constatar como os políticos, à esquerda e à direita, do antigo e do novo regime, são parecidos no talento de afastar, dispensar e dividir. Como se precisassem apenas dos votos dos seus militantes. Como se conquistar, atrair, seduzir e unir não fossem tarefas importantes na política.
Não é curioso?
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Tentarei ser mais claro: se eu tenho um projeto para o país e quero ser eleito para poder implantá-lo, preciso começar arregimentando o maior número possível de eleitores. Se conseguir entusiasmar uma multidão e se esses, tendo gostado do projeto, começarem a falar bem dele e a tentar convencer mais alguns, é possível que dentro de algum tempo eu tenha votos suficientes. Essa é a teoria, isso é política.
Na prática, a gente assiste os partidos e os políticos fazendo pouco, desdenhando de quem ainda não faz parte dos seus currais. Não se vê, em nenhum momento, uma tentativa de diálogo, de aproximação, para fazer-me mudar de ideia, para mostrar que o lado deles é mais bacana que o lado que hoje eu penso ser legal.
Acho que o Lula tem defeitos, a Dilma foi um desastre, mas vários pontos do projeto defendido por eles valem a pena conhecer melhor. Nos muitos anos em que eles estiveram no poder, cada vez que eu falava sobre os defeitos de um ou de outro, recebia uma enxurrada de xingamentos e nenhuma tentativa de mostrar que, apesar disso ou daquilo, existia aquiloutro, que era mais importante.
E também se via zero de autocrítica e de humildade. Afinal, não devo aderir ao projeto porque o projeto é bacana. Mas, se eu sou um cara bacana, abraço a causa. Se não a abraço, sou um canalha.
Derrubaram a Dilma, as ratazanas que tinham pulado do barco quando ele começou a fazer água voltaram ao “pudê” e as coisas continuam exatamente as mesmas. Cada vez que eu falo sobre os defeitos do Temer e de seu exército conservador, recebo uma enxurrada de xingamentos e nenhuma tentativa de mostrar que, apesar disso ou daquilo, existe aquiloutro, que é mais importante.
E, claro, continuam, os poderosos da hora, vivendo zero de autocrítica e de humildade. Afinal, não devo aderir ao projeto porque o projeto é bacana. Mas, se eu sou um cara bacana, abraço a causa. Se não a abraço, sou um canalha.
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Ah, claro, se eu critico o governo interino, é porque sou defensor “dos maiores corruptos que já existiram”. Mesmo que, durante o governo “deles” eu os tenha criticado em público e esses, que agora saem do armário e botam as manguinhas de fora, estivessem silenciosos, à espera de alguma boquinha (afinal, seus ídolos pertenciam à “base de apoio” do governo que hoje odeiam).

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*Coluna publicada às terças-feiras. Acompanhe o Blog do Cesar Valente em www.diarinho.com.br.

Ilustração publicada aqui, pela primeira vez, em 17 de agosto de 2005. Um dia a coisa chegaria ao Lula.

No longínquo ano de 2005, quando comecei a publicar diariamente a coluna “De Olho na Capital” aqui no DIARINHO, a coisa já fervia. Iniciava a série de denúncias que depois se transformaria no escândalo chamado “Mensalão”. E, aqui, ia fazendo o registro dos principais fatos. Na época, pouca gente dava bola pra isso. A maioria achava Lula o máximo e tudo era intriga da oposição.
Pra variar, em agosto de 2005 teve capa da Veja falando em impeachment do Lula por causa das denúncias e das investigações. E, para que vocês sintam o clima que se instalava, o ínclito deputado Cesar Souza (pai, ex-PFL), em seu programa “popular” de TV, descia o cacete no presidente e fazia enquete para saber se seus telespectadores aceitavam ou não o pedido de desculpas de Lula.
Sim, naquela época, Lula pediu desculpas pelos desvios cometidos pelos “aloprados” do seu partido. Ele garantiu que não sabia de nada e disse ter sido traído.
O que é mais curioso (ou até engraçado), para quem acompanhou os fatos políticos e policiais daquela época é ver hoje o espanto de tantos com o que está sendo revelado pela “Lava-jato”. Lendo comentários nas redes sociais tem-se a impressão que muita gente está mesmo convencida que a corrupção foi inventada pelo PT e que não existe ninguém, no país, ou no mundo, mais corrupto que o Lula. O que é um absurdo, uma falta completa de informação, inteligência e cultura. Ou então um excesso de má fé.
E, se a criatura acredita que, com a deposição da Dilma e a saída do PT do poder o governo se purificou, com Temer à frente e Jucá por trás, aí então já é caso de burrice mesmo. Ou idiotia.
A corrupção tem a idade da humanidade. E é encontrada em todos os países do mundo. No Brasil, lamento informar, manchetes falando sobre políticos ladrões são publicadas desde a chegada dos portugueses (não eram antes porque os nativos não imprimiam jornais).
Lula, com seus companheiros, tinha (tem?) um projeto de poder e precisava ampliar sua base para poder ir adiante. Como os possíveis aliados eram gente acostumada ao tomalá-dacá, Lula e o PT entraram no jogo. A certa altura, interesses contrariados produziram os dedo-duros que desencadearam o processo do “Mensalão”.
E, depois, numa conjuminância de interesses, os da banda podre somaram a fome com a vontade de comer e resolveram, em vez de ser apenas aliados, levando as sobras, tirar o PT da jogada, assumir o governo e ficar com a parte do leão. Estimularam os dedos-duros e abriram uma torneira que cumpriu sua tarefa, mas está difícil de fechar e vai acabar afogando mais gente que o planejado.
Lula não é pior nem mais ladrão que a maioria dos que estão agarrados nas tetas que o Temer ajuda a ordenhar. Dentre todos, Lula era o que tinha projetos de inclusão social mais interessantes. Mas essa preocupação com os mais pobres não é garantia de indulto ou de inimputabilidade. Ao contrário: é agravante.
Em resumo: no momento em que se aliou com o que havia (há) de pior na política nacional, Lula e o PT assumiram um risco. E agora, julgados e condenados pelo tribunal de exceção que sustenta a tomada do poder pelos sem-votos, não podem nem dizer, sobre os riscos que corriam, aquela frase proferida tantas vezes, anos afora: “eu não sabia!”

Problemão! Será que tem como desratizar o Congresso Nacional?

Nas últimas semanas temos visto estampado nos jornais e dito com todas as letras, áudios e vídeos na TV e na internet, o que já sabíamos (ou desconfiávamos) há décadas: o sistema político que sustenta a nossa jovem democracia está infestado de cupins. E, pelo jeito, não escapa um.
Um sistema político atacado de corrupção endêmica é um enorme problema, uma situação grave e complicada. Tal e qual um câncer. Sabemos que em alguns casos os doentes, depois de severos tratamentos de quimioterapia e radioterapia, quando não com alguma cirurgia, conseguem a cura. Mas nem todos.
Nossa primeira reação, inflamados de indignação, é acabar de vez com os políticos. Fechar os parlamentos. Colocar todos na cadeia, em trabalhos forçados, além de tentar recuperar o que foi roubado.
Mas, assim que o sangue esfria um pouco, surge a pergunta fatal: e colocar o que no lugar? As experiências anteriores não deram bons resultados.
Isso de criminalizar a política e os políticos sempre que eles caem na tentação de enfiar a mão no baleiro e encher os bolsos, alivia momentaneamente a nossa justa irritação, a nossa raiva de contribuintes/eleitores enganados. Mas não resolve nosso problema principal: o Brasil é um grande país (em todos os sentidos), com uma estrutura complexa, que precisa ser administrado e governado, de preferência, democraticamente.
Quando experimentamos colocar militares no poder, vimos que eles acabaram agindo politicamente. Representando, em muitos casos, apenas os interesses dos civis que os apoiavam, mas fazendo exatamente o que mais abominavam nos políticos que marginalizaram, cassaram e manietaram.
Ou seja, criminalizar a política não deveria nos interessar. Porque isso só serve a alguns poucos grupos. A população, dos mais pobres aos mais ricos, sempre sofre em regimes autoritários ou totalitários. Não é bom pra ninguém.
Por pior que seja, a democracia ainda é o melhor sistema. Com todos os seus defeitos, é fundamental que os políticos tenham medo do povo, que pensem duas vezes antes de contrariar seus eleitores, que levem em conta o que ouvem dos seus vizinhos e conterrâneos, quando visitam “as bases”.
Localizar os ladrões, afastá-los da política, recriminar os malfeitos, xingar os omissos e cobrar dos que se dizem decentes uma atitude mais clara em defesa da vergonha na cara, são tarefas importantes e urgentes. E, junto com isso, saber distinguir a política, atividade necessária e na qual todos devemos nos envolver, dos políticos rastaqueras, venais e vasilhas que se corrompem e emporcalham tudo em que tocam.
Desconfiem, por favor, de todos os que, embalados por esse mar de lama que emerge das delações, quiserem acabar com os parlamentos e mudar o regime. Das duas, uma: não estudaram História e estão falando tolices que ouviram por aí, ou pretendem locupletar-se, ocupando os lugares que ficarão vagos. E isso não nos serve, porque queremos um país governado por gente decente que preste contas dos seus atos e respeite a vontade da maioria. E não simplesmente trocar um bando de corruptos eleitos por um bando de corruptos indicados sabe-se lá por quem.
É, a coisa é difícil, complicada e aparentemente sem solução imediata. Mas quem disse que seria fácil colocar um país do tamanho do Brasil nos eixos?
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*Coluna publicada às terças-feiras. Acompanhe o Blog do Cesar Valente em www.diarinho.com.br.

Semana santa. Santa?

Os sessentões decerto lembram do tempo em que, na sexta-feira santa, o rádio tocava música clássica (genericamente chamada de “música sacra”). Em casa, a gurizada precisava falar baixo, nada de cantoria e muito menos de xingamentos. Afinal, era um dia de luto.
Como contam as Escrituras, “já era mais ou menos meio-dia, e uma escuridão cobriu a terra até às três da tarde, pois o sol parou de brilhar”. A coisa era séria e grave, pro dia ter virado noite. Nas igrejas, as imagens estão cobertas com panos roxos. Mesmo bares e restaurantes que se gabavam de funcionar o ano todo, todos os dias, na sexta-feira santa fechavam.
Era o feriado mais “pesado” dentre todos. Até a comida era diferente. Sem carne, sem exagero. Clima de velório mesmo.
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Depois, a coisa foi mudando, afrouxando, e a sexta-feira santa virou um feriado comum. Com todas aquelas ousadias profanas dos demais dias. Música alta de todo tipo. Brigas, palavrões, comércio, agitação e os pecados de sempre.
Parece que ninguém mais liga para o fato de terem crucificado Jesus. Muito menos para o dia em que é lembrada a tortura e morte dolorosa daquele que mandava que nos quiséssemos bem.
João, o evangelista, conta, a propósito do que Ele dizia, o seguinte:
“Quem possuir bens deste mundo, e vir seu irmão sofrer necessidade, mas lhe fechar o seu coração, como pode estar nele o amor de Deus? Meus filhinhos, não amemos com palavras nem com a língua, mas por atos e em verdade”. (I Jo 3, 17-18)
E tem aquela, famosa, do que Ele teria deixado como mandamento:
“Se alguém disser: – Amo a Deus – mas odeia a seu irmão, é mentiroso. Porque aquele que não ama seu irmão, a quem vê, é incapaz de amar a Deus, a quem não vê. Temos de Deus esse mandamento: o que amar a Deus ame também o seu irmão”. (I Jo 4, 20-21)
É… de fato, imersos nisto em que transformamos o mundo, não faz sentido reverenciar o dia em que Jesus foi morto pela primeira vez. Assim como também perderam o sentido o sábado de aleluia e a Páscoa.
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Nossos ódios diários matam o amor e seus profetas todos os dias. E é claro que não iríamos permitir que ressuscitassem ao terceiro dia. Coelhos saem de todas as tocas, toneladas de chocolate entopem todos os sentidos, fortunas são depositadas nas caixas registradoras dos templos de consumo para que a tal ressurreição, se ocorrer, nem seja notada.
Em todo caso, cá no meu canto, remoendo as lembranças distantes, do tempo em que o mar vinha até aqui e ali pra cima era tudo mato, acho que vou fazer na sexta-feira pelo menos um minuto de silêncio. Nem tanto pelo Jesus esse de quem tantos falam tanto e tão poucos entendem a mensagem, mas principalmente por nós todos.
A gente está conseguindo, com espetacular competência, matar a esperança. Os bens preciosos da cultura, do entendimento, da cordialidade e da boa convivência estão escasseando assustadoramente. Deixaremos, para nossos filhos, um mundo pior do que aquele que encontramos.
Triste, né?

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*Coluna publicada às terças-feiras. Acompanhe o Blog do Cesar Valente em www.diarinho.com.br.

Experimenta puxar um. Sempre vem outro agarrado.

Quando, no começo do século, o Roberto Jefferson dedurou os esquemas de corrupção nos Correios e a coisa começou a esquentar, aparecendo os podres à medida em que se levantavam os tapetes, uma imagem veio logo à mente de muitos: o balaio de siri.
No litoral catarinense, mais especificamente na Ilha de Santa Catarina, sempre que uma coisa tá muito enrolada e que um fato leva a outro, tudo encadeado, a gente fala que se trata de um balaio de siri. Experimenta pegar um siri: ele se agarra no outro e o outro no outro e fica uma penca de siri sem fim.
Para nossa tristeza, estão puxando siris do balaio desde 2005 e não se sabe se vão conseguir chegar ao fundo, se é que esse balaio tem fundo.
Puxaram os siris ladrões do governo Lula, depois siris do governo Dilma e acabaram puxando o tapete da própria Dilma. Pra que? Para que siris graduados assumissem o poder. Quem tinha a doce ilusão de que a corrupção era localizada e que os siris fossem todos da mesma cor, deve estar meio desanimado: a penca continua, todo dia aparece um siri novo, puxado pelo siri anterior.
E, claro, também são vários balaios. Esse balaio dos Tribunais de Contas e das empresas de transporte coletivo, que destamparam no Rio de Janeiro, pode render muito. Tem muito siri graúdo nos tribunais. Em todos. Ou quase todos. Só precisa começar a puxar.
Ao fim e ao cabo, está tudo misturado: a corrupção descarada, da propina, e o pouco caso que alguns fazem da política. Ou vocês acham que esse troca-troca de pai e filho, promovido no governo estadual, não tem nada a ver com o fato de partidos políticos aceitarem um “por fora” em suas campanhas eleitorais?
Pensem bem: que tipo de consideração pode ter pelo interesse público, pelas necessidades do eleitor e do Estado, um deputado que deixa o mandato para o qual foi eleito, para “guardar lugar” numa secretaria para o filho, que iria deixar (pela porta dos fundos) a prefeitura de uma capital? E que tipo de respeito pela coisa pública pode ter um governo que permite que o prefeito que desistiu de concorrer à reeleição, volte a ocupar uma secretaria de onde saiu à sombra de uma nuvem de suspeitas.
É nesse clima de faz de conta (eles fazem de conta que respeitam o eleitor, o eleitor faz de conta que vota conscientemente e os órgãos de fiscalização fazem de conta que as contas fecham) que uns e outros resolvem encher os bolsos. Deles e de suas famílias. Legalmente, em muitos casos (afinal, as leis são feitas por eles mesmos ou seus amigos) ou ilegalmente, quando necessário (até que se consiga mudar a lei), o roubo, a pouca vergonha, a desfaçatez parecem ser dominantes. E a honestidade, exceção.
Talvez por isso tenhamos tão poucas esperanças de que a corrupção seja reduzida a níveis civilizados e que os políticos (e demais servidores públicos) passem a ter medo de roubar nosso dinheiro. Parece que o balaio de siri (ou os vários balaios), são do tamanho do Brasil. E sem fundo.

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*Coluna publicada às terças-feiras. Acompanhe o Blog do Cesar Valente em www.diarinho.com.br.

A Polícia Militar de Santa Catarina está realizando ações educativas, nas escolas, para tentar mudar a forma como a tradição da farra é vista pelas novas gerações. Talvez essa seja a maneira mais eficaz de reduzir a violência contra os animais

Quem me lê sabe que mexo com este assunto há muitos anos. Em 1988, quando era editor do jornal O Estado (na época o jornal de circulação estadual mais lido e com maior influência) tive que lidar com uma enxurrada de cartas que ONGs de todo tipo e pessoas de todas as índoles (a maioria do estado de São Paulo) enviaram, protestando contra essa barbárie.
A maioria dessas pessoas e entidades, claro, nunca participou da brincadeira (sim, sim, brincadeira) e só tomou conhecimento dela por intermédio de imagens, veiculadas na TV, em que um boi era torturado e alguém explicava que isso era a “farra do boi”. Claro, ninguém em sã consciência pode defender a tortura de animais (ainda que, nos fins de semana, asse uma picanha que foi extraída de algum animal morto).
De lá pra cá parece que se consolidou a ideia de que “farra do boi consiste na tortura e morte de animais”. A “farra” não era isso e os mais velhos que conhecem a tradição sabem que não. O que não faz diferença, porque todo ano voltam a acusar os catarinenses de serem bárbaros torturadores.
O fato é que, em muitas localidades, onde a “farra” estava quase se extinguindo porque a gurizada estava preocupada com outras coisas e os mais velhos não tinham mais ânimo pra brincar, a coisa ressurgiu com redobrada violência, porque passou a ser proibida. E ficam torcendo para que a polícia (e/ou a TV) apareça: a transgressão fica completa.
Foram alguns bandidos, doentes da cabeça que gostam de maltratar os bois (e os demais animais, pessoas incluídas) que deram à “farra” a fama e as imagens que tornam sua defesa impossível. Estes talvez até possam ser tratados a cassetete e sob os rigores da lei. Mas não toda a comunidade litorânea de origem açoriana.
Esse povo, formado na sua maioria por gente hospitaleira, generosa, simples e solidária (sim, solidária) deve ser tratado com o respeito que todos merecemos e queremos para nós mesmos. Afinal, estamos pedindo a um velho pescador, que durante 60 anos ou mais, sempre participou da brincadeira (sim, brincadeira), que deixe de achar que aquilo é normal, bom e divertido. E mais, queremos que ele diga a seus netos que eles não devem brincar.
Convencer esse pessoal que o que eles fizeram a vida toda é considerado uma “boçalidade medieval” é tarefa educativa. Difícil e delicada como foi fazê-los acreditar que o médico talvez resolvesse melhor os problemas de saúde que as benzedeiras.
Em todo o mundo há práticas atrasadas ou tradicionais que precisam ser modificadas para que a civilização avance. Não digo que se deva manter essas práticas simplesmente porque são tradicionais. Só digo que, porque são tradicionais, é mais difícil fazer com que sejam modificadas.
Essa tarefa exige mais inteligência, mais esforço, mais amor e mais dedicação do que para modificar outras práticas. E só cassetete, spray de pimenta ou alguns meses ou anos numa cadeia superlotada não são as ferramentas apropriadas para fazer a civilização avançar.
Portanto, meus caros, para quem não faz parte da corrente do ódio e está sinceramente preocupado com a correção desse desvio, o jeito é arregaçar as mangas e trabalhar sério. Como tanta gente já vem fazendo (veja foto). Na porrada não iremos a lugar nenhum.

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*Coluna publicada às terças-feiras. Acompanhe o Blog do Cesar Valente em www.diarinho.com.br.

Achavas que isso era “natural”?

“Mãe, mãe, vi no facebook que botam animais mortos na salsicha, e até cabeça de porco!”
O espanto do guri, no sábado, deixou a mãe assustada. Terminou de se servir dos pertences da feijoada (uma delícia, tinha rabinho de porco, paio, pé de porco, orelhinha de porco, língua de boi defumada, costelinha…) e sentou-se, ainda espantada com a revelação.
“Que horror!”
“E tem mais, pra disfarçar a podridão da carne, colocam ácido ascórbico e pra aumentar o peso do frango, colocam água!”

* * *

O estrago provocado pela divulgação, feita de forma irresponsável, dos resultados da Operação Carne Fraca, é imenso. Não que os malfeitos não devam ser apurados e divulgados amplamente. Mas é preciso que os denunciantes tenham um mínimo de conhecimento técnico e bom senso, pra não misturar alhos com bugalhos.
Vamos lá, mexer um pouco nesse angu de caroço.

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Desde que as salsichas foram inventadas que se sabe que ela é barata porque é feita com o que sobra num frigorífico. E nem é segredo: tá escrito no rótulo. Já com as linguiças, que são bem mais antigas, a coisa é parecida. Mas na linguiça, que literalmente leva “de um tudo”, os ingredientes não são tão processados, nem moídos, de tal forma que, se a gente tiver curiosidade, consegue descobrir o que tem dentro.
A salsicha (como o tal de nugget e o “apresuntado” é uma massa colorida artificialmente, com conservantes, estabilizantes e uma boa porcentagem de carcaça (aquelas cartilagens e ossinhos onde sobra um pouquinho de carne, depois que os filés foram retirados), que é a tal de “carne mecanicamente processada”.
Fiz um favor pra vocês. Li (com lupa, porque as letras são beeem pequenininhas) e transcrevo aqui, o que está escrito no rótulo de uma salsicha hot dog de marca famosa:
“Carne mecanicamente processada de ave (frango e/ou galinha e/ou peru), carne suína, carne de peru, água, proteína de soja, amido, pele de frango, sal, páprica doce. Aromatizantes: aromas naturais de alho, pimenta, fumaça, noz-moscada, orégano, fermento, carne suína e carne de frango e aroma idêntico ao natural de carne. Reguladores de acidez: lactato de sódio e citrato de sódio. Estabilizantes: tripolifosfato de sódio e profosfato dissódico. Realçador de sabor: glutamato monossódico. Antioxidante: isoascorbato de sódio. Conservador: nitrito de sódio. Corantes: carmim de cochonilha e urucum. Não contém glúten. Alérgicos: Contém derivados de soja.”

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Aí a criatura passa anos comendo isso e achando ótimo. De repente, se espanta porque descobre que, ao moer a carcaça, incluíram também a cabeça do animal. E que produtos químicos são usados como conservantes! Ora, o ácido ascórbico (também conhecido como vitamina C) é o menor dos seus problemas alimentares, minha senhora!
Tem fraude? Claro. “Todo mundo” que já descongelou frango notou que, em algumas marcas, parte do peso é água congelada. Fraude se combate com fiscalização honesta, rigorosa e constante.
“Ah, mas tem fiscal corrupto, que aceita propina dos desonestos”. Pois então, esse deveria ser o foco da “operação”. Porque a gente só vai ter alguma segurança, se puder confiar no serviço de inspeção. O resto é perfumaria. Aromatizantes artificiais. Fumaça.

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*Coluna publicada às terças-feiras. Acompanhe o Blog do Cesar Valente em www.diarinho.com.br.

Mauro Mariani e Dário Berger: “PMDB-SC é limpinho”

O POLÍTICO LIMPINHO
O Senador Dario Berger fez importantes revelações, numa entrevista ao jornalista Moacir Pereira. Disse, por exemplo, que o Mauro Mariani é o candidato dele a governador em 2018 porque “está preparado, conhece o Estado, está limpinho e não tem nenhum processo”. Não é fantástico? Ser limpinho virou um “diferencial” de campanha.
O Senador está firmemente convencido que esse será o adjetivo do futuro. Utilizou-o também para afirmar que o PMDBão tem nada em comum com o PMDB Nacional. Disse ele: “Uma coisa é o Pacional e outra é o PMDB catarinense. (…) O PMDB catarinense está limpinho e não tem nenhum investigado na Lava-Jato”.
Mas será que o que o Senador entende por “limpinho” é aquilo que a gente entende? Não sei, tenho a impressão que ele se referia unicamente à Lava-jato (operação que, como sabemos, não faz muita questão de cobrir todo o espectro político, concentrando-se em certos alvos preferenciais).
É possível que, se a gente olhar com atenção, encontre nas fichas, prontuários e currículos de políticos do PMDB-SC (como das demais siglas), pecados de diferentes tamanhos e com diversos níveis de gravidade. Pequenas ou grandes manchas, algumas nódoas, sujidades diversas que resistem às lavagens, pingos de catchup, respingos de gordura… E aí, só com muito boa vontade e certo grau de miopia poderíamos classificar como “limpinhos”.

O INDICADO CONDENADO
Por falar em político limpinho, vocês sabem que o prefeito de Florianópolis, Gean Loureiro (PMDB Limpinho), tem no senador Dário Berger mais do que um amigo, praticamente um tutor. Um pessoal maledicente até dizia, meio brincando, meio a sério, durante a campanha, que “Gean eleito, Dário prefeito”.
Pois bem. Há uns 20 dias o Gean nomeou, como secretário adjunto da secretaria de Segurança Pública do município, o ex-PM Sílvio Odair de Souza. Não por coincidência ele ocupara o mesmo cargo quando Dário Berger foi prefeito. E eram tão ligados que até foram condenados juntos por improbidade administrativa.
O caso é muito interessante. Segundo a denúncia do Ministério Público de Santa Catarina, em setembro de 2010 “um carro do Instituto de Planejamento Urbano de Florianópolis (Ipuf) foi parado pela Polícia Rodoviária Federal. O veículo tinha placas frias e dentro foram encontrados R$ 1.850 em dinheiro e material de propaganda de candidatos. O carro era dirigido pelo terceiro réu no processo, Alcebíades Pires, que morreu antes da condenação. O outro ocupante era Souza”. O veículo ficava à disposição de Dário Berger. Um bem público, com placas irregulares, usado para fins políticos… deu no que deu. A condenação de ambos, em primeira instância, está agora em grau de recurso.
Pois bem, o prefeito Gean, apesar da pressão e da grita geral, manteve a nomeação do condenado por duas semanas. Mas, no último dia 11 o ex-PM foi exonerado. Segundo a prefeitura, “ele pediu pra sair por motivos pessoais”. Não consegui saber se alguém mandou ele tomar banho.

*Coluna publicada às terças-feiras. Acompanhe o Blog do Cesar Valente em www.diarinho.com.br.

Comandante-Geral da Polícia Militar de Santa Catarina, Coronel Paulo Henrique Hemm

Nasci em Florianópolis há sessenta e tantos anos e nunca tinha visto, nos arredores do Mercado Municipal, um corpo estendido no chão, executado por seis tiros, ao sol da manhã. Esse assassinato, no último dia 3, foi uma audaciosa demonstração de certeza de impunidade. Dia claro, local movimentado, centenas de testemunhas, nada amedronta quem tem a cada vez mais corriqueira tarefa de cumprir sentenças de morte.
Mas a sexta-feira, que começou com sangue na calçada do Mercado, continuou feroz. À tarde, na área externa do Shopping Florianópolis, um homem foi assassinado. À noite, mais uma execução no Monte Cristo (no Continente) e a quarta morte do dia em Ratones (norte da Ilha).
Florianópolis não tem os índices de violência mais altos do país, mas já não pode mais ser considerada uma pacata e segura cidadezinha, em que as tardes de verão só sejam sacudidas pelas trovoadas de final de tarde.
A coisa mais fácil, nestes tempos de abundância de pitacos, opiniões e “verdades” absolutas é arrotar alguma fórmula milagrosa e identificar, entre quem estiver mais à vista, os “culpados” por “tudo isso que aí está”. E a mais difícil é ter paciência para tentar entender uma cunjuntura cada vez mais complexa e cruel.
Curiosamente, no governo estadual, uma das vozes mais sensatas e certeiras, ao comentar o problema da segurança pública, tem sido a do Comandante-Geral da Polícia Militar de Santa Catarina, Coronel Paulo Henrique Hemm.
Disse ele, em uma nota oficial, em janeiro (os destaques são meus): “Uma comunidade que convive com os problemas de segurança relacionados ao tráfico de drogas necessita de educação, saúde, assistência social, infraestrutura, justiça, direitos humanos, entre outros órgãos que promovam a inclusão social dos seus habitantes. Não havendo estas presenças, torna-se comum que o tráfico e a criminalidade se instalem e utilizem estas necessidades como arma de controle, trazendo sensação de insegurança para o “cidadão de bem”, que só percebe a presença do Estado nos momentos de restabelecimento da ordem pública, com a presença da Polícia Militar”.
E, numa entrevista recente ao jornal do Grupo NC, o Coronel voltou ao tema, levantando outra questão relevante: “As leis são ineficazes, o sistema está falido, com raras exceções. Não há ressocialização dos presos. Nas nossas estatísticas, a cada dez presos, oito são reincidentes. A reincidência está atrelada à impunidade.”
Segundo a Secretaria de Segurança Pública de Santa Catarina, “A maior parte das motivações identificadas registram ocorrências de disputas e desavenças entre criminosos, principalmente em conexão com atividades ligadas ao tráfico de drogas.”
Pronto, aí estão pelo menos três bons temas para que os gênios do facebook possam passar a semana discutindo: 1) A omissão do Estado, que abandona justamente as áreas que mais precisam de atenção; 2) A omissão dos legisladores (e, por que não, do Judiciário) que parecem não ver o mal que causa o cipoal de leis dúbias, conflitantes e ineficazes; 3) A omissão de todos diante da questão do comércio de drogas ilícitas, cujo combate tem se mostrado ineficaz.
Claro que todos queremos a polícia nas ruas, com policiais bem treinados, equipados e eficientes, investigação rápida dos crimes, punição para os culpados. Queremos de volta a sensação de segurança. Para isso, contudo, teremos que recolher o dedo em riste, recusar as soluções fáceis e enfrentar uma dura realidade: a culpa daquele corpo estendido no chão, ao sol da manhã, é de todos nós.

*Coluna publicada às terças-feiras. Acompanhe o Blog do Cesar Valente em www.diarinho.com.br.

Quem já viveu (ou sobreviveu) a fenômenos eleitorais que pareciam caídos do céu para resolver os problemas dos indecisos e daqueles que não aguentavam mais os candidatos da “velha política”, deve estar achando familiar esse crescimento rápido e aparentemente sem explicação dos números da Marina nas pesquisas.
Foi mais ou menos assim com Fernando Collor e com Jânio Quadros, cujas campanhas supreenderam a todos e, contra as previsões iniciais, chegara à presidência. Ocorreram também fenômenos regionais como Tiririca (1,4 milhão de votos) e Enéas (1,6 milhão de votos).
Nem sempre quem escolhe votar nesses candidatos o faz por alguma razão clara. Nem pensa muito sobre sua decisão. Está cansando dos demais candidatos, está cansados dos partidos, quer votar contra “tudo o que está aí”. Ou, simplesmente acha que, se pior do que está não fica, não custa tentar alguma coisa nova.

Uma andorinha não faz verão
A presidência da República, em um país grande, rico e complexo como o Brasil, é um cargo de relevância planetária, pela sua importância nacional e internacional. Movimenta trilhões, mexe com interesses poderosos em todas as áreas e exige um grande número de “gerentes”, de formuladores de políticas e de articuladores.
Gravitando em torno de todos os candidatos com alguma chance, existem multidões de técnicos e políticos dispostos a participar desse “sacrifício” e ajudar a montar um governo, em troca de alguma boquinha. Ou de várias.
Vemos isso o tempo todo: alguns partidos, como o PMDB, são especialistas nessa ocupação de espaços. Apoiam governos estaduais e federais e cobram sua parte das mais diversas maneiras (muitas das quais perfeitamente legítimas, legais e moralmente defensáveis).
Por isso, quando surge um astro solitário (ou solitária), que parece conseguir voar sem apoio das asas de partidos com alguma tradição de governo, é preciso cautela. Não que Marina tenha, pessoal, política ou profissionalmente, algo a ver com Jânio ou Collor. Mas se assemelha a eles, nesta arrancada, descolada de partidos e com o discurso da “nova política”.

Osmarina, essa desconhecida…
O fato é que, seja quem for a Marina, sejam quem forem os escolhidos para ajudá-la (ou capazes de influenciá-la, como o pastor fundamentalista Silas Malafaia), estamos diante de um fenômeno eleitoral. E a não ser que ocorra outro fato novo (desta vez sem mortos e feridos, por favor), haverá segundo turno e uma disputa feroz pela presidência.
Como disse no início, quem já viveu coisa semelhante não assiste com muita tranquilidade o que está ocorrendo. E se agarra a um tênue fio de esperança de que, desta vez, a coisa não desande e não acabe em desastre.

Trecho do artigo “Desvendando Marina”, publicado na Folha de São Paulo no domingo
“Pois bem, não me sinto confortável em ter como presidente uma pessoa que acredita concretamente que o Universo foi criado em sete dias há apenas 4.000 anos, aproximadamente. Pois, para isso, é preciso ignorar a montanha de dados cientificamente incontornáveis e todo o patrimônio intelectual que a humanidade acumulou durante séculos. Percebo no fundamentalista cristão uma arrogância incomensurável, que apenas pode ser entendida como uma perversão intelectual, que não pode deixar de impor tendências cujos limites são imprevisiveis.”

O autor é Rogério Cezar de Cerqueira Leite, 83, físico, professor emérito da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e membro do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia e do Conselho Editorial da Folha

Uma das grandes falácias (sim, sim, corram ao dicionário!) dos periodos de campanha eleitoral é ficar falando que “candidato bom apresenta propostas”. E aí, quando a gente vai ver, as tais “propostas” são um monturo (aproveita que o dicionário está por perto) de promessas mal ajambradas ou de respostas-padrão, maquinadas a partir do que os coordenadores de campanha acham que o eleitor quer ouvir.
É mais do que óbvio que todos e todas os candidatos e candidatas são a favor da educação, querem mais segurança, vão lutar pela solução de todos os problemas da saúde e, mesmo sem ter a menor ideia de como fazer isso, vão batalhar por mais empregos.

Propostas a granel
E existem mesmo as tais “propostas” que tantos, até com boas intenções, cobram dos políticos em campanha? A rigor, não. Porque o que eles afirmam que defenderão e farão faz parte de um programa eleitoral. É coisa de campanha.
Se alguma pesquisa mostrar que o eleitor quer férias de 40 dias, logo logo aparecerão vários candidatos com a “proposta” de ampliação das férias. Isso não significa que, eleito, o/a sujeito/a vá mexer alguma palha pela causa. Significa apenas que não se pode dizer que o candidato não tenha “proposta”. Tem e propõe. Mas cumpre?

Vai da valsa
Cumprir é uma coisa muito complicada: os políticos e mesmo ocupantes de cargos executivos, agem visando o seu futuro eleitoral. Se for conveniente, para os projetos vindouros, defender coisa semelhante àquela sobre a qual falaram durante a campanha, ótimo. Se não, adeus Ta Chica. Muda-se de assunto, de tema e de “proposta” como quem muda de partido. Ou de roupa. Ou de domicílio eleitoral.

Mudança. De novo?
Outra anedota de campanha: todos os candidatos são pela mudança, todos representam “o novo” e todos querem que a gente vote neles para mudar. Mesmo que eles e/ou o grupo deles estejam há anos no poder. Mesmo que o/a sujeito/a esteja na sua nonagésima reeleição.
Até mesmo a Dilma, que, por razões óbvias tem que dizer que é continuação do governo Lula e dela mesma, afirma que é preciso votar na continuidade para ter “mais mudança”. Ou para mudar mais. Alguma coisa desse tipo.
Como há alguns anos não existe oposição política (há apenas a situação e a turma que ainda não conseguiu fechar um acordo com a situação), o mais certo é que, seja quem seja o eleito, nada mude.
O que não está no governo e promete mudança, depois de assumir tratará de manter tudo como está para não criar problemas adicionais. E o que está no governo, claro, continua de onde parou.

País das maravilhas
Portanto, minhas caras e meus caros, a melhor maneira de conhecer candidatos e candidatas é fora do período eleitoral. Quando eles nem pensavam em pedir o voto e faziam e aconteciam. Ou não faziam nem aconteciam. E agora, claro, dizem que fazem e acontecem. Ou que nunca fizeram nem aconteceram. São todos santos, gente da melhor qualidade. Fichas limpíssimas.
E o país, depois da posse, em janeiro, será uma maravilha. Seguro, sem problemas de maca no corredor e com escola de qualidade para todos. Nada como um ano eleitoral a cada dois anos, pra vida da gente melhorar num passe de mágica. Pelo menos no horário obrigatório da propaganda política.
Boa semana.

Legenda:
A coisa que mais tem, nesta época, é santinho. Tanto aquele pequeno impresso que tem a foto do/da candidato/ta, distribuído aos montes, quanto o santo propriamente dito. Basta ouvir os candidatos ou seus cabos eleitorais, que a gente se convence: são mesmo todos uns santos.

Acampanha eleitoral para presidente da República nem bem começou e já virou de ponta cabeça. A queda do avião, em Santos, agitou o cenário, acordou os analistas e fez com que os demais candidatos tivessem algumas noites de insônia. No ar, pairando como uma nuvem enorme que ainda não se sabe se trará tempestade ou bonança, uma única pergunta: “e agora?”
Bom, quem tem alguma condição de saber o que vai ocorrer, não fala. E quem está falando, certamente não sabe de nada. Mas, naturalmente, não é inocente. Faz parte do jogo, jogado enquanto os restos mortais ainda estavam sendo pranteados e velados, criar balões de ensaio, plantar notícias e puxar tapetes. Ou acender holofotes sobre personagens que a história estava deixando à sombra.
Escrevo antes de ver ou ouvir qualquer programa eleitoral (hoje começa o horário obrigatório) e imagino que nos primeiros dias a coisa seja tranquila, com apresentação dos candidatos. Mas depois vão começar a acertar as canelas. Principalmente da perna mais fraca.
Havia uma certa expectativa de que Dilma e Aécio trocassem farpas, pedradas e alfinetadas, mas que tratassem Eduardo com certa cautela. Não era uma ameaça direta e poderia ser um aliado adiante.
Morto Eduardo, posta Marina, a coisa toda muda. Tanto as campanhas de Dilma quanto de Aécio vão certamente mirar na sua inexperiência administrativa, no seu fundamentalismo religioso e no que mais encontrarem que possa ser apresentado como fraqueza ou defeito. E se as próximas pesquisas continuarem a mostrar a preferência que essa, feita no calor dos destroços do avião, mostrou, o jogo ficará ainda mais pesado.

CAIU OU FOI DERRUBADO?
O Brasil é uma das maiores economias do planeta, um dos principais países, sob qualquer ponto de vista, e presidi-lo não é pouca coisa. Por isso, a campanha presidencial envolve interesses poderosos, e o interesse de poderosos. Não é à toa que, no momento em que se confirmou que o candidato estava à bordo do avião espatifado, surgiram inúmeras teorias conspiratórias.
Muitas delas, ou quase todas, são excessivamente delirantes e sem fundamento na realidade. Mas não se pode ignorar o que está em jogo. E o quanto pode valer, em mercados de vários níveis, fazer parte do governo central do Brasil.
E, desde que o mundo é mundo, a luta pelo poder tem sido uma das principais atividades humanas. Quem tem poder não larga voluntariamente o osso e quem não tem, faz de tudo para ter. Nem que para isso precise matar. Ou morrer. O que não significa que alguém seja capaz de levar isso ao pé da letra.

NEM TENTE ENTENDER
Em Santa Catarina, o “candidato flex” Paulo Bauer, tucano que se abraçou ao PSB de Campos, com quem parece ter mais fotos do que com o Aécio, terá que tomar uma decisão difícil. A relação entre Aécio e Marina não está se desenhando tão pacífica e colaborativa quanto a dos dois netos. O neto do Tancredo e o neto do Arraes pareciam se entender bem, pelo menos enquanto um tinha 20% e outro 5%.
Agora, empatado com Marina, Aécio não vai gostar de ver Bauer fazendo agradinhos na adversária. E Bauer terá problemas, porque o carro chefe da sua campanha, o filho do Jorge, candidato a senador, é do PSB, cuja candidata será Marina.
O padreco João Raimundo também não está com a vida fácil. Caminha, com sua fala mansa, sobre uma pinguela estreita e baloiçante. Apoia a candidata do PT e, ao mesmo tempo, não pode se abraçar com o PT. E tem que dizer, pelo menos em público, que ama seu candidato a senador, o cara que mais bateu no PSD durante a última campanha municipal.
A melhor coisa a fazer, nesta (só nesta?) campanha eleitoral, é não tentar entender. Não tem muita lógica o que estão fazendo e dizendo. Algumas coisas parecem não fazer sentido. E, se a gente for olhar com cuidado, verá que, de fato, não fazem mesmo o menor sentido.

A violência das torcidas de futebol que vimos no final de semana não tem muita diferença de qualquer outra violência praticada por fanáticos. Não tem como argumentar, discutir ou conversar: o fanático quer exterminar, matar, mutilar ou “encher de porrada” quem ele (ou ela) considera inimigo. Basta estar usando a camisa de outro time. Ou um turbante. Ou falar uma língua diferente.
Em época de eleições os fanáticos também se colocam a serviço de algumas candidaturas. Acham que ajudam, ao pretender calar, na marra, quem faz campanha para outro candidato. Acreditam, os imbecis, que tem cabimento um mundo onde todos só elogiem o que eles acham legal e só critiquem o que eles acham ruim.
O mundo não é assim. E é bom que não seja. A divergência é saudável, o debate é sinal de vitalidade intelectual e o silêncio, ainda mais quando forçado por ameaças à vida e à integridade física, é doentio, é uma praga que corrompe a civilização e desmorona as democracias. Sempre em favor do mais forte que, sem oposição, acaba exercendo o poder de forma totalitária, para alegria dos amigos e parentes e desespero de todos os demais.
Criticar o governo da Dilma, por exemplo, é algo normal. Ninguém deveria ser condenado ao apedrejamento ou à forca, porque discorda do governo. Mas é isso que acontece, na prática: claro, ainda não chegamos ao ponto de assassinar fisicamente os opositores, mas basta dar uma olhada nos comentários das tais “redes sociais”, para ver que não falta quem fale nisso.
Da mesma forma, elogiar o governo da Dilma e gostar do que ela e seus trocentos ministros estão fazendo, é coisa absolutamente normal. É bom que quem esteja no governo tenha apoiadores, seja defendido e elogiado, sem que, por isso, alugém seja ofendido e agredido.
O grande problema, a meu ver, é que todos são a favor da liberdade de expressão desde que ninguém fale (ou escreva) coisas com as quais eu não concorde. Aí, começa uma perigosa tentação de fazer calar a voz discordante.
Em vez de mudar de canal, para não ouvir algum comentário que eu considero errado ou impertinente, acho melhor conseguir um jeito de tirar aquela pessoa do emprego ou suspender a concessão da TV, ou arranjar alguma forma de, por pressão econômica ou mesmo judicial, censurar aquela voz “subversiva”.
A intolerância com as opiniões alheias é coisa antiga. Guerras e perseguições enchem os livros de história e seus motivos, no mais das vezes, são a incapacidade de conviver com o contraditório, com a “rebeldia” ou apenas com a diferença.
E seria engraçado, se não fosse trágico, que o mesmo pessoal que, se pudesse, prenderia e arrancaria a língua de todos os que criticam seus ídolos ou elogiam seus desafetos, considera “baixaria” os debates políticos mais acalorados.
Sem informação, sem cultura e sem educação, abominam os debates, porque eles exigem, tanto de quem debate, quanto de quem assiste, esforço de argumentação, rapidez de raciocínio e capacidade de lidar com a ironia e o sarcasmo.
Aí, preferem a ofensa pura e simples. O chute na canela. A mordaça e o soco. Botam no pau de arara não para que fale, mas porquefalou, para que se cale.