Aposentado, nada pra fazer, ficava o dia inteiro atrás da velhinha – que, aborrecida com a vigilância sobre as tarefas que desempenhava havia décadas, arranjava todos ao motivos para “tirá-lo do pé”.
Um servicinho, varrer as folhas que a árvore da calçada derrubava, principalmente no outono.
– Folha não é sujeira, mas tem que varrer senão a casa fica com cara de desleixo.
Saía pelo portão bem agasalhado – “não vá se constipar e dar trabalho”. Paletó grosso, escuro, sobre a blusa de lã, sobre a camisa, sobre a camiseta – todas as camadas visíveis sob o pescoço. O “boné de leiteiro”, com as abas abotoadas sobre a cabeça.
O gato mourisco, sentado sobre o muro, observa o ritual.
Todas as folhas são caprichosamente varridas da calçada de pedra e acumuladas junto do meio-fio. A vassoura de piaçava faz um arranhado característico, lento, ritmado.
Pausa para ver um pardal. Pausa para ver um avião que corta o céu entre as nuvens do entardecer. Pausa para o carro que passa, um dos poucos.
O velhinho equivalente da frente, atravessa a rua para dois dedos de prosa, falam de generalidades. A moça bonitona que desce do ônibus na quadra de baixo e mora na quadra de cima, anuncia sua presença com o toc-tocar dos saltos das botas. O jeans justo é mesmo pra se olhar, o cotovelo de um cutuca o outro avisando pra não perder o desfile. Ela sorri, simpática: conhece-o desde menina, quando brincava com a bicicleta na rua de pouco trânsito. Vermelho, responde timidamente e disfarça pra enxugar o fio de saliva que escorre pelo queixo.
Agora, as folhas já estão acumuladas junto do meio-fio e são empilhadas num discreto montinho. Tira a caixa de fósforos do bolso e acende – queima que é uma beleza, mesmo porque tinha pedaços de grimpa pelo meio. A coluna de fumaça sobe e se perde entre os galhos da árvore.
– Bom pra espantar mosquito…
Um clique e as luzes dos postes acendem – a noite está chegando e de dentro de casa vem o cheiro de uma boa sopa caseira.
Ao passar pelo gato, uma carícia e um convite para entrar e degustar uma ração na tigela junto do fogão a lenha.
Fecha o portão, mas o cadeado fica apenas pendurado: será fechado pela filha mais tarde, ao chegar das aulas na faculdade.
Um último olhar para as últimas claridades no céu. Depois da sopa, só a insipidez da televisão.

Key Imaguire Junior

Dizem os apologistas do sistema que se trata de “conviver com a desigualdade social” – quem quiser acreditar, sinta-se à vontade.
À vontade como aquele personagem do genial Andrea Camilleri – que pede para ser preso para ter segurança durante o tratamento médico do qual necessita.
O fato é que não interessa mais ao sistema – melhor dito, a nenhum dos sistemas presentes – a pessoa que mora numa casa, com seu pedaço de chão – o que se quer é o individuo encaixotado num apartamento mínimo, onde a única coisa abundante são as neuroses. E onde é dono apenas de espaço virtual, e que daí ele saia apenas para o paraíso artificial dos shoppings. Vida virtual, limitada aos centímetros quadrados da tela do celular, da TV, do monitor – e outras maravilhas tecnológicas ainda por acontecer.
Uma não-vida.
O Poder Imobiliário patrocina o Poder Público – no caso, as prefeituras – nesse sentido, o mais lucrativo e menos incômodo. Observe uma casa e um prédio: qual você acha que recolhe mais impostos dando menos incômodos?!
O “medo da rua” é o maior aliado dessa patifaria urbanística. Faz com que as pessoas se auto-aprisionem. Muros altos – sobre os quais cercas elétricas e cortantes – , grades, portas pantográficas, câmeras de monitoramento, alarmes, vigilância de todo tipo – na verdade, nada dá a segurança pretendida, porque o clima de impunidade – e pior, de impunibilidade – torna a ação marginal mais atraente que o trabalho honesto. E todo esse equipamento tranca as pessoas e escassamente a defende. Na mesma medida que surgem equipamentos de defesa, surgem as táticas para torná-las inúteis – tanto que a criminalidade só cresce.
E todo esse equipamento não dá garantias de morar em paz. É preciso cuidado ao sair e entrar em casa, ao transitar pela cidade – mesmo com vidros escuros no carro, blindagens e quetais, o bandido surge de algum lugar, armado, e leva o fruto do trabalho do cidadão. Quem perdeu? Só o assaltado. O ladrão levou um capital sem trabalhar por ele; o fabricante – seja de um aparelho, carro ou tênis – vai vender outro; o governo vai recolher impostos ao longo de todo o processo.
O mais imediato raciocínio de quem está exposto a esse esquema, é vender sua casa para morar trancafiado num apartamento, onde há mais ilusão de segurança do que a própria – tanto que os esquemas que supostamente dão essa pretendida segurança aos prédios produzem o mesmo efeito de encarceramento do morador: câmeras, várias portas que só abrem com senhas, porteiros eletrônicos, guaritas, vigilantes, etc.
Só quem ganhou foi o imobiliarista que comprou a casa e se encheu de dinheiro com o prédio que construiu à custa da qualidade de vida do cidadão e da habitabilidade da cidade. Claro, e a prefeitura, que rapidinho irá onerar o vertical com impostos muito mais pesados do que se estivesse ali uma casa.
Entendeu porque fica cada vez mais evidente quem patrocina eleições?

Key Imaguire Junior

A “vida” digital

Se atentarmos para a direção em que somos conduzidos, como sociedade, é inevitável a conclusão – o dito homo sapiens que, a bem da verdade, nunca foi muito – está se tornando um homo apoidea. Vamos nos tornar uma sociedade como a das abelhas, formigas ou cupins – só que piores, porque tecnologicamente muito mais poderosos.
Os chineses já fazem edifícios onde moram milhares de pessoas – e há estudos, mundo afora indicando que, num futuro próximo, haverá construções habitadas por dezenas de milhares de indivíduos. É a insanidade da “Ville Radieuse” levada aos mais odiosos extremos. Evidente que, em tais habitáculos, as pessoas serão confinadas a espaços mínimos, que farão os atuais lofts parecerem mansões. Claro que, tudo muito informatizado, digital e minimalista.
Um dos agentes mais ativos dessa transformação do ser humano em inseto produtivo, é o telefone celular. Quanto equipamento, percurso e ação de verdade esse aparelho elimina? É anunciado como conforto, mas na verdade é atrofia. Sua obrigatoriedade é sintomática: convém ao sistema. Ocupa um espaço diminuto e faz com que a vida das pessoas se limite ao uso dos polegares. Quem nasceu depois de sua popularização, não vive sem ele – mais por indução do que por necessidade mesmo.
A vida do futuro terá toda essa emoção: as gentes sentadas num cubículo, manipulando o tal aparelhinho – inclusive, em esmagadora maioria, ganhando assim sua ração de bolachas verdes.
Evidente que seus apologistas afirmam que teremos, ao sair da colmeia, uma vida de sociabilidade intensa, já que a individualidade foi eliminada. Dizem eles que haverá muito parque, muita festa, muita facilidade para passear e viajar. Será? Por que essas concessões seriam feitas às submissas abelhas ou formigas?! Acho que qualquer saída para fora da colmeia será reprimida com ferocidade, a não ser que seja do interesse do sistema – pode ser necessário à sua manutenção.
Porque, evidente, sempre houve e sempre haverá as abelhas-rainha rodeadas de serviçais zangãos, privilegiados com o uso exclusivo do que, em dezenas de milhares de evolução pré-celular, o ser humano produziu na contramão do mainstream.
Esse é o futuro para o qual apontam o celular e os espaços de moradia atuais: milhões de seres, vivendo minimalisticamente, produzindo mel para uma ínfima minoria. Perfeito para os donos do capital; você consome o mínimo – de espaço inclusive – e produz um máximo. Quanto a eles, terão um máximo de proveito e conforto com um mínimo de investimento. Já estamos quase lá, a bem da verdade: pense nisso ao pegar o celular para resolver sua vida com os polegares…

Key Imaguire Junior

– Que fim levaram a aqueles carrinhos de algodão doce? O vendedor acionava um tipo de ventilador e na face interna do cilindro ia-se formando numa nuvem que era recolhida com uma espátula e colocada num papel.
– Onde foram parar as máquinas de fazer pipoca, com uma vitrine na qual as pipocas coloridas ficavam voando, com bolinhas de pingue-pongue? Tinham um “esguichador de manteiga”, acionado nos cartuchos ao serem entregues.
– Cadê aqueles senhores que, na saída dos colégios, vendiam o chamado “quebra-queixo”? Eram feitos em grandes travessas e tão duros que as fatias eram tiradas com formão e martelo.
– Que fim levaram os carrinhos de cachorro quente? Agora só tem food-truck, cheios de tecnologias e mais inovações que chef francês. Os bons tinham só aquele pequeno pão macio, mantido quente junto da panela com as vinas. Molho, era só o vinagrete, nada desses odiosos “sachês”.
– Cadê o “arrozinho” vendido em compridos cartuchos de celofane colorido, acompanhados de uma longa colher de alumínio?
– Cadê as maria-caxuxa, sanduba de bolachas-maria com recheio de maria mole? Parece que ainda sobrevivem em alguns antigos pequenos armazéns dos tempos da inocência, ao lado das maria-moles revestidas de coco ou amendoim ralado. E perto daquelas casquinhas de sorvete, também cheias de maria-mole e com bolinhas coloridas por cima.
– Onde foram parar aquelas antigas balas – de ovos, Iris, azedinha, de eucalipto? Não havia mais de meia dúzia de tipos nos baleiros dos botecos.
– Que fim levaram aqueles amendoins vendidos quentes e com casca, em cones de papel jornal?
– Cadê aqueles vendedores de barquilha, carregando um enorme cilindro de zinco nas costas e tocando sua matraca pelas ruas?
– Onde estão aqueles velhos picolés – capilé com água congelados – dos quais se tomava o colorido e depois mastigava o gelo?
– Cadê os garotos que nas entradas dos cinemas, com um tabuleiro pendurado no pescoço, anunciavam “olha o drops mentex chocolate diamante negro lá dentro não tem bomboniére”?
Quem, num futuro próximo, lembrará dos atuais sucedâneos, cheios de químicas e nove-horas, com embalagens vistosas para esconder o sem-gracismo dos produtos, frutos antes de mais nada da competição neo-liberal e seus arautos cheios das tecnologias alimentares?
Quem me conta do paradeiro dessas coisas simples, sem complicação, feitas em indústrias de fundo de quintal, sem frescura de griffe, sem customização, sem valores agregados – saudáveis, saborosas e inesquecíveis?

Key Imaguire Junior

Leitores esporádicos dessas crônicas de pessimismo urbanístico, acusam-me de ter “coração peludo”. Em que pese meu cardiologista constatar anualmente a boa saúde do meu sistema cárdio-vascular, a acusação parte de meios jurídicos conceituados e me vejo acuado, pressionado a articular defesa.
O primeiro argumento que me ocorre seria garantir que meu revestimento capilar migrou da cabeça para os interiores do peito – mas a afirmação seria inédita na medicina e, depois de me antagonizar com as togas pretas, eu estaria encrencando com a corporação dos aventais brancos – e aí sim poderia ser demais não digo pro coração, mas para os fatigados neurônios.
Então prefiro uma delação sem prêmio algum – muito pelo contrário, exercício de nadar em rio caudaloso a montante. Bom pro coração, é claro.
Não dá pra não ter coração peludo vivendo numa cidade brasileira deste já não tão novo milênio. As paisagens são dominadas, antes de mais nada, pela mediocridade da arquitetura imposta pelo mercado imobiliário – onde rola muito dinheiro e nenhum bom gosto. E dá trabalho desenvolver o discernimento dos arquitetos nas academias!
Depois, a maldição carrista. Entupidas as ruas com essa esclerose plástico-metálica, agora os veículos invadem e acabam com jardins, quintais e qualquer espaço onde o solo pudesse respirar. Qualquer espaço onde se possa estacionar é violentamente compactado e impermeabilizado.
A degradação urbana das cidades brasileiras é um fato ostensivo. Por toda parte, imperam as manchas do nosso subdesenvolvimento – mais educacional, cultural, civilizatório do que econômico. Lixo, sujeira, pixação – já nem se estranha mais, como se fosse normal viver no montouro. Toda e qualquer cidade brasileira é o reino do escracho, do relaxo, do mal-feito, sinais evidentes da nossa incompetência como seres urbanos – mas não abrimos mão dessa vidinha. Dizia Monteiro Lobato que “bicho de goiaba gosta é de goiaba podre”.
Qualquer área um pouco mais agradável numa cidade – aqueles antigos bairros que os moradores consideram como seu ponto no planeta, não apenas um item de patrimônio – é invadida pelo malfadado “aluguel para fins comerciais”, pelo “adensamento e verticalização” determinado pelo poder imobiliário e servilmente legalizado pelas prefeituras. Acaba com a qualidade de vida dos moradores – e quem está preocupado com isso? Não, certamente, os imobiliaristas nadando em dinheiro e jamais responsabilizados pela detonação das cidades. Nem seus patrocinados do poder público, que transformam em legislação as exigências dos patrões financiadores.
E nem toquei nas questões da poluição, do ruído agressivo, que jamais merecem atenção dos órgãos não direi competentes, mas responsáveis.
Coração peludo? Hay que tenerlo, pero sin perder la ternura…

Key Imaguire Junior

Muito embora com assás escassa simpatia por automóveis, gosto de ver esses carros de colecionadores, impecavelmente mantidos em sua melhor forma. São conservados em condições de uso: circulam nas cidades e viajam pelas estradas junto com os novos. E sempre despertam um sorriso e uma exclamação de simpatia por sua performance.
Observá-los é, antes de mais nada, um exercício cultural, de avaliação da evolução dos padrões do gosto estético, do desenho, da ideia de conforto, da expectativa de desempenho urbano e estradal. Qual foi o desejo que os colocou no mercado e lhes permitiu permanecer nele, ainda que talvez com algumas décadas no abandono no baixo astral de um ferro-velho? As antigas marcas já eram grifes, no sentido de conterem características estéticas ou mecânicas implícitas: o aristocrático dos carros ingleses, a eficiência técnica dos alemães, o desvairado luxo ostentatório dos americanos. Visto de fora, é a expansão capitalista descontrolada que cria os modelos populares de apelo consumista – os inenarráveis “carros do ano”. Mas é também esse exacerbamento que faz dos antigos modelos peças de coleção, orgulho de seus proprietários e, evidente, ornamentos prestigiosos em nossos logradouros urbanos onde impera o mau gosto e a mediocridade projetual, dos objetos e roupas à arquitetura e aos agenciamentos urbanos.
Nesse contexto, o exercício nostálgico é apenas componente menor, embora agradável. Inevitável lembrar os familiares que tiveram os mesmos modelos, “parece o mesmo carro!” e com eles, a lembrança dos passeios, viagens, aventuras – namoros em ruas desertas… – por eles proporcionados. O que fez esses antigos “objetos de desejo” serem refugados e substituídos, durante um certo período e voltarem com o prestígio de objetos de coleção? A um custo certamente elevado, foram os atuais modelos, despejados aos milhões pelas montadoras e fabricantes e que, a um custo social incalculável, chegam à insanidade de expulsar das cidades os moradores.
As peças de coleção não cometem, tanto quanto sei, dessas maldades – são paparicadas, polidas, conduzidas com prudência, como com medo da superpotência agressiva e desnecessária dos novos modelos. E alegram a vista, no panorama das mediocridades mais recentes de mercado automobilístico.
E aqui fica meu recado pessoal: porquê se tem tanto cuidado, carinho e critério com os carros – enquanto é cada vez mais difícil preservar as antigas casas e construções, que compõem uma cidade de maneira permanente, enquanto o carro agora está aqui e dentro de minutos não está mais? Não há comparação possível entre a importância de preservar uns e outros: a questão não é um ou outro, mas um e outro. Os critérios não são muito diferentes: a construção tem que dar conta de cumprir com sua função de abrigo, tanto quanto o carro tem que circular dentro dos padrões contemporâneos de trânsito. Isso para que seja uma conservação válida tanto do ponto de vista cultural quanto funcional.
Mas não quero ser injusto, a arquitetura é infinitamente mais complexa que um carro, uma construção contém tecnologias evoluídas durante milênios; no caso de uma carro, no máximo de algumas décadas. E nem pode ser levada para ser exibida em eventos. Tem critérios especiais e específicos, para obtenção de resultados urbanamente explícitos. E há quem faça a manutenção cuidadosa e criteriosa de suas casas, sim senhor – só que ainda assombrosamente poucos, se pensarmos na proporção com os colecionadores de carros.

Key Imaguire Junior

A vida urbana implica no cumprimento de uma seqüencia de rituais-de-continuidade. Há quem acrescente “inconscientemente”, há quem os deteste. E há quem os considere como o pão do sanduba, aquela parte que, supostamente, serve apenas para estruturar o conjunto, menos saborosa porém indispensável como componente do gosto final da coisa.
São ações simples que, com o tempo, se tornam algo mecânicas – mas, quando falham, fazem falta – aquela sensação de que o trem saiu dos trilhos e algo não corre nos conformes. E, multiplicando essas diminutas ações pelo número de casas de uma cidade, revelam como os moradores conduzem suas rotinas de vida.
Já houve tempo em que o maior movimento das padarias era ao amanhecer – dizia-se de uma pessoa que “acorda cedo como o padeiro” – gente comprando pão para o café da manhã. Convenhamos que há poucas maneiras mais auspiciosas de começar um dia, do que com um prosaico pão dágua saído do formo, crocante, com manteiga, acompanhado de café-com-leite. Nesse tempo, havia também a prática de ir ao portão de roupão pegar o pão e o leite deixados pela entrega das carrocinhas coloniais – e o jornal, único sobrevivente dessa vida sem sobressaltos. Atualmente, apanhar o jornal do chão e ler a maior manchete, já é um susto e estraga o dia.
As crianças saindo de casa para a escola, encontrando outras, formando grupos cada vez maiores até entrar pelos portões dos colégios – enquanto as mães abrem as janelas para “arejar a casa” e os pais saem para o trabalho.
Mas nem todos os rituais do início do dia são perceptíveis da rua: arrumar a cama, fazer as ditas “abluções matinais”, organizar a casa para o dia – todos fazemos e nem nos damos conta dessas tarefas que, em alguns casos, tomam uma parte substancial da manhã.
E assim como há o endiecer da casa, há também seu anoitecer, com suas tarefas típicas. Em minha primeira viagem a Belém do Pará, percebi que havia, em algumas ruas, o hábito de os moradores jogarem baldes dágua nas calçadas, no início da noite – menos para lavar do que para refrescar o ambiente, sombreado durante o dia pelas mangueiras.
A seqüência matinal é invertida em algumas ações: fechar janelas, acender luzes, tirar o lixo para a rua, verificar a água do cão e do gato, colocar em locais estratégicos bilhetinhos com as tarefas específicas do dia seguinte – que não podem ser esquecidas, submersas pela cotidianidade.

Key Imaguire Junior

“Nossas roupas comuns dependuradas
na corda qual bandeiras agitadas
pareciam um estranho festival”.

A música de Caldas e Barbosa era dos tempos da romantização da pobreza – bem, a pobreza continua aí, mas com o romantismo, liquidaram há muito…
Não, não é curiosidade doentia: a roupa posta para secar – ou simplesmente arejar – identifica os moradores do lugar, e talvez por isso mesmo as pessoas o evitem. Para além do gênero e faixa etária – ninguém seca lingeries em locais visíveis da rua – algumas “leituras” são imediatas e engraçadas. Onze camisas listradas no varal: alguém na casa tem time de futebol. Uma seqüencia de vários tamanhos próximos: o casal morador tem uma “escadinha” de filhos…
No tempo em que havia casas, e estas eram providas de jardim e gramado, havia o saudável hábito de quarar a roupa de cama e mesa – o que era considerado melhor que a secagem em varal comum. Realmente, o sol esteriliza os tecidos.
O pudor em relação à roupa posta a secar é recente, talvez principalmente como decorrência do consumismo descontrolado dos tempos que correm. Os passantes e vizinhos podem perceber que as mesmas peças freqüentam o varal há muito anos…
A “laje” – instituição arquitetônica ainda pouco comum no sul ventoso e chuvoso, é cada vez mais comum de Minas Gerais para cima – nela se cozinha sem guardar os cheiros nos demais espaços da casa, se come com boa vista e bons ares, e se seca a roupa com o vento: evidente que nas áreas voltadas mais para os fundos do terreno, pra não expor o guarda-roupa.
Nas cidades onde a verticalização e o adensamento tiraram o direito das pessoas ao sol – e à saúde… – qualquer espaço aberto ou semi-aberto da casa (leia-se “apartamento”) pode ser usado para tirar a umidade dos tecidos, evitando aquele desagradável “cheirinho de guardado desde o ano passado”. Principalmente, nas transições entre estações.
Se a rua é estreita, um entendimento com o morador em frente pode permitir um sistema de roldanas por cima da rua. Em outros casos, uma sanfona de varetas dá conta, mal e mal, da secagem familiar.
Como tenho o hábito de anotar TUDO durante as viagens, em algum lugar recolhi a quadrinha abaixo. A região tem tradição cultural açoriana – e talvez possamos ver nela algo bocageano:

Morena minha morena tira a roupa da janela
pois vendo a roupa da dona
penso na dona sem ela.

Key Imaguire Junior

Seria interessante investigar onde surge o bar, o boteco. Será que uns índios reunidos num canto do pátio da aldeia, tomando cauim, podem ser considerados como a origem dessa instituição?! O que não se pode duvidar é que a presença dos espíritos – alcoólicos – é que reúne as pessoas para socializar. Tanto que, desde sempre, são lugares ruidosos que incomodam os moradores das imediações.
Uma antiga referência fala da insuportável zoeira das tabernas romanas. Isso se entende fácil: com um enorme exército sem quartéis para alojamento – acho que só a Guarda Pretoriana tinha – e uma disciplina que era apenas para situações de guerra e combate, deveria ser difícil controlar essa gente em casa, quando voltava dos cantos do Império onde fora impor a Pax Romana. A zoeira nas speluncae e tabernae devia ser de tal ordem que os imperadores preferiam se afastar, construindo suntuosas “vilas” longe da cidade. Exemplo emblemático, a Vila Adriana.
As tabernas medievais que comparecem na literatura, não deveriam ser melhores. A freqüência teria sido basicamente de marginais – desocupados, prostitutas, bandidos – reunidos não só pelo álcool como também pelo seu, digamos, mercado de trabalho.
Não terá sido muito diferente o pub inglês – origem, parece-me, do bar contemporâneo – onde, nos primórdios da Revolução Industrial, bebia-se para esquecer a minas de carvão, fábricas infames e o que se segue dessa vida.
Essas considerações me surgem quando passo pelas ruas das cidades à noite e vejo a proliferação quase inacreditável de bares e botecos em algumas ruas ou bairros – todos cheios de gente. Um olhar mais atento mostraria que há muitas nuances – nem todos são iguais e nem mesmo parecidos. No sentido de que há uma escala entre aqueles em que os freqüentadores se encontram nos ambientes em que vão do “fazer ponto” para uma cerveja e uma prosa às demais complexas redes de interação humana.
Mas o realmente impressionante são os novos, para gente nova. O chamado “ponto de balada” – centro da sociabilidade urbana contemporânea. Difícil de abordar o assunto – mas essas multidões de jovens que lotam os espaços internos e se espalham pelas ruas e adjacências, dão o que pensar.
Não tenho uma visão moralista sobre o fenômeno – ele não é bom nem ruim – ou talvez seja os dois – mas é um componente na nossa sociabilidade e tem uma complexidade que apenas se adivinha, seria complexa mesmo para armar uma pesquisa comportamental. Me surpreende porque aconteceu rapidamente – ficou notável entre uma e duas décadas no máximo, sempre em avaliação estimada visualmente, para uma faixa de idade de 15 a 25 anos.
O quê andou mudando por aqui? Todos se encheram da TV e foram para a rua? A liberação feminina tornou os botecos mais atraentes? Gasta-se num boteco uma fração menor da mesada do que num shopping? As outras alternativas de lazer são menos interessantes? A internet facilita organizar reuniões de grupos?

Key Imaguire Junior

“_ Mas onde é que vamos parar?!”

A pergunta, mais retórica do que perplexa, tem uma resposta certa – apesar de que, como todas as grandes questões, não tem resposta:
_ Vamos parar quando acabar.
Pra ser um tanto bíblico – já que estamos entrando na seara das profecias – depois do Dilúvio, Deus promete a Noé que não tornará a destruir o mundo com as águas. Vejam bem, não exclui uma nova destruição – diz apenas, que não o fará pelas águas. O sinal do compromisso, o arco-íris. Que é um fenômeno de difração da luz e ocorre quando a atmosfera está úmida, depois da chuva.
Bem, e daí? Daí que fatores como a superpopulação e decorrente aquecimento global – que muita gente encara como um pouco mais de calor no verão e menos frio no inverno – tende a transformar o planeta num vasto deserto. Sem umidade e, evidente, sem arco-íris. O fim do compromisso pós-diluviano.
Mas até lá, há um percurso. Vamos pensar em alguns emblemáticos porque muito conhecidos.
O primeiro que conheci foi o “1984” de George Orwell: uma sociedade controladora aos extremos mais odiosos, só o programa da TV consegue ser pior. Mas se pensarmos em como o telefone celular domina as pessoas em vez de servi-las, entenderemos que, tal como o ano, a situação vivida pelos personagens do livro já está por aí.
O “Ano 2000” não precisa referencial literário: sempre foi contado em prosa e verso como uma utopia, com a tecnologia liberando o ser humano para exercer sua criatividade e sociabilidade no lazer. Deu, digamos assim, escore invertido: liberou o ser humano para o desemprego e decorrente vadiagem. O lazer como fuga de si mesmo e dos demais, o exercício das “qualidades” mais baixas desse macaquinho mal resolvido.
E “2020” – uma previsão que, por cinematográfica e bem feita, é impactante. A quase totalidade dos humanos vivendo pelas ruas e disputando bolachas verdes na porrada.
É só olhar em volta querendo ver e fica evidente “onde vamos parar”. A chuva de fogo e enxofre virá em seguida – e teremos merecido.
Vocês desculpem esse pessimismo indignado. Mas episódios como o do leão Cecil; a recente notícia de que os elefantes estão nascendo sem presas (como recurso desesperado da Natureza para evitar sua extinção) e de que os americanos ainda caçam lobos – com helicópteros e fuzis de alta precisão – me fazem pensar que o planeta não vai longe – e nem merece mesmo.

Key Imaguire Junior

Mas nem sempre foi assim – a “avenida pretensiosa” é sinal dos tempos neoliberais, em que o carro manda nas cidades.
Já houve uma “rua comercial” – onde o atrativo eram lojas, confeitarias, lanchonetes e suas vitrinas. Eram ruas para serem usadas a pé, mesmo que os pedestres raramente tivessem exclusividade. Sempre existiu esse percurso para footing, passarela, passeio, paquera – antes que isso virasse ‘assédio’. Mesmo nas menores cidades – eram alguma coisa como a veia aorta da sociabilidade urbana. Ainda existem em pequenas localidades, embora cada vez mais sufocadas pela arrogância dos agro-boys.
Uma das razões para que tenham deixado de existir, foi o fim dos cinemas – eles davam o ritmo noturno. De dia era o comércio, concentrando as melhores lojas – já se vê que o shopping contribuiu para seu esvaziamento. Mas os horários de entrada do público nos cinemas, dava o ritmo do fluxo, a vitalidade, a sensação de que a vida urbana era, afinal de contas, boa.
Uma cidade mais cosmopolita que as brasileiras de mesmo tamanho, Buenos Aires ainda tem essa característica na avenida Corrientes – em grande parte, devido aos vários teatros, que no caso fazem o papel antes desempenhado pelos cinemas.
Daí acabaram os cinemas e chegou o “medo da rua”, com sua proposta neoliberal que é a “avenida pretensiosa”. Ela é pra ser vista e usada de carro, ostentando o poder econômico planetário, instalações governamentais, com grandes edifícios e placas horrendas e enormes. E lojas de massificação, celulares, chinesices e bancos. Uma ou outra concessão é feita aos pedestres – como bancos/cama para os moradores de rua dormirem.
Algumas “avenidas pretensiosas”, em que os urbanistas usaram o bestunto (às vezes fazem isso, quando os imobiliaristas estão distraídos fazendo compras em Miami) são mais que pretensiosas, são apoteoses de uma modernidade ostensiva que o futuro julgará.
Escutei essa expressão – “nossa avenida pretensiosa” – de um amigo canadense, que completou seu raciocínio com “toda cidade tem uma”. A conotação era de que “toda cidade deveria ter uma”.
Talvez seja interessante que existam, para além do mostruário do poder econômico. Cidades de interior se orgulham de seus prédios – que entendem como progresso, sem pensar em progresso do quê e pra quem. A “avenida pretensiosa” é essa inserção caipira no rol das cidades grandes.
Então, é um mal menor concentrar o que é vertical numa “avenida pretensiosa” – com a condição, é evidente, a ser rigorosamente fiscalizada, de que “o resto” da cidade seja deixado em paz, com suas casas, árvores e baixa densidade.

Key Imaguire Junior

Se a placa de “Aluga-se” numa casa já é triste, uma seqüência delas é deprimente: significa a morte anunciada de uma rua. Principalmente, porque são cada vez mais comuns nas cidades brasileiras: as áreas residenciais estão acabando. Aqueles lugares onde crianças jogavam bola e pulavam amarelinha nas calçadas, tornaram-se perigosas e todos sabemos quais os perigos: o trânsito descontrolado e a criminalidade funcional, isto é, trabalhando a favor do poder público e seus aliados imobiliaristas.
Uma coisa puxa a outra – uma casa alugada para uma finalidade não-residencial vai produzir incômodos que afastarão os moradores das casas vizinhas e de uma grande área ao redor: presença de desconhecidos, ruas cheias de carros estacionados, indiferença quanto à limpeza e outros aspectos, que só interessam aos moradores. Como por exemplo as placas de publicidade, em geral de mau gosto ostensivo e cafonas. Aumento exponencial de sons agressivos como escapamentos, gritos, roçadeiras e tubos sopradores. Quem tem uma floreira, se acha sustentável, moderno e inteligente.
Os moradores são expulsos para uma insalubre, claustrofóbica e artificial vida de apartamento – se tirarmos o celular dessa gente, irão todos bater à porta do psiquiatra.
Quanto à casa, a primeira providência é suprimir os jardins, as árvores – mesmo as públicas, da rua – e impermeabilizar com pavers para estacionamento – e carros prepotentemente cruzarão as calçadas investindo sobre pedestres e achando-se com direito a isso. Já escutei a definição “pedestre é um motorista que achou vaga.”
As discretas e cordiais formas de vida que habitam esses jardins são massacradas ou expulsas: insetos, aves e até macaquinhos. Tudo vai ficando árido, feio, hostil.
Em Montreal, a cidade mais civilizada que conheço, há esquilos morando nos bem cuidados jardins frontais das casas e sobrados, atraídos pelos moradores que os cuidam, alimentam e protegem. A legislação é feroz na punição de quem os atropela. E não é nos bairros distantes, não, é nas transversais da Sherbrooke Avenue. Pois é, já sei, isso é láááááááááá na civilização, aqui na tribo, bicho é pra atropelar, quem manda não ter nascido gente. Aqui, filhotes que nascem nos últimos jardins e quintais, são atropelados e ficam, por uns dias, aquelas manchas de ossinhos e penas testemunhos da desumanidade urbana.
O que poderia ser uma bênção – a chuva que lava e irriga as plantas, deixando-as coloridas e viçosas, vira problema, é água que vai rolar sobre asfaltos e calçamentos e virar enchente em algum lugar.
Sei que tenho insistido muito nesse aspecto: mas é muito difícil ver nosso habitat urbano degradando rápida e progressivamente para aquela situação mostrada no filme “2020” – data para a qual faltam, não esqueçam, apenas três anos…

 

Divulgação

Leio na revista “Sintonia” (de Santo Amaro, São Paulo) um caso antológico e emblemático da nossa estupidez para com as árvores.
Um suposto morador advogava a pena de morte para uma árvore, alegando que a mesma “derrubava folhas e galhos sobre seu carro”. Ao ser perguntado sobre porque estacionava sob a árvore, brilhantemente respondeu: “pela sombra”.
A remoção de uma árvore – maravilhoso ser que a natureza demorou anos e décadas elaborando – é sempre um tiro no pé – próprio ou alheio. No caso santoamarense, se a árvore for removida, ele irá estacionar sua preciosa viatura ao sol – que, além de vários danos, o fará sentir-se como um frango no micro-ondas, ao entrar nele. E bem o terá merecido.
Esta semana, diante de minha casa, uma clínica detonou com as últimas árvores do terreno anexo – para, criminosamente, impermeabilizá-lo com o odioso paver. O pretexto, nem é preciso dizer, fazer um estacionamento para os carrões dos doutores. Entre outras árvores – que foram sendo assassinadas em etapas – dessa vez foram pro lixo uma pitangueira e uma palmeira, essa produtora de coquinhos muito apreciado pelos periquitos. Mas que eventualmente caíam sobre os carrões importados, vejam que barbaridade.
Antes, eu tinha um jardim – nenhuma maravilha, mas aquela área verde cheia de vida – diante da minha janela. Agora, tenho essa desfaçatez da modernidade, um estacionamento cheio desses trambolhos volumosos, refletores como espelhos e poluentes. E impermeável – juntando água que, em algum lugar, vai causar enchente.
Por mais que me contrarie – não fui só eu quem perdeu, – toda a vizinhança foi prejudicada pela decadência ambiental do bairro.
A responsabilidade á, antes de mais nada, do poder público – que deveria proteger a vegetação. No caso, os donos da coisa com toda probabilidade providenciaram e obtiveram, esse é o problema – autorizações, alegando direito de propriedade, quando na verdade, trata-se de abuso desse direito. Prejudica uma área que transcende os muros. Já cansei de ver araucárias do bairro sendo suprimidas sob o pretexto de que “estavam doentes e representavam risco” – para carros, é claro. A verdade é que tinham sido envenenadas, assassinadas.
E aqui chegamos ao mais angustiante da situação: com tudo o que se fala de sustentabilidade, de meio ambiente, de eco-sistema – não há o que fazer. As regras urbanísticas obedecem servilmente ao mercado imobiliário. Estão do lado deles.
Só resta chorar ao ver as moto-serras picotando as velhas amigas e caminhões levando para o lixo nossa estima pela cidade.

 

Sou péssimo administrador de tempo – minha natureza autista me obriga a viver rodeado de relógios, agendas, calendários, lembretes sobre a mesa de trabalho, quadros de horário e de avisos – para reduzir a níveis aceitáveis a tendência a vagar indefinidamente pelos cantos do planeta e até para fora dele…
Para qualquer atividade, sou dependente de meus sistemas de anotações, índices, inventários – o que absolutamente não impede que, volta e meia, localizar um livro ou documento dependa mais de sorte que da organização em si. Em toda parte, cadernetas, blocos de anotações, listas de tarefas, tiras de papel para anotar seguram – mais ou menos… – ideias para crônicas ou qualquer coisa que não possa, ou não deva, ser esquecida.
Se funciona? Sim, relativamente bem. Mas me torna em grande parte dependente desses sistemas, entre outros efeitos perversos. Como o excesso na acúmulo de dados, que se torna, por si mesmo, difícil de administrar. Algo no tipo dos assustadores “índices de bibliografias” das grandes bibliotecas.
O quê isso tem a ver com a vida urbana, tema dessas crônicas?! Bem, estou certo de não ser o único ser urbano com esse tipo de problema. O bombardeio constante e denso de informações, onde nos perdemos por falta de referências. Perder um evento cultural que nos interessa, por não ter tido conhecimento dele a tempo, é grave – é deixar passar o que é provavelmente o maior privilégio da vida urbana.
Então, acho que as cidades poderiam ter mais sistemas referenciais, mais desenvolvidos. Como os relógios e termômetros públicos: mesmo que a gente esteja com um no braço, a presença deles nos “puxa” para o imediato, para o momento presente. No entanto, a referência a dia, hora e temperatura, não são suficientes. Penso em práticas como os jornais murais chineses, da Revolução Cultural. Haverá sempre o risco da manipulação política por parte de quem os faz – mas o bom e velho cartaz ainda tem muita participação nas cidades.
Nos elevadores, bancos e outros lugares em que se é condenado a pagar os pecados em prolongadas esperas, há telões que, parcialmente, cumprem esse papel – mas são dominados pelo noticiário político/econômico, como se esses fatores já não dominassem nossa vida à exaustão. E não passassem aquela sensação de que a civilização consiste em dados da bolsa de valores, cotações de moedas e similares indicadores ao gosto neoliberal.
Já vi “totens de informação”, onde se opera um computador simplificado para obter dados. Mas a barbárie do vandalismo e da pixação faz com que durem pouco.
Claro, um celular no bolso contém, entre outras possibilidades, a de consultar jornais do dia, Google e mais referenciais. Mas isso pra quem consegue enxergar aquela micro telinha e se sujeita à escravidão que ele representa.
Enfim, onde quero chegar é que nossas cidades poderiam dispor de mais sistemas de informação além dos existentes, ajudando a navegar e não naufragar no oceano das informações.

Pode parecer exagero – como, realmente, é – mas apartar um dia da semana para efeitos de limpeza da casa, parece excessivo. Porquê é um dia – que não coincide com o fim de semana – em que todos os demais fluxos e desempenhos ficam prejudicados. Mas deve ter sido instituído pela colonização europeia, nunca ouvi dizer que índio parasse a vida pra faxinar a oca.
Mas essa tradição – ou hábito – tem suas curiosidades.
Já foi sexta-feira o dia prioritário – talvez como previsão da possibilidade de visitas no fim-de-semana. Nesse caso, poderia ser uma limpeza superficial – conforme o dito “limpar só onde a comadre olha”. O outro extremo seria a faxina de fim de ano, onde não fica grão de pó sobre grão de pó, sendo tudo revolvido – não sei se já houve o dito “onde olha o Papai Noel”.
Algumas variantes regionais seriam, por exemplo, como a das “terras roxas” da região do café: pisos e assoalhos tinham que ser lavados com muita água, única maneira de eliminar (por algumas horas…) o “pó vermelho”, terrivelmente fino e aderente. Em Belém do Pará, a faxina terminava já ao anoitecer, com a limpeza – e muitos baldes de água – das calçadas. Sendo feitas em várias casas da mesma rua ao mesmo tempo, refrescava um pouco o calor tropical.
Quando, nos anos 50, foram inventados os eletro-domésticos, a ideia era liberar para o mercado de trabalho, a mão de obra feminina. Mas o que esses aparelhos deveriam ter proporcionado, é que a limpeza da casa ocupasse um mínimo de tempo – não sendo mais necessário investir um dia inteiro nela. Tipo, sujou, limpou. Claro, há sujeiras que só se limpam depois de um certo acúmulo, como a dos vidros. Mas continua sendo necessária a presença da diarista. Em regra uma vez por semana – para algumas senhoras exageradas, dois.
A culpa, acho, é da ineficiência dos aparelhos. Explico: tirar um aspirador de pó de seu esconderijo, montar os vários componentes, insistir para que cumpra sua obrigação de aspirar o pó – coisa que ele faz de má vontade e mal – depois guardá-lo, pode levar mais tempo e ser menos eficiente como resultado que uma boa varrida, com uma daquelas vassouras de bruxa. Muitos eletrodomésticos – ou todos – são assim. O processamento do serviço em si é rápido, questão de minutos – mas a limpeza do aparelho é mais demorada que o mesmo serviço feito manualmente.
Bem, é mais um aspecto da vida urbana que desaparece: a casa no seu “dia-da-faxina”, com janelas escancaradas e tapetes no peitoril, o varal ou o gramado cheio de roupa de cama, e o cheiro da cera passada penosamente e polida a escovão – coisa da qual a “geração celular” nunca ouviu falar – mas que era um exercício e tanto. Uma famosa cantora, ao ser perguntada como mantinha a forma física, respondeu: “no tanque”. Pois é: freqüentar academia pode ter mais glamour, mas a faxina era bem eficiente também…