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Senhora das Narrativas

O que nossa memória guarda com afeto é para que seja eterno. Lá da infância trago algumas que fizeram eu ser quem hoje penso ser. Medos, dúvidas, alegrias, aventuras, sensações de acolhimento ou abandono foram constituindo esse que chamo eu. Minha infância deixou belas imagens. Conto algumas:
Saindo da cozinha da velha casa de madeira tinha um pé de camélia vermelha plantada por minha bisavó. “Não quebra, não corta, não sobe”. Guardava ela, a árvore, memórias de outro tempo. Era a única do quintal onde não era permitido fazer as estripulias de guri pequeno.
O pátio extenso era coberto por seis pés de parreira, plantados por meu avô de sangue charrua, que faziam sombra, davam uvas no verão e no resto do ano deixavam o chão desenhado com as sombras de galhos retorcidos desprovidos de folhas. Era o meu universo para criar os mundos que eu desejasse, bem ali na terra batida.
Dias de chuva me fazem lembrar momentos com fotografias e bolinhos com canela. Abríamos, quando crianças, os álbuns empoeirados e ríamos dos cabelos fora de moda, roupas estranhas, em festas registradas em preto e branco, enquanto espalhávamos migalhas nos dedos, roupas e chão.
Nos dias de sol com o frio de agosto me fazem sentir o cheiro de bergamota descascada sobre a grama quente. Ficávamos ali em uma roda com uma bacia cheia delas. Entre uma conversa e outra mastigávamos um gomo entre um riso e um afago.
Em dia cinzas com vento costumo fechar os olhos e relembrar da panela de ferro fumegante e aquele aroma do feijão de Dona Geni que tomava a casa provocando a fome. Esperava o prato fundo de porcelana velha e a farinha para o pirão. Lambuzava a camiseta de afoito que ficava com aquele inigualável feijão com charque.
Dona Geni, que completa em breve 95 anos, recebe minha ligação todos os domingos. Essa velha índia charrua que narrava histórias enquanto lavava roupas na beira do rio tem a fala calma. Sempre foi de muita conversa. Hoje não. Em nosso último encontro perguntei o motivo do silêncio dela: “Já falei tudo o que precisava”. Sua presença imponente agrega. Para que a palavra?
Dessas memórias aprendi que o silêncio é uma conquista. Demoro em cada detalhe da vida e sei que com a idade serenamos para observarmos as coisas simples e sem importância para a maioria. Me demoro ouvindo um pássaro, sou feliz caminhando na grama molhada e me divirto com banho de cachoeiras. Prolongo o tempo com os olhos nos pés da amada e acaricio lentamente os cabelos escuros de meu filhote caçula. Ouço o que a vida oferece sem custo algum.
Agradeço à Dona Geni, senhora das narrativas à beira do rio, por cultivar memórias poéticas em mim.

Fica a dica:
O filme Aquarius (Direção de Kleber Mendonça Filho. 2016) nos conta do que é feita a memória. Espaços, música, livros e pessoas traçam o roteiro de quem somos e fala de memória sem saudosismos. Memória não se constrói sozinho, mas em torno daqueles que nos amam.

André Soltau
ANDRÉ SOLTAU Historiador na formação com estudos sobre imagem, memória e cultura contemporânea. Com diversos livros publicados, atualmente editor da ideia de outros em uma editora independente. Membro do Conselho Municipal de Cultura em Itajaí representando a Setorial de literatura.
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