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Do tosco às tubaínas

O jornalista Hélio Schwartsman escreveu, dias atrás, na Folha de São Paulo: “A democracia, vale repeti-lo, é o regime do insulto. Num mundo em que todas as ideias podem circular, muita gente ouvirá coisas que não quer e as tomará como insulto. E isso é saudável, pois favorece a concorrência entre diferentes visões de mundo. Indivíduos que têm baixa tolerância a insultos devem ficar longe dos holofotes e dos cargos públicos, já que fatalmente serão questionados e eventualmente também xingados”.
De algum tempo para cá o insulto e o xingamento entrou para o rol de originalidades no linguajar político tupiniquim a ponto de afirmar-se, num sentido figurado, que o volume de agua do Lago Paranoá seria insuficiente para lavar as paredes do palácio do Alvorada maculadas com as palavras de baixo calão e xingamentos presentes no linguajar praticado pelos dirigentes e partidários que o frequentaram nos governos pré-impeachment.
Este comentário semanal já abrigou, por mais de uma vez, algumas considerações sobre a sensibilidade das pessoas frente aos insultos.
Só para refrescar a memória: “Antigamente era costume dizer-se que as pessoas que facilmente se consideravam ofendidas com palavras ou atitudes de outras pessoas, tinham uma sensibilidade de camélia, numa alusão à extrema fragilidade daquela bela flor. Por outro lado, sempre que alguém possuía uma elevada compreensão e tolerância às agressões e desfeitas de seus semelhantes, costumava-se dizer que possuía uma sensibilidade de camelo, numa alusão à resistência daquele animal na sobrevivência difícil no deserto”.
O assunto volta hoje a este espaço quando, reagindo aos protestos que levaram milhares de pessoas às ruas contra cortes de verbas para a Educação, o presidente da República classificou os protestantes “uma parte são idiotas úteis” e outra “massa de manobra dos espertalhões de sempre, do pessoal que quer voltar ao poder”.
É evidente que o presidente da República criou conflitos desnecessários que provocaram reações previsíveis, mas a visão dos protestos de professores e estudantes universitários empunhando bandeiras vermelhas com o símbolo da “foice e do martelo” ou mesmo com a estrela partidária não poderiam deixar de, por sua vez, provocar reação inamistosa em quem foi eleito prometendo afastar as “artes” da militância.
Reação comportamental que até mesmo pode ser agressiva em face da presença de símbolos políticopartidários que, dias atrás, “arrecadavam” manifestantes ao preço de sanduíches de mortadela e tubaína.
Lógico que deveria haver maior temperança presidencial, mas, conforme Miguel Reale Júnior em entrevista à revista Época, vivenciamos “um governo tosco, tal como seu presidente…”, ou seja, rude, desajeitado ou em seu estado bruto.

alvarobrand
Bacharel em Direito, mestre em Ciência Jurídica, na área de concentração em fundamentos do direito positivo, pela Univali.
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