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Coisa de malandro!

Escrevi em 2004: “O leitor já ouviu, por certo, a afirmativa: “o Brasil não é um país sério”, atribuída ao velho herói francês da 2ª Guerra Mundial, General Charles De Gaulle, que esteve em nosso país, na qualidade de presidente da França, lá pelos idos de l960”.
De há muito a frase é relembrada um pouco para justificar certas fraquezas dos nacionais, e também para explicar muita coisa obscura nas ações e omissões tão comuns no trato das coisas públicas e mesmo nos particulares.
O brasileiro de uma maneira geral teve, relativamente à afirmativa do francês, uma atitude de auto-elevação, já que a julgava um reconhecimento da sua picardia, da sua esperteza, da sua malandragem.
A malandragem, apareceu na cidade do Rio de Janeiro, onde pontificavam os “malandros do morro”, entidade quase mitológica carioca dos tempos em que as favelas eram denominadas “Morros” e as famílias ainda ali predominavam.
Hoje os “morros”, após serem “favelas” e em seguida “comunidades”, passaram a ser denominados “Complexos” – “Complexo da Rocinha”, “…da Mangueira”, e por aí adiante, transformando-se em territórios de exceção, sob o governo de marginais, especialmente aqueles envolvidos com o tráfico de drogas e armas.
O Rio de Janeiro de então (1960), ainda ensejou, também o surgimento do denominado “espírito carioca”, como o definiu Roberto da Matta, “baseado no encontro livre e malandro e pela irreverência crítica e um tanto irresponsável…” e cultivando a figura imaginária do “Malandro do Morro”, personagem extraído do folclore dos moradores das favelas que já naquela época se disseminavam pelos vários morros da topografia.
Instituída a malandragem ou, se quiserem, o espírito carioca, talvez se possa encontrar a explicação para a notícia: “O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) alugou uma nova sede, com contrato de R$ 11 milhões por ano, mas continua a usar a estrutura antiga. Dentre as alegações apresentadas como justificativa para a nova locação, uma é deveras surreal: o antigo prédio usado como sede é “distante” dos tribunais superiores, fica a 10 minutos das cortes, ao passo que o novo fica a dois minutos. Incrível o zelo e a preocupação com a saúde dos funcionários, diminuindo em oito minutos o trajeto de um prédio ao outro. Acontece que o CNJ, cuja atribuição é fiscalizar o Poder Judiciário, tem 15 conselheiros que se reúnem só a cada 15 dias. É inacreditável a desfaçatez, que beira o obsceno, para justificar o injustificável. Assim são tratadas as questões relevantes e que envolvem muito dinheiro público. Talvez fosse mais sensato e barato contratar o velocista jamaicano Usain Bolt como estafeta para percorrer a distância entre os prédios…” (Texto do leitor Mario Miguel – O Est. S.P – 09/1/20)
Seja pelo gasto ou mesmo pela distância parece coisa de malandro.

alvarobrand
Bacharel em Direito, mestre em Ciência Jurídica, na área de concentração em fundamentos do direito positivo, pela Univali.
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