Home Colunistas O mundo gira A terceirização no capitalismo contemporâneo (III)

A terceirização no capitalismo contemporâneo (III)

As demissões de pessoas ocupadas em uma empresa – quando não derivam de mudanças substantivas na demanda do produto ou dos serviços proporcionados pela firma – não estão ligadas com o progresso técnico poupador de trabalho, nem tampouco com o ciclo de negócios. Atualmente, trata-se de um movimento motivado pelo interesse de recuperar, no curto prazo, o valor acionário das empresas para oferecer maiores lucros anuais distribuídos aos acionistas. Deve-se, também, ao resultado de transformações na estrutura das empresas, orientadas para ampliar os lucros em um horizonte temporal mais amplo.
No entanto, tais políticas nem sempre se transformam em resultados positivos para as empresas, especialmente para as de menor tamanho. No caso das grandes empresas, o impacto da lógica de curto ou longo prazo na rentabilidade pode variar bastante. O impacto sustentado na rentabilidade é maior para aquelas empresas que seguem uma lógica de longo prazo. Para algumas firmas, os benefícios econômicos antecipados não se materializaram – como redução dos custos, aumento dos lucros e do retorno sobre o investimento – e nem os benefícios organizacionais de se operar com uma estrutura reduzida. Do ponto de vista do emprego, houve declínio da estabilidade, queda do tempo de permanência (aumento da rotatividade), baixos salários, elevada flexibilidade e crescimento da desigualdade de renda e da riqueza. Muitas das vezes, os resultados negativos se davam pela queda da produtividade do trabalho, uma vez que a moral dos empregados era deteriorada pela permanente ameaça de desemprego.
O discurso corporativo de que a terceirização atende às necessidades das empresas tornarem-se mais enxutas e eficientes para competir nos mercados globais e nos novos setores mascara a realidade de um conflito de apropriação da riqueza gerado pela empresa que opõem os acionistas e os gerentes, de um lado, pelos ganhos de maiores dividendos e salários, e os trabalhadores, de outro, que, através da insegurança no emprego gerada pelas demissões em massa.
Na manufatura, a diminuição de postos de trabalho também está associada com os processos de terceirização. De fato, a terceirização é uma estratégia usada pelas empresas que têm uma longa história que corre paralela à do capitalismo. Mecanismos de subcontratação podem ser identificados já na Alta Idade Média na produção de vestuário a partir da lã através do deslocamento para as áreas rurais de partes do processo de produção que era levado a cabo nas oficinas artesanais das cidades.

valdir izidoro silveira
Valdir Izidoro Silveira é engenheiro agronômo, jornalista e especialista em Planejamento e Desenvolvimento Regional-ILPES/CEPAL/ONU-IPARDES-PR.
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